28 de dezembro de 2006

Máquina de lavar o coração


No fim-de-semana de 14 a 17 de Dezembro orientei, em colaboração com o Luís Amaral, os meus primeiros Mini-Exercícios Espirituais. Antes dos EE’s estava especialmente preocupado com o acompanhamento das pessoas: se exigiria mais do que eu poderia dar, se eu estaria preparado, se as pessoas me iriam pôr perguntas ou expor situações demasiado complexas…

Durante os EE’s foi tal o ritmo de preparar e dar pontos e de atendimento nos tempos restantes, que não tive tempo para pensar e muito menos para sentir o coração. O tempo passou a correr. Só no fim, no regresso a casa, pude parar e sentir o coração. E aí pude avaliar os primeiros frutos mais visíveis da experiência e tirar conclusões. Já passados alguns dias, sinto que:

1. Fiz uma revisão da matéria

Um lema que eu tenho é o de que “ensinar é aprender duas vezes” e isto no caminho espiritual significa que o mestre, o orientador, ao falar de Deus tem que ter a matéria de tal maneira apreendida e vivenciada que isso implica, só por si, que traga à memória a sua própria experiência espiritual, e exige que a sua própria vida se rectifique, se volte para Deus. É certo que somos sempre peregrinos a caminho (e não peregrinos que chegaram a um lugar definitivo) mas é uma questão de honestidade espiritual: quem poderá falar de uma fé que não vive com convicção e profundidade? O Deus do qual se fala é tanto mais convincente quanto mais é vivido.

A preparação dos pontos foi, mais literalmente, uma “revisão da matéria” porque consultei uma série de fontes relacionadas com os EE’s que me ajudaram a criar o ambiente daquilo que iria transmitir nos pontos: EE’s já feitos por mim (principalmente os do Pe. Mestre); “O Deus das Surpresas” (de G.W.Hughes sj); “Manual do Peregrino” (do Pe. Antº Vaz Pinto); “Caminhar sobre as águas” (de Anthony de Mello); as histórias e os esquemas explicativos do Pe. Nuno Tovar de Lemos; e muitas outras referências que foram espontâneamente aparecendo na memória.

2. Constatei a solidez da formação já recebida

No confronto com este desafio apostólico vi melhor a qualidade e solidez do percurso feito até agora. Senti-me tranquilo ao desempenhar a tarefa que me foi pedida. Mesmo nas tão temidas conversas senti que ao nível espiritual, graças à porrada de seis anos de EE’s e de vida espiritual mais explícita, havia uma natural facilidade em ler os acontecimentos interiores das pessoas, em sentir e situar o que era dito.

Também ao nível de capacidade de trabalho vi-me a agradecer o stress da vida académica, a estaleca que dá andar a fazer trabalhos a correr, a habituação de ter que cumprir leituras e apresentações em prazos limitados. Isso tudo fez com que me sentisse bastante normal a preparar pontos em “X” tempo e a gerir o tempo sempre mais curto do que gostaria.

3. Constatei também a importância da formação que falta receber

Nas conversas pude também defrontar-me com os meus limites pessoais e de formação. De facto, apareceram situações às quais eu não sabia responder nem dar uma orientação mais clara: “o que é que me está a escapar aqui?”; "como é que poderei ajudar?".

Durante as conversas passava o tempo quase todo a sintonizar com uma comunhão de coração com a pessoa e a pedir ao Espírito Santo que iluminasse a pessoa e a mim. E que fosse Ele a tocar as pessoas. Ao mesmo tempo sentia imensa liberdade quanto aos frutos. Dei-me conta de que não se pode mesmo querer resultados imediatos em matérias que levam anos de sedimentação nas pessoas.

4. Confrontei-me, em directo, com a urgência da cura personalis

O que mais me marcou foi o acompanhamento, as “conversaciones” e, em particular, aperceber-me da presença do mal na vida das pessoas: fosse um mal provocado por outras pessoas como um mal que a própria pessoa vive e do qual não se quer ou não se consegue libertar.

