12 de dezembro de 2006

Minutário de Bruxelas - parte I


Inspirado na leitura que estou a fazer do “Tratado Lógico-Filosófico” de Ludwig Wittgenstein, todo ele composto por frases curtas, avulsas, minuciosamente organizadas por pontos, decidi inventar o conceito de “minutário”. Se, para dia, está o diário; para minuto, está o minutário. Assim, o texto que se segue é um registo de alguns pensamentos dispersos dos milhares que me foram passando pela cabeça nalgum minuto do fim-de-semana que passei em Bruxelas. Já agora pode interessar saber que o verdadeiro propósito desta viagem teve a ver com as minhas responsabilidades como membro do grupo coordenador dos jesuítas europeus em formação.

6ªfeira, 24 Novembro – Braga-Bruxelas

8.43 – Que treta. Agora tenho que arranjar um saquinho para poder meter a pasta de dentes, o desodorizante e o champô?! Qualquer dia há restrições nos aviões contra a caspa (quem sabe se com caspa e um pouco de Coca-Cola não se pode produzir um explosivo?!?)!

8.51 – O Adão é um porreiraço. Dá-me boleia assim, de um momento para o outro.

9.08 – Comboio Braga-Porto. Um bom momento para rezar sobre a vida do meu companheiro mártir Miguel Pró: “para que servirão o filhos de Santo Inácio, se ao primeiro rebento de um tiro se põem logo em fuga?”.

10.32 – Metro Campanhã. Bonito, sim senhor.

11.27 – Aeroporto. Dou uma gargalhada. Mas que cena marada é esta? Uma vitrine com um monte de objectos apreendidos nos últimos tempos: uma garrafinha de água; um corta-unhas; uma tesourinha; um canivete suíço; um champô; … Que ideia bilhante! Só alguém muito inteligente pode ter tido esta ideia como forma de divulgar as novas restrições para a bagagem de cabine!

12.15 – Este voo está apinhado! Mas quem é que se lembra de fazer um Porto-Lisboa de avião? É preciso gostar muito de andar de avião.

12.43 – Turbulência. Da grande. Alguém se importa de desligar o vento e a chuva lá fora? O corpo aquece. A minha vizinha do lado serve-se do folheto de segurança como leque. Começo a sentir suores frios. A tripulação injecta ar frio na cabine. A turbulência continua forte. Bem… pronto, não resisto mais. Posso ser menos homem por causa disso mas não quero saber. Saco também do meu folheto de segurança. Começo a abaná-lo energicamente. Meu Deus! Quando é que isto acaba? “Avé-Maria, cheia de graça…”. Entretanto vou verificando regularmente se o meu saco de enjôo ainda está no sítio (just in case...).

13.02 – Já recomposto da aterragem reflicto um bocadinho sobre a experiência. Andar de avião mas, mais em particular, as aterragens são uma óptima oportunidade para experimentar o abandono. De facto, em que mais se pode confiar para além de que aquilo há-de acabar bem? E, se não acabar “bem”, o que é que eu posso fazer para o impedir? Nada, absolutamente nada. Nós somos mesmo pequeninos, frageizinhos. Por isso, abandono absoluto, confiança total. O que quer que aconteça, eu estou pronto.

13.43 – Sala de embarque. Lá fora uma chuva torrencial fustiga toda a pista de aterragem e castiga os homens da Groundforce, que continuam a trabalhar apesar das condições adversas. Continuo a pôr a minha leitura espiritual em dia lendo “O Príncipe e a Lavadeira” do Pe. Nuno Tovar de Lemos. “Deus é mistério. Quando digo esta palavra não estou a dizer que Deus não pode ser conhecido, mas sim que Deus pode ser sempre melhor conhecido”.

13.52 - “Não nos devemos impressionar se alguém diz não acreditar em Deus. Em que ideia de Deus não acredita? Esse Deus que ele rejeita e afirma não poder existir, também eu rejeito e julgo sinceramente não poder existir”.

15.26 – Voo atrasado. Leio mais umas linhas: “Tenho uma pergunta, Senhor. É uma pergunta um pouco embaraçosa. Os meus colegas dizem que Tu não criaste nada. Que tudo aconteceu numa grande explosão, há muitos milhões de milhões de milhões de anos”. “Bem – responde o Senhor – imagina que Eu decidi criar através de uma explosão...? Não posso criar da maneira que achar melhor?”.

