2. O Ludwig, no seu bem conhecido blog ktreta, persiste me exigir que a hipótese da existência de Deus seja formulada em termos empíricos e espácio-temporais, de forma a poder ser submetida a testes igualmente empíricos. Mas esta posição tem tanta justificação como a de pretender apresentar a hipótese da beleza de um quadro de Picasso de tal forma que essa beleza seja posta à prova pela observação empírica do movimento dos electrões dos átomos que constituem a matéria da tinta que o autor utilizou. Se a hipótese de Deus fosse uma hipótese empírica, então não estaríamos a falar de Deus. Do mesmo modo que se a hipótese sobre a beleza de um quadro de Picasso fosse formulável em termos do movimento de electrões, não estaríamos a falar de beleza.
3. Os fundadores e comentadores do Portal Ateu cometem vários erros de argumentação. O primeiro consiste em tomar o todo pela parte. É como se eu ao olhar para uma macieira e visse algumas maçãs apodrecidas concluísse alegremente que estava em presença de uma árvore envenenada que só poderia produzir maçãs envenenadas e envenenar as pessoas. A árvore poderá ter cem maçãs perfeitamente sãs e saborosas, e uma dúzia de maçãs podres, mas é evidente que se se quer defender a tese de que é toda a árvore que está envenenada, eu tenho necessariamente que ignorar as cem maças sãs e saborosas, ou então dizer que elas não significam nada. É o que se faz no Portal Ateu quando se critica a religião. Como já afirmei noutras ocasiões, este género de crítica não tem qualquer efeito de convencimento, a não ser para os que a praticam.
4. Um outro erro argumentativo é o do verificacionismo: quando se quer verificar uma hipótese, escolhem-se cuidadosamente os exemplos que a verificam, e ignoram-se cuidadosamente os exemplos que a contradizem. Todas as teorias científicas têm contra-exemplos. Se eu considerasse apenas esses contra-exemplos, nenhuma teoria científica seria defensável, todas seriam declaradas absurdas. É o que se faz no Portal Ateu quando se critica a religião. Escolhem-se cuidadosamente os contra-exemplos da religião para a declarar absurda.Como já afirmei noutras ocasiões, este género de crítica não tem qualquer efeito de convencimento, a não ser para os que a praticam.
5. Em conclusão: tal como os missionários cristãos, alguns ateus têm um verdadeiro espírito proselitista, e acredito que muitos deles estejam a pensar que prestam um grande serviço à Humanidade com as suas críticas. Como já tenho dito noutras ocasiões, a religião nada tem a temer das críticas objectivas, inteligentes e fundamentadas. Antes pelo contrário, só tem a ganhar com elas. Contrariamente ao que pensam estes ateus, a religião não está acima de toda a crítica. Mas qualquer crítica que, mesmo que bem intencionada, como acredito que seja a de alguns ateus, cometer os erros de argumentação acima indicados (mas há muitos mais!), acaba por ser inútil. Poderá divertir e convencer os ateus, mas não terá mais efeitos do que esses.
Alfredo Dinis,sj




