9 de junho de 2007

Com ou sem maquilhagem?

Enquanto estudante na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, ouvi uma vez uma história, contada por um professor da cadeira de Materiais II, que nunca mais esqueci. Contou ele que, nos seus tempos de jovem arquitecto, se tinha perdido de amores por uma colega que era, confessou ele, uma “mulher de se perder a cabeça”. E, ao que parece, era, de facto, cobiçada por muitos rapazes. Pois tinha ele a sorte de ter uma relação próxima com a rapariga. A coisa estava bem encaminhada para o jovem arquitecto. Um dia aconteceu cruzar-se com ela na rua. Mas não a reconheceu. O que tinha acontecido? Ela estava sem maquilhagem.

Quando percebeu que era ela ficou de tal maneira chocado que o seu sonho de se casar com a rapariga se desmoronou de uma vez só. Talvez seja mais fácil imaginar a desilusão dele com este pequeno vídeo.


Lembrei-me desta história e deste vídeo porque às vezes fico a pensar se isto não acontece também com a Igreja. Ainda há bem pouco tempo tive uma boa conversa que gravitava à volta deste problema: um padre, como tantos outros, que fala e escreve sobre Deus de uma forma especialmente eloquente, que se preocupa sempre em enfatizar o Deus de amor, que realça a caridade como vocação especial dos cristãos… esse mesmo padre é, ao mesmo tempo, conhecido por ter frequentes acessos de mau humor e de antipatia, chegando a ser até um bocado bruto com as pessoas.

É claro que nos podemos indignar perante tal falta de coerência. Temos todo o direito de reclamar contra este tipo de atitude. Mas, a verdade é que, conforme me vou conhecendo a mim próprio e à natureza humana cada menos me espanto com estas coisas. Cada vez mais compreendo estes contrastes. É que nós não somos monolíticos, não somos estáticos nem uniformes. A realidade humana é muito mais complexa.

O que me parece de estranhar, em particular dentro da Igreja, é quando tudo é demasiado arrumadinho, quando tudo parece absolutamente puro. Exemplos? Quando um padre, uma religiosa, não tem uma única manifestação de sentimentos socialmente menos correctos (ou mesmo outros mais correctos). Quando em diálogo se exagera nas expressões beatuchas. Quando as homilias só se referem a temas “santos” e com palavras “santas”. Quando a relação com Deus é sempre impecável, fantástica, bestial. Quando as cerimónias são de uma solenidade tal que ofuscam o que se celebra. Quando – coisa que me irrita profundamente - se apresenta os santos com tais floreados de pureza, tais santos barroquismos, que eles deixam de ter alguma coisa a ver connosco, passam a ser uma espécie de extra-terrestres.

Ora, o problema da maquilhagem é que cria distância, separa da realidade, é enganadora. E uma Igreja maquilhada, perfeita, é uma Igreja fora do mundo, desencarnada. Como podem, então, as pessoas identificarem-se com ela?

E porque é que não havemos de, antes pelo contrário, apresentar a Igreja sem maquilhagem nenhuma? Mostrá-la naquilo que tem de bom e de menos bom é precisamente mostrá-la naquilo que tem de melhor. É que a grande virtude da Igreja está, precisamente, em mostrar que é composta por pessoas normais, pessoas fracas, com dúvidas, com sofrimentos, com carências; mas, ao mesmo tempo, pessoas que não se deixam ficar, que acreditam num caminho, que se apoiam numa Pessoa e que podem apresentar um projecto de felicidade a que mais ninguém tem acesso.

Essa é a grandeza da Igreja. Essa é a Igreja encarnada: a que aponta o Céu; mas mantém os pés no Chão.

15 comentários:

João Delicado, sj disse...

Não queria deixar de dedicar este "post" a algumas pessoas: ao meu companheiro Nuno Branco (que me ensinou a pôr vídeozinhos do Youtube no blog); à quantidade de raparigas que sofre de problemas de auto-estima por causa destas artificialidades que vamos introduzindo nesta cultura da Imagem; e, finalmente, à Igreja desmaquilhada a que pertenço.

paulo,sj disse...

João, muito obrigado!

Acho que sintetizaste muito bem o que também há muito ando a pensar...

Se formos até à origem da Igreja, chegamos ao ponto central: a Encarnação. Deus que se faz carne, numa relação total e plena com a humanidade.


