27 de janeiro de 2007



Quando é que começa a vida humana?


Aos argumentos que se passeiam de panfleto pela campanha do próximo referendo poder-se-iam aplicar algumas multas por objecção de inteligência ou por violação de valores secretos, contudo eu apenas lhes ponho uma pergunta: Quando é que começa a vida humana?

Peço desculpa pela minha violenta e desinteressante intromissão, pois certamente acharão a minha pergunta retrógrada, enfadonha, que é como quem diz, Kota.

De facto, sinto-me intimidado pela discussão de bairro em que a campanha se tem tornado e percebo que a minha pergunta não venha a propósito e que seja rejeitada pelos panfletos que em vez de clarificar acusam a posição contrária, pelos monólogos a dois, pela argumentação contra (eu defendo o X porque não gosto do Y), pela exploração da vida privada de quem publicamente faz campanha (esses senhores do X são uns…).

Contudo, penso que este é o problema: Se a vida humana começa no momento da concepção, então o aborto é sempre um crime (quer as mulheres sejam julgadas ou não); Se a vida humana só começa às dez semanas, então o aborto só é crime a partir das dez semanas.

Julgo que a pergunta sobre a vida humana não é uma questão futebolística se a bola entrou ou não na baliza, se foi ou não foi grande penalidade, e muito menos uma questão adolescente de irreverência do contra. As conversas diárias muitas vezes não ultrapassam o tempo, se faz sol ou chuva, ou o futebol. Talvez este referendo seja uma oportunidade para cada um de nós tocar o sentido da Vida, num diálogo que não se faz com o café mas com o Outro, olhando-o no Rosto, reconhecendo-o Pessoa.

Pergunto: Qual é o sentido da minha vida? O que faz com que a minha vida seja Vida?

24 de janeiro de 2007

Oração da Humildade Amorosa



Muitas vezes volto a esta oração. Muitas vezes percebo que é nestas três dimensões que tudo se joga. Muitas vezes percebo que às vezes não apetece nada ser eu. Muitas vezes percebo que custa estar voltado para os outros. Muitas vezes percebo que preferiria não precisar de Deus. Mas, também todas as vezes acabo por chegar à mesma conclusão e que é a de que esta é uma questão de sobrevivência espiritual: ou eu me deixo ser nas minhas várias dimensões ou começo a murchar; ou me deixo respirar ou asfixio; ou levo a sério a vida e me liberto do superficial do dia-a-dia ou, mais tarde ou mais cedo, quem paga sou eu. Todas as vezes chego à conclusão de que tenho que obedecer, ouvir o que vem do fundo de mim mesmo, perceber o que devo ser.

Então, rezo...

Sou livre quando sou eu
quando reconheço que sou pequenino
quando assumo tudo o que sou e faço
quando gozo o presente

Sou livre quando

o fluxo do Amor passa pelos meus canais vitais
no interesse pelo outro
no partilhar
no obedecer
no pedir
no agradecer
no pedir perdão
no elogiar
no corrigir
no esperar
no aceitar
no deixar-me maravilhar

Sou livre quando
me alimento em Deus
porque sou (e)ternamente amado
porque peço e recebo graças espirituais
e sou permanentemente enviado em missão

12 de janeiro de 2007

Era uma vez um paralítico...


Era uma vez um homem que se calava muitas vezes, que se movia com o auxilio dos outros, dominado pelos seus medos. Um homem sem nome... Um paralítico...

Nenhum de nós é paralítico. Não estamos deitados numa enxerga nem precisamos dos outros para nos movermos. Será mesmo assim? Não poderei ser o paralítico da história?

Lembro-me agora do meu primeiro encontro de Crisma. Não era habitual em mim fazer algo sem a família, os amigos! Estava nervoso. Aparecer assim sozinho, sem conhecer ninguém? Não será melhor esperar por outra oportunidade? Pensei em desistir. Até que me enchi de coragem e dei o passo. Fiz o Crisma. Conheci os jesuítas e a minha vida nunca mais foi a mesma. Quanta coisa não teria mudado se me tivesse deixado paralisar!

