26 de maio de 2007

Pentecostes...




Sem o Espírito Santo,
Deus fica longe;

Cristo permanece no passado;

o Evangelho permanece letra morta;

a Igreja é uma simples organização;

a autoridade é um poder;

a missão é propaganda;

o culto, uma velharia;

e o agir moral, um agir de escravos.



Mas, no Espírito,

o cosmos é enobrecido pela geração do Reino;

Cristo ressuscitado torna-se presente;

o Evangelho faz-se poder e vida;

a Igreja realiza a comunhão trinitária;

a autoridade transforma-se em serviço;

a liturgia é memorial e antecipação;

o agir humano é deificado.

Atenágoras

18 de maio de 2007

Ganzas e Homilias

5ªfeira, uma e meia da manhã. Gatódromo. Uma massa imensa de malta jovem. À nossa volta um constante rodopio de pessoas que passam para a frente, para o lado, meios encontrões, mãos levantadas ao alto com copos de cerveja. Enquanto o palco está a ser preparado para o concerto dos Xutos nós conversamos. “Tenho o sonho de um dia poder falar para uma multidão como esta”, confessa o José Luís. “E o nervosismo de falar a tanta gente?” contrapõe a Teresinha. “Não sei porquê, tenho um dispositivo natural que me faz abstrair de quem tenho à frente. Já tive algumas oportunidades de falar com um monte de gente à frente e não morri de susto. Acho que desligo do que as pessoas possam pensar”, respondo eu. “Devemos ser as únicas pessoas aqui que se lembram de falar de homilias!”, comenta a Joaninha com um sorriso. No meio disto, passam dois rapazes. Um tem umas olheiras bem marcadas e um olhar vagueante. O outro, menos alterado, pergunta-nos: “Têm ganzas?”. “Ã?!”. “Se têm ganzas?!”, repete ele. O José Luís e eu entreolhamo-nos. Encolhemos os ombros em sinal de negação. Eles afastam-se continuando a sua busca.

Os Xutos começam o concerto a abrir. Sempre a rasgar. Aproveito o ritmo para libertar energias. Lá para meio penso: “Será que aqueles dois sempre conseguiram as ganzas?”. Olho para o lado: o José Luís reza no meio daquela barulheira. A multidão canta em coro os clássicos. Tudo está ali numa imensa catarse comunitária. “Precisamos de momentos destes”, penso eu para os meus botões: “Porque não viver isto dentro da Igreja?”. Mais lá para o fim, a Luisinha vem ter connosco. Esteve o tempo todo a servir na barraquinha da Psicologia. Este contraste impressionante faz-me confrontar com os meus preconceitos: uma rapariga que mais católica não podia ser, ali no meio da confusão, a servir ao balcão. “Já não sou capaz de dar bebidas aos que aparecem já bêbedos”, confessa ela.

De volta para casa, o silêncio da madrugada pergunta-me: “porque é que Deus não há-de ter a ver com tudo isto?”.

16 de maio de 2007

Amigos...

Amigos, essas pessoas tão importantes...
O que é um amigo? Quando posso considerar alguém um verdadeiro amigo?
Ando há uns tempos à volta com esta questão. Alexandre O'Neill deu-me uma resposta.
Aqui a partilho convosco.

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo»
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

14 de maio de 2007

Uma questão de CONFIANÇA...

Hoje em dia ouvimos constantemente falar de confiança. Os níveis de confiança são avaliados vezes sem conta como critério para justificar o interesse ou a falta dele da parte das pessoas analisadas. O mundo anda doente de confiança, as relações estão sedentas de confiar.
A confiança funciona quase como um motor no interior de cada um de nós. É ela que faz a gestão da nossa motivação, da nossa entrega...
Confiar é pôr a nossa fé em algo ou alguém, é ter um terreno firme para caminhar, é sentir-me seguro porque sei e conheço o ponto onde me apoio.
Há uma mão segura que sei que posso agarrar; um ouvido que não me vai censurar, um local que conheço como a palma da minha mão; um recanto onde as tempestades não chegam, onde os ventos mais impetuosos me não deixam afundar.
A confiança é o alicerce fundamental da minha vida. Sem confiança em Deus esvazio-me. Sem confiança em mim deixo de dar aquilo que afinal posso dar. Sem confiança nos outros ando perdido e desorientado.
Confiar é amar, é aceitar ser levado, é deixar-me ser num outro. Confiar é contagiar de solidez o mundo, é dar um passo querendo dá-lo, é andar em frente e sempre para a frente.

11 de maio de 2007

Porquê tanto stress?

No nosso mundo civilizado orgulhamo-nos dos nossos telemóveis de 3ª ou 4ª geração, das nossas bandas largas, das nossas auto-estradas, das nossas televisões de plasma, dos nossos micro-ondas. E temos razões para isso. O nosso nível de vida é fantástico! Fazemos inveja ao resto do planeta. No entanto, olho à minha volta, e só vejo gente stressada. Andamos sempre todos a correr. Dum lado para o outro. A fazer coisas. A produzir. A executar. A cumprir tarefas. E todos nós, todas estas pessoas privilegiadas que têm tudo, todos nos queixamos de falta de tempo! Não é um contra-senso?

Pior ainda. No passado Domingo, ouvi algo impensável.