Mais uma vez obrigado! :)

J disse...

João,

Gostei imenso de ler este teu post. Na verdade a Igreja é dinâmica, e deve ser apresentada a todos sem maquilhagem.
A maquilhagem representa no fundo o disfarce das coisas.
Penso sempre na Igreja como dizia o p.Miguel, " Casta e pecadora" ou seja com um lado pecador porque é constituida por Homens que pecam mas por outro lado conduzida e inspirada pelo Espirito Santo.

Um grande beijinho em Cristo

nuno branco, sj disse...

Ola Joao, :) eu aproveito sempre estes textos (que são muito bons) para "discutir" o tema. Aliás tenho andado a pensar no proveito que se pode tirar da opção "comment" de um blog.
Parti-me a rir com a história do prof da faculdade. Há medida q ia lendo, recordava-me daquele artista. O episódio não me ficou na memória, mas confesso q ele agora (recordado) me tem feito pensar. Aliás já tinha mostrado este video numa aula minha e a malta fica irritada: usa-se maquilhagem mas no entanto nao se gosta dela. E isto, como tu disseste, também se pode aplicar a nós. Aliás, vou um bocadinho mais longe, parece-me que os leigos idealizam a vocação religiosa, uma espécie de "deus" no imaginário grego em que são representadas ao extremo as qualidades humanas numa entidade divina, neste caso seria nesta vocação concreta. Pode acontecer alguma coisa parecida.
Sinto q as pessoas são muito sensiveis à coerencia e à honestidade e não querem de nós um "Frei Tomás, que faças o que ele diz, nao faças o que ele faz." No entanto, há uma coisa que eu não posso oferecer às pessoas: a perfeição. De facto, tenho pensado que a perfeição (ao contrário do que se possa imaginar) pode ser obstáculo à graça de Deus. E no entanto apresenta-se como auto-estrada da graça. "Sede perfeitos como Deus".
Bom, João para t.p.c. ;) gostava que lesses este pequeno texto:

"Há sem dúvida, muitos mais justos endurecidos, pessoas que não conhecem a misercórdia de Deus e que tratam de agir cada vez melhor, simplesmente porque têm medo da ira de Deus. Libertar-se-ão mais ou menos deste medo na medida em que conseguirem realizar o seu ideal na vida diária. Com o tempo, isso pode até tornar-se suportável, se bem que vivam, no fim de contas, com escassa compensação. Por isso é que raramente são convincentes e menos ainda contagiosas. Porque ainda não conhecem o amor, e o pouco que vive nelas procede antes de um certo contentamento de si mesmas, com o qual correm o risco de se isolarem ainda mais dos outros. Já receberam a sua recompensa."
(André Louf - Ao ritmo do Absoluto, p.15)
Um abraço João e obrigado por este texto! ;)

Anónimo disse...

Parece-me talvez mais urgente falar-se da necessidade de uma Igreja mais espiritual, como ainda há pouco o disse o nosso Papa Bento XVI, na sua viagem ao Brasil. Uma relação profunda, viva e REAL com o Deus amor, com o Verbo encarnado, com a Divina Trindade, quanto mais verdadeira for e mais entregue, tanto mais alumiada será pela dádiva gratuita da Graça operante e vivificadora, tanto mais nos "desmasquilhará" e nos fará tomar consciência das nossas limitações porquanto criaturas totalmente dependentes do Criador.

Como criaturas somos débeis e fracas, inclinadas para o mal, mas sabemos o Caminho, acreditamos que só LÁ estaremos totalmente livres, mas também acreditamos no poder do Espírito que tudo renova e purifica e que não nega a Sua graça a quem humildemente a pede, O ama e busca na sinceridade de coração.

