6 de janeiro de 2007

Um ano bom, assim-assim, ou para esquecer?


Tenho que confessar que fiquei irritado. Um dia destes, enquanto estava na galhofa, sentado numa mesa com outros colegas no bar da faculdade, encontrei um colega que já não via desde o ano passado e desejei-lhe um Bom Ano. Ao que ele me respondeu, com ar bastante resignado, “hum… vamos lá a ver!”. A conversa depressa se lançou para outros assuntos mas, eu fiquei interiormente a remoer aquilo: “VAMOS LÁ A VER”?!?. Como é que alguém começa um ano novo a dizer “VAMOS LÁ A VER”?!?.

A questão, parece-me, não é se 2007 será ou não será um ano bom, assim-assim, ou para esquecer. Essa é uma perspectiva que parte do triste pressuposto de que dependemos vitalmente de uma qualquer realidade exterior, a que podemos dar vários nomes:

-o nome de destino: “como não ainda sei o que (me) vai acontecer, então ainda não sei se (me) vai ser um ano favorável”;

-ou sorte: aquela que nos é revelada pelos astrólogos baratos das revistas cor-de-rosa - “este ano vai acontecer uma acidente na sua vida”; “este ano vai ter uma surpresa” (obrigadinho!... para saber isso não é preciso ser bruxo!);

-ou azar: sendo nós vítimas de tudo, vítimas dessa entidade a que chamamos “eles”: “sou vítima do governo pelos impostos que me obrigam a pagar”; “sou vítima da sociedade de consumo que me afoga em dívidas”; “sou vítima da televisão que me impinge horas e horas de telelixo”; “sou vítima da entidade empregadora porque me obriga a fazer horas extraordinárias”; “sou vítima do totoloto porque nunca me saiu o primeiro prémio”… and so on, and so on.

A questão não é: será ou não será um bom ano. Ele é, de facto, um bom ano (nem que seja porque é novo). E, por isso, a questão é antes: “o que é que eu vou fazer para que seja, realmente, um bom ano?”.

Parece-me que a chave disto tudo é que frequentemente nos demitimos do nosso papel no mundo. É mais fácil deixarmo-nos levar pela maré (seja ela a opinião dos outros, os alinhamentos planetares, o destino, a sorte, o totoloto, o deixa-andar), e é mais confortável depender do que nos acontece do que fazer com que aconteça.

E, por isso, esquecemos que o nosso papel é feito de actividades e passividades. De actividades naquilo que depender de nós: sonhando, trabalhando, suando, dando tudo para alcançar o melhor de que somos capazes. E de passividades naquilo que não está nas nossas mãos: aceitando as mudanças e aceitando a dor e as lágrimas que elas implicam, deixando morrer sonhos que já passaram de validade e aceitando os novos que a vida vai proporcionando, adaptando-nos à dinâmica da vida.

Como dizem as sábias palavras do Pe. Vasco (no “Não há soluções, há caminhos”): “Temos um Ano Novo pela frente, mas começar de novo não é começar outra vez, não é repetir alguma coisa, é começar de outro modo, com novidade. E o primeiro gesto devia ser o de agradecer esta imensa oportunidade. Este ano será aquilo que fizermos dele: se cultivarmos uma atitude de egoísmo e individualismo, será assim; mas se nos compremetermos com a construção da paz e da justiça no mundo, então teremos um bom Ano Novo. Há uma imensa sabedoria em viver cada dia como se fosse o primeiro e há uma imensa felicidade em viver cada dia como se fosse o último. As duas coisas são possíveis ao mesmo tempo”.

Por isso, este ano, não transmiti aos meus familiares e amigos o desejo de “que tenham um bom ano” mas rezo para “que seja um ano cheio de [que cresçam na relação com Deus], esperança [que sintam que a vida vale a pena] e caridade [que a sua vida transborde para os outros]”. Porque é disso que depende a verdadeira felicidade. E porque isso apenas depende do que cada um fizer ou deixe fazer.

4 comentários:

Anónimo disse...

BOA!

woodpecker disse...

obrigado pelas tua palavras João!abraço, Tiago M.

(Com)verso disse...

olá!
então também aderiste à blogosfera? Bem me parecia que não resistias... Fico muito contente por todos podermos partilhar o quanto Deus faz em ti.
Tu e todos os da companhia.. que saudades... Enfim, continuo convosco no coração e rezo por vocês.
Um beijo grande, Teresinha*:)

Anónimo disse...

É exactamente isso! Post excelente!

Parabéns pelo post e pelo blog.

Jinhos,

Joana