29 de abril de 2007

Incompreensões...

O ser humano guarda no seu ser mais profundo a sua verdade inefável. Essa verdade é a sua, ninguém a pode contestar. É o ser exposto na sua nudez. Ela vale, vale muito, mesmo quando parece ser posta em causa.
Quando a nossa verdade entra em confronto com a verdade de outro gera-se a incompreensão. Quem tem razão? Quais os argumentos mais rectos? Porque não conseguimos entrar em sintonia?
O sentimento de incompreensão expõe-nos perante a nossa própria fragilidade. A comunicação torna-se difícil. Alguém tem que ceder, mas ambos estão cheios de razões. Faz lembrar a ponte estreita onde só passa um carro de cada vez. Chegaram ambos ao mesmo tempo. Quem recua? Quem avança?
A busca da verdade tem muitos caminhos, tantos que muitas vezes baralham o ser humano. Quem tem a verdade consigo? Quem garante o caminho mais curto?
Não sei apontar a solução, mas já consigo encontrar uma direcção. O contrário da incompreensão é a compreensão. Se me sinto incompreendido devo agora tentar compreender. Este exercício pode amenizar a nossa revolta interior, pode ajudar a quebrar a barreira que me separa do outro.
Compreender porque sou incompreendido é entrar discretamente na verdade do outro. Deixo de conhecer só a minha verdade e descubro porque razão ela aparece tão estranha diante de outra.
Há duas verdades, dois caminhos aparentemente opostos... Talvez não estejam tão distantes.


22 de abril de 2007

Há boas desilusões?

Tenho passado uma fase de desilusões. Desilusões com capacidades que pensava ter e não tenho. Desilusões com coisas que eu pensava que Deus curaria em mim e afinal não parece interessado em curar. Desilusões com a vida espiritual porque pensava que tendo uma vida espiritual activa os meus problemas interiores se esfumariam. Desilusões com a vida religiosa porque pensava que enveredando por este caminho uma aura de santidade me cobriria e a paz me preencheria definitivamente por dentro. Desilusões atrás de desilusões.

Curiosamente ainda estou vivo. Ou seja, tenho sobrevivido a essas desilusões. Pergunto-me porquê. Pergunto-me ainda, tentando encontrar resposta para isto: será que as desilusões são necessariamente más? Será que devemos evitar as desilusões enquanto pudermos? A resposta é não. Claro que são duríssimas. A ninguém lhe pode apetecer ter desilusões. Mas as desilusões são todas boas na medida em que são des-ilusões. Ou seja, são destruidoras de ilusões.

Ora, a saúde interior, espiritual, psicológica, trata precisamente de uma constante adequação à realidade. Por isso, as des-ilusões são dos melhores contributos que podemos ter para esse trabalho. E parece-me que as temos em dois modos: des-ilusões regressivas e progressivas. As regressivas são as mais duras: exemplos destas são os que referi atrás: situações ou capacidades que idealizamos de tal forma, sejam em nós, seja nos outros, seja em Deus, que estão muitos furos acima ou ao lado da realidade. Afinal não existem. As progressivas são menos duras pois consistem em surpresas que temos diante da vida: situações ou capacidades com que não contamos, em nós, nos outros, em Deus, e afinal elas aparecem, acontecem de uma forma imprevisível. Quando tudo parecia fechar-se sobre nós, eis que subitamente abre-se uma porta, um muro se derruba, e um novo horizonte surge.

De uma forma ou de outra, ambas conduzem a um contacto mais real com a vida. Mas para que possam acontecer temos que estar obrigatoriamente abertos à novidade. Temos que estar disponíveis a alterar o nosso mapa da realidade. Temos que estar livres para mudar de paradigma. Se assim não o fizermos, não faz mal: a própria vida tratará de nos abanar até que nos convençamos de que o devemos fazer.

Para além disso, a verdade é que os dois tipos de des-ilusões se relacionam intimamente. Fazê-los surgir em sequência é uma técnica, ao que parece, muito usada por Deus: secar-nos de tal maneira, des-iludirmo-nos de tal forma connosco mesmos, com a realidade tal como a vemos, que, em desespero, num vazio abissal, numa morte total de nós mesmos, abre-se espaço para algo que nos transcende e nos vemos sem mais a quem recorrer do que a Ele em Pessoa. Quando chegamos aí, então surpreendemo-nos com o encontro com Deus. Com a vida em abundância.