O aspecto positivo disto é que se tornou para mim mais evidente a necessidade e a pertinência do nosso trabalho de cura personalis. De facto, a humanidade, cada pessoa à nossa volta precisa de ser salva, precisa de ganhar saúde espiritual. O inferno não está fora, está dentro de nós. A paz começa pela vida interior.

O contacto com as pessoas foi uma excelente oportunidade para compreender muito mais profundamente as lições dos meus formadores nos últimos anos. Não só percebi que esses cursinhos todos de fim-de-semana e retiros e conferências a que assisti serviram para me moldar e me fazer crescer como também percebi que há uma perenidade na sabedoria espiritual que faz com que ela se aplique a cada pessoa em particular.

5. Andei à procura do meu modelo

Conforme ia fazendo o atendimento ia-me lembrando de alguns companheiros e de como o fariam, tentando encontrar a minha própria forma de estar: “não roer as unhas nem franzir o sobrolho como… X”; “não falar demais como… Y”; “ouvir com atenção a pessoa como… Tsem estar a pensar se correram bem os pontos que acabei de dar ou a pensar na conversa que vem a seguir”; “estar na atitude de humildade amorosa como… Z”; “não deixar a conversa morrer como… R”; “liberdade interior em relação ao que a pessoa possa dizer”; “não reter a pessoa mas mostrar caminhos de liberdade”.

Só no fim partilhei que estes eram os meus primeiros EE’s, não fosse o Mau Espírito fazer das suas e andar a chatear as pessoas com coisas do género “Ah e tal… o gajo não tem experiência”; “é tão novinho: como é que pode saber do que está a falar?!”. Ainda houve quem confessasse que, ao olhar para o Luís e para mim, pensou “Ai! São tão novinhos!”. Mas não foi impedimento.

6. Senti-me a lavar o coração.

A maior graça que recebi foi sentir-me a dilatar o coração com a montanha-russa de vidas, histórias, dores, sofrimentos, apegos, dependências, alegrias e gargalhadas que me passaram pelas mãos e pelo coração. Cada pessoa, um planeta. Uma tarde, várias conversas, eu aos solavancos a acompanhar cada alma em abertura confiada. O meu coração a alargar e a descentrar de mim mesmo. Cheguei a casa com o coração lavado, com a marca da alegria serena.

22 de dezembro de 2006

Mistério(s)...


“Deus fez-se homem, para que o homem se faça Deus”
Sto. Atanásio

Já há muito que gostaria de escrever algo sobre o Natal, mais precisamente sobre o mistério da Encarnação de Deus. Não me ocorria nada em concreto, até ler um comentário que me foi feito no razões do não. O comentário fez-me pensar e bastante.

Já manifestei no Ser Corpo… e no Coisas… uma pequena visão pessoal sobre Deus… Gostava de a aprofundar…

Nos nossos dias, olhando em redor, parece que Deus e Mundo não conjugam. Parecem duas esferas sem relacionamento, sendo uma delas, a divina, intransponível. Se Deus é assim, impessoal e intransponível, a partir deste momento sou ateu. Neste deus não acredito, porque perde todo o sentido mais profundo da relação. Quando comecei a pensar seriamente na minha vocação, percebi que teria de mudar a imagem de Deus. Afinal, o tal Todo-Poderoso, assume a condição humana, tornando-se homem… Na verdade tal acontece, porque uma mulher dá um sim. A sua entrada no mundo não é imposta, é solicitada. Tal é o respeito, que espera pelo sim de Maria.

