21 de Abril de 2014

Valadier V - Facto vs. valor



O «real» ao qual o homem acede nunca é imediato, bruto, não informado; é desde sempre já assumido por um conjunto de representações culturalmente recebidas, como vimos no primeiro capítulo. Cassirer, entre muitos outros, mostrou que estamos perante uma estrutura simbólica constitutiva da humanidade, a qual, contrariamente aos animais, não encontra em si as regras e as normas da sua conduta, logo, está desprovida de uma perfeita adaptação ao «real»; por este motivo, o homem deve adquirir os meios para assegurar a sua condição através de um conjunto bastante complexo de normas, princípios e referências ideais, e isso começa desde a apropriação pela criança do seu próprio corpo, como foi mostrado de maneira convincente pelas análises de Mauss sobre as técnicas do corpo. Mesmo o modo de dormir, de se alimentar, de se lavar, já para não referir o modo de falar, é recebido por e numa determinada cultura. É esta estrutura simbólica que permite compreender que nunca nos encontramos num dado factual, um facto «real» bruto, mas sempre perante algo construído e elaborado. O realismo arrisca-se a ser insuficiente ou totalmente medíocre se negligenciar este dado antropológico; qualquer facto social é já portador de um valor e a inteligência desse valor passa pelo desvio do sentido tomado por este facto social no conjunto de uma da cultura (o que significam os ritos funerários? A crença na imortalidade ou nos antepassados? Porquê esse sistemas de repartição de bens? etc.). Nesse sentido, a dualidade facto-valor só é compreensível em relação a um terceiro termo que liga o facto ao valor e o valor ao facto, isto é, o sistema simbólico onde ambos encontram lugar e sentido. Esta simples triplicidade permite sair de um dualismo no qual cada termo é indefinidamente remetido para outro, sem que se possa sair da polissemia, como vimos anteriormente.

14 de Abril de 2014

Valadier IV - Tolerância mole



A tolerância «mole» onde cada um é enviado para «o seu negócio», logo para a sua solidão de indivíduo, isto é, soberano, é destrutora das identidades pessoais tanto como da ligação à sociedade. Os valores aos quais se adere podem e devem ser justificados perante si próprio e perante os outros para tomar forma humana e não ter caprichos injustificados; temos também toda a razão de perguntar ao outro as razões da sua própria adesão aos valores ou às crenças que não partilhamos, que nos admiram ou escandalizam. A tolerância assim compreendida é o trabalho da conversão comum onde cada um sabe que só existe na relação com o outro e é suportado por ela. Não se trata de interrogar para converter para si, para as suas ideias ou para as suas verdades, e não apresenta sequer as suas posições próprias como padrão de verdade com o qual tudo deve ser medido. A interrogação mútua, que não se deve aliás conceber à maneira de uma espécie de interrogatório generalizado e permanente, chama cada um a verificar as suas próprias crenças e a construir um pouco mais de verdade em si próprio, logo a abrir-se mais francamente. Nesse sentido, o relativismo que consagra não importa qual opinião do momento de que é proprietário, ultrapassa neste trabalho de relação mútua, trabalho pelo qual se tece secretamente e continuamente a ligação social.

7 de Abril de 2014

Valadier III - Antinomias da ação



A ação comporta antinomias, nem todas as escolhas são compatíveis ao mesmo tempo, é preciso existir aí sabedoria para reconhecer este limite e esta finalidade, «a existência histórica ´feita de combates duvidosos onde nenhuma causa é pura, nenhuma decisão é sem risco, nenhuma ação sem consequências imprevisíveis» (Raymond Aron), mas a sabedoria manda ao mesmo tempo que se fique atento a uma secreta complementaridade de valores entre elas, a não ser que se caia no unilateralismo cego ou no fanatismo.
A solução proposta consiste [falamos de Weber], vimo-lo a propósito do ensino universitário, em excluir da esfera pública as opções julgadas arbitrárias e a esse título virtualmente polémicas; mesmo se a palavra não for pronunciada, trata-se de uma laicidade exclusiva muito rigorosa, de que uma das consequências, que já notamos, rebaixa as opções filosóficas ou religiosas a uma escolha injustificável, privada, marginal. Ora, vimos também, se a ciência não é sem pressuposto, pode um ensinamento sê-lo? Em matemáticas talvez, mas com a condição de se cingir a um ensino que passa em silêncio a história da disciplina, as hipóteses ou teorias diversas, assim como os seus fundamentos filosóficos, o lento trabalho sobre as opções que presidiram e presidem à evolução desta ciência, reduzindo em breve esta disciplina a um saber morto, condensado em resultados incontestáveis, apresentados como dados que se impõe por si próprios. E que dizer então de um ensino em história ou em biologia? Mostrar aos estudantes os pressupostos destas disciplinas nada tem a ver com a introdução das opções partidárias do professor e não transforma um anfiteatro em tribuna de conferências. Fazer esse trabalho é muito simplesmente dar ao ensino toda a sua dimensão e a sua profundidade que um «laicismo» intransigente reduz a uma «matéria» inerte da qual o estudante não tem as chaves de constituição e do desenvolvimento. Mas como fazê-lo sem expor os valores e as crenças que presidiram à história e ao progresso dessas disciplinas?

