Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

ateus missionários?

1. Alguns não crentes, como os meus estimados amigos Ludwig e os do Portal Ateu, têm um entusiasmo pela difusão do ateísmo que rivaliza com o entusiasmo proselitista dos mais devotados missionários cristãos. Literalmente. Sem metáfora nem ironia. De onde lhes vem esse entusiasmo e convicção proselitistas? Muitos deles estão honestamente a tentar dar o seu contributo para um mundo melhor. Pessoalmente, estou convencido que o seu esforço tem efeitos muito reduzidos, em nada proporcionais aos seus esforços. Porquê? Pelo facto, creio eu, de se basearem em equívocos e numa argumentação que chega a conclusões que não estão contidas nas premissas nem são por elas implicadas.

2. O Ludwig, no seu bem conhecido blog ktreta, persiste me exigir que a hipótese da existência de Deus seja formulada em termos empíricos e espácio-temporais, de forma a poder ser submetida a testes igualmente empíricos. Mas esta posição tem tanta justificação como a de pretender apresentar a hipótese da beleza de um quadro de Picasso de tal forma que essa beleza seja posta à prova pela observação empírica do movimento dos electrões dos átomos que constituem a matéria da tinta que o autor utilizou. Se a hipótese de Deus fosse uma hipótese empírica, então não estaríamos a falar de Deus. Do mesmo modo que se a hipótese sobre a beleza de um quadro de Picasso fosse formulável em termos do movimento de electrões, não estaríamos a falar de beleza.

3. Os fundadores e comentadores do Portal Ateu cometem vários erros de argumentação. O primeiro consiste em tomar o todo pela parte. É como se eu ao olhar para uma macieira e visse algumas maçãs apodrecidas concluísse alegremente que estava em presença de uma árvore envenenada que só poderia produzir maçãs envenenadas e envenenar as pessoas. A árvore poderá ter cem maçãs perfeitamente sãs e saborosas, e uma dúzia de maçãs podres, mas é evidente que se se quer defender a tese de que é toda a árvore que está envenenada, eu tenho necessariamente que ignorar as cem maças sãs e saborosas, ou então dizer que elas não significam nada. É o que se faz no Portal Ateu quando se critica a religião. Como já afirmei noutras ocasiões, este género de crítica não tem qualquer efeito de convencimento, a não ser para os que a praticam.

4. Um outro erro argumentativo é o do verificacionismo: quando se quer verificar uma hipótese, escolhem-se cuidadosamente os exemplos que a verificam, e ignoram-se cuidadosamente os exemplos que a contradizem. Todas as teorias científicas têm contra-exemplos. Se eu considerasse apenas esses contra-exemplos, nenhuma teoria científica seria defensável, todas seriam declaradas absurdas. É o que se faz no Portal Ateu quando se critica a religião. Escolhem-se cuidadosamente os contra-exemplos da religião para a declarar absurda.Como já afirmei noutras ocasiões, este género de crítica não tem qualquer efeito de convencimento, a não ser para os que a praticam.

5. Em conclusão: tal como os missionários cristãos, alguns ateus têm um verdadeiro espírito proselitista, e acredito que muitos deles estejam a pensar que prestam um grande serviço à Humanidade com as suas críticas. Como já tenho dito noutras ocasiões, a religião nada tem a temer das críticas objectivas, inteligentes e fundamentadas. Antes pelo contrário, só tem a ganhar com elas. Contrariamente ao que pensam estes ateus, a religião não está acima de toda a crítica. Mas qualquer crítica que, mesmo que bem intencionada, como acredito que seja a de alguns ateus, cometer os erros de argumentação acima indicados (mas há muitos mais!), acaba por ser inútil. Poderá divertir e convencer os ateus, mas não terá mais efeitos do que esses.



Alfredo Dinis,sj

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Diogo Carvalho


Nascido em Coimbra no ano 1578, Diogo Carvalho tornou-se jesuíta aos 16 anos. Desde o seu noviciado, Deus foi germinando em si o desejo de servir a igreja nas missões do oriente. Assim sendo, enviaram-no para Macau em 1600 a fim de estudar Filosofia e Teologia.

Em 1610, concluídos os estudos, partiu para o Japão, percorrendo incansavelmente as regiões onde os cristãos clandestinamente praticavam o seu culto, reconfortando-os com os sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, vivendo o cristianismo de uma forma tão simples quanto admirável.