A Caridade fraterna – horizontal – é consequência da Caridade para com Deus – vertical, entre os dois amantes, Deus e a alma –. Não quero entrar no campo da "mística" pois sabedoria tenho-a pouca e experiência menos ainda, mas parece-me que anda por aí uma espécie de "vergonha" expressa de várias formas. Parece que o que os Santos disseram se tornou algo do passado, parece que é retrógrado… É necessário equilíbrio…

Penso que se devia reflectir, meditar e contemplar um pouco no momento da Encarnação no seio da Santíssima Virgem Maria e que se devia recordar os 30 nos de vida oculta de Jesus e só três de vida apostólica, embora toda ela assim o tenha sido num profunda união com o Pai. Não digo que se vá para um Mosteiro e se esqueça o "mundo" tão carente de Deus. Mas que se recorde que mais valem poucas obras mas com muita oração por trás e com uma vida coerente e enamorada de Deus, e essas sim darão um fruto inimaginável (como diz o santo doutor, S. João da Cruz), do que mil obras e mil ocupações que por mais santas que sejam pouco fruto darão, porque lhes faltou o "divino tempero". Talvez falte isso, não sei, nesse Padre que diz...

A caridade fraterna tanto mais verdadeira será quanto mais estiver fundada e antecedida pela Caridade para com Deus, assim teremos o vigor, o discernimento, a capacidade de amar em Deus os irmãos, tendo no entanto Ele por "Único Tudo" (isto não excluí o amor aos irmãos, antes revigora essa união).

Rezo por todos vós, que estais a caminho do sacerdócio, para que n´Ele tenhais Força, que permaneçais, pela caridade que é o vínculo da perfeição, presos nos Seus "braços fortes", e sejais verdadeiras testemunhas do Ressuscitado num mundo tão carente e necessitado de Deus.

Não ando a "voar"!, tenho os pés assentes no chão, no mundo que piso! Não ignoro esse aspecto! Mas lembro-me igualmente da outra parte: «coração e olhos postos n´Ele», para que tudo o resto, mesmo a coisa mais insignificante, seja movido por Ele, para glória de Deus Pai.


Rezem por esta vossa pequena irmã em Cristo

João Delicado, sj disse...

Agradecendo todos os comentários faço algum feed-back com algumas perguntas para a "pequena irmã em Cristo":

-uma Igreja mais espiritual, com uma relação mais afectiva, de maior intimidade com Cristo? Coração centrado em Cristo? Concordo 100%. Só pode ser esse o caminho.

-caridade para com os outros como fruto da relação com Deus? Parece-me bem. Mas não consigo distinguir assim tão bem a caridade "vertical" e a "horizontal": não será também a relação com Deus fruto da minha caridade para com os outros? Quando me relaciono com os outros, não está Deus ali também?

-o que os santos disseram: coisas do passado? Concordo que nem pensar. Quem os coloca no passado não é a linguagem deles. É antes a nossa, quando os maquilhamos com exageros. O que os torna sempre actuais é servirem de referência para nós na medida em que, com todas as suas dificuldades e fragilidades pessoais, passaram basicamente pelos mesmos desafios que nós. Nesse sentido a Igreja dispõe de uma herança impressionante, talvez seja mesmo das maiores riquezas que tem.

Talvez porque ler a vida dos santos seja das coisas que me dá mais consolação, talvez por isso também me incomode tanto quando sinto que lhe puseram maquilhagem a mais. A maquilhagem estraga e esconde a melhor parte. Dou um exemplo que me é próximo: depois de muito pressionado pelos companheiros, o nosso Inácio de Loiola preocupou-se em deixar a sua auto-biografia para que servisse de memória para a Companhia de Jesus. Curiosamente, não se sabe bem como, a primeira parte desapareceu. O que terá acontecido? Reza a história que a sua juventude seria tudo menos exemplar e alguém terá querido "limpar" a imagem do fundador da Companhia de Jesus.

-focou o seu comentário no binómio "relação com os outros e relação com Deus", enfatizando a relação com Deus. E parece-me bastante bem. Mas no meu texto o que eu quis enfatizar não foi tanto isso. Quis, sim, vincar o binómio "nós e nós", ou seja: quis reflectir sobre a forma como vivemos, comunicamos e partilhamos o que somos como cristãos.

A verdadeira relação com Deus passa por termos, primeiro, uma verdadeira relação com a nossa própria realidade. E isso implica não desprezar as fragilidades, as fraquezas, as negritudes. Enquanto não nos aceitarmos como somos também a relação com Deus é prejudicada.

Sim... e rezemos uns pelos outros!
Obrigado pela reflexão.

Anónimo disse...