E nós? E aquelas alturas em que nos calamos perante os erros do outro? E sempre que passamos ao largo quando são precisas duas mãos? E naquelas vezes em que é preciso um pedido de desculpa ou um "obrigado" e por medo ou orgulho não o fazemos? E todas as vezes que nos deixamos mover pelo que dizem os outros, pelo que vão pensar?

Ele está à nossa espera. "Estou aqui para curar-te. Quero-te capaz de andar sozinho. Vens ter comigo. Que posso eu fazer senão dar-te o que me pedes? Levanta-te, não tenhas pena de ti. Quero que sejas livre."

Era uma vez um homem que falava quando era preciso, que vencia os seus próprios medos... Um homem curado por Jesus...

6 de janeiro de 2007

Um ano bom, assim-assim, ou para esquecer?


Tenho que confessar que fiquei irritado. Um dia destes, enquanto estava na galhofa, sentado numa mesa com outros colegas no bar da faculdade, encontrei um colega que já não via desde o ano passado e desejei-lhe um Bom Ano. Ao que ele me respondeu, com ar bastante resignado, “hum… vamos lá a ver!”. A conversa depressa se lançou para outros assuntos mas, eu fiquei interiormente a remoer aquilo: “VAMOS LÁ A VER”?!?. Como é que alguém começa um ano novo a dizer “VAMOS LÁ A VER”?!?.

A questão, parece-me, não é se 2007 será ou não será um ano bom, assim-assim, ou para esquecer. Essa é uma perspectiva que parte do triste pressuposto de que dependemos vitalmente de uma qualquer realidade exterior, a que podemos dar vários nomes:

-o nome de destino: “como não ainda sei o que (me) vai acontecer, então ainda não sei se (me) vai ser um ano favorável”;

-ou sorte: aquela que nos é revelada pelos astrólogos baratos das revistas cor-de-rosa - “este ano vai acontecer uma acidente na sua vida”; “este ano vai ter uma surpresa” (obrigadinho!... para saber isso não é preciso ser bruxo!);

-ou azar: sendo nós vítimas de tudo, vítimas dessa entidade a que chamamos “eles”: “sou vítima do governo pelos impostos que me obrigam a pagar”; “sou vítima da sociedade de consumo que me afoga em dívidas”; “sou vítima da televisão que me impinge horas e horas de telelixo”; “sou vítima da entidade empregadora porque me obriga a fazer horas extraordinárias”; “sou vítima do totoloto porque nunca me saiu o primeiro prémio”… and so on, and so on.

A questão não é: será ou não será um bom ano. Ele é, de facto, um bom ano (nem que seja porque é novo). E, por isso, a questão é antes: “o que é que eu vou fazer para que seja, realmente, um bom ano?”.

Parece-me que a chave disto tudo é que frequentemente nos demitimos do nosso papel no mundo. É mais fácil deixarmo-nos levar pela maré (seja ela a opinião dos outros, os alinhamentos planetares, o destino, a sorte, o totoloto, o deixa-andar), e é mais confortável depender do que nos acontece do que fazer com que aconteça.

E, por isso, esquecemos que o nosso papel é feito de actividades e passividades. De actividades naquilo que depender de nós: sonhando, trabalhando, suando, dando tudo para alcançar o melhor de que somos capazes. E de passividades naquilo que não está nas nossas mãos: aceitando as mudanças e aceitando a dor e as lágrimas que elas implicam, deixando morrer sonhos que já passaram de validade e aceitando os novos que a vida vai proporcionando, adaptando-nos à dinâmica da vida.

