22 de novembro de 2007

Pensamentos Soltos...






Só neste fim-de-semana passado tive oportunidade de ler com calma a carta que Bento XVI escreveu aos nossos bispos. Para mim, alguns pontos apresentados pelo Papa não são novidade. De facto, a fé portuguesa anda muito centrada em santos e santinhos, gerando confusões no pensamento sobre isto da religião e da fé. Sem querer cair no perigo da generalização, é notória a cada vez maior desvalorização da celebração dominical e tudo o que está ligado com a Igreja, na sua dimensão comunitária. De que me serve ir todos os anos a Fátima, por exemplo, se isso em nada contribui para uma mudança da minha relação com a comunidade? Até mesmo com Jesus? Maria tem um papel importante enquanto imagem da humanidade que dá o sim à divindade, mas ela não é a divindade.

Também por pensar sobre isto, graças ao que vou escutando nas várias conversas que vou tendo, percebo que tem de começar a haver um questionamento sério sobre o que se prega, anuncia (ou não anuncia), deitando abaixo a imagem clericalista da Igreja. Muitas vezes, em Igreja pergunta-se, “porque é que já não vêm ter connosco?”. Para mim uma pergunta que já demonstra preocupação, mas ainda é voltada para dentro. A meu ver, juntamente com esta questão deve surgir outra: “o que é que nós, Igreja, estamos, ou não estamos, a fazer que provoca este afastamento em relação a nós?”. Penso que Bento XVI também está a colocar esta última questão aos Bispos. Afinal, andamos a centrar a fé nas romarias e não na Pessoa de Jesus. E conhecer a fundo Jesus Cristo não é, de todo, perdoem-me a expressão, esfregar as mãos nesta ou naquela imagem em busca do milagre, ou sabe-se lá do quê. A Teologia é bastante mais séria e a busca da relação com Deus traz muitas responsabilidades. Tem de se perder o medo em partir estruturas antigas e olhar às novas respostas para os dias de hoje. De facto, vinho novo em odres velhos, já se sabe o resultado.

Penso que se ganharia muito mais em começar a escutarmo-nos uns aos outros, em escutar os sinais dos tempos. Há tanto bem na Igreja, que acaba por ficar abafado por mesquinhices que não têm interesse nenhum. De que me serve anunciar que “Jesus é amor” se isso não é vivido? De que serve estar a dizer às pessoas para vir à Celebração Dominical, se não se explica, na medida do possível, o que se passa naquele momento? Não faz sentido ir à Missa por obrigação... Faz sentido quando busco uma relação...

A formação é cada vez mais importante. E começaria pelos padres, diáconos, catequistas. Sair de paradigmas antigos e entrar em pleno, por exemplo, na grande mensagem de esperança do Concílio Vaticano II. Há dias comentaram-me que a Igreja deixou de evangelizar há 1700 anos atrás, quando saiu das catacumbas, porque a partir desse momento deixou de propor, para passar a impor. Tenho noção de que este pensamento pode ser redutor, mas tem o seu quê para reflectir. Jesus veio anunciar a Boa-Nova, tendo sido muito duro perante as atitudes dos fariseus que impunham as suas doutrinas. Afinal, a libertação do ser humano passa por uma relação de esperança e verdade diante de Deus e não de medo, como se de um tirano tratasse. E esta relação tem de ser livre, no sim que é dado a quem ouve e vê Jesus. Ora, nós crentes, temos de ser os primeiros a dar o exemplo do acolhimento, do não julgamento. Sei que me torno repetitivo sobre este ponto, mas a experiência vai-me confirmando esta posição.

Se Bento XVI pede para nos centrarmos em Jesus, torna-se evidente, pelo menos para mim, que temos de voltar o nosso olhar para o Mistério da Encarnação. Não estou a ver Deus encarnar por um capricho, mas sim por este profundo desejo de integrar toda a humanidade na sua divindade. E isto vive-se em comunidade, na relação comigo, com os outros e, sobretudo com Jesus, Deus encarnado. Isto é mesmo muito sério…

11 comentários:

Anónimo disse...