Num Japão onde os cristãos eram perseguidos acabou por ser martirizado em 1624. Hoje a Companhia, particularmente a Província Portuguesa, celebra este exemplo de fidelidade ao evangelho tanto nas coisas simples da vida como nos momentos de maior heroicidade.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Religião, ateísmo, e espírito crítico

1. Entre os crentes, sejam eles cristãos, hindus, muçulmanos ou outros, há variedade de posições em muitos aspectos, mesmo que estejam de acordo no essencial. Há muitas afirmações e muitos factos por esse mundo fora que são muitas vezes considerados elementos essenciais da religião mas que, de facto, não passam muitas vezes de caricaturas. O mesmo acontece com ateus e agnósticos. Há entre eles posições muito diversas, mesmo que estejam de acordo no essencial.

2. Por conseguinte, se se quiser fazer uma análise crítica, objectiva, inteligente e fundamentada, seja da religião, seja do ateísmo, não se podem escolher para objecto de crítica apenas as posições mais duvidosas e ridículas de um lado ou do outro, ignorando outras posições mais difíceis de rebater. Mas é isto que fazem os ateus, como Dawkins, Dennett, Harris, etc., bem como muitos não crentes, sobretudo os que encontro na blogosfera. Apesar deste erro metodológico fundamental, os ateus consideram estes e outros autores na mesma linha grandes génios do pensamento ateu, e aceitam incondicionalmente o que dizem. Esta é uma posição que considero inaceitável: os ateus têm pouco espírito crítico, ou mesmo nenhum, para com o que escrevem e dizem os ateus mais iluminados. E aquilo que consideram o seu espírito crítico aplica-se apenas às religiões, e dirige-se em geral a aspectos que pouco ou nada têm a ver com a religião em geral, menos ainda com o cristianismo em particular. O que criticam são, com frequência, aspectos anedóticos que, ao serem facilmente deitados por terra, lhes dão a sensação de que venceram mais uma batalha contra a crença religiosa. Penso que, ao procedrem assim, os não crentes estão, de facto, a perder o seu tempo.

3. Não me parece saudável subscrever incondicionalmente qualquer texto, seja de um autor cristão, seja de um ateu, sem antes o examinar criticamente. Raramente me identifico totalmente com os textos de autores cristãos, e não tenho qualquer problema em o dizer publicamente. Não vejo esta atitude, que me parece essencial no pensamento crítico e racional, da parte dos não crentes em relação a textos de autores ateus. Fico com a sensação de que os não crentes atribuem aos seus autores uma omnisciência e infalibilidade que não atribuem a mais ninguém. Ou estarei enganado?

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

aDeus!

video

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

S. Bernardino Realino (1530-1616) S. João Francisco Regis (1597- 1640) S. Francisco de Jerónimo (1642-1716) B. Julião Maunoir (1606-1683) B. António B

Hoje celebra-se a vida de mais três santos e dois beatos da Companhia de Jesus. São três italianos (S. Bernardino, S. Francisco e B. António) e dois franceses (S. Francisco Regis e S. Julião) que se distinguiram, sobretudo, pela pregação, pelo ensino da fé e pelo trabalho junto dos mais pobres.
Nos séculos XVI, XVII e XVIII estes homens integraram as “missões populares”, que consistiam em breves períodos de tempo passados de comunidade em comunidade por pequenos grupos de missionários, com o objectivo de reavivar a fé dos cristãos destas comunidades e de converter aqueles que não a tinham. Era um tempo intenso de pregação, de ensino, de consolar os mais fragilizados e de estabelecer relações com as pessoas.
As suas vidas foram passadas nestas missões. Todos eles se destacaram pelo trabalho incansável na entrega à sua missão.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A FORÇA DAS CONVICÇÕES...

Domingo, 28 de Junho de 2009

Talitha qûm!


Não era o manto de Jesus que esta mulher queria tocar, como se de um objecto de um santo esperasse o efeito mágico de uma cura. Queria tocá-Lo a Ele. Aproximar-se para ser tocada por Ele.

A sua doença, um fluxo de sangue, símbolo de impureza, é mais que uma condição fisiológica. Na tradição hebraica, não há na pessoa separação entre físico e espiritual. Tudo faz parte de uma mesma realidade. Diríamos nós, o que o seu corpo sente, vive-o também o seu espírito. E dessa impureza que a toma por inteiro, espera a saúde, a salvação, já há 12 anos.

Nas mãos dos médicos antigos não encontrava alívio para a sua doença, para o seu estado de impureza. Há 12 anos esperava e sofria.

