14 de Abril de 2014

Valadier IV - Tolerância mole



A tolerância «mole» onde cada um é enviado para «o seu negócio», logo para a sua solidão de indivíduo, isto é, soberano, é destrutora das identidades pessoais tanto como da ligação à sociedade. Os valores aos quais se adere podem e devem ser justificados perante si próprio e perante os outros para tomar forma humana e não ter caprichos injustificados; temos também toda a razão de perguntar ao outro as razões da sua própria adesão aos valores ou às crenças que não partilhamos, que nos admiram ou escandalizam. A tolerância assim compreendida é o trabalho da conversão comum onde cada um sabe que só existe na relação com o outro e é suportado por ela. Não se trata de interrogar para converter para si, para as suas ideias ou para as suas verdades, e não apresenta sequer as suas posições próprias como padrão de verdade com o qual tudo deve ser medido. A interrogação mútua, que não se deve aliás conceber à maneira de uma espécie de interrogatório generalizado e permanente, chama cada um a verificar as suas próprias crenças e a construir um pouco mais de verdade em si próprio, logo a abrir-se mais francamente. Nesse sentido, o relativismo que consagra não importa qual opinião do momento de que é proprietário, ultrapassa neste trabalho de relação mútua, trabalho pelo qual se tece secretamente e continuamente a ligação social.

7 de Abril de 2014

Valadier III - Antinomias da ação



A ação comporta antinomias, nem todas as escolhas são compatíveis ao mesmo tempo, é preciso existir aí sabedoria para reconhecer este limite e esta finalidade, «a existência histórica ´feita de combates duvidosos onde nenhuma causa é pura, nenhuma decisão é sem risco, nenhuma ação sem consequências imprevisíveis» (Raymond Aron), mas a sabedoria manda ao mesmo tempo que se fique atento a uma secreta complementaridade de valores entre elas, a não ser que se caia no unilateralismo cego ou no fanatismo.
A solução proposta consiste [falamos de Weber], vimo-lo a propósito do ensino universitário, em excluir da esfera pública as opções julgadas arbitrárias e a esse título virtualmente polémicas; mesmo se a palavra não for pronunciada, trata-se de uma laicidade exclusiva muito rigorosa, de que uma das consequências, que já notamos, rebaixa as opções filosóficas ou religiosas a uma escolha injustificável, privada, marginal. Ora, vimos também, se a ciência não é sem pressuposto, pode um ensinamento sê-lo? Em matemáticas talvez, mas com a condição de se cingir a um ensino que passa em silêncio a história da disciplina, as hipóteses ou teorias diversas, assim como os seus fundamentos filosóficos, o lento trabalho sobre as opções que presidiram e presidem à evolução desta ciência, reduzindo em breve esta disciplina a um saber morto, condensado em resultados incontestáveis, apresentados como dados que se impõe por si próprios. E que dizer então de um ensino em história ou em biologia? Mostrar aos estudantes os pressupostos destas disciplinas nada tem a ver com a introdução das opções partidárias do professor e não transforma um anfiteatro em tribuna de conferências. Fazer esse trabalho é muito simplesmente dar ao ensino toda a sua dimensão e a sua profundidade que um «laicismo» intransigente reduz a uma «matéria» inerte da qual o estudante não tem as chaves de constituição e do desenvolvimento. Mas como fazê-lo sem expor os valores e as crenças que presidiram à história e ao progresso dessas disciplinas?

31 de Março de 2014

Valadier II - Natureza, Liberdade, Ciência



Podemos certamente discutir a teleologia da natureza, tal como foi concebida por Kant, e mesmo contestar a sua estética onde a beleza oferece uma «passagem» entre natureza e liberdade; daí resulta que aquele em que nos apoiamos muitas vezes para justificar o dualismo entre facto e valor não pode ser reconhecido sem reservas nesta paternidade. Seja como for, a posição kantiana chama a atenção para um ponto essencial: um dualismo radical torna impermeável à inteligência das coisa coisas, porque a liberdade está já em ação no próprio ato científico, ou ainda, o facto científico só é estabelecido, concebido, testado a partir de um valor do qual depende inteiramente, o valor atribuído ao conhecimento. Procurar desenvolver as ciências e contribuir para isso pressupõe que achemos preferível conhecer do que contemplar as coisas no seu estado. Tal foi a «decisão» que presidiu ao desenvolvimento moderno das ciências. Tanto o seu progresso como o desejo de objetividade científica implicam que os tenhamos posto mais alto do que qualquer desejo de conhecer e que estejamos dispostos a sacrificar-lhe muitos preconceitos e crenças. Nietzsche mostrou com lucidez que a ciência se apoia ainda numa «numa crença», a crença na verdade como valor supremo em nome do qual já nada tem preço e sobre o altar do qual «sacrificámos e degolámos uma crença após outra». A ciência não se desenvolveu sem pressuposição, de maneira neutra ou em nome da sua única utilidade, porque não é um cálculo que está na sua origem; baseia-se numa crença, na crença de «que Deus é a verdade, que a verdade é divina», ou seja, que não existe valor mais alto (ou mais divino) que a verdade.

