27 de novembro de 2007

Em Igreja


Aproveitando a boleia do Paulo, com o seu "Pensamentos Soltos...", também eu escrevo um pequeno texto a propósito do discurso do Papa Bento XVI aos bispos portugueses. Confesso que me deixa um pouco perplexo o espanto que as palavras do Papa provocaram. Justamente porque não dizem nada de novo. Repito, o Papa não diz nada que possa surpreender um católico português responsável e informado. Talvez seja este, aliás, um dos problemas da nossa forma de estar em Igreja. Estamos à espera que o Papa, os senhores bispos e os senhores padres nos digam se a barca mete água ou não, em vez de cairmos na conta de que comunidade cristã precisa do empenho de cada um. Como diz o Papa, "todos somos responsáveis pelo crescimento da Igreja".
E porque não começarmos nós próprios por fazer um exame sobre a forma como construímos a nossa comunidade e sobre como a nossa comunidade se insere na sociedade? Porque não falarmos mais vezes uns com os outros sobre as dificuldades que sentimos? ”Lembrei-me que podia propor um exame em cinco passos decalcado do exame de consciência quotidiano proposto por Sto Inácio de Loyola. Cá vai:

1. Dar graças. Não adianta olhar a Igreja e a nossa comunidade com o sobrolho franzido e como se a Igreja a todos devesse e a ninguém pagasse. Pelo contrário, se queremos falar da Igreja comecemos por dobrar e língua e dar graças. É imenso o que a nossa Igreja portuguesa e cada uma das suas comunidades ofereceu durante séculos ao nosso país, às nossas cidades e aldeias, a cada um de nós e a tantos quer nos precederam na fé. Agradeçamos porque a Igreja, apesar das suas fragilidades, continua a lembrar ao mundo o nome de Jesus e a semear a Sua Palavra, a perdoar pecadores, a consolar quem anda triste, a partilhar com os que têm menos e a curar quem está doente. Enquanto não sentirmos profunda gratidão não adianta passarmos adiante – não conseguiremos ser objectivos nem lúcidos.

2. Pedir luz. Para falar da Igreja não podemos seguir apenas os critérios humanos. É com os olhos postos em Jesus que podemos tomar o pulso às nossas comunidade para perceber se nas suas artérias é o Evangelho que corre. Não adianta muito falar em números, em poder, em actividades que dão nas vistas. São o serviço, a fé, a esperança, o amor sincero aos mais frágeis, e aos pobres, a denúncia da injustiça que nos devem servir de referência.

3. Examinar. Ou seja, olhar a nossa comunidade com olhos de ver e tentar perceber em que aspectos podemos crescer. Deixo uma pista retiradas da mensagem do Papa:
É preciso construir “caminhos de comunhão”, afirma o Papa, “é preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II”. Tiro certeiro. As pessoas que frequentam as nossas comunidades conhecem-se? Somos responsáveis uns pelos outros, ou limitamo-nos a ir à missa como quem vai ao cinema, incapazes de perceber que ao lado pode estar alguém que sufoca de tristeza? A forma como partilhamos os nossos talentos e bens interpela quem não acredita?

4. Pedir perdão. Ficar-nos-ia muito bem se nós, cristãos, reconhecêssemos com humildade que são muitas as vezes que erramos. Talvez devêssemos pedir perdão a Jesus sobretudo pelas vezes que Ele gritou pela nossa ajuda e passámos indiferentes em correrias sem sentido, convencidos que somos bons católicos porque afinal até vamos à missa ao domingo.

5. Propor emenda. Não adiantam discursos e exames se tudo ficar na mesma. São precisos passos concretos e muita imaginação. Vistas largas. No local onde vivo e trabalho sou presença da comunidade. E em tudo o que fizer deixarei a sua marca.

(Fotografia de Francisco Campos no AfterXav 05, actividade organizada pela Província Portuguesa da Companhia de Jesus em Dezembro de 2005 e que reuniu em Coimbra cerca 600 jovens)