Jesus nasce da casa de David, segundo nos diz a Escritura. Se formos ver a Sua genealogia, não encontramos pessoas, à partida, muito dignificantes. Ali encontramos uma prostituta, uma mulher adúltera, um assassino, no meio de outros, com mais virtude aos olhos de muitos. O Deus que acredito, faz questão de conhecer a condição humana até à medula… Sem entrar em pormenores, o nascimento de Jesus dá-se na total simplicidade tendo sido deitado numa manjedoura, de um estábulo de animais. Deus, o Todo-Poderoso, por vicissitudes das circunstâncias nasce num estábulo… Os primeiros a reconhecê-lo são os pastores, os marginalizados que viviam fora da Cidade… Outros exemplos podem ser dados para mostrar que, afinal, o Todo-Poderoso não nasceu para uma elite, ou apenas para alguns, mas para todos… E para que todos se tornem um com Ele. Claramente Deus convida-nos a um processo de divinização, só isso é que faz sentido… Ser cristão é ser Cristo!

Na actualidade o Natal é vivido como um simples encontro familiar, onde Deus não entra muitas vezes. Corro o perigo da generalização, mas é o que vejo. Penso que a Igreja tem responsabilidade nisto. Devemos ser os primeiros a mostrar a encarnação com as nossas vidas. A Igreja, se segue os passos de Cristo, deve no seu íntimo, ser a primeira a acolher, sem condenar ninguém. A Encarnação acontece para todos. No comentário é referido entre muitas coisas a falta de respeito pelas mulheres, pelos homossexuais. Refere ainda as incoerências e demagogias em que caímos quando defendemos uma posição. Percebo este comentário. De facto, nós Igreja não temos sido muito acolhedores em relação a algumas pessoas, muito pelo contrário, acabamos por catalogá-las, metendo-as num saco de “coitadinhas” a viverem a sua limitação… Isto não é encarnação. Há pessoas revoltadas connosco e nos dias que correm não lhes interessa o que possamos dizer. E eu percebo que tal possa acontecer…

A Encarnação é um acolhimento, por um lado da humanidade que diz sim à divindade, por outro a divindade que diz sim à humanidade. Como viver isto? Há que escutar a pessoa concreta com a sua história num acolhimento constante. TODOS nós já fomos salvos, precisamente porque Deus encarnou, morreu e ressuscitou. Sim, é preciso a fé… Mas é preciso mostrá-la com obras e com gestos concretos de encarnação. Como é que podemos exigir que alguém entenda a consagração do pão e do vinho; os sacramentos; as celebrações; se não dermos a mão ao problema da pessoa concreta? Se não acolhermos a pessoa tal como ela é com esta ou aquela característica? Consagrei-me (algo que não me eleva a nenhum estatuto especial) porque acredito num Deus Humano, em Jesus, que veio para Salvar, convidando a que todos sejam um, como Ele o é com o Pai (cf. Jo 17,21) … Afinal, Deus fez-se homem para que o homem se torne Deus

Um Santo Natal para todos! Que Ele Encarne nos nossos corações...

15 de dezembro de 2006

A 10 dias do Natal

Estamos a apenas dez dias de distância do Natal. Muito há a preparar, apesar de aparentemente tanto já estar preparado. Mais importante que as decorações infindáveis da época, mais essencial que os presentes está a preparação que tenho oportunidade de fazer em mim, bem cá dentro de mim. O Natal é o melhor momento...
Partilho convosco um soneto escrito por um Jesuíta espanhol e que pode servir também para ajudar a preparar o dia que está quase a chegar.

Soneto da mula e o boi


P
ara adorar a luz recém nascida

e estar contigo quieta e docemente

não quisera olhar tão paciente

nem bálsamo melhor para a minha ferida


que beber esta noite amanhecida

nos olhos do boi, caricia ausente,

parcimónia de amor leve e presente

com que o mundo te dá sua boa-vinda.


Nem nesta brecha do viver desejo

ocupar outro posto nem outro lado

que o silencio que abraça e que estimula


e não há na terra maior céu

que de um recanto olhar-te enamorado

com a humilde presença da mula.


