28 de março de 2007

Amor x Dependência Afectiva

Muitas vezes na nossa vida usamos a palavra amor, outras vezes até somo capazes de dizer: "Amo-te!". Se há alguém com quem gosto de estar, uma pessoa que me fascina, significa que estou a ama-la? Se até já comecei a namorar e não consigo passar um dia inteiro sem ver aquela pessoa, se sinto que quando está longe a vida perde o sentido, estarei eu a amar?
Hoje em dia conhecemos pessoas tristes, sem vontade de viver, em salas de espera de psicólogos precisamente porque não conseguem superar o final de um namoro, uma morte, a perda do emprego... Imaginem uma ponte que assenta apenas num pilar. Quando o pilar vacila ou cai toda a ponte se ressente. Se coloco todo o meu apoio em algo ou alguém arrisco-me a desabar.
Ora, se digo que amo alguém mas na realidade me fecho à relação com as pessoas que me rodeiam e só estou feliz quando tenho aquela pessoa ao pé de mim, então devo repensar o meu conceito de amor. Estou a viver uma dependência afectiva. Perdi a liberdade, vivo só para aquele encontro.
É por isso que é bom ter um pilar firme a suportar-nos como é Jesus, alguém que amou, foi próximo dos outros e nunca perdeu a liberdade.

Amar é ser capaz de dar sem querer nada em troca. É não olhar para as minhas perdas só porque o outro fica a ganhar. É gostar muito de estar com alguém mas não depender disso para ser feliz.



24 de março de 2007

Não leias, se não queres mudar


A formiga disse com ar chateado: - Outra vez Primavera! Flores, chuva,... e trabalho e mais trabalho. Que falta de originalidade Senhor Tempo, todos os anos as estações repetem-se. Estou a começar a ficar farta da monotonia. É sempre a mesma coisa!

O Mestre olhou-a com um sorriso de paciência. Coçando a barba grisalha disse-lhe com ar de sabedoria: - A Primavera não é a mesma, nem tu és a mesma. Parece mas não é. Tu estás diferente. Para vencer a monotonia tens de procurar a novidade das coisas. Tudo parece igual mas se nos deixarmos tocar pelo novo tudo se transforma.


Apetece dizer como a formiga: outra vez Páscoa!

Mais uma vez, vamos chorar com Jesus no horto, porque a dúvida é grande e parece absurdo morrer na cruz. Na Sexta-Feira Santa, mais uma vez, continuando lacrimosos, fixamos os olhos na cruz e revivemos toda a história da Paixão. No sábado, mais uma vez, entramos no túmulo e absorvemos o seu silêncio. E finalmente no Domingo gritamos de alegria: - Cristo Ressuscitou! (Será mesmo verdade?) Beijamos a cruz nas diferentes casas de família, comemos, bebemos, gritamos aleluias, … E pronto, esta já está, venha outra!

Pergunto: - Para quê recordar tudo isto? Eu já sei a vida de Jesus de trás para a frente e de frente para trás! Julgo que a diferença está, como diz o mestre, na atitude interior (“se nos deixarmos tocar pelo novo tudo se transforma”). A Quaresma e a Páscoa não são um álbum fotográfico a que eu recorro para não me esquecer, são fotografias que se tornam vivas na vida. Não chega recordar, é necessário viver no meu interior. Ressuscitar não é voltar à vida (ser reanimado), mas nascer de novo.

O que é que eu preciso de Ressuscitar em mim: - a minha atitude em casa, a minha família, a minha forma de estudar, a minha relação com os outros, o meu compromisso com a justiça, a minha atitude social, a minha imagem de Deus, a minha forma de estar com aquela pessoa, o meu namoro, etc.
Se queremos viver a Páscoa deixemo-nos transformar por dentro e tocar pelo novo.

Que o medo seja vencido pela confiança, que a angústia dê lugar à paz.
Que as trevas sejam rasgadas pela luz, que o silêncio da morte grite: aleluia.
Que a morte seja destruída pelo Amor, que a vida deixe de ser um peso e a cruz tenha sentido.
Tudo porque existe Deus e Ele é amor.

22 de março de 2007

Vale a pena ser ateu?