Óptimo texto para o Cábula!!!
:)

bruna_pereira@clix.pt disse...

Não só para ser publicado no CABula, mas em qualquer jornal, boletim digno desta reflexão!

Super claro e reflexivo!

Parabéns

Fernando disse...

Como concordo contigo.... Está na hora de abandonar as mesquinhices, as falsas questões e passar à realidade. É preciso ter coragem de admitir que algumas coisas estão mal e apostarmos em mudar... dar um novo rosto a esta Igreja que tens coisas más e coisas boas, mas que, acima de tudo, é nossa MÃE.

Aequillibrium disse...

A maioria das pessoas que se diz católica, entende a Igreja como uma "coisa", exterior a elas, a que pertencem por acreditar em Deus, Jesus, e todos os santinhos. Não a entendem como sendo parte de si, não percebem que a Igreja, no fundo,são eles.
Infelizmente, da pouca experiência que tenho nesse campo, a própria Igreja (aqui no sentido de instituição como habitualmente é entendido e não da forma como a entendo) se impõe desta forma.

Como sabes, não sou católico, nem sequer baptizado. Mas acredito. E gosto de entrar numa Igreja, Capela, ou noutro local qualquer e senti-Lo com todo o Seu Amor. Gosto de ir quando o sinto, não porque devo.

Espero que as coisas caminhem nesse sentido...

Abraço!

nuno branco, sj disse...

Paulinho,
excelente post...! Obrigado pela provocação e por nos "obrigares" a pensar!
Entretanto vai o endereço de um cartoon a propósito:
http://bp3.blogger.com/_sF-xfdaPYHk/RyBFKikjcvI/AAAAAAAAADs/JjUl0hhJN0k/s1600-h/1.bispo.jpg
Um grande abraço,

Presença disse...

Olá Paulo!
Boa reflexão… diria mesmo e desculpa a presunção, estás no caminho!
Uma das muitas coisas que eu sinto como pedra pertencente a esta Igreja, é que é urgente anunciar mas também e com a mesma força denunciar. E sem duvida que a mudança tem que ser num modo centrifugo, de dentro para fora.
Se me permites farei uma breve achega ao teu texto.
Começava por um ponto que no fundo está ligado ao outro. Já pensamos porquê que as pessoas tendem a prestar culto “aos santinhos” e não propriamente à fonte da Santidade? Pista para um trabalho de investigação na área Teologia.
Diria que a resposta está no último ponto que falas no teu texto, a Encarnação, como foi interpretada e vista Esta pelos os nossos Santos Padres da Igreja (Santo Agostinho e São Tomas de Aquino) e como foi sendo levada pela Tradição (sim a tradição, um dos pilares que sustenta toda a dogmática da I(i)greja).
É verdade que toda a humanidade sofre do “pecado original”, contudo e no meu ponto de vista, a igreja sofre duplamente, quando nega a existência deste na Encarnação.
Tudo isto para dizer que as pessoas só podem afastar-se da igreja ou então ficar pela meia igreja, isto é, agarrada aos santinhos. Temos que perceber que os santos são os únicos que fizeram o caminho de humanização/santificação assumindo a totalidade das limitações humanas. Acho que é normal aproximarmos daquilo que nos é mais próximo.
Concordo plenamente contigo quando dizes que Deus tem um “profundo desejo de integrar toda a humanidade na sua divindade”, porque eu acredito profundamente que ele encarnou na nossa completa humanidade, só assim é justo falarmos de um caminho para a santidade.
É este movimento de Deus que devemos seguir como Igreja. Descer ao mais profundo da Pessoa humana, ouvir os “gritos dos pobres” que somos nós (mulheres e homens e não meios homens e meias mulheres) e só aí olhar para Jesus, porque de certeza absoluta Ele lá estará. Será por acaso que a cruz tem dois planos (o vertical e o horizontal)?
Um abraço grande e continuamos…

Nota: A minha distinção entre Igreja e igreja, passa simplesmente por achar que a igreja institucional de 1700 anos não é Igreja, sendo que as vezes se confundem e eu naturalmente também.