26 de Março de 2014

Elogio dos Sentidos - Fé e Arte III


A arte e a fé fecundam-se mutuamente numa dialética que eleva o Homem, consagrando-o ao inefável que o seduz, provocando-o a, como afirma Bento XVI, “não limitar os horizontes da existência unicamente à materialidade”. A beleza, que desponta da inquietação artística, é ela própria uma porta para o Mistério, dado que ecoa a necessidade de plenitude que o artista experimenta e que traduz na contingência das suas próprias mãos.

A arte é a expressão das grandes interrogações do Homem, que o movem e bloqueiam, que o excitam e que o deprimem. Neste ponto, a fé atravessa-se de modo irreprimível, catapultada pela transcendência que de modo subtil se torna tangível aos sentidos. E estes, como portas abertas para o Mundo, são como canais evolutivos, tornando o Homem um paradoxo, simultaneamente distinto e encarnado num Comos cuja Beleza é desafio constante e último à própria razão Humana. Perante a Beleza a Razão curva-se e a esperança renasce porque o intangível se torna tangível ao Homem, Corpo e Espirito.


O evento Fé e Arte III - Elogio dos sentidos: Do corpo e do Espirito, que se realiza no próximo dia 5 de Abril, no auditório da Faculdade de Filosofia de Braga, será um espaço de diálogo onde se cruzarão diversas sensibilidades com o objetivo de discutir estas duas instâncias tão misteriosas – a fé e a arte, mas ainda assim tão fundantes do espaço humano. Cada perspetiva, cada orador, proveniente de quadrantes tão diversos como a música e a poesia, passando pela arquitetura e a reflexão teológica, tem o desejo de expressão, da sua expressão, cuja vitalidade brota da sede de completude, da sede de sentido.

Mais informações e inscrição on-line em  http://www.fe-e-arte2014.com/

24 de Março de 2014

Valadier I - o enorme abismo



É tempo de nos interrogarmos se «o enorme abismo» que, segundo Kant, separa o mundo da natureza do da liberdade, e que portanto legitima a distinção do facto (objetivo) da do valor (subjetivo), é tal que nenhuma passagem entre os mundos seja possível. Interrogar uma distinção que é muitas vezes compreendida como um dualismo irredutível a qualquer unidade não significa que se minimizem os efeitos culturais que acabamos de analisar: pelo contrário, é porque somos sensíveis não só às suas consequências duráveis, mas também aos impasses para os quais elas conduzem, que é necessário interrogarmo-nos sobre as evidências que, não interrogadas, se transformam em novos tabus.



Se olharmos de novo para Kant, que pareceu acreditar na ideia de «um enorme abismo» entre a natureza e a liberdade, apercebemo-nos que na realidade o filósofo pressupõe uma transposição do abismo e não uma separação total dos domínios. Assim, nos próprios textos que acabámos de citar, ele indica claramente que, «embora exista um enorme abismo (…) deve existir contudo um fundamento de “unidade” do supra-sensível, que reside no fundamento da natureza, com aquilo que o conceito de liberdade contém de forma prática, fundamento cujo conceito, mesmo que não consiga nem teórica nem praticamente dar conhecimento disso e mesmo que não tenha um domínio próprio, torna no entanto possível a passagem do modo de pensar segundo os princípios de um para o modo de pensar segundo os princípios do outro»; o mundo da liberdade “deve” ter uma influência sobre o mundo do determinismo; «com efeito, o conceito de liberdade tem o dever de tornar efetivo no mundo sensível o fim imposto pelas suas leis», ou então a lei moral permaneceria ideal, sem influência e sem eficácia na fenomenalidade, por isso vã. É certo que o sensível não pode determinar o supra-sensível, mas «o inverso é no entanto possível (…) e está já contido no conceito de uma causalidade pela liberdade, cujo efeito deve ter lugar no mundo e em conformidade com as suas leis formais». Uma tal influência não é uma causa e não fornece nenhum «conhecimento» ao sentido científico do termo, mas a faculdade de julgar oferece a «mediação» necessária ou «a passagem do domínio do conceito da natureza para o do conceito da liberdade».