31 de dezembro de 2007

É Deus e assemelha-se a mim!



«A virgem está pálida e olha para o menino.
Seria preciso pintar no seu rosto aquela admiração ansiosa que se viu apenas uma vez num rosto humano.
Porque Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e fruto do seu ventre.
Ela teve-o em si própria durante 9 meses e dar-lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á sangue de Deus.
Nalgunsmomentos a tentação é tão forte que esquece que Ele é Filho de Deus.
Aperta-O nos braços e sussura-lhe:"Meu pequerrucho".
Mas noutros momentos fica perplexa e pensa: "Deus está ali",
e é invadida por um religioso temor por este Deus mudo,
por esta criança que num certo sentido incute medo.
Todas as mães ficam perplexas, por um momento, diante daquele fragmento rebelde da sua carne que é a sua criança,
e sentem-se exiladas perante esta nova vida feita da sua vida,
habitada por pensamentos alheios.
Mas nenhum filho foi arrancado à sua mãe de forma tão cruel e radical, porque Ele é Deus e ultrapassa completamente tudo o que ela poderia imaginar...
Mas penso que houve também outros momentos, rápidos e fugazes,
em que ela sente que Cristo é seu Filho, o seu menino, e que é Deus.
Olha-O e pensa: "Este Deus é meu menino.
Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos
e a forma da sua boca é semelhante à minha, assemelha-se a mim,
é Deus e assemelha-se a mim."
E nenhum homem recebeu da sorte o seu Deus só para si,
um Deus tão pequenino para apertar nos braços e cobrir de beijos,
um Deus quentinho que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que ri.
E é nesses momentos que eu, se fosse pintor, pintaria Maria.»

Jean Paul Sartre
Trecho teatral escrito por ocasião do Natal, enquanto prisioneiro

30 de dezembro de 2007

O Deus que se revela - I

Como seria Jesus Cristo se vivesse nos dias de hoje? Como se vestiria? Como reagiria perante o comportamento do homem actual? Qual seria o seu posicionamento perante a política, a ciência e a cultura nas sociedades de hoje? Como agiria perante as dificuldades que nos apoquentam? Parece que às vezes nos esquecemos que Ele viveu neste mundo, teve que se alimentar, sentiu o calor ardente de um dia estival, provou o doce aroma de uma romã e o amargo trago do vinagre. Rodeados, como estamos, de imagens gloriosas do Homem perfeito, do Jesus soberano, do Cristo libertador acabamos por transformá-Lo num daqueles super heróis que inspiram o imaginário juvenil, exaltados pelos seus feitos admiráveis, mas desvalorizados na consciência do nosso íntimo como seres imaginários, inventados pelo idealismo do homem.

A origem do homem, o mistério da morte e o que se esconde para além dela ou a causa da nossa existência são temas largamente explorados pelo homem actual. Há uma necessidade crescente de procurar uma justificação para a nossa condição. Fenómenos como o laicismo, o ateísmo ou o gnosticismo florescem na fraqueza da consciência humana. Onde está Deus? Porque não o vejo? Porque não me ajuda naquela situação injusta que vivo? Porque não muda aquilo que me provoca sofrimento? Eis algumas das questões que despertam o divórcio actual entre o divino e o humano.

O homem procura um Deus paternalista, que lhe resolva os problemas quotidianos, que lhe aplaque os sofrimentos e lhe abra caminhos para satisfazer os seus desejos. Ora, este Deus não existe. É de facto o Deus da bondade, o Deus do amor, o Deus da misericórdia, todavia a mensagem que nos faz chegar a partir de Jesus Cristo conduz-nos à aceitação plena das nossas limitações e dos nossos fracassos propondo-nos uma visão optimista e, ao mesmo tempo, realista do dinamismo do mundo que nos rodeia. A demonstração concreta do "agir à maneira de Deus" dentro da nossa limitação de seres humanos é nos dada por Jesus Cristo, o Homem no qual verdadeiramente se concilia o humano com o divino, a concretização objectiva do Criador na criatura.

