12 de dezembro de 2006

Minutário de Bruxelas - parte III

Domingo, 26 de Novembro – Bruxelas-Braga

9.39 – Reunião, 3rd round. Olho para os meus colega de reunião. É admirável esta diversidade mas... pensando bem, isto não tem nada de especial. De facto, estas pessoas estão aqui não porque são uui-aai... e tal... mas estão aqui porque alguém lhes confiou esta missão e porque alguém tinha que aqui estar.

9.40 – Por outro lado, esta reunião bem podia ser em Barcelos. Mas é em Bruxelas. Podia ser a 20 Km de Braga. Mas é a mais de 2000 Km de distância. E isso tem alguma coisa de especial? Tem e não tem. Tem porque, por um lado, já há imenso tempo que não andava de avião nem ia tão longe, e por outro e sobretudo, porque mais uma vez vou poder experimentar um pouco da internacionalidade da Companhia. Ao mesmo tempo não tem nada de especial porque, de facto, isto não é mais santificante do que visitar velhinhos num lar de terceira idade ou fazer uma Tarde Fixe com os Gambozinos.

10.16 – Agora fala-se da Europa. Os bom-bons continuam em cima da mesa. Tendo em conta que estamos neste momento numa casa inserida num bairro predominantemente muçulmano, numa das capitais da Europa, o que podemos dizer sobre a Europa? Uma coisa é certa: já não é o que era. Quer queiramos, quer não, estes senhores, todos os imigrantes, sejam eles quem forem, têm tanto direito a viver aqui como outra pessoa qualquer. E fazem parte da história da Europa por direito próprio.

13.40 – O Mark tem a gentileza (extraordinária, sublinha o Dermot) de nos levar ao aeroporto. Saímos do carro e o Enric desabafa: “uf! Ya podemos hablar en castellano!”. Por supuesto!

14.50 – Depois de me despedir do Enric aproveito para fazer a minha oração. Subo dois andares até ao espaço inter-confessional do aeoporto. É um corredor grande tipo centro comercial ao longo do qual estão dispostos, sucessivamente, o espaço católico, ortodoxo, judeu, protestante e muçulmano. Não há budismo, nem hinduísmo por aqui? Aproveito cada um dos espaços para fazer uma oração inter-religiosa e ecuménica. “O que é a vida senão uma procura do caminho de regresso a casa?”. Estes são vários caminhos.

15.49 – Chegando à Porta respectiva do meu avião, espreito, como costumo, o nome do avião. Qual é, qual é? Uau! Agostinho da Silva! Fico deliciado com a surpresa. Já não bastava andar a pensar fazer um trabalho sobre ele, já não bastava, por coincidência, a Joana falar-me espontaneamente dele... e agora isto!

15.54 - Passados cinco minutos chega um grupo de gente e começa também a olhar para o nome do avião e a tecer comentários com grande entusiasmo. Eu não me contenho e pergunto se têm alguma coisa a ver com o Agostinho da Silva. Responde-me um rapaz jovem do grupo, apontando para outro: "sim, este é o filho dele!". Uau! Que coincidência! "Ah! E vocês têm alguma coisa a ver com o Congresso que houve em Lisboa e no Porto e com a conferência que houve em Bruxelas há uns dias?". "Sim! Somos os organizadores"! No meio do entusiasmo apresentam-me como “colega filósofo” ao Pedro Agostinho da Silva, ao realizador do filme sobre a sua vida, “também João”. Eu, maravilhado com aquilo tudo gozo a situação.

16.05 - O filho de Agostinho da Silva pára, emocionado, a contemplar o nome do Pai inscrito no aço do avião. Eu paro a contemplá-lo a ele.

17.22 – Bem… isto de ler Wittgenstein no avião deve dar-me um ar de cromo! A tripulação é muito porreira, muita bem disposta, sorridente. Vê-se que se dão bem. Vou aproveitar para meter conversa com aqueles dois filósofos, para falar um bocadinho sobre o Agostinho.

18.22 – Entramos agora em Portugal: mando um beijinho lá para baixo. O tempo recua uma hora.

19.39 – Lisboa. Tomo um jantar ligeiro com os meus pais, num café na Avenida da Igreja.

21.10 – Já só falta mais uma descolagem e mais uma aterragem.

22.15 – Porto-Braga de carro, com o Gonçalo. À conversa com ele reconheço as coisas saborosas que aconteceram durante todo o fim-de-semana. O gosto de me sentir em casa noutra cidade, noutro país que não o meu, porque simplesmente estou com jesuítas. O gosto de me sentir em casa com os superiores que são, antes de tudo, companheiros como eu, com os quais posso brincar. O gosto da portugalidade além-fronteiras no convívio com a Joana, o Luís, a Marta e a Inês.

23.01 - Home, sweet home. A minha alma pode descansar.