16.04 – Voo Lisboa-Bruxelas. Ao meu lado está um miúdo grego de quatro anos. Pego nas instruções de segurança, viro-me para ele e digo-lhe “Olha, tu já leste isto? Tens que ler, hum?”. Ele, muito contente, pega no folheto e fica a olhar. Descolagem. A minha Lisboa lá em baixo. Ali… o Parque das Conchas… ah!... e mesmo ao lado… o (daqui) pequenino (e cada vez mais pequeno) São João de Brito. Vem-me à memória a “Operação NODDY”. Como é que terá corrido? Eu aposto 52 miúdos (tamanho 7ºano) a caberem dentro do gabinete do Branquinho.

16.53 – Belo lanche. Belo pôr-de-sol. Por baixo, nuvens. Por cima, o céu. Leio o conto que dá o nome ao livro, “o Príncipe e a Lavadeira”. Uma autêntica lição sobre o Amor inspirada na Encarnação. Diz o Pe. Nuno que as tentações do Homem em relação ao Amor são: 1ª, a tentação do “dar-se sem se dar” (tirar proveito do amor mas sem se comprometer); 2ª, a tentação do “fazer coisas em vez de estar” (valorizar a produtividade, a eficiência, em vez da presença); 3ª, a tentação do “dar a mão sem se abaixar” (pensar que se pode amar sem descer, sem perder algo – estatuto, tempo, dinheiro); 4ª, a tentação do “dar-se para se preencher” (confundir carência afectiva, querendo o prórpio bem enão o do outro); 5ª, a tentação do “vender-se para agradar” (ajustar-me à imagem que quero que os outros tenham de mim em vez de ser eu próprio); 6ª, a tentação do “manipular o outro para não o perder” (seduzir o outro de maneira a que ele não possa recusar o amor).

18.47 – Aterragem em Bruxelas. Afinal está melhor tempo por estas bandas.

18.55 – Ah! Estou sózinho: posso fazer o que me apetecer!!! Pois… sim, e então?

19.03 – Estação do comboio de ligação aeroporto-cidade. Ai, estas sinaléticas! Se eu mandasse nisto! Não se percebe nada de nada. O que vale são os cidadãos anónimos. “Excuse me... how do I know when will my stop be?”. Responde-me o rapaz: “I Know!”. Pronto, entendido!

19.28 – Estação Norte. Agora é fácil. É só seguir as instruções que me deram. Hum… esta rua é um bocado escura. Este bairro não parece propriamente de classe alta. Hum... pensando bem... média também não me parece. Mmm… é olhar em frente e fazer um passo decidido como se fosse um “local-guy”. Passam dois por mim. Uf! Continuo. Chego à casa dos jesuítas. Não sei porquê, reconheci-a logo. Tem mesmo pinta de SJ.

20.15 – Em casa. Recebe-me o Franz. Um tipo engraçado. Dá-me de jantar. Ah! Os belgas também põem carne na sopa (afinal não sou só eu)! Chega o meu companheiro italiano Luca. Surpreende-se com o tamanho do meu cabelo.

21.34 - Serão de conversa com ex-missionários do Congo, a saborear a cerveja da Trapa (álcool a 9%!). Faço o esforço cultural de a saborear. Um deles, fazia caminhadas de três semanas pelo meio da selva para visitar as tribos perdidas. Comia carne de macaco (minhami!). Conta que uma vez estava a comer um braço de macaco que parecia mesmo de uma criança e que lhe fez impressão. Ah! Quem diria?!

23.27 – Ponho a conversa em dia com o Luca, no meu quarto.

0.37 – Antes de me deitar, ao recordar o dia, olho para o meu companheiro de viagem e penso “que livro este! O Pe. Nuno ao seu melhor nível! Parece uma espécie de Best of dos anos em que o ouvi no CUPAV ou dos dois anos de em que o ouvi como Pe. Sócio no Noviciado”.


3 comentários:

eloi sj disse...

Hola Joao! soy Eloi del ejif (tarracolandia)! oye, muy bien éste blog, seguimos en la línia creativa, no?. En la Tarraco también nos hemos lanzado a la "teoblogia", los encontrarás en mi blog. No nos hemos animado, de momento, a hacer uno comunitario pero para mí está siendo una experiencia muy interesant pues estoy llegando a gente que no podía imaginar. Los jesuítas en Catalunya estamos muy centralizados en Barcelona y nos falta implantación en el territorio. La página www.jesuites.net y los blogs nos hacen mucho servicio, también para los catalanes "en el exilio".
un abrazo y saludos a los compañeros.

Anónimo disse...

Copiei "as tentações do homem em relação ao Amor" para o meu blog. Gostei muito.

freefun0616 disse...

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