Passou naquele dia pela sua cidade uma grande multidão, vozes que enchiam as ruas e traziam aos seus ouvidos o nome do novo profeta, Jesus de Nazaré. A antiga aliança falhara na infidelidade de Israel, que espera e sofre. Está cansada nas mãos de uma medicina que pela sua infidelidade falhou em restituir a pureza ao género humano. Corre-lhe sangue, impura, e, como a filha de Jairo, sente a morte perto.
No entanto, um ruído de multidão, de novo povo em êxodo, traz-lhe o nome de Jesus aos ouvidos. Junta-se à multidão. Por entre corpos que se comprimem, tenta alcançá-Lo e tocá-Lo. Quer tocar o Médico Novo, ser tocada por Ele, purificar-se por um novo toque, uma nova aliança que Ele traz. «Se ao menos tocar nem que seja as suas vestes, ficarei curada». E é curada pela nova aliança que se dá naquele toque, um toque tão singular

«Quem tocou as minhas vestes?»

«Vês que a multidão te comprime de todos os lados, e ainda perguntas: 'Quem me tocou?’»

onde a fé (fides) toma o lugar da in-fidelidade. O Novo Templo (Jesus, Deus feito homem) opera pela fé a purificação que o Templo Antigo, lugar da antiga aliança, falhara em alcançar. «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal.»

Afinal, a menina, filha de Jairo, cujo destino surge aqui tão ligado a esta mulher, não morreu, apenas dorme. O povo não morreu. Dorme para ser agora acordado. Despertado pelo mesmo toque da fé que acontece também no coração de Jairo, na mão da menina de 12 anos.

«Não tenhas receio; crê somente.»

E tomando a mão de Israel, disse:
«Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!»


Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Reflexões sobre a oração

1. As religiões anteriores e contemporâneas do início do cristianismo tinham uma relação com os seus deuses baseada na possibilidade de obter deles vantagens e favores pessoais e sociais. Antes das batalhas ou de alguma acção que poderia ter resultados negativos, faziam sacrifícios a esses deuses para ‘comprarem’ os seus favores. Esta perspectiva entrou e ficou em parte no cristianismo até aos dias de hoje. Para algumas pessoas Deus é sobretudo uma espécie de proprietário de uma agência de seguros. Mas também os não crentes têm esta imagem do que é a oração para os crentes! Como é possível, perguntam-me por vezes os não crentes, que um autocarro de peregrinos que regressavam de Fátima tenha tido um acidente? Então a Virgem Maria não os protegeu? Para um bom número de pessoas, crentes e não crentes, o essencial da relação com Deus, a oração, resume-se às vantagens e favores pessoais que se podem obter de Deus se nos portarmos bem e lhe fizermos promessas de generosas ofertas ou de duros sacrifícios. E o sucesso das peregrinações aos santuários mede-se pelo número de curas milagrosas ali registadas. Há aqui algum paganismo que ficou no cristianismo de algumas pessoas.

2. O cristianismo veio fazer uma proposta radicalmente diferente das outras religiões. Ao manifestar-se em forma humana em Cristo, Deus propõe a cada ser humano uma relação interpessoal que tem muitas semelhanças com as nossas relações interpessoais no interior de uma família, por exemplo. Como são essas relações? São feitas de palavras, mas também de silêncios, de afectos, de elogios, de lamentações, de ajudas e de pedidos de ajuda. Mas nem todas as ajudas são desejáveis (as ‘ajudas’ das mães-galinha aos seus filhos podem ser desastrosas), nem todos os pedidos de ajuda devem ser atendidos, para bem dos que fazem tais pedidos. A oração é um termo religioso que designa a relação do crente com Deus e, neste sentido, ela é mais uma atitude permanente, uma maneira de estar na vida, do que esta ou aquela acção ritual, este ou aquele pedido. Só no contexto de uma atitude permanente de relação com Deus – como acontece entre pessoas que se amam – é que se podem avaliar os gestos e palavras concretas que fazemos e dizemos.

3. Mas o cristianismo coloca o crente num outro contexto, o da construção de um mundo de justiça, de amor e de paz, a que, em linguagem cristã, se chama o ‘Reino de Deus’. É em relação a este ‘reino’ que eu devo decidir o que vou pedir a Deus. Não peço apenas para meu proveito pessoal. Se peço saúde, é para que possa dar um melhor contributo para um mundo melhor. Não posso ‘servir-me de Deus’ apenas para os meus interesses pessoais. No cristianismo isto não faz qualquer sentido.


