4 de outubro de 2014

Qual a razão de ser das coisas?


É frequente empenhar-nos em manter algo sem questionar o seu «para quê?». E mais frequente ainda é empenhar-nos sem perguntar o «por quem?». Este é um bulício frenético que nos leva à aridez.

E este é o lugar que pressentimos habitar. E a questão emerge: como fazer da aridez, pousio? Como habitar o inóspito?

Confiamos que só pela fecundidade do silêncio uma resposta nos inundará. Assim, o Companhia dos Filósofos entrega-se ao silêncio, dando uma oportunidade a si mesmo de se re-encontrar.

Até à volta!

21 de julho de 2014

Comentar Richard Rorty - Atulhados em ruído



Há uma reconciliação com a contingência a fazer, não o neguemos. Mais grave se torna quando, ainda que Rorty coloque como marca distintiva destes tempos a mudança de paradigma do ahistórico para o histórico, vemos nas expetativas de hoje a mesma ânsia de eternidade, assumida pessoalmente no investimento em tecnologia e cosméticos. O afã de tudo fotografar, de tudo registar, de tudo dizer, de tudo saber e de tudo mostrar, é bem patente nas redes sociais, a mesma expetativa eterna de sempre num horizonte contingente, agora autossustentada, já não dependente de uma divindade. Cresce assim o perigo do canibalismo e da autofagia sociais, movidos que estão pelo alargar do campo optativo das relações no mundo ocidental.
Para os anseios de sempre, a complexidade das novas soluções questionam-nos de uma forma que não nos é bem percetível. E atulhados que estamos em ruído, é intrincado encontrar o problema e dirigir-nos a ele. Quando nos encontramos em dificuldades, a única pedagogia que nos parece restar é a da proibição, a qual, assegurando subsistência, deixa pouca margem para crescimento.
                Este conflito que Dewey identifica entre instituições herdadas e novas tendências é um espaço ótimo para a filosofia ocupar. Devíamos esperar do filósofo a combinação entre porteiro e profeta, o encarregado de limpeza que se vê livre do desperdício que é resquício do antigo, e voz sóbria que lança o novo. A grande tentação é ver este porteiro como alguém que determina quem entra e quem sai do edifício, função que Rorty provavelmente desprezaria, mas da qual acaba por estar perto ao delinear uma linha da filosofia, ainda que sob a regência de atividade-tipo e não de matéria-alvo.
Fazemo-lo constantemente, sempre que se adota uma perspetiva em detrimento de outra, sempre que se prefere um escrito de um determinado autor em detrimento de outros escritos do mesmo autor. Esta atividade seletiva permanente, mesmo que não degenere numa atitude policial, implicará sempre um moldar seletivo de mundo.

