27 de janeiro de 2007



Quando é que começa a vida humana?


Aos argumentos que se passeiam de panfleto pela campanha do próximo referendo poder-se-iam aplicar algumas multas por objecção de inteligência ou por violação de valores secretos, contudo eu apenas lhes ponho uma pergunta: Quando é que começa a vida humana?

Peço desculpa pela minha violenta e desinteressante intromissão, pois certamente acharão a minha pergunta retrógrada, enfadonha, que é como quem diz, Kota.

De facto, sinto-me intimidado pela discussão de bairro em que a campanha se tem tornado e percebo que a minha pergunta não venha a propósito e que seja rejeitada pelos panfletos que em vez de clarificar acusam a posição contrária, pelos monólogos a dois, pela argumentação contra (eu defendo o X porque não gosto do Y), pela exploração da vida privada de quem publicamente faz campanha (esses senhores do X são uns…).

Contudo, penso que este é o problema: Se a vida humana começa no momento da concepção, então o aborto é sempre um crime (quer as mulheres sejam julgadas ou não); Se a vida humana só começa às dez semanas, então o aborto só é crime a partir das dez semanas.

Julgo que a pergunta sobre a vida humana não é uma questão futebolística se a bola entrou ou não na baliza, se foi ou não foi grande penalidade, e muito menos uma questão adolescente de irreverência do contra. As conversas diárias muitas vezes não ultrapassam o tempo, se faz sol ou chuva, ou o futebol. Talvez este referendo seja uma oportunidade para cada um de nós tocar o sentido da Vida, num diálogo que não se faz com o café mas com o Outro, olhando-o no Rosto, reconhecendo-o Pessoa.

Pergunto: Qual é o sentido da minha vida? O que faz com que a minha vida seja Vida?

7 comentários:

Anónimo disse...

Bem apontado, Carlos.
Acho que é essa mesma a questão central de qualquer discussão sobre o assunto: "quando começa a vida humana?" ou, "quando podemos dizer que há ali uma pessoa?".

O problema da discussão é que os dois lados se focam em aspectos diferentes do problema: os do "não" focam-se na pessoa que é abortada; por seu lado, os do "sim" focam-se, básica senão mesmo exclusivamente, no sofrimento da mulher que aborta clandestinamente.

Podemos construir um silogismo com os princípios básicos do "sim":

1.As mulheres que abortam não podem continuar a ser presas e castigadas; 2.se o aborto for crime elas vão continuar a ser presas e castigadas; 3.logo, o aborto não pode ser crime.

E continuando o raciocínio:
4.Se o aborto não pode ser crime;
5.se apenas há crime se houver vida humana ali implicada;
6.então, não há vida humana quando se faz um aborto.

Lógico, não é? Pois... o problema é que está tudo do avesso!

De facto, ambas as partes concordam que o julgamento, a condenação e o sofrimento todo daí resultante que possa haver das mulheres que abortaram é um mal. Ambos os lados querem evitar isso. Mas divergem na solução para o problema: os do "não" propõem que se actue preventivamente de forma a que nunca se elimine a vida humana; os do "sim" preferem continuar a recorrer ao aborto mas evitando o seu lado "negativo" (os julgamentos, as condenações e os sofrimentos daí resultantes). E propõem isso como se fosse uma grande coisa!

A realidade é que o aborto é uma violência! O problema dos do "sim" é não perceberem que o pior castigo que se pode dar a uma mulher que aborta são já todas as repercussões que isso terá na sua vida (independentemente de haver ou não o "lado negativo"). E falam do aborto como se fosse tão inócuo como um método contraceptivo! Como se fosse tão simples como uma pequena cirurgia!
E, depois,também não percebem que o desrespeito pela vida humana levará a que sejamos cada vez menos sensíveis àquilo que nos distingue como homens... com que consequências? Como diz uma pessoa de grande autoridade: "O homem não vem do macaco; o homem vai para o macaco!".

Anónimo disse...