25 de dezembro de 2007

Domenico Zipoli , sj (1688-1726)

Domenico Zipoli nasceu em Prato, perto de Florença, onde, na sua catedral, foi desde cedo instruído na educação musical, suportada pelo patrocínio do Grã-Duque da Toscânia, Cosme III. Estudou em Nápoles, Bolonha, e Roma com grandes mestres entre os quais se podem destacar Scarlatti, Vannucci ou Pasquini. Neste período de formação compôs diversas obras e em 1715 foi nomeado organista e mestre de capela da igreja mãe dos jesuítas, em Roma (Igreja do Gesú), cargo que representava a máxima aspiração aos músicos da sua época e, no qual continuou a publicar várias peças para teclas que foram muito bem recebidas e lhe trouxeram a fama.

Em 1716 entrou na Companhia de Jesus e pouco tempo depois seguiu para Sevilha onde esperou passagem para o Paraguai onde iria ser missionário. Nesta cidade, o famoso organista residiu nove meses, o suficiente para tornar-se popular não só para os sevilhanos, mas também para habitantes de outras cidades, que para escutá-lo, percorriam longas distâncias. "Quando improvisa na Catedral para os sevilhanos é festa grande", escrevem os cronistas da época. Na Catedral de Sevilha ofereceram-lhe o lugar de mestre de capela que, Zipoli recusou por entrar na Companhia de Jesus.

Com outros 53 missionários jesuítas, partiu de Cádis em Abril de 1717 e, depois de uma violenta tempestade, desembarcaram em Buenos Aires, três meses após a partida. Quinze dias depois fixou-se em Córdoba onde completou os seus estudos de filosofia e de teologia com distinção.

Durante o seu tempo de formação filosófica e teológica nunca deixou de se dedicar à música, quer como compositor, mestre de capela ou organista, desenvolvendo em muito os talentos musicais dos Guaranis e integrando nas suas obras de estilo barroco alguns elementos da cultura dos índios.

Em 1724, Zipoli acaba o seu 4º ano de teologia mas, por falta de bispo que em Córdoba o pudesse ordenar padre, acaba por não lhe ser administrado este sacramento. Adoece com tuberculose e acaba por morrer em 2 de Janeiro de 1726 com 37 anos.

Durante numerosos anos a sua música foi tocada e cantada pelos coros Guaranis e outros. Para além de muito apreciada pelos seus companheiros jesuítas e pelos índios que enchiam as igrejas para a ouvir, foi também uma grande influência para outros compositores. Documentos relacionados com os jesuítas de 1728, 1732 e até mais tarde, descrevem a reputação deste compositor pelo menos até 1774, em algumas missões Guarani, no seu exterior e até na Europa. Numa destas missões, S. Pedro e S. Paulo, nove motetos de Zipoli foram listados entre os pertences deixados pelos jesuítas aquando da sua expulsão.

Algumas das suas peças para instrumentos de tecla e de música sagrada, que se julgavam perdidas para sempre, foram reencontradas nos anos 70 do século passado, nas antigas missões de Chiquitos e Moxos (hoje em território boliviano). Uma descoberta que permitiu reconstituir pela primeira vez o fabuloso universo musical das famosas reduções jesuítas do Paraguai (assim eram chamadas as missões dos jesuítas com os índios na América do Sul). Zipoli não foi apenas um brilhante músico. Foi um homem generoso, que deixou a fama e o sucesso na Europa para dedicar a sua vida à salvação dos índios Guarani. Tinha um fervor criativo e executivo, sensível à espiritualidade e à vida meditativa, mas também era dotado de um modo estar extremamente tranquilo e, por isso, caro a Deus e ao próximo.