Como dizem as sábias palavras do Pe. Vasco (no “Não há soluções, há caminhos”): “Temos um Ano Novo pela frente, mas começar de novo não é começar outra vez, não é repetir alguma coisa, é começar de outro modo, com novidade. E o primeiro gesto devia ser o de agradecer esta imensa oportunidade. Este ano será aquilo que fizermos dele: se cultivarmos uma atitude de egoísmo e individualismo, será assim; mas se nos compremetermos com a construção da paz e da justiça no mundo, então teremos um bom Ano Novo. Há uma imensa sabedoria em viver cada dia como se fosse o primeiro e há uma imensa felicidade em viver cada dia como se fosse o último. As duas coisas são possíveis ao mesmo tempo”.

Por isso, este ano, não transmiti aos meus familiares e amigos o desejo de “que tenham um bom ano” mas rezo para “que seja um ano cheio de [que cresçam na relação com Deus], esperança [que sintam que a vida vale a pena] e caridade [que a sua vida transborde para os outros]”. Porque é disso que depende a verdadeira felicidade. E porque isso apenas depende do que cada um fizer ou deixe fazer.

4 de janeiro de 2007

Um amanhã preocupado!



Deixai que o amanhã se preocupe com o amanhã
. Assim falou um dia Jesus Cristo quando confrontado com as inúmeras preocupações que atormentam constantemente os homens e os deixam inquietos e angustiados. Porque será que temos esta evidente tendência de querermos estar onde não estamos a fazer aquilo que ainda não fizemos, quando estamos onde estamos a fazer o que estamos a fazer?
Pensando racionalmente, é natural que cheguemos à conclusão de que a preocupação com o que virá no dia a seguir nos permite ser mais previdentes e mais responsáveis com as nossas obrigações. Estou a lembrar-me do aluno que prepara os seus exames com antecedência ou do engenheiro que faz contas a todas as possibilidades de peso no tabuleiro de uma ponte e que analisa quantos anos durará resistente o betão. É óbvio que Jesus Cristo não é o responsável pelo insucesso escolar ou pela queda de pontes. Certamente que esse amanhã preocupado de que fala é um alerta noutro sentido. Uma coisa é ser consciente e aplicado nos papéis que assumimos no nosso quotidiano, outra bem diferente é deixarmos que uma onda de medos em relação ao futuro não permitam que desfrutemos do aqui e agora que nos é dado a viver. Até porque esse amanhã pode nem sequer chegar...
Mas, pondo de lado os fatalismos, consideremos a quantidade de momentos na nossa vida que deixamos de aproveitar porque estamos com a cabeça no jantar de logo mais, na festa que vamos ter no fim-de-semana ou nas férias do distante Agosto. Vivemos sempre atrás de momentos que são meras possibilidades, sem percebermos que a maior possibilidade de alegria pode estar mesmo agora defronte de mim. Isso causa um tão grande desgaste que nos traz imensa tensão interior que conduz à falta de serenidade e mesmo à ausência de alegria.
Vale a pena mudar de atitude, principalmente quando cá dentro começa a gritar uma vozinha de descontentamento que nos faz descentrar do que estamos a fazer nesse momento.
Saber tirar partido do que vivemos todos os dias é um dos segredos para ser mais feliz. Muitas vezes o caminho que nos aparece como mais fácil é mudar o exterior, quando tantas vezes a solução está em mudar a nossa atitude perante o concreto do dia-a-dia. Penso agora nos casamentos com um final prematuro, nas oportunidades de trabalho perdidas, nas discussões que surgem pelo acumular de tensão... Sim, até posso apreciar a conversa da vizinha chata que encontro ao descer as escadas pela manhã. Até posso achar interessante aquela aula que me custa tanto a passar. Posso mesmo tirar proveito daquela tarefa aborrecida em que só me apetece que o tempo voe...
Acho que era disto que Jesus falava. Partirmos ao encontro da alegria que pode estar escondida aonde menos esperamos. Basta querermos!

Por fim deixo esta sábia frase de Rilke: "Se o teu quotidiano te parece pobre, não te deves queixar dele mas de ti mesmo, fraco demais para dele extraíres toda a riqueza."