4. Os actuais estudos sobre os efeitos da oração que se baseiam numa maratona de orações para obter a cura de um certo número de doentes em hospitais e verificar empiricamente se a oração faz ou não efeito está completamente fora de todos os contextos que referi. Fico totalmente indiferente perante os estudos científicos sobre este assunto, quer concluam que houve efeitos empíricos benéficos da oração, quer concluam que não houve. Isto nada tem a ver com o cristianismo tal como o entendo, e creio que posso dizer, tal como o entende a Igreja Católica.
P. Alfredo Dinis,sj

Domingo, 21 de Junho de 2009

Jesus acalma a tempestade


Já era tarde. Jesus tinha pregado a uma multidão e estava cansado. Enquanto estavam no barco, Ele quis dormir nas duas, três léguas que os separavam da outra margem. O mar da Galileia “está situado numa depressão, a 208 metros abaixo do nível do Mediterrâneo. Em volta dele, um circulo de montanhas, rasgadas por estreitos desfiladeiros e gargantas pelas quais o vento sopra violentamente de norte para sul.” Isto cria as condições para que surjam facilmente tempestades, muito típicas nos finais de Outono na Galileia. (1)

Desponta uma violenta tempestade. Jesus dorme. Quase podemos imaginar Pedro a acordar o Senhor e reclamar: “Não te importas que pereçamos?” Jesus fala imperiosamente aos ventos e ao mar. Tudo se acalma. “Ainda não tendes fé?”



O SENHOR DO TEMPO, AGE A SEU TEMPO | Por vezes, quando estamos em grandes correrias, todos os que estão ao pé de nós parecem estar quietos. Jesus estaria a dormir de facto ou somente aos olhos dos discípulos? Não questiono aqui a autoridade dos Evangelhos, mas creio que por vezes, por levarmos a vida sozinhos, cremo-nos abandonados nas tempestades mais difíceis porque nos pomos de parte, convencidos de que tudo podemos. A atitude de Jesus deve levar-nos, parece-me, a ganhar distância diante dos contratempos para os sabermos dominar e deixarmo-nos ajudar/amar.



O ALÉM DA DIFICULDADE | Para além de tudo isto só a confiança num Outro nos leva além da dificuldade. Este ‘além da dificuldade’, nesta leitura em concreto, é o temor dos apóstolos diante de Jesus a Quem se confiaram por se verem insuficientes diante da tempestade. Mas em que consiste este temor? Não, temor não é ‘ter medo de’. Temor é o desafio de responder em/por amor a alguém que mo reclama porque me faz redescobrir a minha riqueza diante dos Seus gestos simples que não me deixam morrer(2). Era S. Leão Magno que dizia: “Se crês na grandeza de Jesus compreenderás o teu poder”.

Efectivamente, acalmada a tempestade, continuam a haver ondas e ventos. Contudo, a atenção ao Outro, que parecia indiferente, transfigurou-as. Sim, haverão sempre dificuldades, mas o amor transfigura-as. Quem ama é consolador e quem é amado é consolado. Mas “o amor não é consolação, é luz”(3). Só a luz, de Alguém que se entrega todo para se comprometer e transformar os ventos das crises e as ondas de quem sofre, é capaz de abrir caminho ao Espírito para que em tudo brote uma tranquilidade que não começa senão de dentro para fora.



AQUELE QUE ESTÁ | Assim, não há crise que resista ao amor de quem se compromete com o mundo, sabendo que tem as costas e o coração largos. Mesmo que tudo nos pareça desfavorável e perdido, e nos sintamos falhados diante da realidade que é dura: Ele está! E se num dia de tempestade sentirmos todos estes fracassos a serem-nos atirados à cara pela consciência digamos com o coração: Eu sei que a vida é dura e que só por mim vou a baixo num segundo, mas tenho em mim Alguém que deu a vida por mim, o Seu nome é Jesus Cristo e onde Ele estiver eu estarei também. Não haverá tempestade que nos vire, se assim nos confiarmos. A Vida mostrará o seu rosto como uma bênção e não como maldição. “Ainda não tendes fé?”