São questões às quais me interrogo muitas vezes. O que digo é fruto do que leio e medito. Apesar de todos bebermos dum mesmo Espírito a uns é dado um carisma a outros outro. Uns sentem-se impulsionados pelo Espírito a dedicarem a sua vida no silêncio do Claustro, ou mesmo no meio do mundo, mas vivendo uma vida de grande recolhimento e intimidade com o «Deus cioso»… Outros, sem abdicar desta componente – essencial – sentem-se impulsionados pelo Espírito a dedicar as suas vidas ao serviço dos irmãos. Aqueles vivem a caridade na oração, acreditando na fecundidade da mesma; estes vivem a caridade fraterna no serviço e também na oração, que é a sua força impulsionadora.

«Não será também a relação com Deus fruto da minha caridade para com os outros?» Sim e não. Mantenho a opinião de que a fonte do Amor é Ele. Ninguém dá do que não tem. Por isso, para partilhar e viver o amor fraterno segundo Deus é imprescindível "consumir-se" diante do Deus Amor, recebendo e retribuindo-Lhe amor, e, infalivelmente, esse mesmo amor se espalhará na relação com os outros, pois tudo se verá com os olhos de Deus vendo o reflexo da divindade nas Suas criaturas. Pelo menos assim deveria ser (Mas não sou detentora da verdade…). Sim, na medida em que entramos num ciclo, o ciclo do Amor, onde o amor recebido e tributado a Deus continua o Seu tributo ao Criador na pessoa dos irmãos, seguindo-se a oração (alicerce da verdadeira Caridade), e por aí adiante.

«Quando me relaciono com os outros, não está Deus ali também?» Sim na medida em que Deus está em toda a parte e em todos, mas se enfatizei – como diz – a caridade "vertical", foi precisamente por achar que é costume enfatizarem a caridade "horizontal" (na Cruz não sobressai a linha vertical? Contudo é belo também vermos Jesus de braços abertos a acolher os que d´Ele se aproximam – exemplo e convite à oração também, e exemplo a servirmos os irmãos com a mesma entrega e acolhimento). Não vou contra e até valorizo esse ardor missionário, mas creio que para ele dar frutos de santidade, para todos, é necessário estar bem alicerçado na oração, na fé, na Eucaristia, numa relação viva, profunda e constante com Deus, segundo o qual nada se pode fazer porque «Sem Mim nada podeis fazer». Talvez esteja a ser demasiado aborrecidinha com isto mas infelizmente sei de pessoas que talvez por "vergonha" (que eu diria até ser suscitada por uma falsa ilusão do mal, escondido sob a aparência de bem e sabe muito bem isto que digo tendo em conta o discernimento de espíritos segundo ensina S. Inácio e por aí adiante…) começaram a entrar mais adentro do mundo e a deixar os sacramentos, a oração, etc., até deixar de vez (inclusive sacerdotes…, e digo isto com uma grande tristeza de coração), a confiarem nas suas próprias forças e alimentando um exagerado espírito egocêntrico que os levou a esquecer a humildade, a total dependência de Deus, o abandono n´Ele, o alimento e a fortificação do amor na oração, que não depende só de Deus já que a liberdade humana não é forçada e é necessária a nossa colaboração com a Graça. Sei que não estou a dar nenhuma novidade! Só estou a partilhar e a esclarecer! Ver Deus nos irmãos é importantíssimo, amá-los é obrigatório para quem tem o nome de Cristão. Que somos quase como Deus é bem verdade no sentido de que somos chamados a uma grande e alta dignidade, mas eu não posso dizer que vou adorar tal pessoa porque é Deus… Seria uma idolatria! Eu prostro-me em adoração diante de Jesus Eucaristia, onde contemplo – pela fé – Deus e Homem verdadeiro e recebo a capacidade para amar os outros, porque se Ele os amou também eu devo amá-los com Ele e n´Ele.

