19 de dezembro de 2007

Jacques Dupuis, SJ: polémica ou profecia?

«Se imaginarmos, como Inácio, a Trindade contemplando a Terra, nos umbrais do Terceiro Milénio, que vemos? Mais de cinco biliões de seres humanos: uns homens, outros mulheres, uns ricos, outros – muito mais numerosos – pobres; uns amarelos, outros mulatos, outros negros, outros brancos; uns em paz, outros em guerra; uns cristãos (1 bilião 950 milhões), outros muçulmanos (1 bilião), outros hindus (777 milhões), outros budistas (341 milhões), outros fiéis de novos movimentos religiosos (128 milhões), outros crentes de religiões indígenas (99 milhões), outros judeus (14 milhões), outros sem religião nenhuma (1 bilião e 100 milhões). Que significado tem para a nossa vida e missão evangelizadoras e que oportunidade lhes oferece esta abundante pluralidade étnica, cultural e religiosa que caracteriza o mundo de hoje?» (Congregação Geral 34, decreto 5)

A corajosa pergunta que os jesuítas faziam a si mesmos em 1995 (a Congregação Geral é uma espécie de “reunião magna”) constitui o centro de gravitação da vida e do pensamento teológico do P. Jacques Dupuis.
Tendo nascido na Bélgica em 1923 e ingressado na Companhia em 1941, viveu grande parte da sua vida na Índia. Aí, na leccionação da Teologia, como no contacto diário com um universo religioso diferente do europeu, desenvolveu a sensibilidade para a questão do pluralismo religioso. Tendo-se tornado “a questão” da sua reflexão teológica cristã, vemos surgir, já na sua fase de leccionação na Universidade Gregoriana (Roma – de 1984 a 1998) uma série de livros e artigos onde a equaciona na sua relação à centralidade e universalidade de Jesus Cristo e à importância da Igreja para a salvação.
Com a cautela que é exigida aos “pensadores de fronteira”, o P. Jacques Dupuis preocupou-se sobretudo em questionar a forma como a perspectiva e linguagem teológicas lidavam com as outras religiões (e as suas figuras salvíficas) e com o seu valor (equacionado na fé no desejo salvífico universal de Deus) na relação à justa pretensão cristã do papel central de Jesus Cristo na salvação de todos os homens e mulheres.
Entre um modelo teológico que coloca Deus no centro e Jesus Cristo entre as outras figuras da história das religiões (tese pluralista) e um outro que desvaloriza a contribuição que as religiões podem dar para a salvação dos seus membros (tese inclusivista – Jesus Cristo salva e até se pode dar uma pertença “anónima” à Igreja), propõe o P. Jacques Dupuis a exploração desse “território aberto” onde um pluralismo inclusivo (como chama à sua tese) abre o lugar a considerar simultaneamente (e sempre duma forma “tímida”) a forma como as outras religiões são “queridas por Deus” e como o evento Jesus Cristo tem, ainda assim, “constitutivamente”, valor salvífico único e universal.
Sem conclusões e sem pretensão a elas, pôde o P. Jacques Dupuis abrir mais um pouco o exigente caminho do diálogo do cristianismo com as outras tradições religiosas.
A Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (2001) deve, por isso, ser entendida não como um “castigo por mau comportamento”, mas como a manifestação do cuidado que o Magistério pede à Teologia nas questões onde cada ponto e cada vírgula contam.
Jacques Dupuis faleceu em 2004, em Roma. Deixou à teologia depois dele as perguntas que soube reequacionar e para as quais corajosamente procurou balbuciar uma resposta, tocando humildemente o “mistério” que é o Amor transbordante de Deus por todos os homens e mulheres.

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