22 de abril de 2007

Há boas desilusões?

Tenho passado uma fase de desilusões. Desilusões com capacidades que pensava ter e não tenho. Desilusões com coisas que eu pensava que Deus curaria em mim e afinal não parece interessado em curar. Desilusões com a vida espiritual porque pensava que tendo uma vida espiritual activa os meus problemas interiores se esfumariam. Desilusões com a vida religiosa porque pensava que enveredando por este caminho uma aura de santidade me cobriria e a paz me preencheria definitivamente por dentro. Desilusões atrás de desilusões.

Curiosamente ainda estou vivo. Ou seja, tenho sobrevivido a essas desilusões. Pergunto-me porquê. Pergunto-me ainda, tentando encontrar resposta para isto: será que as desilusões são necessariamente más? Será que devemos evitar as desilusões enquanto pudermos? A resposta é não. Claro que são duríssimas. A ninguém lhe pode apetecer ter desilusões. Mas as desilusões são todas boas na medida em que são des-ilusões. Ou seja, são destruidoras de ilusões.

Ora, a saúde interior, espiritual, psicológica, trata precisamente de uma constante adequação à realidade. Por isso, as des-ilusões são dos melhores contributos que podemos ter para esse trabalho. E parece-me que as temos em dois modos: des-ilusões regressivas e progressivas. As regressivas são as mais duras: exemplos destas são os que referi atrás: situações ou capacidades que idealizamos de tal forma, sejam em nós, seja nos outros, seja em Deus, que estão muitos furos acima ou ao lado da realidade. Afinal não existem. As progressivas são menos duras pois consistem em surpresas que temos diante da vida: situações ou capacidades com que não contamos, em nós, nos outros, em Deus, e afinal elas aparecem, acontecem de uma forma imprevisível. Quando tudo parecia fechar-se sobre nós, eis que subitamente abre-se uma porta, um muro se derruba, e um novo horizonte surge.

De uma forma ou de outra, ambas conduzem a um contacto mais real com a vida. Mas para que possam acontecer temos que estar obrigatoriamente abertos à novidade. Temos que estar disponíveis a alterar o nosso mapa da realidade. Temos que estar livres para mudar de paradigma. Se assim não o fizermos, não faz mal: a própria vida tratará de nos abanar até que nos convençamos de que o devemos fazer.

Para além disso, a verdade é que os dois tipos de des-ilusões se relacionam intimamente. Fazê-los surgir em sequência é uma técnica, ao que parece, muito usada por Deus: secar-nos de tal maneira, des-iludirmo-nos de tal forma connosco mesmos, com a realidade tal como a vemos, que, em desespero, num vazio abissal, numa morte total de nós mesmos, abre-se espaço para algo que nos transcende e nos vemos sem mais a quem recorrer do que a Ele em Pessoa. Quando chegamos aí, então surpreendemo-nos com o encontro com Deus. Com a vida em abundância.

E tu? Já tiveste boas desilusões na vida?

5 comentários:

João Delicado, sj disse...

(Suplemento do "post")

Um exemplo de des-ilusão progressiva que me aconteceu recentemente foi este: tínhamos ido, como de costume, jogar futebol para o campo do Seminário de Braga; ainda estávamos no aquecimento, eu decidi testar a potência do meu remate contra as redes laterais do campo e… ups! Lá foi a bola parar ao muro alto que delimita o espaço. Impossível de lá chegar ao topo dos 10 metros de muro! Passado um minuto ou dois, o Mota remata à baliza e… ups! Lá foi outra bola parar à vizinhança. Desta vez tinha caído no pátio das traseiras de um edifício. Lá nos empoleirámos entre muros, redes e telhados e… bom, o último obstáculo era estarmos em cima de um telhado com uma altura razoável e termos que saltar para dentro do pátio. A única solução: uma árvore junto desse telhado. Mesmo assim… pareceu-me difícil voltar a subir. Medi a altura, hesitei, saltei. Apanhei a bola e devolvi-a lá para cima. Quando dei por mim, fui capaz de subir a árvore com muito maior facilidade do que pensava! Expandi a noção que tinha de mim como trepador. Agora sei, que da próxima vez, serei capaz de um desafio ainda maior.

É engraçado que passados uns minutos tive outro exemplo de des-ilusão mas, desta vez, regressiva. Numa defesa meio desengonçada, enquanto estava à baliza, dei um chuto não na bola mas na sola da chuteira do Carlos e, naquele momento, tive a sensação de rebentar o peito do pé. Bolas!... gritei eu por dentro. Eu, que gosto tanto de correr, fiquei logo arrumado para o resto do jogo. E, pior que isso, pus em causa a minha ida à peregrinação no próximo fim-de-semana! Essa peregrinação para a qual já me mentalizei, com a qual estou mesmo entusiasmado e tenha andado a esfalfar-me durante estes dias para ter os meus trabalhos para a faculdade em dia! Ainda agora não sei se poderei fazer a peregrinação mas tive que assumir que posso não ir e pronto.

Estes são exemplos muito práticos. Mas desafios como estes acontecem interior e exteriormente todos os dias. Resta saber se estamos preparados para mudar a ideia que temos de nós mesmos e da realidade.

ERute disse...

Sim, já tive boas des-ilusões...
O que me acontece com alguma regularidade é que no momento nem me dou conta delas, mas quando páro ao fim do dia e reflicto no que vivi - vejo-as.

Hoje tive uma des-ilusão progressiva, e vou-te contar.
Tinha de ir dar catequese a Monsaraz ao 3º e 5º volume, sabia que tinha de ir falar de Cristo Ressuscitado. Não sabia como abordar o tema. Depois de muito tentar "inventar", acabei por decidir fazer um cirio em papel e desenvolver apartir daí.
O bom é que os meninos participaram imenso e pareceu-me que estavam mesmo a entender o que lhe tentei transmitir.

Foi mais uma experiência que me senti instrumento nas mãos de Deus.

J disse...

João,

Gostei imenso deste post, acho que faz todo o sentido o que diz, ainda bem que temos desilusões, porque acabamos de vez com ilusões, e não podemos de maneira alguma viver em ilusões utopicas.

Acho que devemos tirar sempre algo de bom em todas as situações e das desilusoes so temos coisas boas a tirar.

Um grande beijinho em Cristo

Grão Mestre disse...

A Confraria dos Santos Mártires, que há anos vem ajudando e apoiando jovens homossexuais a lidarem com a família, os amigos e os seus próprios fantasmas, tem agora um novo blogue. Ajuda-nos a divulgar esta associação de fieis devotos, católicos sem complexos, e todos homossexuais praticantes. Deus te Guarde,

Grão Mestre

freefun0616 disse...

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