5 de julho de 2007

A alegria da D.ª Isabel

Estava um fim de tarde tão convidativo que não resisti a dar um passeio pelas ruas da cidade. Ver pessoas, ver casas, ver cores, movimento... Estava tão absorto nas minhas ideias que quase não tinha tempo para apreciar a beleza do caminho.
«Deixa-me cá ver... Primeiro acabo aquele trabalho sobre Levinas, introduzo este pormenor que me pareceu interessante daquela leitura. Depois vou até à biblioteca buscar mais estes livros... Bem, preciso de não me esquecer do aniversário da Ana, no dia 28, e daquele embrulho que prometi ao Senhor Ambrósio da portaria. Tenho ainda que limpar o meu quarto, ler aquele livro que espero há muito. Bem, tenho que me organizar.» Continuava eu no meio das minhas movimentações interiores e começava a sentir um fio de angústia a invadir-me. Tanta coisa para fazer, tantas questões para resolver, tantas metas a atingir...
Já não estava a caminhar. Dei por mim diante duma igreja belíssima, com uma daquelas fachadas barrocas que convidam a uma visita. Entrei, benzi-me, ajoelhei-me e comecei a rezar...
"Então, Senhor, tudo calmo por aqui? Já vi que sim. Se tiveres um pouco de tempo para me ajudares nestas coisas todas. Bem, tempo tens... aliás Tu estás para além do tempo (anda um tipo a estudar filosofia para depois cometer estas gaffes!). Ainda não percebi porque me falta a alegria e a paz. Se puderes dar-me, sabes, aquelas oportunidades que me costumam animar..." Sentei-me e, olhando para a minha esquerda, vi uma senhora velhinha que reteve a minha atenção. "Que sorriso, que beleza, quanta serenidade!", pensei.
Decidi sair e continuar o meu passeio. Continuei a dar tempo às minhas preocupações, agora até com espaço para pensar nas palavras que um amigo usou numa conversa comigo, na pergunta que esperava, e faltou, de uma pessoa da qual gosto muito... Enfim, mais motivos para aprofundar a minha desolação.
Numa rua íngreme vi um vulto que me pareceu familiar. Aproximei-me, curioso. Era a velhinha da igreja. Estava sentada num degrau de pedra, na portada de uma casa com duas janelas esverdeadas, com um par de vasos de flores em cada uma. Ela olhou para mim e falou. "Estou cansada. Sabe menino, já tenho 92 anos e a saúde não abunda. Tenho que parar um pouco." Perguntei-lhe como se chamava. Isabel era o seu nome e um sorriso continuava a iluminar o seu rosto.
A conversa continuou. Nasceu numa família de camponeses que veio viver, bem cedo, para a cidade em busca de uma vida melhor. Atravessou os duros períodos das guerras mundiais, em que não faltaram privações. "Às vezes passavamos o dia inteiro na fila para conseguir pão. A barriga fazia barulho, mas com as cantorias e as danças tudo se esquecia. Eram tempos de muita alegria!" Comecei a sentir-me tocado por esta história.
A D.ª Isabel havia casado muito nova, teve sete filhos e muito trabalho. "Cheguei a trabalhar 14 horas por dia, a carregar mesas de uns lugares para outros. Chegava ao fim do dia muito cansada. Mas era tão bom o caminho, com as conversas, as pessoas com quem me cruzava. No fim era uma satisfação aquele copo de água fresquinha na fonte da Cárcova. O salário era curto, mas valia a pena. Oh, belos tempos!" Cada vez mais me fui sentindo estranho.
"Agora vivo sozinha. Tenhos os filhos e os netos espalhados pelo mundo. Fiquei viúva há 24 anos e passo os dias com os afazeres da minha casa. Com uns problemazitos de saúde, mas nada que me faça ficar triste. Que bom que é viver!" E sorriu com uma vivacidade que me surpreendeu. Entretanto já estavamos no interior da sua casa. A D.ª Isabel mostrava-me o seu quintal, as suas flores, as fotos das molduras, a imagem de Nossa Senhora que repousa no cimo de uma cómoda....
Agradeci o acolhimento e despedi-me. Antes de fechar a porta, a D.ª Isabel mostrou-me novamente o seu sorriso.
Regressei a casa com o pensamento absorvido por esta experiência. "Estou com tudo atrasado!" Não perdi a paz com esta tirada. "Estou tão, sei lá, feliz... E não fiz nada daquilo que queria. O que se passa?"
Olhei para o céu. "Foste Tu, não foste? Deste-me mais uma lição de simplicidade. Andava eu aqui preocupado com as minhas coisas... Aquela senhora, aquela alegria..."
A alegria, de facto, não vem da forma que nós imaginamos. Está ao nosso alcance, mesmo quando parece não estar. "Sou tão pequeno! Deixo-me abater por coisas tão insignificantes" e continuei.

Obrigado D.ª Isabel, por me ensinar que a alegria está sempre na minha vida, por mais difícil que seja a tempestade, por mais duro que seja o quotidiano. É preciso encontrar a alegria e a paz. É preciso querer ser feliz... Obrigado, Senhor, pela tua resposta tão rápida e imprevisível!

5 comentários:

João Delicado, sj disse...

Obrigado, Rui, por esta partilha.
É um texto muito gostoso tanto no conteúdo como na forma que lhe dás. Já tinha saudades de ler um destes teus textos.

ERute disse...

Eu fiz este passeio contigo ao ler-te...
E é engraçado como eu a meio do passeio reli para perceber a simplicidade da vida da D.Isabel, e como é bom encontrar "Isabel's" nos nossos passeios.

Quero ter uma vida simples, sem me preocupar com coisas que serão resolvidas a seu tempo...

alice cunha disse...

obrigado
por este testemunho, pois comigo acontece muitas vezes, pois andamos preocupados com tanta coisa que esquecemos do mais importante a nossa felicidade,de algo que anda sempre connosco
alice

J disse...

Rui,

Gostei imenso deste texto, revela simplicidade, e grandeza ao mesmo tempo.

Como um sorriso pode mudar tanta coisa.

Um grande beijinho em Cristo

freefun0616 disse...

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