Presença disse...

Vi o carton sugerido pelo Nuno... É isso mesmo... perfeito....

paulo,sj disse...

Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora que estiverem... [Recordo o P. António da Silva,sj que respondia muitas vezes desta forma. ;)]

Obrigado por todos os comentários.

Nuno, o cartoon está no ponto! :)

"Presença", avançar em Igreja e na Igreja é sem dúvida ir ao Encontro (com "E" propositadamente) da mensagem de Cristo. Nos meus pensamentos, reflexões, chego quase sempre à Encarnação.

Isso leva-me a pensar na importância do próprio ser humano, sim, com "pecado original", mas na importância que tem. Creio que a Teologia pregada durante séculos, de rebaixamento do ser humano, acabou por contribuir para o esvaziamento da fé que a própria pessoa tem em si (não estará o resultado à vista?). Há que distinguir entre individualidade e individualismo... Eu tenho a minha individualidade, no entanto peço a graça de não ser individualista.

Deus chama cada pessoa, com o que ela é. Com mais ou menos pecados, mas também com todos os dons que tem, chama-a, por confiar nela. A cruz, como mencionas no comentário, é para mim o sinal claro do mais. De facto, tenho de tomar a minha cruz e já não olhar para ela com o peso imemorial da história e do pecaminoso que sou, mas olhá-la com a graça da Vida. Tomar a cruz é agarrar-me e pôr a render o que sou e tenho em direcção ao outro. Tenho pecados? Sim, tenho! Tenho faltas? Sim, tenho! Mas tenho dons para pôr a render com todas as minhas forças! E quando digo eu, atrevo-me a falar por todas as pessoas... Aqui faço mesmo a generalização! Deus encarnou em Jesus, que morreu e ressuscitou por TODOS.

A Santidade passa pela adesão a Jesus, com o que tenho e sou, voltando-me para o outro. O que é que Ele fez durante toda a Sua vida, nas mais variadas formas? Reconhecendo-se quem era, vivendo as várias tentações, até mesmo a dúvida, mas no fundo, a Sua SANTIDADE, ser santo, passava mesmo pelo reconhecimento da União que vivia/vive com o Pai, que o levou a dar a Vida "até à morte e morte de cruz". E tudo pelo Outro, pelo cego, pelo coxo, pelo leproso, pela filha do centurião, pela sogra de Pedro, ..., por cada um de nós... Até mesmo pelos fariseus! (Ele condenava as atitudes, não a pessoa!)

Se eu, ou seja quem for, pretendo ser cristão, ou seja aceitar a santidade em Cristo, por Cristo e com Cristo, tenho de olhar para mim, como dom, ir aos poucos (ou totalmente, cada qual tem a relação pessoal com Ele), mesmo na minha fragilidade e fraqueza sentindo-me amado.

De facto, Ele é o Senhor de todas as coisas, no entanto este Senhor, que lava os pés, olhando de baixo para cima, já não nos chama servos, mas amigos… Será que vivemos isto? E será que, quando começarmos a viver isto à séria, com a responsabilidade desta mensagem, acreditaremos que podemos ajudar, de facto, a que o mundo seja uma cruz, ou seja um MAIS? Temos de perder o medo de ser santos, profetas, e, sobretudo Cristãos, mesmo que “anónimos” para usar a expressão do P. Karl Rahner,sj…

Outro grande Abraço e sim, continuamos.

Com a minha oração!

Cristina disse...

Urge que sejamos uma coisa muito simples: católicos conscientes.
Acredito que se saíssemos à rua e perguntassemos aos católicos por que o são teríamos alguns silêncios... Na volta até diriam que senão o fossem iam para o inferno, não obstante a posição da Igreja quanto à sua (in)existência. Seria extremo e ridículo esta minha resposta-brincadeira mas... receio que muito boa gente ainda assim pense.

odracirdias@iol.pt disse...

Bem revejo-me em algumas ideias que falas nestes "Pensamentos Soltos", que deveriam ser bem consolidados por cada um nas suas interrogações interiores.

Parabéns
Abraço

freefun0616 disse...

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