31 de Março de 2014

Valadier II - Natureza, Liberdade, Ciência



Podemos certamente discutir a teleologia da natureza, tal como foi concebida por Kant, e mesmo contestar a sua estética onde a beleza oferece uma «passagem» entre natureza e liberdade; daí resulta que aquele em que nos apoiamos muitas vezes para justificar o dualismo entre facto e valor não pode ser reconhecido sem reservas nesta paternidade. Seja como for, a posição kantiana chama a atenção para um ponto essencial: um dualismo radical torna impermeável à inteligência das coisa coisas, porque a liberdade está já em ação no próprio ato científico, ou ainda, o facto científico só é estabelecido, concebido, testado a partir de um valor do qual depende inteiramente, o valor atribuído ao conhecimento. Procurar desenvolver as ciências e contribuir para isso pressupõe que achemos preferível conhecer do que contemplar as coisas no seu estado. Tal foi a «decisão» que presidiu ao desenvolvimento moderno das ciências. Tanto o seu progresso como o desejo de objetividade científica implicam que os tenhamos posto mais alto do que qualquer desejo de conhecer e que estejamos dispostos a sacrificar-lhe muitos preconceitos e crenças. Nietzsche mostrou com lucidez que a ciência se apoia ainda numa «numa crença», a crença na verdade como valor supremo em nome do qual já nada tem preço e sobre o altar do qual «sacrificámos e degolámos uma crença após outra». A ciência não se desenvolveu sem pressuposição, de maneira neutra ou em nome da sua única utilidade, porque não é um cálculo que está na sua origem; baseia-se numa crença, na crença de «que Deus é a verdade, que a verdade é divina», ou seja, que não existe valor mais alto (ou mais divino) que a verdade.

26 de Março de 2014

Elogio dos Sentidos - Fé e Arte III


A arte e a fé fecundam-se mutuamente numa dialética que eleva o Homem, consagrando-o ao inefável que o seduz, provocando-o a, como afirma Bento XVI, “não limitar os horizontes da existência unicamente à materialidade”. A beleza, que desponta da inquietação artística, é ela própria uma porta para o Mistério, dado que ecoa a necessidade de plenitude que o artista experimenta e que traduz na contingência das suas próprias mãos.

A arte é a expressão das grandes interrogações do Homem, que o movem e bloqueiam, que o excitam e que o deprimem. Neste ponto, a fé atravessa-se de modo irreprimível, catapultada pela transcendência que de modo subtil se torna tangível aos sentidos. E estes, como portas abertas para o Mundo, são como canais evolutivos, tornando o Homem um paradoxo, simultaneamente distinto e encarnado num Comos cuja Beleza é desafio constante e último à própria razão Humana. Perante a Beleza a Razão curva-se e a esperança renasce porque o intangível se torna tangível ao Homem, Corpo e Espirito.


O evento Fé e Arte III - Elogio dos sentidos: Do corpo e do Espirito, que se realiza no próximo dia 5 de Abril, no auditório da Faculdade de Filosofia de Braga, será um espaço de diálogo onde se cruzarão diversas sensibilidades com o objetivo de discutir estas duas instâncias tão misteriosas – a fé e a arte, mas ainda assim tão fundantes do espaço humano. Cada perspetiva, cada orador, proveniente de quadrantes tão diversos como a música e a poesia, passando pela arquitetura e a reflexão teológica, tem o desejo de expressão, da sua expressão, cuja vitalidade brota da sede de completude, da sede de sentido.

Mais informações e inscrição on-line em  http://www.fe-e-arte2014.com/