3 de junho de 2007

A histeria de Lagos

Antes de escandalizar alguém com o que vou aqui escrever confesso já que, como qualquer pessoa normal, me entristeci com o desaparecimento da Madeleine e que me horrorizo de cada vez que penso no que lhe possa estar a acontecer. Por outro lado este comentário já vai um bocadinho fora de tempo. Mas, como uma reflexão séria nunca está desactualizada, sinto que a devo escrever.

Toda a sensibilização ou prevenção que se faça para este tipo de problemas é de se incentivar. E a comunicação social tem ajudado a fazer isso. No entanto, não podemos ser ingénuos e considerar que tudo o que as televisões, jornais e revistas têm feito tem sido um bom trabalho. A verdade é que, a par dessa função de divulgação de um problema grave, alguma comunicação social tem tido um aproveitamento vergonhoso do caso.

O exemplo mais visível disto é podermos constatar o que de bom tem sido feito para encontrar a menina. Isso é reconfortante. Mas porque havemos de acompanhar passo a passo os Pais de Madeleine, e assistir a horas e horas, em directo, de uma autêntica telenovela da vida real? A verdade é que os abutres da comunicação estão mais interessados nos índices de audiência ou na subida das tiragens do que em fazer bom jornalismo. E, para isso, não se importam de abusar da vida privada das pessoas directamente implicadas.

Mas, vendo melhor, o mais grave de tudo isto até nem está no que emitem. Está, sim, naquilo que omitem. É que não se coíbem minimamente de nos desviar a atenção, de nos captar o coração, atribuindo uma importância completamente desproporcionada aos acontecimentos que lhes interessam. Mesmo que o preço a pagar seja dar-nos uma visão completamente distorcida da realidade.

Assim, enquanto nos comovemos e indignamos com o caso Madeleine, deixamos de lado muitos outros casos de igual ou ainda pior gravidade que acontecem todos os dias no mundo, ou mesmo ao nosso lado. Um exemplo? Em 2006 desapareceram, só em Portugal, 31 crianças como esta! Enquanto assistimos ao desenrolar das investigações deste caso, deixamos queimar as nossas energias em algo que está fora do nosso alcance resolver e negligenciamos problemas que são da nossa responsabilidade.

Em suma, devemos perguntar-nos: qual a acuidade da nossa visão do mundo? Quem dá voz aos sem-voz? E quanto a nós: somos meros espectadores do teatro do mundo, ou somos agentes interventivos, catalizadores da realidade que nos envolve? Precisamos de desenvolver uma inteligência amorosa sobre o que se passa à nossa volta.

(este post foi inspirado no excelente artigo de José Miguel Júdice que saiu, há dias, no Público – para ver: ampliar a foto)

6 comentários:

Pedro Morgado disse...

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Anónimo disse...

Se calhar vou chocar.. mas acho q devia haver censura jornalística.. É um abuso o que se diz e mostra na televisão e as horas a que se mostra..
Os meus alunos deitam-se a horas inimagináveis para verem coisas mais inimagináveis ainda.. E, engraçado, não vejo que lhes traga alguma formação (nem académica nem pessoal)..
Durante uns anos me revoltei com os meus pais por, até à faculdade, só poder ver televisão aos fins-de-semana e, se quisesse ver durante a semana, só veria o telejornal ou canais / séries temáticas!..
Hoje em dia parece-me bem (até porque tinha várias actividades extra-escolares e eu sabia por que é que não via televisão)..
Se não temos capacidade para decidir, é bom ter alguém que nos mostre o caminho.. Afinal, acabamos por ir por onde queremos e aproveitar ou desperdiçar o que nos foi dado anteriormente..
Não quero dar a ideia de que as didaturas é que funcionam nem que sou completamente intransigente.. Só gostava de receber um pouco mais de "ser pessoa" desses lugares comuns.. Porque há pessoas que não foram educadas para pensar e, limitando-se a encaixar, como vão saber decidir e/ou reciclar o que recebem?

Milé

Sónia Monteiro disse...

Olá João!
Concordo plenamente com o que acabo de ler...
"Diz que é uma espécie de" Big Brother real em directo! Trata-se, de facto, de um oportunismo frio que vive unicamente em função da ditadura das audiências.

Por outro lado, sem pôr em causa o papel do jornalismo sério, o bombardeamento de notícias e imagens a propósito deste caso específico acaba por, na minha opinião, enfraquecer/diminuir a sensibilidade e atenção das pessoas para estas situações...

Cumprimentos de uma amiga! :)

João Delicado, sj disse...

Ainda hoje, numa aula de "Comunicação e Argumentação" estivemos a falar sobre estas coisas.
Dá a impressão de que nos deixámos ultrapassar completamente pela tecnologia. Ainda não tivemos capacidade para reagir à velocidade com que as coisas evoluíram.
E então, vigora ainda na nossa cultura o pressuposto implícito de que tudo o que a televisão diz é verdade e é bom.

Por outro lado, valoriza-se de tal forma a liberdade no sentido de se fazer o que se quiser que se prefere isso do que dar quaisquer referências. Ora educar só pode acontecer com valores concretos e não com uns pseudo-valores neutros, de relativismo extremo, do tudo-vale. É que esses não existem, e portanto não formam.
Em vez de pessoas com esqueleto andamos a formar pessoas amorfas.

J disse...

João,

Concordo plenamente com o que escreveste , não estou de modo algum a dizer que não se deva dar atençao a este caso, mas com o mediatismo todo esquecemo nos que este caso não é unico.

Um grande beijinho e obrigado peo post

freefun0616 disse...

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