Legenda das imagens:

1 - Planta de redução jesuíta Sul-Americana para índios Guarani

2 - Extracto da partitura da peça Ave Maris Stella de Domenico Zipoli


Para ouvir um pouco da obra de Domenico Zipoli proponho:

Ave Maris Stella - para solistas, coro e orquestra

(Direcção de : Gabriel Garrido; Interpretam: Coro de niños de Córdoba, Affetti musicali - Argentina, Ensemble Elyma - Buenos Aires)


24 de dezembro de 2007

Conto de Natal


Josefina Bakhita - Testemunha da Esperança

"Nascera por volta de 1869 – ela mesma não sabia a data precisa – no Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani que, ante a avançada dos mahdistas, voltou para a Itália. Aqui, depois de « patrões » tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um « patrão » totalmente diferente – no dialecto veneziano que agora tinha aprendido, chamava « paron » ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um « paron » acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo « Paron » supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela « à direita de Deus Pai ». Agora ela tinha « esperança »; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava « redimida », já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque sem Deus. Por isso, quando quiseram levá-la de novo para o Sudão, Bakhita negou-se; não estava disposta a deixar-se separar novamente do seu « Paron ». A 9 de Janeiro de 1890, foi baptizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congregação das Irmãs Canossianas e desde então, a par dos serviços na sacristia e na portaria do convento, em várias viagens pela Itália procurou sobretudo incitar à missão: a libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a « redimira », não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos." Foi canonizada no ano 2000 pelo Papa João Paulo II.

In Carta Encíclica Spe Salvi, do Papa Bento XVI

22 de dezembro de 2007

The Messiah


Ontem fomos ver o «Messias» de Händel à Igreja da Lapa no Porto. Provavelmente a oratória mais popular deste compositor alemão.

The Messiah, HWV 56 foi motivado pelo convite do Duque de Devonshire para escrever uma obra que servisse a um concerto de beneficência a favor dos presos e dos pobres de Dublin. Por isso, Händel teve de a compor em apenas vinte e quatro dias.

Conta-se que, ao terminar esta obra, Händel terá dito: «Acredito ter visto o céu aberto e o próprio Deus diante de mim». O libreto é da autoria de Jennens, que compilou uma série de textos bíblicos em três partes distintas, que ligam a obra tanto à Páscoa como ao Natal.

The Messiah estreou a 13 de Abril de 1742, no Music Hall de Dublin, com enorme êxito. No dia seguinte, o popular Dublin Journal terá escrito acerca da obra: «o sublime, o grandioso e comovente deram-se as mãos para arrebatar o coração e o ouvido».

A tradição diz que, ao ouvir-se o coral «Hallelujah», todo o público se levantou juntamente com o rei. Ontem, na Igreja da Lapa no Porto, a tradição manteve-se.

Deixo alguns links com mais informações sobre esta obra emblemática.

(ler)

(Ouvir)


19 de dezembro de 2007

Jacques Dupuis, SJ: polémica ou profecia?

«Se imaginarmos, como Inácio, a Trindade contemplando a Terra, nos umbrais do Terceiro Milénio, que vemos? Mais de cinco biliões de seres humanos: uns homens, outros mulheres, uns ricos, outros – muito mais numerosos – pobres; uns amarelos, outros mulatos, outros negros, outros brancos; uns em paz, outros em guerra; uns cristãos (1 bilião 950 milhões), outros muçulmanos (1 bilião), outros hindus (777 milhões), outros budistas (341 milhões), outros fiéis de novos movimentos religiosos (128 milhões), outros crentes de religiões indígenas (99 milhões), outros judeus (14 milhões), outros sem religião nenhuma (1 bilião e 100 milhões). Que significado tem para a nossa vida e missão evangelizadoras e que oportunidade lhes oferece esta abundante pluralidade étnica, cultural e religiosa que caracteriza o mundo de hoje?» (Congregação Geral 34, decreto 5)