Tudo bem, já não me espanta ver-me a mim próprio a correr que nem coelho da Alice no País das Maravilhas; já não me espanta ouvir amigos a queixarem-se que não têm tempo para gozarem a vida de casal; já não me espanta ouvir pessoas reformadas confessar que as obrigações lhes absorvem o tempo todo; muito menos me espanta ver jesuítas com ritmos alucinantes de trabalho.

O que me deixou boquiaberto foi que, numa reunião de religiosos da diocese de Braga, uma Irmã desabafou que “até as velhinhas de 70 e 80 anos [da sua comunidade] vivem em stress!”.

Até as velhinhas de 80 anos!?! Como é isso possível? O que é que andamos a fazer com a vida? De certeza que não é vontade de Deus que nos enterremos constantemente em stress!

Em relação às pessoas “normais”, pergunto-me: Não será que andamos enganados? Não será que fomos iludidos por acreditar que determinados aparelhos nos facilitariam a vida? Não será que a factura a pagar por ter tudo é deixar-nos sem nada? Não será que deveríamos ter a coragem de largar alguns confortos exteriores em benefício da saúde interior?

No caso específico de nós, religiosos, apetece-me perguntar: Não será que nos andamos a deixar levar pelo espírito de eficiência do mundo? Não será que andamos a adorar o deus da produtividade? Não será que devíamos gastar mais tempo a estar uns com os outros e com as pessoas, em vez de andarmos a cumprir obrigações? Mesmo os deveres mais "santos" como as orações comuns ou as missões que nos são atribuídas: não será que deveriam ser redimensionados?

4 de maio de 2007

Um profeta


Nestes dias fomos visitados por um profeta. É um companheiro jesuíta que trabalha na Amazónia, (no meio da Amazónia!) com os povos que lá vivem. Padre Fernando.
É um profeta porque a sua presença, tal como a de Jesus, desafia à conversão, é um apelo em carne e osso a viver as bem-aventuranças, a ser feliz com menos coisas, a mudar a mentalidade, a sintonizar com o essencial. Diante de alguém assim, que faz milhares de Km de canoa só para estar com pessoas que se calhar nem entendem o que é um padre, ou um sacramento, os meus males, os meus medos, as minhas dificuldades tornam-se quase ridículas! Não, não foi a aventura que mais me impressionou, nem sequer a coragem de ir para o meio dos crocodilos sozinho. O que mais me impressionou, e que não posso deixar de sentir cá dentro, foi a alegria e felicidade que cada palavra e cada gesto dele transmitiam! Foi a sua experiência de Deus que, de tão forte que é, transborda e inunda-nos a todos. Foi o desafio evangélico que a sua simples presença comunica.

Não quero ir para a Amazónia...(pelo menos por enquanto)! Mas também não quero deixar passar esta oportunidade de conversão. Tantas pessoas, imagens, textos, filmes, conversas, tantas vezes Deus tenta entrar na nossa vida e deixamos para depois...
Também quero amar assim e ser amado assim, mesmo que seja aqui nesta selva de asfalto e betão como dizia o Pe Fernando. Que o Senhor nos ensine a dar a vida em cada pedacinho de existência; no estudo, na oração, no trabalho, nas relações, no que leio, no que penso, no que digo, no autocarro, na rua, no café...

2 de maio de 2007

Peregrinação dos Centros - Algumas “fotos"

1ª Foto. 140 peregrinos estrada fora. Todos de mochila às costas. Em fila indiana. A subir uma colina. Em silêncio. A rezar.

2ª Foto. Chegamos ao fim do primeiro dia à Escola Secundária da Póvoa de Lanhoso. Jogo de futebol: Lisboa contra o resto do mundo. Uns vinte contra outros vinte. Uma confusão. Só rapazes, claro. Eu não quero arriscar por causa do meu pé mas de cada vez que a bola vem para fora do campo não resisto a dar-lhe um chuto. Mesmo com o pé magoado. É mais forte do que eu.

3ª Foto. Refeitório da Escola. Hora de jantar. Um barulho ensurdecedor preenche o espaço. Panelas, tachos, tupperwares, talheres, mãos, mesas, tudo serve de instrumento de percussão para entrar no ritmo da intensa catarse comunitária.

4ª Foto. Mais um momento de oração. Meto o piloto automático na velocidade very-very slow. Gozo o prazer de andar sem pressas. Não há tempo. É ser, estar, permanecer, contemplar.

5ª Foto. A meio do caminho começo a contar: um jesuíta, dois jesuítas, três jesuítas… e dava até para adormecer a contar jesuítas porque eram vinte e três jesuítas! Cinco padres, oito juniores-filósofos, oito noviços e dois companheiros brasileiros. Não chegámos a fazê-lo mas podíamos ter tirado uma bela foto de família.

6ª foto. Chegada ao Santuário de Nª.Sª. da Abadia. Missa. Os senhores padres partilham palavras de sabedoria. E de humor. Relembro os tempos em que, jovem universitário, fascinado, andava pelo CUPAV. Porque não ser jesuíta?

7ª Foto. No autocarro, de regresso a Braga, fecho os olhos por momentos. Mais do que memória das belas paisagens guardo as paisagens interiores que me percorreram o coração e, principalmente, aquelas que percorri com alguém ao meu lado. Por isso, faço uma montagem interior com algumas caras. Cada uma representando uma boa conversa. Não consigo deixar de sorrir.

E tu? Tens "fotos" para partilhar?