Fiquei muito contente por saber, que S. Inácio me perdoe, pois talvez muitas lágrimas de arrependimento ele tenha chorado, que a sua juventude não foi "exemplar". Pois de facto parece que nos são apresentados santos que sempre foram perfeitos. Estou de acordo. Graças a Deus que temos santos para vários gostos. Uma coisa os assemelha: a abertura plena à acção da Graça, que não obstante a fraqueza humana, realizou neles maravilhas; a adesão total a Jesus e o consequente nascimento ou renascimento do homem espiritual, a vida nova da Graça e da liberdade dos filhos de Deus, sendo já possuídos por Cristo que é tudo em todos! E assim, seguindo-lhes o exemplo, poderemos escutar S. Agostinho (?) dizer: «Ama e faz o que quiseres».
Parece-me muito útil reconhecer a fraqueza humana comum a todos, desde que nos faça crescer em humildade e nos lance nos "braços fortes" de Deus.
Só não acho bem pensar muito neste aspecto e ficar parado…, deixando correr porque «somos assim…». Não, se temos a graça de assim nos reconhecermos temos de fazer algo. Está no Evangelho, na Igreja, no coração de cada um a resposta.
Concordo plenamente que caso assim não seja a própria oração seja prejudicada porque pouco humilde, pouco confiante.

Espero não me ter desviado do tema.
Peço desculpa por tanta escrita.
Obrigada pela publicação do "post" e pelo "feed-back". Gostei muito e concordo, maioritariamente, com tudo.

Em Jesus

Anónimo disse...

Um pequeno esclarecimento: os sacerdotes a que fiz referência, já não exercem o ministério sacerdotal! Quanto aos outros não faço ideia, há coisas boas e menos boas em todo o lado.

Rezamos uns pelos outros

Anónimo disse...

Caro João

Teria passado de um modo apreciativo pelo post, não fosse parecer-me defender a rudeza, antipatia e mau-humor de um padre que eloquentemente fala e escreve de Amor e Caridade, e a coincidência de uma conversa que tive ontem ao jantar. Vou tentar ser breve: a mãe do melhor amigo do meu filho mais velho convidou-nos para jantar em sua casa. Mãe ainda jovem e dedicada, com um grande coração e alegria pelo bem dos outros, espantava-se por sermos cristãos. De facto, ela afirma acreditar que algo mais existe, sente-se uma pessoa tocada por alguma forma espiritual. Sendo viúva recente, suporta essa fatalidade com uma alegria digna, sem procurar culpados, enquanto vai dizendo ao seu pequeno filho que o pai vive agora no céu. Mas fica-se por aí. Não é capaz de dar um passo de aproximação à igreja. E simplesmente por ter vivido uma má experiência na igreja, com um padre rude, antipático e mal-humorado. Este é apenas um exemplo, pois conheço outros casos semelhantes em que o que mantém a barreira entre as pessoas e a igreja é terem-se alguma vez cruzado com um padre que deu um mau testemunho de Cristo. Não estou a querer culpar os padres do ateísmo que por aí prolifera, até porque conheço ainda mais pessoas que se mantém "alérgicas" à igreja devido à incoerência de vida dos leigos. Quantas vezes não ouvimos "vai à missinha ao domingo, mas cá fora é o que se vê...!". (Para dizer a verdade, perturba-me um bocado esta "gavetização" do corpo de Cristo: os leigos, os sacerdotes, os religiosos. Prefiro falar de cristãos. Unidos num só coração e numa só alma. É assim que aparecem caracterizados nos Actos dos Apóstolos, certo?)
Respondendo ao desafio "sobre a forma como vivemos, comunicamos e partilhamos o que somos como cristãos", só posso pedir à "companhia dos filósofos" que aceitem e não tentem mascar aquilo que verdadeiramente todos somos: pecadores. Mas isso não significa que se queiram rever naquele padre. Não gosto de fazer juízos parecidos com os do fariseu, quando me sinto bastante mais publicano, mas concordo com a "nossa pequena irmã em Cristo" quando diz que talvez terá faltado ao padre o "divino tempero". Aliás, entendo e concordo totalmente com a opinião que esta nossa irmã expressa. É preciso entrar no ciclo do Amor de Deus. E isso faz-se pela oração. Depois, "ama e o que quiseres, faz." (A frase é mesmo de Sto Agostinho, a tradução é do P. Luis Rocha e Melo, que sabe explicar infinitamente melhor do que eu porque é que a ordem das palavras deve ser esta.)
Penso que todos nós, cristãos, devíamos ter mais atenção com o testemunho que damos e com a coerência das nossas vidas. Não se trata de ser perfeitos, que muito humildemente nunca seremos, mas tão só de procurar que o que sou seja cada vez homem novo, e que o que digo e faço, pela graça de Deus, se aproximem cada vez mais.
E como nunca é demais lembrar o Santo Inácio, acho que ele guardou o melhor para o fim, quando disse que "o amor se deve pôr mais nas obras que nas palavras." Deviamos repetir isto muitas vezes. Acho que o P. António Vieira repetiu-as também à sua maneira, quando disse que "pouco importa que as palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas das obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelo ouvido".
Peço desculpa pelo post tão longo. Este seria sem dúvida um bom tema para um serão à conversa. Talvez noutra oportunidade. Quanto aos cristãos que somos chamados a ser, não consigo deixar de trazer para aqui a "Carta a Diogneto". E fica praticamente tudo dito.
Um grande abraço deste teu (e vosso) irmão em Cristo,
João AC