A corajosa pergunta que os jesuítas faziam a si mesmos em 1995 (a Congregação Geral é uma espécie de “reunião magna”) constitui o centro de gravitação da vida e do pensamento teológico do P. Jacques Dupuis.
Tendo nascido na Bélgica em 1923 e ingressado na Companhia em 1941, viveu grande parte da sua vida na Índia. Aí, na leccionação da Teologia, como no contacto diário com um universo religioso diferente do europeu, desenvolveu a sensibilidade para a questão do pluralismo religioso. Tendo-se tornado “a questão” da sua reflexão teológica cristã, vemos surgir, já na sua fase de leccionação na Universidade Gregoriana (Roma – de 1984 a 1998) uma série de livros e artigos onde a equaciona na sua relação à centralidade e universalidade de Jesus Cristo e à importância da Igreja para a salvação.
Com a cautela que é exigida aos “pensadores de fronteira”, o P. Jacques Dupuis preocupou-se sobretudo em questionar a forma como a perspectiva e linguagem teológicas lidavam com as outras religiões (e as suas figuras salvíficas) e com o seu valor (equacionado na fé no desejo salvífico universal de Deus) na relação à justa pretensão cristã do papel central de Jesus Cristo na salvação de todos os homens e mulheres.
Entre um modelo teológico que coloca Deus no centro e Jesus Cristo entre as outras figuras da história das religiões (tese pluralista) e um outro que desvaloriza a contribuição que as religiões podem dar para a salvação dos seus membros (tese inclusivista – Jesus Cristo salva e até se pode dar uma pertença “anónima” à Igreja), propõe o P. Jacques Dupuis a exploração desse “território aberto” onde um pluralismo inclusivo (como chama à sua tese) abre o lugar a considerar simultaneamente (e sempre duma forma “tímida”) a forma como as outras religiões são “queridas por Deus” e como o evento Jesus Cristo tem, ainda assim, “constitutivamente”, valor salvífico único e universal.
Sem conclusões e sem pretensão a elas, pôde o P. Jacques Dupuis abrir mais um pouco o exigente caminho do diálogo do cristianismo com as outras tradições religiosas.
A Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (2001) deve, por isso, ser entendida não como um “castigo por mau comportamento”, mas como a manifestação do cuidado que o Magistério pede à Teologia nas questões onde cada ponto e cada vírgula contam.
Jacques Dupuis faleceu em 2004, em Roma. Deixou à teologia depois dele as perguntas que soube reequacionar e para as quais corajosamente procurou balbuciar uma resposta, tocando humildemente o “mistério” que é o Amor transbordante de Deus por todos os homens e mulheres.

16 de dezembro de 2007

Padre António Vieira (1608-1697)



“Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as acções, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo.”

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima (Lisboa, Capela Real, 1655)

“… não apenas um missionário empenhado da Companhia de Jesus, mas um orador de excepção, uma personalidade política de primeiro plano e o mais ilustre dos escritores portugueses do seu tempo.”
Eduardo Lourenço, Vieira ou o tempo barroco

O Padre António Vieira, apesar dos seus 400 anos, continua a fascinar e surpreender quem o aborda, quer seja pela sua biografia quer seja pelos seus escritos, uns e outros dotados de uma riqueza e uma força tão grandes como a sua ambiguidade.
Nascido em Lisboa, parte para o Brasil aos 6 anos onde entra na Companhia de Jesus. Dedica a sua vida à evangelização dos índios, entrecortada por missões diplomáticas conferidas pelo rei de Portugal, que o levam a cruzar 6 vezes o Atlântico, pregar nos palácios e igrejas de Lisboa a Roma. Enfrenta as guerras de religião que ensombram a conquista do Mundo Novo e conhece os calabouços da Inquisição em Coimbra sempre com a mesma energia, nascida do sonho que urge concretizar.