Olá filósofos, boa noite a todos! Ainda não sei muito bem por onde começar, mas vou escrevendo, despreocupadamente, e o essencial virá à tona de água. Assim espero.
Esta pergunta “aonde começa a vida humana?”, quanto a mim não precisa de ser respondida. Porque caso haja desacordo na resposta – ou começa na concepção do óvulo ou mais adiante, não se sabendo muito bem quando – eu pergunto: “porquê 10 semanas e não 9 semanas e seis dias, ou 11 semanas?” A vida humana é matematizável ao ponto de dizermos universalmente que às 10 semanas, há o click mágico que faz do feto um ser pessoa? Ora, o desenvolvimento da vida humana não acontece de forma matemática como se às 23 h do dia 6 de Janeiro, o feto x não fosse pessoa e à 1h do dia 7 passasse a ser. Faz sentido? Depois, acontece uma expressão que a mim pessoalmente me trás alguns arrepios: o feto não tem personalidade jurídica. Bom, mas então é porque às 11 semanas passou a ter, sabe-se lá porque razões. Saber, até sabemos: funcionamento do cérebro, formação de todos os órgãos do ser humano, etc. Aquilo que toda a gente sabe de cor, menos eu. Apetece-me ainda perguntar: de um feto de três semanas poderá vir uma árvore ou um pássaro? Se sim, desconhecemos por completo a dimensão biológica do ser humano; se não, então há qualquer coisa no feto ou no zigoto que faz dele pertencente à espécie humana. Caso contrário, poderemos estar à espera de menino ou menina e nascerá…quem sabe uma borboleta. Portanto, existe vida humana desde o momento da fecundação. O engraçado é que até aqui muitos do “sim” concordam. Agora eles discordam quando dizem que há apesar de existir vida humana não se pode dizer que esse feto seja pessoa. Quanto a mim entramos aqui numa grande confusão: pensar que há ser humanos que podem não ser pessoas. Sobre isto escrevi um artigo em: http://toquesdedeus.blogspot.com/2006/11/ser-humano-ou-ser-pessoa.html
Julgo que é mais fácil ler o artigo do que estar aqui a repetir-me. Concordam?  Não me alongo mais que se faz tarde. Um abraço a todos.

Anónimo disse...

Acho que isto merece divulgaçäo, por isso o proponho a publicaçäo no vosso blog. Obrigada! Marta aci

Música interessante, legendada em português:
http://www.youtube.com/watch?v=5foecye1o00&mode=related&search

Um correio que a minha irmä escreveu aos meus primos depois de uma conversa de café sobre o referendo do aborto (todos a favor menos ela).

Queridos primos,

Não sei como hei-de dizer tudo o que quero dizer-vos, mas cá vai a minha fraca tentativa.
São 6:07 da tarde de Sábado e eu acabei de chegar a Esposende, onde vim tomar banho e trocar de roupa para ir à festa de uma minha amiga. Ainda queria passar pela Eros para me maquilhar e para escolher uma prenda e depois às 7:00 convém que vá fazer a hora de jantar da minha empregada da parafarmácia. O meu jantar é às 8:30.
Digo isto para que vocês saibam que me pesa imenso o factor “realidade”.
Portanto, não estou a viver um momento filosófico, nem romântico, nem sentimentalista.
No entanto, à vinda para Esposende, vim a chorar como uma Madalena arrependida. Convém lembrar que eu nunca choro. E que também não estou com disposição diferente daquela com que me deixaram há pouco. Estou como vocês me viram, ou seja, bem.
Mas meti-me no carro e pus o CD da Aretha Franklin e ao ver o lindo fim de tarde que estava desatei num choro compulsivo.
Porquê? Por todos os amantes da Natureza, por todos os rapazes que têm um sorriso lindo, por todas as mulheres que se apaixonam e vivem momentos maravilhosos alguma vez na vida, mas que não chegaram a nascer e que, portanto, não chegaram a ver fins de tarde bonitos, nem a rir-se com os amigos, nem se sentiram transportados para o céu quando se apaixonaram.
Iam ser pobres, se tivessem nascido?
Os pobres, os miúdos dos orfanatos não se apaixonam nem riem e não gostam de apanhar sol?
Lembram-se daquela cena do filme “A Vida é Bela” (sim, porque a Vida É Bela!) em que os convidados do casamento se indignam por causa da dificuldade de cálculo exigida a crianças alemãs de poucos anos em contarem ?Quantos judeus sobram de um grupo de 7 se matarmos 3?? É de rir, é de chorar. A pobreza nesta discussão é a parte acessória, assim como a dificuldade aritmética.