Pedro Miguel Lamet

12 de dezembro de 2006

Minutário de Bruxelas - parte III

Domingo, 26 de Novembro – Bruxelas-Braga

9.39 – Reunião, 3rd round. Olho para os meus colega de reunião. É admirável esta diversidade mas... pensando bem, isto não tem nada de especial. De facto, estas pessoas estão aqui não porque são uui-aai... e tal... mas estão aqui porque alguém lhes confiou esta missão e porque alguém tinha que aqui estar.

9.40 – Por outro lado, esta reunião bem podia ser em Barcelos. Mas é em Bruxelas. Podia ser a 20 Km de Braga. Mas é a mais de 2000 Km de distância. E isso tem alguma coisa de especial? Tem e não tem. Tem porque, por um lado, já há imenso tempo que não andava de avião nem ia tão longe, e por outro e sobretudo, porque mais uma vez vou poder experimentar um pouco da internacionalidade da Companhia. Ao mesmo tempo não tem nada de especial porque, de facto, isto não é mais santificante do que visitar velhinhos num lar de terceira idade ou fazer uma Tarde Fixe com os Gambozinos.

10.16 – Agora fala-se da Europa. Os bom-bons continuam em cima da mesa. Tendo em conta que estamos neste momento numa casa inserida num bairro predominantemente muçulmano, numa das capitais da Europa, o que podemos dizer sobre a Europa? Uma coisa é certa: já não é o que era. Quer queiramos, quer não, estes senhores, todos os imigrantes, sejam eles quem forem, têm tanto direito a viver aqui como outra pessoa qualquer. E fazem parte da história da Europa por direito próprio.

13.40 – O Mark tem a gentileza (extraordinária, sublinha o Dermot) de nos levar ao aeroporto. Saímos do carro e o Enric desabafa: “uf! Ya podemos hablar en castellano!”. Por supuesto!

14.50 – Depois de me despedir do Enric aproveito para fazer a minha oração. Subo dois andares até ao espaço inter-confessional do aeoporto. É um corredor grande tipo centro comercial ao longo do qual estão dispostos, sucessivamente, o espaço católico, ortodoxo, judeu, protestante e muçulmano. Não há budismo, nem hinduísmo por aqui? Aproveito cada um dos espaços para fazer uma oração inter-religiosa e ecuménica. “O que é a vida senão uma procura do caminho de regresso a casa?”. Estes são vários caminhos.

15.49 – Chegando à Porta respectiva do meu avião, espreito, como costumo, o nome do avião. Qual é, qual é? Uau! Agostinho da Silva! Fico deliciado com a surpresa. Já não bastava andar a pensar fazer um trabalho sobre ele, já não bastava, por coincidência, a Joana falar-me espontaneamente dele... e agora isto!

15.54 - Passados cinco minutos chega um grupo de gente e começa também a olhar para o nome do avião e a tecer comentários com grande entusiasmo. Eu não me contenho e pergunto se têm alguma coisa a ver com o Agostinho da Silva. Responde-me um rapaz jovem do grupo, apontando para outro: "sim, este é o filho dele!". Uau! Que coincidência! "Ah! E vocês têm alguma coisa a ver com o Congresso que houve em Lisboa e no Porto e com a conferência que houve em Bruxelas há uns dias?". "Sim! Somos os organizadores"! No meio do entusiasmo apresentam-me como “colega filósofo” ao Pedro Agostinho da Silva, ao realizador do filme sobre a sua vida, “também João”. Eu, maravilhado com aquilo tudo gozo a situação.

16.05 - O filho de Agostinho da Silva pára, emocionado, a contemplar o nome do Pai inscrito no aço do avião. Eu paro a contemplá-lo a ele.

17.22 – Bem… isto de ler Wittgenstein no avião deve dar-me um ar de cromo! A tripulação é muito porreira, muita bem disposta, sorridente. Vê-se que se dão bem. Vou aproveitar para meter conversa com aqueles dois filósofos, para falar um bocadinho sobre o Agostinho.

18.22 – Entramos agora em Portugal: mando um beijinho lá para baixo. O tempo recua uma hora.