A sua vida e obra surgem-nos marcadas por uma profunda tensão. Tensão, primeiro, entre o apóstolo das letras e o diplomata-político, tensão entre o tempo dos homens e o Tempo de Deus, onde se cruzam e diluem a instauração do Quinto Império e o advento do Reino. A sua missionação e pregação transparecem simultaneamente a preocupação optimista pela defesa e promoção dos índios face aos abusos da colonização e o pessimismo barroco do imperialismo português decadente.
Neste paradoxo, o Padre António Vieira encarna de forma particularmente viva, e por vezes exagerada, a máxima inaciana:

“Confia em Deus como se tudo dependesse de ti e nada de Deus, e empenha-te em mover todos os meios, como se Deus fizesse tudo e tu nada”.

[2008 - Ano Vieirino]

14 de dezembro de 2007

«É o brotar de uma Rosa pequena»

Um poema onde saboreamos a beleza do mistério da encarnação; uma música que nos prepara para o Natal.

Es ist ein Ros entsprungen

«É o brotar de uma rosa pequena,
Brota de uma tenra raiz.
Nos cantos antigos anunciada,
Fruto de Jessé prometido.
A rosa, pequena e frágil, abre-se à luz
Com o frio do Inverno
Na escuridão da noite

Rosa, tão pequena,
Enche-nos do teu doce perfume.
Com o teu brilho claro
Afasta a escuridão.
Verdadeiro homem e verdadeiro Deus,
Auxílio na nossa dor
Que vens para nos libertar
do pecado e da morte

Ó Jesus!
Que a tua ajuda nos acompanhe
Até à sala do banquete
Do Reino do teu Pai,
Onde para sempre te louvaremos
Senhor! É o que te pedimos»

Poema anónimo do século XVI

[ouvir]

12 de dezembro de 2007

"Vai a Igreja agir?"




No passado Domingo foi publicado no JN um artigo do P. Alfredo Dinis,sj, sobre a Carta de Bento XVI aos bispos portugueses. Se há quem pense que nós, Igreja, temos medo de colocar algumas questões, este artigo vai contradizer esses eventuais pensamentos... De facto, está na altura de reflectir, sim, mas também de "agir"...

"O texto da recente mensagem do Papa aos bispos portugueses tem sido interpretado de diversas formas. Muitos comentadores têm sublinhado o carácter crítico do texto papal em relação à Igreja portuguesa. Outros, incluindo os próprios bispos, vêem naquele texto um encorajamento que receberam para continuar um caminho de inovação que sempre desejaram percorrer, mas que encontra não poucos obstáculos. Independentemente das diferenças de leitura do texto, todos parecem estar de acordo com um facto os cristãos portugueses - leigos, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas -, não podem continuar a trilhar simplesmente os caminhos do passado, a manter acriticamente as tradições dos seus antepassados simplesmente por serem tradições, a investir tempo, energias e dinheiro em manifestações de religiosidade que tocam quase só a esfera emocional, devocional e intimista, mas deixam intocada a dimensão da responsabilização pela transformação do Mundo, uma responsabilização que torne insuportável a existência da injustiça, da discriminação, da pobreza e da mentira."

"Algumas pessoas começaram já a perguntar vai tudo ficar na mesma, depois do discurso do Papa? Vai a Igreja agir? Quem vai fazer alguma coisa para que alguma coisa mude, realmente? Serão apenas os bispos? Serão apenas os padres? Se assim fosse, estaríamos a contradizer o Papa, que pede um maior envolvimento dos leigos na vida da Igreja. Há pois que fazer uma reflexão comunitária séria sobre a Igreja que somos e sobre a Igreja que queremos ser. Há decisões a tomar. Há mudanças que é urgente fazer. Há questões que não devemos recear levantar, pelas quais nos devemos deixar desafiar permanentemente. Por exemplo: [remeto para o artigo, porque são várias as questões colocadas pelo P. Alfredo].

Gostaria(mos) de ouvir/ler algumas opiniões. É importante que se diga, de forma construtiva, o que se sente sobre isto. Às vezes diz-se que a homilia ou acção deste ou daquele padre, ou religiosa, foi má, mas depois não há coragem para lho dizer pessoalmente. Só se pode melhorar com ajuda uns dos outros!