[1] DESCALZO, José Luís – Vida e Mistério de Jesus de Nazaré II, Cucujães: EDITORIAL MISSÕES, 1994, pp.165 – 166

[2] “Amar alguém é dizer-lhe: não morrerás” (Gabriel Marcel)

[3] WEIL, Simone - À porta do farol faz escuro, Braga: APOSTOLADO DA ORAÇÃO, 1991

Sábado, 20 de Junho de 2009

Beato Francisco Pacheco (1565-1626)

Hoje a Companhia de Jesus recorda a vida do Beato Francisco Pacheco.
Nasceu em Ponte de Lima em 1565. Sobrinho de um mártir do Japão, ficou de tal forma entusiasmado com a história do tio que fez voto de ser também mártir, tendo apenas 10 anos. No entanto, já tinha vinte anos quando entrou para a Companhia de Jesus, tendo sido ordenado sacerdote em Goa. Em 1604 já estava no Japão, donde teve de fugir duas vezes devido ao clima de perseguição que aí se vivia. Acabou por ser feito prisioneiro e levado para Nagasaqui, onde foi queimado vivo em 1626. Com ele, morreram mais dois padres jesuítas, alguns catequistas, três famílias acusadas de o terem acolhido e ainda um menino chamado Luís.


Numa das suas últimas cartas escrevia: “Estamos todos já muito cansados e cortados, dos trabalhos desta perseguição; porém, as esperanças de nos caber alguma boa sorte de martírio nos animam e fazem continuar e fazer da fraqueza forças, esperando nessa hora em que nos caiba a ditosa sorte”.


texto retirado do evangelho quotidiano

Novas tecnologias, novas relações - Bento XVI no dia mundial das comunicações sociais

(...) Na mensagem deste ano, o meu pensamento dirige-se de modo particular a quem faz parte da chamada geração digital: com eles quero partilhar algumas ideias sobre o potencial extraordinário das novas tecnologias, quando usadas para favorecerem a compreensão e a solidariedade humana. Estas tecnologias são um verdadeiro dom para a humanidade: por isso devemos fazer com que as vantagens que oferecem sejam postas ao serviço de todos os seres humanos e de todas as comunidades, sobretudo de quem está necessitado e é vulnerável.

A facilidade de acesso a telemóveis e computadores juntamente com o alcance global e a omnipresença da internet criou uma multiplicidade de vias através das quais é possível enviar, instantaneamente, palavras e imagens aos cantos mais distantes e isolados do mundo: trata-se claramente duma possibilidade que era impensável para as gerações anteriores. De modo especial os jovens deram-se conta do enorme potencial que têm os novos «media» para favorecer a ligação, a comunicação e a compreensão entre indivíduos e comunidade, e usam-nos para comunicar com os seus amigos, encontrar novos, criar comunidades e redes, procurar informações e notícias, partilhar as próprias ideias e opiniões. Desta nova cultura da comunicação derivam muitos benefícios: as famílias podem permanecer em contacto apesar de separadas por enormes distâncias, os estudantes e os investigadores têm um acesso mais fácil e imediato aos documentos, às fontes e às descobertas científicas e podem por conseguinte trabalhar em equipa a partir de lugares diversos; além disso a natureza interactiva dos novos «media» facilita formas mais dinâmicas de aprendizagem e comunicação que contribuem para o progresso social.

Embora seja motivo de maravilha a velocidade com que as novas tecnologias evoluíram em termos de segurança e eficiência, não deveria surpreender-nos a sua popularidade entre os utentes porque elas respondem ao desejo fundamental que têm as pessoas de se relacionar umas com as outras. Este desejo de comunicação e amizade está radicado na nossa própria natureza de seres humanos, não se podendo compreender adequadamente só como resposta às inovações tecnológicas. À luz da mensagem bíblica, aquele deve antes ser lido como reflexo da nossa participação no amor comunicativo e unificante de Deus, que quer fazer da humanidade inteira uma única família. Quando sentimos a necessidade de nos aproximar das outras pessoas, quando queremos conhecê-las melhor e dar-nos a conhecer, estamos a responder à vocação de Deus - uma vocação que está gravada na nossa natureza de seres criados à imagem e semelhança de Deus, o Deus da comunicação e da comunhão.

O desejo de interligação e o instinto de comunicação, que se revelam tão naturais na cultura contemporânea, na verdade são apenas manifestações modernas daquela propensão fundamental e constante que têm os seres humanos para se ultrapassarem a si mesmos entrando em relação com os outros. Na realidade, quando nos abrimos aos outros, damos satisfação às nossas carências mais profundas e tornamo-nos de forma mais plena humanos. (...)