19.39 – Lisboa. Tomo um jantar ligeiro com os meus pais, num café na Avenida da Igreja.

21.10 – Já só falta mais uma descolagem e mais uma aterragem.

22.15 – Porto-Braga de carro, com o Gonçalo. À conversa com ele reconheço as coisas saborosas que aconteceram durante todo o fim-de-semana. O gosto de me sentir em casa noutra cidade, noutro país que não o meu, porque simplesmente estou com jesuítas. O gosto de me sentir em casa com os superiores que são, antes de tudo, companheiros como eu, com os quais posso brincar. O gosto da portugalidade além-fronteiras no convívio com a Joana, o Luís, a Marta e a Inês.

23.01 - Home, sweet home. A minha alma pode descansar.

Minutário de Bruxelas - parte II

Sábado, 25 de Novembro – Reunião em Bruxelas

9.29 – A caminho da sala de reuniões reparo no retrato do Pedro Arrupe que está na entrada da casa. Lembro-me de uma frase a descrevê-lo que ouvi do escritor Pedro Lamet na reunião comunitária que tivemos lá em casa: “era una persona que tenía el yo aniquilado!”.

9.32 – Reunião de trabalho. Presentes: o Mark (belga, Provincial da Europa), o Dermot (irlandês, seu sócio), o Enric (catalão, ex-Coordinator Comitee), e os recém-empossados CoCo’s, o Luca (italiano, chairman), o Andrzej (polaco) e eu (tuga). Que diversidade!

10.45 - No meio da mesa de reuniões, uma tentadora caixa de bom-bons belgas. Tiro um bom-bom, não tiro. Tiro, não tiro. Tiro, não tiro. Tiro, não tiro. Tiro. Ã? De que é que estamos a falar agora?

12.30 – Almoço em comunidade. A diversidade de línguas e de raças aumenta mais um bocadinho. Conheço mais alguns membros desta comunidade flamenga. Sopa com carne, outra vez!

13.10 – Engraçado: aqui também há o costume de cada um levar alguma coisa para a copa para ajudar a arrumar a mesa.

14.26 – Metro de Bruxelas. Passeio pós-almoço com o Enric e o Andrzej. Parece que, de repente, fomos parar ao metro de Ankara. Só se vê muçulmanos por todo o lado.

14.35 - Já estou arrependido de ter vindo. Devia ter ficado a dormir a sesta. Já sei que vou morrer durante a reunião logo mais à tarde.

15.00 – Reunião, 2nd round. Agora somos só nós, os miúdos, para discutirmos entre nós os pontos estabelecidos na reunião da manhã.

18.22 - Missa em inglês. O Luca lidera os cânticos de Taizé.

19.12 – Jantar num restaurante que, nas palavras do Mark, “não era caro”. Hum... pois. “Caro” é um conceito relativo, não é?

22.05 – Encontro com a Joana (amiga do Campos e do Fred). Ela reconheceu-nos logo: a pinta de seis homens a passear juntos não lhe deixou muitas dúvidas.

22.31 – Passeamos os dois animadamente pelo centro da cidade. Como se fôssemos velhos amigos. É o que faz a amizade de amigos, e também a portugalidade!

22.34 - Aquilo ali é uma joalharia... ou é... hum? Que é aquilo? Ah! É uma chocolataria. Pois...

22.43 - Encontro casual com três amigos da Joana. Tugas! Entramos num café e subimos ao 2º andar. Não me lembro de viver um sentimento tão grande de portugalidade. Isto é mesmo giro poder conviver com a Marta, a Inês e o Luís, conhecer um pouco do seu passado, dos seus sonhos.

00.57 – Têm a amabilidade de me levar a casa. Para dizer a verdade é um alívio não ter que voltar para casa pelos meus próprios meios. Eu não me lembro de que transportes levam de volta a casa, um dos meus companheiros ficou com o meu mapa... será que o conseguiria? Fiquei sem saber.

