27 de fevereiro de 2007

Quem devo ser?

No dia em que estivemos na Capela dos Franciscanos, em Leça da Palmeira, numa missa de funeral extremamente consoladora, fui apanhado por um escrito que estava inocentemente colocado à entrada. Procurei logo uma caneta nos meus bolsos e, apesar do insólito, apoiei-me nos azulejos de tons azulados da parede para copiar a mensagem enquanto, por detrás de mim, continuavam a entrar pessoas vestidas de negro. Dizia assim:

Deus não me pedirá contas
de eu não ter sido
S. Francisco de Assis
ou mesmo Jesus Cristo.
Deus vai-me pedir contas
de não ter sido completa e intensamente
Eu.

(Martin Buber)

23 de fevereiro de 2007

A vida não vai parar


Há dias que nos fazem questionar mais fundo os passos do nosso caminho. Há dias que nos fazem pôr em causa as nossas relações, as pessoas importantes. Há dias em que os nossos medos parecem triunfar. Há dias em que a alegria parece uma ilusão sem nexo. O caminho parece estar a chegar a lado nenhum. Porém...
A vida não parou, o caminho não chegou ao seu fim, os nossos passos não estão sem direcção.
Olha para os teus pés. Ainda estão assentes no solo. Tu ainda és capaz de olhar em frente. E, repara, não estás só, não estás mesmo. Olha à tua volta e encontra a Esperança. Busca a beleza do que te está a ser oferecido. Quando achares que não a consegues ver, não desanimes. Está Alguém à tua espera, Alguém que te quer fazer ver melhor o teu caminho.
Há dias que nos fazem questionar mais fundo os passos do nosso caminho. Há dias que, sem nós notarmos, nos fazem andar em frente...

19 de fevereiro de 2007

Entrega(s)...



Estivemos de retiro... Renovámos os Votos!

Para mim, com muita serenidade e sem grande arrebatamentos espirituais, foi um tempo para consolidar esta vontade em seguir Cristo como Jesuíta. Durante estes dias passaram-me muitas coisas pela cabeça... O resultado do referendo... Os estudos... O futuro... A Igreja... Alguns Sonhos!

Uma parte da nossa sociedade está-se a borrifar para o que a Igreja pensa ou deixa de pensar. Isso dá-me volta ao interior. Quando a indiferença (e não a Inaciana) se instala, é sinal para olharmos à nossa volta e perceber o porquê dessa indiferença. O Vaticano II diz-nos para irmos às origens do Cristianismo. A Origem é a Encarnação numa sociedade concreta, onde Cristo se dá a todos os que se aproximam. Não impõe, não acusa, não julga, apenas mostra um caminho para a humanidade chegar à divindade. Quando os discípulos de João Baptista vão ter com Jesus e lhe perguntam onde moras?, têm como resposta: Vinde ver!. Com o que são e têm! E eles vão... E nós? Não vamos?

Penso que está na altura de vermos onde é que Jesus está a morar nos dias de hoje. E tal passa por escutar as pessoas sem preconceitos, simplesmente escutá-las... O que é que significam frases como: "rezo, tenho a minha fé, mas não vou à Missa", "acredito que há algo mais, mas não acredito na Igreja", "sinto-me condenado(a) pela igreja", etc.? É verdade que muitas pessoas desconhecem que cerca de 70% da acção sócio-caritativa no nosso país é feita por nós, Igreja, que a Igreja não é o padre que só pede dinheiro para a paróquia, que a Igreja não é o cumprir rituais para se alcançar um estado de pureza... Há muito mais e é esse muito mais que tem de ser dado!

E para dar temos de escutar! Temos de acolher! Temos de ver a morada de Jesus, através da nossa entrega diária às pessoas que nos rodeiam...

Estivemos de retiro, renovámos os Votos!

13 de fevereiro de 2007

2 anos depois...


"Fátima é o espaço dos simples e dos humildes, das mensagens de confiança, da certeza de ter uma mãe, da alegria de contar com um Deus que não nos abandona na pobreza, no sofrimento e na guerra. Não é essa a mensagem de Fátima? Oração e conversão: abrir o coração e a mente aos dons de Deus, que Maria nos aponta e garante."

In: Não há soluções, há caminhos, Vasco Pinto de Magalhães, sj.

7 de fevereiro de 2007

Viva Portugal!