E tu? Já tiveste boas desilusões na vida?

18 de abril de 2007

Corporeidades...





As minhas últimas semanas foram bastante intensas. Aliado à intensidade da Semana Santa, fiz dois cursos que me ajudaram a perceber mais um pouco do ser humano na sua totalidade. Fiz um curso de dança contemplativa e outro de Bibliodrama/Psicodrama. Ambos de componente prática bastante forte. Depois de séculos em que o ocidente apelou a um racionalismo extremo, em que toda a dimensão corporal foi esquecida, finalmente está-se a despertar para um relação com Deus de forma ainda mais próxima.

Rezar com o Corpo, através da dança ou pela encenação de uma passagem bíblica, permite-nos um outro tipo de encontro com Deus, indo mesmo à profundidade das nossas emoções. O corpo transmite de forma bastante vincada o que nos vai cá dentro. Jesus, Deus Encarnado, viveu toda a dimensão humana através do Corpo. Comoveu-se, riu, comeu e bebeu, abraçou e, como Judeu, também deve ter dançado ao som da cítara e da lira nas festividades religiosas e sociais.

A mim tem-me ajudado muito a oração dançada. Os movimentos, os passos, a música, o sentido das pequenas coreografias, fazem com me consiga envolver no encontro e que todos os meus sentidos sejam direccionados para Deus. A oração não é papaguear fórmulas, é dar, com o que temos e somos, todo o nosso tempo a Deus. E porque não a dançar? Fica o convite…

P.S. - Escrevi o "Investigações...", onde partilho o que penso sobre esta eventual descoberta do túmulo de Jesus

11 de abril de 2007

Já sabem das novidades?


Um homem com uma cruz, outro com a água benta, outro com um saquinho para ofertas, uma série de crianças com sinos e um padre. Todos percorrendo a pé a paróquia inteira, visitando todas as casas, estando com todas as pessoas, desde o amanhecer até ao anoitecer. É assim a Visita Pascal aqui no Norte (digo “no Norte” porque lá, no meu Sul, não há esta tradição do chamado “Compasso”).

Este ano, em Fiscal (a doze quilómetros a norte de Braga), voltei a recorrer à bem sucedida técnica que tinha usado no ano passado. Qual é a técnica? Entro nas casas com um sonoro Bom Dia / Boa Tarde para captar a atenção das pessoas (muitas vezes as casas estão cheias); depois pergunto com tom de quem pergunta algo que toda a gente sabe: “Então!... já sabem das novidades?!”. As pessoas, habituadas à rotineira bênção anual, ficam aturdidas com semelhante interpelação. Às vezes acrescento: "Não me digam que ninguém vos disse nada!...". Imagino-as desorientadas a dar voltas à cabeça. Deixo passar escassos segundos de um silêncio custoso… até que respondo, com toda a naturalidade: “Jesus ressuscitou!”. Então as pessoas reagem muito positivamente, umas rindo, outras suspirando de satisfação e contentamento. Isto em cada casa, sempre como se fosse a primeira.

Ao longo do dia já “as novidades” se tinham espalhado pela freguesia e as próprias pessoas já brincavam comigo.

No fim do dia, já à noite, uma pequenita veio-me dizer que queria saber qual era a novidade. Não tinha percebido. Eu agachei-me, para estar à altura dela, e disse-lhe: “a novidade é que Jesus está vivo!… e isso faz toda a diferença”. E deixei-a. Ela deve ter ficado a digerir a novidade porque passados uns minutos voltei a cruzar-me com ela, veio ter comigo e disse-me simplesmente: “Obrigado pela novidade”. Por dentro fiquei derretido.

À noite voltei para casa contente. Porque, para além dos milhares de beijos que a cruz recebeu, para além da banda e das centenas de petardos e foguetes, para além da famosa (e bem bonita) passagem de barco no Rio Homem, para além das mesas a transbordar de comida, acho que ficou ali semeada uma novidade que pode, essa sim, mudar radicalmente a vida das pessoas.