Ouvir Aretha Franklin? não sei, lembrei-me dos pretos (dos negros, que é mais poético) e das suas lutas pela liberdade.
Se eu vivesse nessa altura, do fascismo ou da escravatura, imagino-me sempre a ser rica, a ser da parte dos “maus”, mas “boazinha”, tipo, ía olhar para os pretos e para os judeus e ver que “oh pá!, eles até são seres
humanos!” e que ía ter imensa pena e que não os matava.
Mas eu não quero ficar do lado errado da História. Eu queria ser dos que lutam pelos direitos dos homens, eu queria ser grandiosa. Não pelos pretos, não pelos judeus. Por mim! Queria ser dos que lutam pelos direitos dos homens porque são essas as pessoas que têm as cordas do coração mais afinadas, tão esticadas que até doem.
Não queria ficar do lado dos que mais ou menos acabam por não fazer mal nenhum.
Hoje ao vir para Esposende, ao ver o fim da tarde (não o pôr-do-sol que é piroso) e ao ouvir a preta a cantar um “soul so chic, so cool”, comovi-me.
Chorei pelos miúdos que não nasceram, mas muito mais pelos que nasceram, mas ficaram zombies, mornos.

Eu sei que os miúdos dos orfanatos são problemáticos, sei que sofrem horrivelmente, que são revoltados, que a pobreza e a solidão dói mais do que eu posso imaginar. Mas também sei que ser rica, ser gira, saudável e
inteligente como eu (eheh) e como vocês (ahah!) também dói. E que desilude. Que cansa e que revolta. Sei que todos temos problemas e, se querem saber, os meus doem-me sempre muito mais do que os dos outros. Sei que às vezes passam-se meses sem graça nenhuma, sem brilho. E que trabalhar cansa, que os pais, irmãos e filhos aborrecem e magoam muitas vezes.
Mas sei que já experimentei amar. Já vi o mar, o dia, a noite, já ouvi música, já passei o Natal na quinta, já comi fruta incrivelmente boa, tive amigos, apaixonei-me, vi filmes maravilhosos, já amei a Deus e sei, espero
(tenho esperança!) que tudo volte a acontecer mais vezes. É incrível mas eu vejo a luz do dia todos os dias e amo gente todos os dias. Há Natal todos os anos?
Vivo todos os dias e quase todos os dias são só mais um. Mas no meio deles há imensas oportunidades de eternidade ? digo eu que já experimentei.
Eu vivo para momentos desses. Como vocês, certamente. Como toda a gente. Não é de certeza para o carro, para a casa, para a passerelle do sucesso nem para a reforma que vivemos.
E os pretos? E os judeus? Também, calculo. Vivem para amar ou, pelo menos, para momentos em que sentem melhor ou mais o amor. Penso que os que deviam nascer e acabam por não nascer também era para isso que viveriam. Para marcar golos no campeonato inter-orfanatos e para se apaixonarem adolescentemente pelo giraço que tem um pequeno problema com as drogas. Quem sou eu para censurá-los?
Vou matá-los? Ou permitir que o façam?
Vou deixar que todo o desenvolvimento científico, que a riqueza de um país, que a luta pelos direitos do Homem me adormeçam, me insensibilizem a tal ponto que eu me torne na filha do senhor esclavagista que até é boazinha ou no soldado nazi que resolveu não matar aquele judeu?
Certamente que a filha do esclavagista e o soldado judeu eram pessoas do seu tempo e que foram bons e “mereceram” nascer, que foram bons na medida em que a realidade à sua volta e o seu entendimento da mesma lho permitiram.
E se eu olhar para o relógio vejo que são 6:45 e que ainda não tomei banho nem me vesti e que já não me vou maquilhar e, portanto, não vai ser hoje que vou sacar o engenheiro jeitoso na festa. E, no meio desta realidade e do meu entendimento sobre ela, sei que se ligar a televisão vejo o triste noticiário e a seguir a divertida telenovela e que me esqueço de tudo e nem sequer vou querer passar esta carta a computador para vos enviar por email.
Sei que o “choque de realidade” é poderoso e quase nos mata a todos o gosto de viver. Mas é porque gosto de viver que vos escrevo. É porque amo o mundo, os que vão nascer, os que por cá andam e a vocês muito concretamente.
Por isso, é que vou votar não à legalização do aborto ou à pergunta qualquer que ela seja no dia do referendo.
E é por essa mesma razão que eu acho que eu, vocês, os que por cá andam e os que hão-de nascer devemos todos trabalhar mais no “voluntariado” e nos “orfanatos” e na política, nas perfumarias, nos bancos, nas escolas e nos meios de comunicação, de forma a que todos vivam melhor.
Sou hipócrita, sim? mas é porque faço apenas um milésimo do que nasci para fazer. Amo pouco; às vezes, o choque de realidade, os noticiários, a “saúde pública”, o trabalho, a falta de dinheiro ou o medo que ele falte,
me fazem esquecer que uma viagem para Esposende ou um café com a família podem fazer com que valha a pena nascer.

Rita



Bem, afinal não acabei.
Estou no Centro fármaco a fazer a hora de jantar. São 7:30. Vou chegar atrasada. (Meu Deus, como sou uma sacrificada pelos pobrezinhos!)