Minutário de Bruxelas - parte I


Inspirado na leitura que estou a fazer do “Tratado Lógico-Filosófico” de Ludwig Wittgenstein, todo ele composto por frases curtas, avulsas, minuciosamente organizadas por pontos, decidi inventar o conceito de “minutário”. Se, para dia, está o diário; para minuto, está o minutário. Assim, o texto que se segue é um registo de alguns pensamentos dispersos dos milhares que me foram passando pela cabeça nalgum minuto do fim-de-semana que passei em Bruxelas. Já agora pode interessar saber que o verdadeiro propósito desta viagem teve a ver com as minhas responsabilidades como membro do grupo coordenador dos jesuítas europeus em formação.

6ªfeira, 24 Novembro – Braga-Bruxelas

8.43 – Que treta. Agora tenho que arranjar um saquinho para poder meter a pasta de dentes, o desodorizante e o champô?! Qualquer dia há restrições nos aviões contra a caspa (quem sabe se com caspa e um pouco de Coca-Cola não se pode produzir um explosivo?!?)!

8.51 – O Adão é um porreiraço. Dá-me boleia assim, de um momento para o outro.

9.08 – Comboio Braga-Porto. Um bom momento para rezar sobre a vida do meu companheiro mártir Miguel Pró: “para que servirão o filhos de Santo Inácio, se ao primeiro rebento de um tiro se põem logo em fuga?”.

10.32 – Metro Campanhã. Bonito, sim senhor.

11.27 – Aeroporto. Dou uma gargalhada. Mas que cena marada é esta? Uma vitrine com um monte de objectos apreendidos nos últimos tempos: uma garrafinha de água; um corta-unhas; uma tesourinha; um canivete suíço; um champô; … Que ideia bilhante! Só alguém muito inteligente pode ter tido esta ideia como forma de divulgar as novas restrições para a bagagem de cabine!

12.15 – Este voo está apinhado! Mas quem é que se lembra de fazer um Porto-Lisboa de avião? É preciso gostar muito de andar de avião.

12.43 – Turbulência. Da grande. Alguém se importa de desligar o vento e a chuva lá fora? O corpo aquece. A minha vizinha do lado serve-se do folheto de segurança como leque. Começo a sentir suores frios. A tripulação injecta ar frio na cabine. A turbulência continua forte. Bem… pronto, não resisto mais. Posso ser menos homem por causa disso mas não quero saber. Saco também do meu folheto de segurança. Começo a abaná-lo energicamente. Meu Deus! Quando é que isto acaba? “Avé-Maria, cheia de graça…”. Entretanto vou verificando regularmente se o meu saco de enjôo ainda está no sítio (just in case...).

13.02 – Já recomposto da aterragem reflicto um bocadinho sobre a experiência. Andar de avião mas, mais em particular, as aterragens são uma óptima oportunidade para experimentar o abandono. De facto, em que mais se pode confiar para além de que aquilo há-de acabar bem? E, se não acabar “bem”, o que é que eu posso fazer para o impedir? Nada, absolutamente nada. Nós somos mesmo pequeninos, frageizinhos. Por isso, abandono absoluto, confiança total. O que quer que aconteça, eu estou pronto.

13.43 – Sala de embarque. Lá fora uma chuva torrencial fustiga toda a pista de aterragem e castiga os homens da Groundforce, que continuam a trabalhar apesar das condições adversas. Continuo a pôr a minha leitura espiritual em dia lendo “O Príncipe e a Lavadeira” do Pe. Nuno Tovar de Lemos. “Deus é mistério. Quando digo esta palavra não estou a dizer que Deus não pode ser conhecido, mas sim que Deus pode ser sempre melhor conhecido”.

13.52 - “Não nos devemos impressionar se alguém diz não acreditar em Deus. Em que ideia de Deus não acredita? Esse Deus que ele rejeita e afirma não poder existir, também eu rejeito e julgo sinceramente não poder existir”.