9 de dezembro de 2007




GERARD HOPKINS

POETA E PADRE JESUÍTA

(1844 | 1889)




Nasce em 1844, em Stratford, próximo de Londres. Cedo despertou para a poesia. Ainda criança, gostava de subir às alturas de um ulmeiro, que se encontrava no jardim de sua casa e daí contemplar a paisagem.

Aos dezoito anos entra em Oxford, em estudos clássicos. Esta universidade encontrava-se marcada por uma das suas mais controvérsias figuras, John Henry Newman, sacerdote Anglicano convertido à Igreja Católica. O ambiente controverso, as disputas religiosas que Hopkins foi encontrar em Oxford e a sua própria luta interior em busca de um sentido, levaram a que, também ele, se aproximasse da igreja de Roma. Isso acontece em Julho de 1866.

Depois da sua conversão escreve a seu pai: …não posso lutar contra Deus que me chama à sua Igreja.

É desta fase este seu poema:

And minor sweetness scarce made mention of:

I have found the dominant of my range and state –

Love, O my God, to call Thee Love and Love


Terminado o curso e depois de um longo processo de discernimento, entra no noviciado da Companhia de Jesus, em Setembro de 1868. Estudou filosofia e foi professor de retórica dos estudantes jesuítas (1873-1874). A sua técnica poética deve-se muito a estes anos como professor de retórica. No ano seguinte, em 1875, é enviado a estudar teologia no colégio de San Beuno na Costa de Walles. Diz ele que, esta foi a terra que mais o inspirou. É aqui que Hopkins escreve o seu grande poema: O Naufrágio do Deutschland. Há nove anos que não escrevia poesia.


THOU mastering me

God! Giver of breath and bread;

World’s strand, sway of the sea;

Lord of living and dead;

Thou hast bound bones and veins in me, fastened me flesh,

And after it almost unmade, what with dread,

Thy doing: and dost thou touch me afresh?

Over again I feel thy fingerand find thee.

(The wreck of the Deutschland, part the first, 1)


Gerard Manley Hopkins foi um inventor que revolucionou a linguagem poética, um dos precursores das rebeldias estéticas dos modernistas. O poeta-jesuíta não conheceu a fama em vida. A sua poesia chegou até nós graças a Robert Bridges, seu grande amigo.

Morre em 1889, com quarenta e cinco anos. Na Abadia de Westminster foi colocada uma lápide sua, entre os grandes poetas ingleses.

5 de dezembro de 2007

Teilhard de Chardin (1871-1955) - visionário silencioso

1. Um homem surpreendente. Um dos aspectos que mais surpreendem em Teilhard de Chardin é o facto de ele não ser considerado, nem a si mesmo se considerar, filósofo ou sequer teólogo. Identificava-se mais como cientista. O facto é que hoje ele não é considerado um nome de referência nem em filosofia, nem em ciência, nem em teologia. E no entanto, os seus escritos continuam a atrair um enorme interesse, precisamente porque neles se encontram em diálogo estas três áreas do saber humano.

2. Um visionário. Teilhard, visionário silencioso, ousou fazer aquilo que está hoje ainda largamente por fazer: a integração das descobertas científicas contemporâneas nos discursos filosófico e teológico. A perspectiva evolutiva não apenas da vida mas de todo o universo abriu-se-lhe diante dos olhos como uma revelação, a revelação de um mundo que deixava de ser estático para se revelar num extraordinário dinamismo. Foi como se todo o universo que durante milénios foi representado como uma pintura definitiva, acabada e inerte, passasse a ser um filme cheio de acção e movimento.

