5 de dezembro de 2007

Teilhard de Chardin (1871-1955) - visionário silencioso

1. Um homem surpreendente. Um dos aspectos que mais surpreendem em Teilhard de Chardin é o facto de ele não ser considerado, nem a si mesmo se considerar, filósofo ou sequer teólogo. Identificava-se mais como cientista. O facto é que hoje ele não é considerado um nome de referência nem em filosofia, nem em ciência, nem em teologia. E no entanto, os seus escritos continuam a atrair um enorme interesse, precisamente porque neles se encontram em diálogo estas três áreas do saber humano.

2. Um visionário. Teilhard, visionário silencioso, ousou fazer aquilo que está hoje ainda largamente por fazer: a integração das descobertas científicas contemporâneas nos discursos filosófico e teológico. A perspectiva evolutiva não apenas da vida mas de todo o universo abriu-se-lhe diante dos olhos como uma revelação, a revelação de um mundo que deixava de ser estático para se revelar num extraordinário dinamismo. Foi como se todo o universo que durante milénios foi representado como uma pintura definitiva, acabada e inerte, passasse a ser um filme cheio de acção e movimento.

3. Consequências. Para Teilhard, esta visão não podia deixar de ter consequências filosóficas e teológicas. As tradicionais categorias metafísicas estáticas nas quais se baseava uma teologia igualmente estática, pareceram-lhe como que retiradas do grande quadro final de uma aventura que durara apenas seis dias, os dias da criação, e que chegara ao fim no sexto dia. Tudo desde então permanecera substancialmente idêntico, imutável. Pelo contrário, a ciência revelou a Teilhard um mundo em evolução. Por outro lado, se Deus não se limita a olhar o mundo como um mero espectador, mas se envolve na história desse mundo, então já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável. E o significado da incarnação de Cristo assume uma dimensão cósmica, não se limita ao planeta Terra – um grão de areia no universo. A história da criação do mundo tinha que ser contada desde o início em termos radicalmente novos. A criação de Adão e Eva e a narração do pecado original com base numa leitura literal do Génesis tornaram-se insustentáveis.

4. O que aconteceu a Teilhard? As suas propostas são de tal modo radicais que nunca pôde publicá-las em vida. Só a partir da sua morte os textos que deixou inéditos têm sido objecto de sucessivas edições em praticamente todas as línguas. E no entanto, esses textos estão oficialmente desaconselhados. Em 1962 e novamente em 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé confirmou o carácter pouco ortodoxo dos textos de Teilhard. É verdade que desde Paulo VI todos os Papas têm citado passagens das suas obras. Mas também é verdade que a teologia católica não está ainda preparada para incorporar os dados da ciência contemporânea no discurso teológico, nem a aceitar todas as consequências dessa incorporação, tal como procurou fazer Teilhard. Quando uma tal incorporação – necessária e urgente – se fizer, o cristianismo aparecerá aos olhos da humanidade como um visão do universo e da vida verdadeiramente fecunda amadurecida e credível.

4 comentários:

João Delicado, sj disse...

Obrigado, Pe. Alfredo por esta apresentação ao mesmo tempo sucinta, simples e esclarecedora da pessoa de Teilhard de Chardin.
Óptimo texto!
Um abraço.

Espectadores disse...

Caríssimo Pe. Alfredo,

«Pelo contrário, a ciência revelou a Teilhard um mundo em evolução. Por outro lado, se Deus não se limita a olhar o mundo como um mero espectador, mas se envolve na história desse mundo, então já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável.»

Com este trecho, apresenta-nos a visão do padre Teilhard de Chardin, ou também a sua?

Não obstante o valor e importância da sua obra, ela está eivada de erros graves.

A frase que acabo de transcrever demonstra bem um desses erros graves: não faz sentido a frase "já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável".

Explico-me...
"Deus metafisicamente" é um pleonasmo. Deus tem, necessariamente, uma essência metafísica. É o único ente cuja essência é "Ser", o único ente não contingente e infinito.

Deus é necessariamente imutável, uma vez que não há mudança em Deus. Mudança no sentido de movimento, de passagem de potência a acto. Deus, acto puro, não muda nem transita de um estado para outro.

Penso que o grande problema que nos coloca a obra do padre Teilhard de Chardin está ao nível ontológico ou metafísico, ao ser-nos proposta uma visão incoerente da realidade.

Também não concordo com a ideia de estatismo que é transmitida acerca da visão clássica da realidade. Tal visão era eminentemente dinâmica nas coisas naturais, com uma quantidade imensa e inesgotável de seres em permanente agitação, em permanente movimento (com contínua passagem de um ser em potência a um ser em acto).

Também concordo com a enorme urgência em estabelecer um bom diálogo entre Fé e Ciência. Mas tal diálogo não pode ser feito à custa de teologia errada ou de ciência errada. A verdade é una. A visão clássica da escolástica medieval permanece válida e, não só perfeitamente compatível com a ciência moderna, como mesmo essencial (veja-se a obra recente de Wolfgang Smith acerca da importância do hilemorfismo clássico para a resolução dos problemas da física quântica).

Um abraço,

Bernardo

MCA disse...

Pois eu acho uma visão fascinante! A Criação como um work in progress. Nunca li Teillard Chardin mas vou procurar ler.

freefun0616 disse...

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