14 de julho de 2014

Comentar Richard Rorty - Redenção sem sentido



É complicado imaginar a minha vida sem a colocar como uma pergunta sobre verdade. O que é que é? Como é? Eu quero saber o que te leva a dizer isso. Quem é a tia? Por que se chama tia? Porque é a avó velha? Mesmo que as perguntas não sejam sobre a existência de uma verdade, esta procura de uma correspondência entre o que me ensinam e o que as coisas são é o horizonte que moldou a minha personalidade.
                Fui introduzido num discurso marcadamente institucional e hierárquico, em que se confiou na adequada preparação de interlocutores privilegiados que me habilitassem a dirigir ao e sobre o mundo com propriedade. Mesmo na rebeldia adolescente de assumir uma identidade que se destaque de um fundo de conformidade, fui irreverentemente conformista com a minha geração. Mesmo negando que exista uma verdade que de forma autoritária dita os preceitos sobre o mundo e sobre a axiologia, nunca rompi verdadeiramente aquilo que se pode chamar o paradigma de procura da verdade ‘lugar de descanso’.
Penso que fui encontrando ao longo da minha vida, naquilo que eu pensava que se chamava conhecimento – e hoje apenas consigo chamar de preconceito – um preconceito não desligado de uma adequação a uma realidade, um preconceito que é uma visão em conformidade com a imagem do mundo que fui formando com o meu acumular de experiências, com o que fui lendo, perseguindo um ideal bloomiano, procurando a redenção de algo mais do que uma criação humana, algo mais que a minha imaginação e capacidade de dar significado. A fabricação do absoluto.
                À medida que vou acumulando tempo, à medida que a minha ocupação de espaço vai adquirindo significado, assim também esta visão do inquérito como resolução de problemas se torna mais próxima daquilo que vou experienciando. E vou-me entregando, com muitas resistências, novéis e as de sempre, à inevitabilidade de continuar a lidar com dúvidas. O meu maior receio está perto daquele que Rorty acaba por desenhar como modelo: uma utopia onde privadamente cada um persegue os seus sonhos e onde publicamente conseguimos co-viver.
                Recordo-me, com nostalgia, do sentido de pertença no grupo dos primos quando era criança, das primeiras aventuras no recreio da escola e as primeiras incursões de bicicleta pelos montes que rodeavam a mancha urbana onde cresci. E de onde retiro maior valor não foi da capacidade de viver ao lado de todos os que estavam numa sala, cada um na sua carteira, quotidianamente chamados pelo nome para nos assegurarmos que cumpríamos com o dever de carregar o corpo até uma sala. O que induz a nostalgia que me faz feliz agora mesmo foi a capacidade de fazer vida com eles. Passei do público para o privado? O meu público era expressão do privado: a minha crença, o meu ideal perseguido em privado dirigia-se ao desejo público.
                A verdade redentora não é uma realidade escondida da aparência, uma descrição do que acontece: a verdade redentora seria aquela que nos liberta dos preconceitos permitindo-nos abraçar outras ideias, sem nos diluirmos indiferentemente na sociedade, mas que nos permita atribuir significado e sentido, procurando vivê-lo não só numa dimensão, mas em todos os campos. Há uma pretensão de absoluto. Uma redenção como a de Rorty, mediada por artefactos humanos, pela arte, sem o contacto, perde sentido. Evita todo o atrito, perde a sua riqueza. Sou talvez injusto, vendo a sua dualidade como mais um dualismo, mas a sua argumentação não me persuade do contrário: a utopia de Rorty é um pesadelo indefinido. Cooperamos para que não nos encontremos.

7 de julho de 2014

Comentar Richard Rorty - Moradas



Um equívoco em torno da nossa natureza identificado neste capítulo por Rorty é particularmente estilhaçante: encaremo-nos como seres ‘geradores de novas descrições’, mais do que seres capazes de descrições exatas (§25). Isto leva-nos a encarar diferentemente a questão da educação, que terá de ser mais do que introdução num discurso normal mas verdadeiramente tarefa iniciatória no pensamento e na capacidade de articular teorias e anomalias.
                Descartes e Kant, como venerandos antecessores, merecem lugar no álbum de família, mas as suas opiniões devem ter-se na mesma conta que um embriagado tem um candeeiro: vale mais pelo apoio do que pela luz. Devemos resistir à tentação da soberba de negligenciar os seus contributos fundantes de tradição e, ao mesmo tempo, reconhecer com audácia que nos levam desnecessariamente para fossos como o espírito-natureza – ou alma-corpo – que se podem provar desnecessários.
                A convicção de que poderemos chegar ao conhecimento claro e distinto deve ser colocada em causa, não porque não se possa atingir o conhecimento, mas porque não devemos negligenciar a nossa contingência: um ser contingente, com ações contingentes, vocabulário contingente e rodeado de instrumentos contingentes, será dificilmente capaz de chegar ao saber definitivo, à descrição última do que o rodeia. O nosso mundo vai-se alargando e a nossa compreensão e conhecimento com ele: continuemos a alargar e a compreender o que é necessário rever, não eliminando ou desprezando a herança, mas encontrando espaço para edificarmos continuamente. Se tivermos de alargar o bairro, que o façamos: quem determinou que todos moraríamos no mesmo edifício? A existência de várias moradas não nega um sentido partilhado.
                Deveremos encontrar lugar para aqueles que Rorty chama de filósofos periféricos, os que ‘destroem para o bem da sua geração’ (§15): assim mantém-se aberto o espaço para a admiração, para o espanto, para uma filosofia que seja conversação e não inquérito, atividade que permite rasgar horizonte e não medir impondo limite. O fulcral no discurso edificante é «quebrar a crusta da convenção» (Dewey), impedir que o homem se iluda a si mesmo com a noção de que se conhece a si próprio, ou a qualquer outra coisa, exceto sob descrições opcionais (§26). A conversação faz-nos livres.
                No final do capítulo, Rorty pergunta-se se estamos no final de uma era, respondendo que tal dependerá de Dewey, Wittgenstein e Heidegger serem ou não sentidos (§51). Esta pergunta fica: estaremos, mais de três décadas depois de esta obra ter sido publicada, capazes de responder se transitámos de era, ou estamos somente a experimentar a vertigem da aceleração e continuamos ‘modernos’?
                Quando Rorty, no último parágrafo, insiste na primazia da continuação da conversa sobre a busca do lugar para manter os problemas da filosofia moderna, vejo-o como uma opção deliberada de privilegiar o tempo sobre o espaço, não negligenciando o segundo, mas querendo destacar o primeiro. Faz-me querer ouvir obras sob a direção de Celibidache, que é um apelo constante a que valorizemos cada nota, o detalhe e o pormenor, no mesmo encadeamento de sempre, mas in gemächlicher bewergung, em movimento vagaroso. E a conversa, a filosofia, para que surja o acordo, exige esse abrandar do tempo.