Muitas vezes questiono os argumentos sistematicamente apresentados pelos ateus para justificar a sua opção. De facto tudo era mais simples se Deus se dependurasse numa nuvem e pudéssemos contemplá-lo a toda a hora. Tudo seria mais simples se a Igreja não viesse com tantas normas e não nos desse tantos conselhos para a nossa conduta. Tudo seria bastante menos complexo se percebêssemos como foi criado o mundo, e o porquê de existir sofrimento.
Porém, mesmo não acreditando em Deus, todo o homem deseja ser feliz, quer alcançar um estado de serenidade que lhe permita viver a sua vida com optimismo. Ora essa felicidade está ao seu alcance. O Cristianismo dá uma resposta clara ao homem. Uma das mais evidentes chama-se humildade.
A humildade leva-nos à aceitação das nossas diferenças em relação aos demais, conduz-nos a um olhar límpido sobre nós mesmos. Só quando sabemos viver com as nossas limitações podemos fazer caminho rumo à felicidade. Se continuarmos a viver em estado de revolta por causa do acidente que me fez perder o meu melhor amigo, ou por causa de um atraso que me não permitiu concretizar aquele projecto tão importante, ou ainda porque sem uns olhos azuis sou menos feliz, então estaremos a escolher o caminho da tristeza. Se eu souber aceitar o que não posso mudar já dei meio passo para alcançar a felicidade.
O resto do caminho tem que ser feito por cada um de nós (um cristão tem o estímulo do exemplo de Jesus Cristo). Lembrando a parábola dos talentos, cada um de nós deve arregaçar as mangas e maximizar o que pode dar. Não vale a pena estarmos sempre a fugir das situações que nos custam. "Eu não posso passar por ali porque está lá uma pessoa com quem me é difícil falar.", "Não me peçam para trocar uma lâmpada porque tenho medo de estragar o candeeiro.", eis algumas das respostas que constantemente nos limitam. Porque não arriscar? Se não sei fazer posso aprender. Quem agora é um grande cozinheiro teve que começar como um grande ignorante em cozinha.
Tudo isto só para justificar o porquê do optimismo cristão. O homem é um ser limitado, mas pode daí tirar partido. O Cristianismo dá uma resposta clara ao sofrimento, dá uma resposta aos anseios do homem. Para isso, é verdade, torna-se imperativo renunciar à nossa sede de querer perceber tudo e de ter as verdades da vida coladas na retina dos nossos olhos.
Deixar de acreditar em Deus é abrir um vazio, é dar espaço à desolação da finitude. Se podemos optar pela felicidade, porquê complicar? É isso que os ateus buscam nas suas questões. Buscam um sentido, buscam um motivo, buscam uma resposta para a sua existência. Querem a felicidade, acredito eu.
Queremos todos a felicidade, não queremos? Se queremos todos o mesmo então temos que estar todos do mesmo lado. Vale a pena meditar na proposta de Jesus Cristo...

19 de março de 2007

Estas mãos não estão fechadas...

Havia um homem lançado num caminho. Um homem sem nome, sem voz, sem rosto. Um dia o caminho que seguia encontrou-o perdido, perdido em si, perdido sem lugar.
O homem caiu, caiu e chorou. Este homem queria mais, queria ter voz, queria ter nome, queria ter rosto. Estava farto de rodopiar à sua volta. Levantou os olhos e reparou que no seu caminho outros caminhos se cruzavam, outros homens, outras mulheres surgiam.
O homem pôs-se em pé e caminhou na sua direcção. Sentiu- se, de repente, com rosto. Alguém o chamava pelo nome. Podia falar e ser escutado. As lágrimas cessaram. As suas mãos fechadas abriram e nelas viu surgir um novo trilho. Aquelas mãos abertas fizeram nascer uma possibilidade. Algo de novo surgiu. A vida nasceu!
Aquelas mãos abertas... Quanto delas brotou! Quantas outras mãos puderam segurar! Quanta confiança fizeram multiplicar! Quantas lágrimas fizeram cessar! Quantos sorrisos fizeram abrir!
Aquelas mãos abertas... Quanto delas brotou!


Hoje é dia do pai, dia da vida, dia de mãos que não estão fechadas. Hoje é o dia de todos nós, dia de aprendermos a abrir as mãos, dia de aprendermos a viver...

16 de março de 2007

Exprimir os afectos… até que ponto?

“Mas vocês [jesuítas] interessam-se por essas coisas?!” perguntou-me admirado. Estávamos em pleno Verão, no meio do quente do Alentejo. A conversa surgiu quando saímos os dois de carro para abastecer o campo de férias que estávamos a animar. Ele como director, eu como “capelinho”. Já não sei porquê comecei a falar do John Powell e do seu livro O Segredo do Amor Eterno e confessei-lhe a admiração que nutria pelos seus ensinamentos. Falámos do amor, das relações de amizade, e até das relações de namoro e casamento. Foi então que me perguntou admirado: “Mas vocês interessam-se por essas coisas?!”.