15.26 – Voo atrasado. Leio mais umas linhas: “Tenho uma pergunta, Senhor. É uma pergunta um pouco embaraçosa. Os meus colegas dizem que Tu não criaste nada. Que tudo aconteceu numa grande explosão, há muitos milhões de milhões de milhões de anos”. “Bem – responde o Senhor – imagina que Eu decidi criar através de uma explosão...? Não posso criar da maneira que achar melhor?”.

16.04 – Voo Lisboa-Bruxelas. Ao meu lado está um miúdo grego de quatro anos. Pego nas instruções de segurança, viro-me para ele e digo-lhe “Olha, tu já leste isto? Tens que ler, hum?”. Ele, muito contente, pega no folheto e fica a olhar. Descolagem. A minha Lisboa lá em baixo. Ali… o Parque das Conchas… ah!... e mesmo ao lado… o (daqui) pequenino (e cada vez mais pequeno) São João de Brito. Vem-me à memória a “Operação NODDY”. Como é que terá corrido? Eu aposto 52 miúdos (tamanho 7ºano) a caberem dentro do gabinete do Branquinho.

16.53 – Belo lanche. Belo pôr-de-sol. Por baixo, nuvens. Por cima, o céu. Leio o conto que dá o nome ao livro, “o Príncipe e a Lavadeira”. Uma autêntica lição sobre o Amor inspirada na Encarnação. Diz o Pe. Nuno que as tentações do Homem em relação ao Amor são: 1ª, a tentação do “dar-se sem se dar” (tirar proveito do amor mas sem se comprometer); 2ª, a tentação do “fazer coisas em vez de estar” (valorizar a produtividade, a eficiência, em vez da presença); 3ª, a tentação do “dar a mão sem se abaixar” (pensar que se pode amar sem descer, sem perder algo – estatuto, tempo, dinheiro); 4ª, a tentação do “dar-se para se preencher” (confundir carência afectiva, querendo o prórpio bem enão o do outro); 5ª, a tentação do “vender-se para agradar” (ajustar-me à imagem que quero que os outros tenham de mim em vez de ser eu próprio); 6ª, a tentação do “manipular o outro para não o perder” (seduzir o outro de maneira a que ele não possa recusar o amor).

18.47 – Aterragem em Bruxelas. Afinal está melhor tempo por estas bandas.

18.55 – Ah! Estou sózinho: posso fazer o que me apetecer!!! Pois… sim, e então?

19.03 – Estação do comboio de ligação aeroporto-cidade. Ai, estas sinaléticas! Se eu mandasse nisto! Não se percebe nada de nada. O que vale são os cidadãos anónimos. “Excuse me... how do I know when will my stop be?”. Responde-me o rapaz: “I Know!”. Pronto, entendido!

19.28 – Estação Norte. Agora é fácil. É só seguir as instruções que me deram. Hum… esta rua é um bocado escura. Este bairro não parece propriamente de classe alta. Hum... pensando bem... média também não me parece. Mmm… é olhar em frente e fazer um passo decidido como se fosse um “local-guy”. Passam dois por mim. Uf! Continuo. Chego à casa dos jesuítas. Não sei porquê, reconheci-a logo. Tem mesmo pinta de SJ.

20.15 – Em casa. Recebe-me o Franz. Um tipo engraçado. Dá-me de jantar. Ah! Os belgas também põem carne na sopa (afinal não sou só eu)! Chega o meu companheiro italiano Luca. Surpreende-se com o tamanho do meu cabelo.

21.34 - Serão de conversa com ex-missionários do Congo, a saborear a cerveja da Trapa (álcool a 9%!). Faço o esforço cultural de a saborear. Um deles, fazia caminhadas de três semanas pelo meio da selva para visitar as tribos perdidas. Comia carne de macaco (minhami!). Conta que uma vez estava a comer um braço de macaco que parecia mesmo de uma criança e que lhe fez impressão. Ah! Quem diria?!

23.27 – Ponho a conversa em dia com o Luca, no meu quarto.