30 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - A ânsia íntima inscrita em cada ação



                Quando me defrontei com a pergunta que dá nome ao segundo apartado deste capítulo – ‘Sobre que Falavam os Nossos Antepassados?’ – de imediato compreendi que iria entrar numa área sobre a qual não me tinha ainda questionado. A aparência de «convergência», a entrada na hipotética labuta milenar da mesma tarefa, é disputada: não sou mais um a tentar resolver os problemas de sempre, esses problemas que – até poderíamos dizer – emprestavam/atribuíam identidade à nossa espécie. Mesmo a arrogância pequeno-burguesa de afirmar que hoje vemos bem o que outros viram mal nos é retirada. Habito o mesmo planeta que Aristóteles, Tomás e Bacon, mas não vivemos no mesmo mundo: houve distúrbios na conversação, introduzidos por inovações científicas, político-sociais, e narrativas (a interferência de indivíduos de génio como Heidegger e Wittgenstein, para a qual Rorty nos chama a atenção - §11).
                Consegui assim compreender como até esta necessidade de entrar num seleto grupo de companheiros era expressão da minha rejeição da contingência. É com a minha própria esperança de eternidade que tenho de lidar: por vezes, procuramo-la pela prole, outras vezes pela incontornabilidade histórica através de feitos, expressão da ânsia íntima inscrita em cada ação: ‘lembra-te de mim!’.
                E tal ajudou-me a entrever como o jogo da ciência não é o da Verdade, mas o da explicação. Procurar o mistério da vida é diferente de o expor. Aquele que seria o campo do que tradicionalmente chamamos de Verdade – a indagação do mistério da vida – relaciona-se mais com o sentido, prende-se com inquietações – ‘porque somos como somos?’; que rumo devemos tomar?’ – e não tanto com descobertas e faustosas apresentações de esquemas ou estruturas descritivas.
                Se entendermos que outros não foram ainda suficientes para no-lo mostrar, o século XX destaca-se por nos mostrar o quanto a nossa espécie pode fazer, simultaneamente abusando da tecnologia e recusando-se a vergar a esses interesses. Mostrou-nos como tendemos a colaborar quando sentimos algum sentido de bem ameaçado. Porque prezamos tanto a vida livre? É um mistério: se a sobrevivência e alguma normalidade nos é assegurada,  porque preferimos a instabilidade da liberdade?
Outrora responderíamos com a atratibilidade irrecusável do bem, e até com o monopólio da recompensa prazenteira por parte da ação virtuosa: nenhum gosto, nenhuma alegria, ultrapassa a do sentimento da boa ação. Esta visão encontra um eficaz e insuspeito denunciador em Dostoievski, que no seu conto ‘Memórias do Subterrâneo’ não tem qualquer pudor em falar da sensualidade prazerosa do mal.
                Contra as nossas expetativas, vamos num crescendo de diversidade e complexidade, e não de simplicidade-uniformidade.