Como sempre, nestas situações, não devo ter respondido grande coisa. Fiquei também eu admirado com a pergunta que ele me tinha feito. Mas fiquei a digerir interiormente: “Interessados em amor, nós, jesuítas? CLARO QUE SIM! Se não fosse o amor, e por amor, que sentido teria a nossa vida?”.

É claro que isto não se vive de repente e pronto. Há um trabalho contínuo a fazer. Por dentro e por fora. Pessoalmente, tenho-me visto no meio de uma das melhores escolas do Amor que deve existir no mundo. A vida em comunidade é um autêntico laboratório de relações humanas e de auto-conhecimento! E não teria sentido nenhum se não fosse para sermos melhores, para amarmos mais. O que não quer dizer que seja fácil. Antes pelo contrário.

Sentindo-me um bocado analfabeto nesta questão dos afectos a verdade é que tenho aprendido a abrir os meus canais de comunicação e a deixar que o fluxo vital corra mais livremente. E, volta não volta, vem-me a interrogação: Exprimir os afectos… até que ponto? A isto John Powell parece responder no tal livro:

“Eles eram irmãos, sacerdotes e jesuítas. Por muitos anos tiveram uma amizade rica e recompensadora. Percorreram, juntos, a longa e penosa caminhada do seminário. Quando um deles precisava de algo especial – tempo, alguém para o escutar ou qualquer outra coisa o outro estava sempre lá.

A amizade terminou abruptamente em tragédia e morte. Um deles foi atropelado e morto em frente da casa onde moravam com a comunidade. Quando foi informado de que o amigo estava estirado morto sobre o asfalto, o outro correu, atravessou o cordão de curiosos e polícias e ajoelhou-se ao lado do velho amigo. Embalou, nos seus braços, suavemente, a cabeça do morto e, diante de todas aquelas pessoas boquiabertas, deixou escapar: «Não morras! Tu não podes morrer! Eu nunca disse que te amava!»”.

(Recomendo: John Powell, O Segredo do Amor Eterno, Paulinas, 1990)

12 de março de 2007

Porque Quaresma?


Nas últimas semanas tenho-me confrontado com um desafio: como explicar, ou melhor, como dar a sentir a adolescentes de 13 e 14 anos o significado e valor da Quaresma?

Primeiro, pensei eu, trata-se de saber o que é a Páscoa, uma vez que Quaresma só faz sentido com esse horizonte. E mais do que “saber” trata-se de ter experimentado a Páscoa e querer vivê-la cada vez mais. Se vivo um relação com Aquele que está vivo, então sei que posso estar mais, ou menos aberto à sua presença, e sei também que Ele só se faz esperar quando não construí as condições para o encontro.

As palavras chave que usei num jogo sobre a Quaresma foram as seguintes: preparação, arrependimento, oração, jejum, coração, perdão… As quatro primeiras palavras só fazem sentido como meios. Preparo-me para algo, arrependo-me porque reconheço que posso melhorar uma relação, rezo porque me quero encontrar com alguém e faço jejum porque isso me ajuda a ir para onde realmente quero e a ser quem realmente quero ser. A quinta palavra (coração) lembra-nos que a grande acção é interior e é em cada um de nós. Quanto ao perdão é a certeza de que Deus está mortinho por nos oferecer o espaço e o abraço no qual o podemos encontrar como Ele é.

Depois Páscoa!

8 de março de 2007

Era uma vez um pontífice...

Pontífice quer dizer fazedor de pontes, construtor de ligações entre duas margens. Curiosamente é um título do qual se apropriaram os Papas. Na nossa vida diária somos convidados diversas vezes a ser pontífices, a estabelecer contactos, a fazer nascer o diálogo, a destruir os isolamentos que nos deixam perto do abismo.
Acho que já percebi que saber dizer ao outro o que penso, o que sinto, manifestar-lhe o meu ponto de vista, as minhas dúvidas é o único caminho que nos faz andar em frente. Não há outra saída!
Porque continuamos, então, a estar divididos, a não investir no diálogo, a deixar construir barreiras e mais barreiras à nossa volta? Talvez a outra margem seja mais alta que a minha, ou então é feita de outro material. O investimento para construir uma ponte é brutal, por vezes. Qual é o preço de uma ponte? E qual é o rendimento que me pode trazer? Fugindo tantas vezes do esforço acabamos por perturbar essa unidade que, no fundo, todos desejamos. Desta unidade já falava Jesus.
Ser pontífice é mais do que ser fazedor de pontes, é querer ser alegre, é desejar ser livre mas sabendo procurar alcançá-lo.
Eu também quero ser pontífice.