Não, isto não é uma crónica futebolística lembrando a vitória de ontem de Portugal sobre o Brasil. Um 'viva' é uma saudação que implica alegria e entusiasmo. Ora a alegria, por sua vez, implica festa ou celebração.
Hoje há uma celebração importante para Portugal, importante porque nos define como povo, importante porque está reflectida no próprio brasão que Portugal ostenta. Hoje celebra-se a devoção às Cinco Chagas de Jesus. Pode parecer um pouco masoquista lembrar algo que à partida é doloroso. De facto, nós preferimos esquecer-nos das feridas que tantas vezes nos doem e andamos por aí, anestesiados nos nossos afazeres.
Recordar as Chagas de Jesus Cristo é bem mais do que um sentimento desfocado da nossa realidade, é lembrar Portugal, significa trazer à memória D. Afonso Henriques, nosso primeiro Rei, que quis formar um Reino baseado na fé em Jesus. O laço que une os primeiros portugueses está fundado nesta base e por isso, no centro da nossa bandeira, estão as cinco quinas, lembrando as cinco Chagas de Jesus. Por isso o nosso primeiro Rei assinava com a Cruz.
Vale a pena lembrar para algumas memórias mais esquecidas, porque foi isso que fez nascer Portugal, é esse o motivo de sermos portugueses. As coisas não nascem sem uma causa primeira. A fé é uma das razões da nossa identidade. Se queremos ser coerentes no rumo que agora seguimos, temos que lembrar as cinco quinas, ir à sua origem e a partir daí caminhar para o futuro.

4 de fevereiro de 2007

Dar tudo

No seguimento deste poema "quase" gostaria de deixar aqui uma frase que me tocou hoje:

Deus pede-nos tudo, e dar-lhe quase tudo é não dar nada!

O Senhor, quando pede, é para dar mais a seguir. Dar-Lhe apenas quase tudo é não querer receber o que Ele tem para dar. Isto é muito bonito no papel e na cabeça, mas no coração...
Ainda assim acredito que é possível fazer cada vez mais o esforço honesto de lhe dar o meu tudo, ainda que me pareça pouco. É tão possível como é possível a cada um de nós recordar algum momento em que se tenha dado inteiro e recordar o quanto recebeu depois. Uma memória assim transforma a vida e ajuda a acreditar!

2 de fevereiro de 2007

Quase

Ainda pior que a convicção do não,
E a incerteza do talvez
É a desilusão de um quase!

É o quase que me incomoda, que me entristece,
que me mata trazendo tudo
que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo,
quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades
que escaparam pelos dedos,
nas chances que se perdem por medo,
nas ideias que nunca sairão do papel
por essa maldita mania de viver no Outono.

Pergunto-me, às vezes,
o que nos leva a escolher uma vida morna.
Ou melhor, não me pergunto, contesto.

A resposta eu sei de cor,
está estampada na distância e frieza dos sorrisos,
na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem
até para ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos
para decidir entre a alegria e a dor,
mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo,
o mar não teria ondas, os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira,
não aflige nem acalma,
apenas amplia o vazio que
cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas,
nem que todas as estrelas estejam ao alcance,
para as coisas que não podem ser mudadas
resta-nos somente paciência.

Preferir a derrota prévia à dúvida da vitória
é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Para os erros há perdão;
para os fracassos, chance;
para os amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio
Ou economizar alma.

Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor
não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque,
que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando do que sonhando,
fazendo que planejando,
vivendo que esperando.
Porque, embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu!!



Luís Fernando Veríssimo

(obrigado miguita por me apresentares este senhor ;) )

Direitos Humanos

Cada um de nós pode dizer hoje “Eu já tive 5 anos”. Ou “Eu já fui um recém-nascido”.

Apesar de ao longo dos anos irmos mudando (física e psiquicamente), cada um de nós continua a considerar-se ser a mesma pessoa e a usar o mesmo pronome pessoal: "Eu".

A nossa identidade como pessoa estende-se então ao longo do tempo...

De facto, cada um de nós já foi uma criança; cada um de nós já foi um recém-nascido.

E cada um de nós também já foi um embrião.


Cada um de nós é então uma história, uma dinâmica que já começou e que se prolonga no tempo: que começou no momento da concepção e que se tem prolongado, sem interrupção, até ao dia de hoje (desenvolvendo continuamente potencialidades que desde o início trazemos connosco).