23 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - Intérpretes, mais do que antenas



O grande chamariz deste capítulo encontra-se no seu final, quando adia para a parte III a resolução do conflito – ou mal-entendido – de competências entre ciência e ética na determinação das entidades que são pessoas. Contudo, é pela experiência mental sugerida por Rorty concernente aos antípodas que começamos: estes explicavam a diferença entre pessoas e não-pessoas como a diferença entre «nós» e tudo o resto [§1]. Parece-me manifestamente insuficiente: que as respostas tradicionais, que implicariam sempre recorrer à conceção de mente, consciência, espírito, filiação divina entre outros conceitos esconsos se provam inábeis perante as transições que vamos vivendo parece-me evidente; contudo, quedar-nos por um traço tão ténue que, no limite, se contenta em identificar-nos como espécie distinta das outras espécies, não satisfaz a necessidade de esclarecimento: é um ficar à porta, é uma resignação.
É possível que esta minha insatisfação se funda na dependência de uma tradição metafísica em que fui introduzido. Como é que eu aprenderia a falar antípoda? E, ainda que eu aprenda a falar antípoda, e reconheça a inadequação das imagens que abracei anteriormente – e desta feita as dispense – como serei capaz de identificar cada uma das atividades neurais, distinguindo-as umas das outras, isto é, quantas concorrem em cada uma das minhas operações e como as identifico? O antípoda de Rorty certamente responder-me-ia: ‘também hoje não te preocupas em saber se estás a ter uma ideia ou uma dor, simplesmente distingues’. E quando o outro me dói? Vivo a dor do outro?
Rorty e os seus antípodas querem referir-se exclusivamente aos sentimentos crus, aos pensamentos transitórios e imagens mentais; exclui coisas como as convicções, disposições de espírito e semelhantes, que não fazem parte da nossa vida interior que se descreve de uma maneira incorrigível e, por esse motivo, não encorajam o género de distinção cartesiana entre dois domínios ontológicos [§13]. Contudo, a minha curiosidade subsiste: que linguagem usariam os antípodas para falar das orquídeas? Que letra ou código para falar da beleza ou da fraternidade? Da moral? A de segundo grau? Ele dá a entender que sim, pelo elenco dos temas essenciais à filosofia deles – natureza do Ser; a existência de um Ser Omnipotente e benévolo; problemas surgidos no discurso sobre objetos não existentes; dilemas éticos – mas, usando-a, não se tornaria ainda mais enigmática tendo em conta a primazia da neurologia sobre a sua linguagem?
A tese rortiana de que a filosofia causa géneros característicos de escrita provocados pela construção de imagens que levarão a que se envidem esforços a sustentar ou a contestar essa mesma imagem surge-me como apurada. A sua sugestão do princípio (P) que implica a detecção de uma propriedade particular num objeto que nos habilita a descrevê-lo expõe a debilidade do eco cartesiano. Estou persuadido de que, mais que captar, interpretamos: somos intérpretes, mais do que antenas.
Haverá um mistério maior da pessoa que nos habilite a conhecer? Existirão incorrigíveis? Ainda que eu viva alicerçado numa série de certezas a que aderi – ou que fui persuadido, com maior ou menor ânimo, a abraçar – não consigo afirmar que retenha alguma informação – ou certeza sobre algo – que não possa ser revisível no futuro.
Reconheço também valor à afirmação rortiana de que a introspecção não implica necessariamente o enxergar um domínio ontológico. Ainda que teísta, porque devo aceitar a herança de uma imagem do universo dividida em dois grandes domínios ontológicos – o natural e o sobrenatural? Não haverá necessidade de uma outra imagem que reduza distâncias? Há a presença misteriosa de Deus no Universo: é uma crença a que aderi porque a experiencio. Reconheço que quando tentei palmilhar o caminho da inferência lógica para a existência de Deus não me pareceu necessária nem evidente a sua existência. Mas pela sua experiência, pela relação, pelo mistério a que me sinto inexplicavelmente impelido e convidado – o que é distinto de irracionalmente – não posso, em consciência, negar a sua existência. Implica esta crença a divisão entre dois domínios ontológicos? O fosso natural-sobrenatural não me parece evidente, ainda que não consiga enxergar resolução.
O próprio fenómeno da sobrexistência à morte própria é facilitada pelo uso da imagem de um além. Contudo, não entraria tanto na perspectiva de que falaríamos de um lugar como de um estado. Mas assim, o que poderá superar o corpo em duração? Nem mente, nem alma, nem espírito, todos estes poderão ser produto de uma poderosa imagem que temos vindo a alimentar. Assim, estatuo que será algo completamente diferente de nós, mas ainda nós. E mais não posso dizer, guardo silêncio: há alturas em que temos de resistir ao nosso impulso metafísico natural e não responder [§62].