"A Diogneto

Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana. Habitando cidades gregas e bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social.

Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e tida a pátria uma terra estrangeira. Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas.

Amam a todos e por todos são perseguidos.
Não são reconhecidos, mas são condenados à morte;
São condenados à morte e ganham a vida.
São pobres, mas enriquecem muita gente;
De tudo carecem, mas em tudo abundam.
São desonrados, e nas desonras são glorificados;
Injuriados, são também justificados.
Insultados, bendizem;
Ultrajados, prestam as devidas honras.
Fazendo o bem, são punidos como maus;
Fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida.
São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros;
São perseguidos pelos Gregos,
E os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio.

A Diogneto, V "

João Delicado, sj disse...

Cara Irmã: sim, também me parece que o carisma diferente pode ser uma boa razão para pontos de vista ligeiramente diferentes. É sinal da riqueza e da complementaridade das vocações dentro da mesma Igreja. De resto, como diz com piada, “gostei muito e concordo, maioritariamente, com tudo”.

Caro João: “defender” o tal padre foi mais uma forma de exprimir a necessidade de aceitarmos as nossas sombras (as nossas e as dos outros) do que propriamente considerar desculpável ou aceitável esse tipo de atitudes.
Compreendo bem o exemplo concreto que dá. Como diz, infelizmente, não é raro conhecer pessoas alérgicas à Igreja, a Deus, por causa de maus testemunhos do ser cristão.

Se o testemunho e o “passa-palavra” foi o instrumento privilegiado escolhido por Jesus para espalhar as boas notícias, também, quando mal usado, tem o efeito contrário. Enfim, nem tudo pode correr bem nesta Igreja composta por “vasos de barro”. O Senhor confiou em nós sabendo como somos pequenos e imperfeitos. Temos confiar na confiança dEle. No fim disto tudo, o que pensar? Como diz também Santo Inácio, “faz como se tudo dependesse de ti, sabendo que tudo depende de Deus”.

Também me faz um bocado de impressão a “gavetização” de que fala. Bela carta a dirigida a Diogneto!

Fico mesmo contente que este seja um espaço de encontro, de partilha e de discussão. Fico mesmo contente por este encontro de vocações e de visões dentro da Igreja. Obrigado a todos os que por aqui vão deixando rasto.

Zé Maria Brito,sj disse...

que grande texto!
está tudo lá
aceitar os limites
ser o que somos
despojamento para tocar o essencial
muito obrigado
zé maria

m&m disse...

João, tenho pensado nisto..
Não sou a favor da maquilhagem na Igreja mas aceito que deva haver algum cuidado, porque há pessoas que se prendem ao acessório e esquecem o essencial.. Acredito que mta gente se desviaria da mudança radical da vida de Sto Inácio para se centrar no que ele era antes..
A Igreja deve acompanhar a sociedade, sem dúvida, mas não ir ao sabor dela..
Parece-me que, não sendo necessário dar uma imagem daquilo que não somos, é importante resguardarmo-nos..
Tenho de continuar a pensar no assunto..

Milé

KA disse...

Caro joão,

Que texto fantástico. Sabes que "a pintura" é realmente uma coisa que afasta as pessoas da igreja pois as pessoas não se identificam com o sagrado mas sim com o fraco, o que tem dúvidas...com aquele que apesar de fazer um esforço por er uma atitude cristã, não deixa de errar.

Afinal de contas todos somos humanos. Neste ponto o Sant Padre João Paulo II fez um tabalho excepcional de aproximação da igreja ás pessoas.

Beijinho e boa semana

Fátima disse...

Se me permitires faço minhas as tuas palavras, uma a uma...
Um abraço

freefun0616 disse...

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