0.37 – Antes de me deitar, ao recordar o dia, olho para o meu companheiro de viagem e penso “que livro este! O Pe. Nuno ao seu melhor nível! Parece uma espécie de Best of dos anos em que o ouvi no CUPAV ou dos dois anos de em que o ouvi como Pe. Sócio no Noviciado”.


6 de dezembro de 2006

Quero ser um televisor

Uma professora pediu aos alunos que fizessem uma redacção e que nela relatassem o que gostavam que Deus fizesse para os ajudar a ser felizes. À noite, ao corrigir as redacções, ela deparou-se com uma que a deixou emocionada. O marido, ao entrar perguntou preocupado: “O que aconteceu?!". “Olha: lê!” respondeu ela, estendendo-lhe a redacção do aluno.
Dizia assim:

Senhor, esta noite peço-te uma coisa especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a televisão da minha casa. Ter um lugar especial para mim, reunir a minha família ao meu redor. Ser levado a sério quando falo, ouvirem-me até ao fim… como acontece com a televisão. Quero ser o centro das atenções e ser ouvido sem interrupções e sem perguntas, como com a televisão. Ter a companhia do meu Pai quando chega a casa, mesmo estando cansado. Que eu seja motivo de descanso e de alegria para ele. Que a minha Mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. Talvez a possa ajudar fazendo-lhe companhia. E quero também que os meus irmãos briguem para poderem estar comigo.

Gostava de sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E que eu possa divertir a todos. Senhor, não te peço muito. Só quero ser como um televisor”.

Ao terminar, o marido da professora desabafou: “Meu Deus, coitada dessa criança! Que falta de cuidado, a desses pais”. “Pois… “ - completou a professora – “essa criança é o nosso filho mais novo”.

(in: Revista Cruzada, Janeiro 2007)

5 de dezembro de 2006

Quero dizer-te uma coisa...


Bem, não sei por onde começar... Já há muito queria dizer-te isto mas não consegui arranjar oportunidade. Já sabes como é, vamos adiando, deixamos passar aquela outra vez em que por acaso nos cruzamos. Porque será que é tão difícil dizer aquilo que queremos dizer,que precisamos de falar? A comunicação é tão exigente, pede tanto esforço e sinceridade que muitas vezes preferimos o silêncio.
De facto, como posso exigir que me percebas se não sou capaz de te dizer aquilo que me separa de ti? Como posso ofender-me, sentir-me desiludido se por nenhuma vez fui capaz de me dar a conhecer? Quantos silêncios mal geridos me foram destruindo a serenidade interior! O silêncio é aquele pedaço de estrada que nos está a separar.
Na Antiguidade Aristóteles afirmou que o homem é um animal social, só se concretiza como pessoa no encontro, no diálogo com os outros. É no outro que me encontro, que existo. Não fui feito para viver sozinho. Nenhum homem é uma ilha.Para o outro só me posso dirigir por minha iniciativa. Para quê tantas costas voltadas, tantas barreiras construídas à minha volta? De que adianta este medo do confronto com a verdade? Não valerá a pena optar pela sinceridade? Só isto me pode conduzir a ti.
Vale a pena construir relações fundadas no diálogo sincero. Só aí sou capaz de abater as barreiras que nos separam, atenuar as diferenças, construir a união. Pedimos a paz para o mundo, a paz para os homens, a paz entre as nações mas muitas vezes somos os primeiros a deixar construir os pequenos conflitos.
Bem, hoje quero dizer-te...

"Quando o coração fala vencendo o medo revelam-se as mentes. Lembro uma assembleia de oração que já ia longa, em que os adultos repetiam: "Eu queria pedir por isto e mais por isto... E também queria pedir por..." Até que uma criança se levantou e disse: "Eu queria pedir para me ir embora!" Deus gostou. E ouviu-o. A sessão acabou ali."
In: Não há soluções há caminhos, Pe. Vasco Pinto de Magalhães