9 de abril de 2007

PUI em Avis


…amanhã às três da tarde. Apareçam!

Foi este o convite, era este o convite que se renovava diariamente.

Uma rua com casas de dois pisos de um lado e do outro, de um dos lados alguns cafés e do outro, à esquina, a casa de Turismo. Ao cimo da rua umas escadas com meia dúzia de degraus e a igreja.

Todos os dias o número de braços que nos acenava ia aumentando. O número de crianças que connosco fazia a oração da tarde e brincava também foi aumentando.

À hora em que o véu do Templo se rasgava ao meio, e Jesus exclamava, dando um grande grito: “Pai, nas tuas mãos entrego o Meu espírito”. A mesma hora tornou-se a hora de encontro, a hora de alegria.

Na viagem de regresso a casa contemplava a imagem do dia seguinte. Às três da tarde, a mesma rua, as mesmas escadas, a igreja, e a carrinha que desta vez não chega.

No adro da igreja as crianças continuam a brincar…

8 de abril de 2007

Ressuscitar

Adeus, João.

Escrevo-te para me despedir de ti. Vou-me embora. Não sei se volto.

Não sei bem explicar porquê mas, nestes últimos dias, a palavra Adeus tem marcado uma presença como nunca antes tinha tido no meu interior. Aaaaa-deeeee-uuuuuuusssssss, apetece-me dizer. Apetece-me dizer adeus a imensa coisa. E isso espanta-me estando eu numa situação exterior relativamente estável. A verdade é que, por dentro, me sinto como cobra em mudança de pele. Preciso de mudar. Quero mudar. Estou a mudar, quer queira quer não queira.

A vida pede-me mais. Pede-me que a acompanhe. Exige-me que seja melhor. Estou farto da mediocridade da vida cinzenta. Não suporto mais o fardo da rotina e do dever. Quero ser livre. E ser livre significa ser fiel ao que sou no mais fundo de mim mesmo. Significa deixar morrer aquilo que sou desde sempre à superfície. Largar os meus vícios de miúdo, adolescente e jovem. Ser Eu, na minha verdadeira essência. Ser Eu em profundidade. Ser Eu na magnificência de filho de Deus.

Despeço-me de ti, velho João. Gostei de te conhecer, rapaz. És boa pessoa mas chegou a altura de partires. Faz a tua mala e vai. Leva contigo os medos, as inseguranças, de quem depende de factores exteriores. Leva contigo os ressentimentos. Leva contigo os sonhos antigos. Não deixes cá nada. Há um novo João a chegar e precisa de espaço. Vai! Vai!

Não olhes para trás. Segue o teu caminho. Um dia tinha que chegar essa hora. E a hora chegou. É esta. Quero que partas e não deixes nada para trás. Leva tudo contigo. Não te esqueças de nada.

Quando o novo João chegar quero a casa limpa. Quero uma brisa leve a encher o meu interior. Quero que o Espírito me percorra livremente e sem obstáculos. Quero ser outro. Ser outro. Ecoa em mim o ser outro.

Chegou a hora. E é esta. É esta a hora em que tudo vai ser diferente. Está na hora de partires. Apressa-te. Não te demores!

Em mim morrerá lenta a tua memória. Em mim se desfarão as cadeias invisíveis. Me tirarão o confortável sofá de uma vida cómoda. Me deixará na rua a tua partida. Mas, finalmente, eu serei quem sou.

O Senhor virá e me cobrirá com a sua glória. O Senhor virá habitar em mim. Serei preenchido pela sua alegria. Me tomará nas suas mãos e me levará para Sua casa, minha verdadeira morada.

Por isso, me despeço de ti, ó velho João. Já nada te prende aqui. Fizeste o que tinhas a fazer. Fizeste tudo o que pudeste. Agora é outro que toma o teu lugar. Há um homem novo à espera. À espera que me deixes. À espera que vás. Chegou a hora. Já não te abro a porta de casa, empurro-te porta fora. Segue! Segue o teu caminho! Já não é esta a tua casa. Vai procurar outro lugar.

Segue, que eu fico à espera do meu Senhor.