Eu sei que há óptimos argumentos para o sim. O melhor é o de “vai continuar a fazer-se abortos, só que em situações precárias”.
Em primeiro lugar, para todos os argumentos do sim, há contra-argumentos do não, claro e vice-versa.
Em segundo lugar, o que eu acho que é que “males” haverá sempre. O problema é que a coisa é muito mais profunda que as condições precárias dos abortos ou do julgamento das mães.
A questão é o que leva as mulheres a abortar. A pobreza, a vergonha pública, o medo dos pais,?
Eu acho que nós contribuímos com o facto de sermos ricos e não distribuirmos, com o facto de sermos giros, termos estilo, sermos inteligentes e termos sucesso (sim, eu também sou assim), contribuímos com as nossas opiniões, estilos de vida, comportamento e omissões para que as “mães solteiras” Tenham vergonha de o ser, para a ambição dos pobres em serem ricos e em querem dar aos filhos aquilo que eles não tiveram?
Por isso é que eu acho que o trabalho é muito mais extenso do que só votar não. O trabalho que temos de fazer é dar condições aos outros, não julgarmos, o de definir as nossas prioridades e passá-las aos outros, é o de
trabalhar para o Reino de Deus (lamento o incómodo da expressão). Reino de Deus é o sítio (este) em que as pessoas têm condições para ver mais fins-de-tarde, reparar melhor nas músicas e amar de forma mais pura. É o
sitio em que todos são mais santos, mais Schindler (da “Llista de Schindler”), mais Luther King e menos “oh pai!, dá só três chicotadas; não é preciso serem dez”.

Beijos e beijos,
Rita

PS : Espero não ter estragado o gosto por Aretha Franklin.

elsa nyny disse...

Filho!

Era Outono, e as folhas começavam a desprender-se
Dos seus ramos,
O sol começou a ir embora mais cedo,
Mas, eu tinha mais Luz,
Para me iluminar, antes do sol,
E também depois do sol...

Senti a tua vida, desde o princípio,
Não necessitava relatórios médicos,
Nem análises ou contra-análises,
Senti que eras eu, mas um eu
Que não cabia em mim,
Que era muito grande,
Foi aí que entendi,
Eras eu...mas eras já muito mais tu!

Não tinhas rosto, mas eu já te amava,
Era o amor que estava em mim,
Eras tu...
Que provinhas do amor,
Que estavas no amor,
E que eras para o amor,
Tu eras o amor em mim
E eu para ti, também era o amor,
O primeiro que conheceste!

Foi com amor que me vi crescer,
E com amor que tu cresceste em mim,
Num laço Sagrado, em que te sentia,
Muito antes de tu te fazeres sentir!

Como era bom falar contigo,
E as músicas que ouvimos,
E as gargalhadas que demos,
De mão dada, pela vida!

O mundo podia cair lá fora,
Mas nós estávamos protegidos,
Éramos três, o amor era dos três,
Mas tu habitavas em mim!

Não fui a primeira que te vi,
Mas acredita,
Fui a primeira que te amei,
Com um amor,
Que não consigo exprimir
Em palavras...l


Obrigado, Filho!
Adoro ser tua Mãe!


posted by elsa nyny

****
Olá!
Deixo-te um poema meu...como resposta á tua pergunta!!


Tudo de bom!!!

:))

Discípulos disse...

Caro Sócio,

A vida é muita complicada... basta ser vida e vivida.

Em relação à última frase a resposta é fácil seu preguiçoso, basta teres nascido.

:)))

Orações e um grande abraço

Discípulos disse...

Recordamos os últimos momentos da nossa Querida e Santa Irmã Lúcia antes de "Nascer" para a Plenitude do Amor de Deus, a 13 de Fevereiro de 2005 pelas 17:25h.

"Sim, naquele momento, o seu olhar que se apagava para esta vida, abria-se à Luz Eterna de Deus! Num dado momento, inesperadamente, aqueles olhos que tantas vezes contemplaram o Invisível, abriram-se! Olhou todas as Irmãs. Depois voltou- os para a direita e fixou os meus. Não consigo descrever a profundidade desse olhar! Foi impressionante. Coloquei o crucifixo nessa direcção e em seguida voltou a fechá-los. Foi a despedida." (Irmã Celina, Madre Superiora)

Para além de recordarmos o dia do seu nascimento para a Eternidade, convidamos-te a partilhar, em intimidade, no silêncio da alma a Santidade.

freefun0616 disse...

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