Se, pelo contrário, formos dizer que a vida humana (e sua correspondente dignidade) não começa no momento concepção, quando diremos então que começa?... E porquê?...

Todos de facto (incluindo os próprios defensores do Sim) se referem a um "número de semanas" - que são contadas a partir do momento da concepção. É que é esse o único verdadeiro início de qualquer vida humana.


O próximo referendo não é pois uma questão para ser tomada levianamente... Em causa está uma das traves fundamentais dos direitos humanos: o direito que cada ser humano tem que a vida não lhe seja tirada por um outro.

As leis de uma sociedade têm o dever de proteger sobretudo os mais fracos. E um aborto consiste em provocar intencionalmente o fim de uma vida humana (pelo que não pode deixar de se considerar um acto violento).


Sem dúvida que haverá casos e casos, com atenuantes que poderão limitar ou até mesmo anular uma responsabilidade subjectiva de uma mulher. Mas talvez o mesmo não possa ser dito de todos os casos, indiscriminadamente e à partida (como pretendido por uma liberalização total do aborto). De recordar também, de qualquer modo, que há pessoas que ganham a sua vida dedicando-se regularmente a esse tipo de actividade.

Certamente que o objectivo principal de uma lei nunca pode ser o de "punir" ou "penalizar" quem quer que seja. O objectivo de qualquer lei (que prevê uma pena) é sim o de estimular pedagogicamente a prática do bem e desincentivar a prática do mal. E é importante recordar aqui que o aborto é um mal não só para o filho (pondo um fim à sua vida), mas também para a própria mãe. A nível físico e a nível psíquico; a curto e a longo prazo.


A solução de um drama (uma gravidez indesejada) não pode nunca passar pela criação de um segundo drama (um aborto). A verdade é que um novo ser humano existe, foi concebido. Se de facto surgem gravidezes indesejadas, deveríamos tentar compreender porque é que estas surgem, concentrando os nossos esforços na resolução do problema nas suas causas.


Luís Ferreira do Amaral, sj

1 de fevereiro de 2007

"Porque quero ser jesuíta?"


Escrito por Karl Rahner,sj em 1973

A espiritualidade de Inácio, que recebemos através da prática de oração, foi mais importante para mim do que a filosofia e a teologia mais sublimes, tanto dentro como fora da Companhia…

Digo isto com simplicidade, ainda que soe a piedoso.

Quero ser jesuíta, não porque a Companhia de Jesus tenha um influxo significativo na Igreja; não porque tenha hoje muitas universidades e sábios de todo o tipo, ou porque se faça sentir nos meios de comunicação social, etc., etc.; nem sequer porque, em muitos países, a Companhia se tenha posto, mais claramente do que antes, ao lado dos pobres e dos oprimidos.

Se quero ser jesuíta, é porque também hoje, para além de qualquer trabalho pastoral, eclesial ou eclesio-político, vive-se, a meu ver, com ou sem êxito, em muitos dos meus companheiros, um desejo de serviço calado, não retribuído, de oração, de abandono ao mistério de Deus, de aceitação serena da morte como ela vier, de acolhimento de Jesus crucificado.

Penso em irmãos que eu próprio conheci. Penso no amigo Alfredo Delp, que assinou a sua incorporação definitiva na Companhia com as mãos algemadas pelos nazis; penso naquele que, numa aldeia da Índia, onde nenhum intelectual do país aparece, ajuda os pobres a cavar poços; penso em quem, a cada hora, atende no confessionário às tribulações e angústias dos que são burgueses apenas na aparência; penso em quem foi espancado, juntamente com os seus estudantes, pela polícia de uma ditadura, sem a satisfação de aparecer como glorioso revolucionário;

Penso em quem anda diariamente nos hospitais à cabeceira dos moribundos e para quem o absolutamente único tem que fazer-se costume rotineiro; penso naqueles que nas prisões têm que “pôr à venda” a mensagem sempre nova do Evangelho e a quem se agradece mais os cigarros que a palavra de Deus; penso naqueles que, com esforço e sem êxitos “estatísticos”, tentam aceder uma faísca de fé, esperança e amor numa quantas pessoas.

Tais figuras, e muitas outras realidades e tarefas pessoais que alcançam o próprio Mistério de Deus, são, também hoje, aquilo que se tem como decisivo na Companhia de Jesus.