3. Consequências. Para Teilhard, esta visão não podia deixar de ter consequências filosóficas e teológicas. As tradicionais categorias metafísicas estáticas nas quais se baseava uma teologia igualmente estática, pareceram-lhe como que retiradas do grande quadro final de uma aventura que durara apenas seis dias, os dias da criação, e que chegara ao fim no sexto dia. Tudo desde então permanecera substancialmente idêntico, imutável. Pelo contrário, a ciência revelou a Teilhard um mundo em evolução. Por outro lado, se Deus não se limita a olhar o mundo como um mero espectador, mas se envolve na história desse mundo, então já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável. E o significado da incarnação de Cristo assume uma dimensão cósmica, não se limita ao planeta Terra – um grão de areia no universo. A história da criação do mundo tinha que ser contada desde o início em termos radicalmente novos. A criação de Adão e Eva e a narração do pecado original com base numa leitura literal do Génesis tornaram-se insustentáveis.

4. O que aconteceu a Teilhard? As suas propostas são de tal modo radicais que nunca pôde publicá-las em vida. Só a partir da sua morte os textos que deixou inéditos têm sido objecto de sucessivas edições em praticamente todas as línguas. E no entanto, esses textos estão oficialmente desaconselhados. Em 1962 e novamente em 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé confirmou o carácter pouco ortodoxo dos textos de Teilhard. É verdade que desde Paulo VI todos os Papas têm citado passagens das suas obras. Mas também é verdade que a teologia católica não está ainda preparada para incorporar os dados da ciência contemporânea no discurso teológico, nem a aceitar todas as consequências dessa incorporação, tal como procurou fazer Teilhard. Quando uma tal incorporação – necessária e urgente – se fizer, o cristianismo aparecerá aos olhos da humanidade como um visão do universo e da vida verdadeiramente fecunda amadurecida e credível.

4 de dezembro de 2007

Pensadores e artistas com a marca SJ









Inácio, homem lúcido e de horizontes largos percebeu, logo após a sua conversão, como era importante compreender bem o complexo mundo em que vivia para melhor poder responder aos seus desafios, de tal maneira que decide, aos trinta anos, juntar-se às crianças que começavam a aprender os rudimentos de Latim para iniciar o seu percurso académico. Anos mais tarde, a própria Companhia de Jesus viria a ser sonhada por Inácio e seus companheiros na cidade de Paris e em ambiente Universitário. “Desde então foi característicos dos jesuítas manter numa tensão criativa este requisito inaciano: usar todos os meios humanos, ciência, arte, instrução, virtude natural, enquanto ao mesmo tempo se confia totalmente na graça divina” (CG XXXIV, Dec 26).
Julgo que não é possível olhar sem espanto os quase 500 anos da Companhia de Jesus. Não me parece exagero afirmar que não houve canto onde não tivessem chegado. Não só geograficamente, mas também no vasto e complexo universo do saber e da cultura. Acreditando poder “amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”, os jesuítas têm dado contribuições significativas não só no campo da teologia, mas também na filosofia, na literatura, na matemática, na física, na astronomia, na arquitectura, na música, na tecnologia…
Nas próximas semanas vamos dar a conhecer alguns pensadores e artistas que têm em comum o facto de serem jesuítas - Teilhard de Chardin, Jacques Dupuis, Lonergan, Gerard Hopkins, Domenico Zipoli, Francisco Suárez, entre outros. Às Quartas-feiras e Domingos neste blog.

3 de dezembro de 2007

451 AfterXav

Há vidas que nos deixam de boca aberta. A de S. Francisco Xavier, que hoje celebramos, é uma delas. Estudante estrela na Universidade de Paris, Xavier encontra Inácio, que o leva até Jesus – “de que vale ganhares o mundo inteiro se vieres a perder a tua alma?”. Completamente apaixonado por Cristo, Xavier abandona um futuro promissor e atreve-se a sonhar com a Companhia de Jesus juntamente com os primeiros companheiros. Numa disponibilidade e entrega totais, parte para o Oriente, onde durante anos percorre distâncias imensas para levar o Evangelho aos locais mais recônditos. Chega ao Japão, onde lança as bases da Igreja Japonesa. Morreu de exaustão e só na ilha de Sanchoão, às portas da China, faz hoje 456 anos.