31 de outubro de 2007

S. Afonso Rodrigues

Hoje a Companhia de Jesus celebra S. Afonso Rodrigues. Afonso nasceu em Segóvia em 1533 e entrou como Irmão na Companhia de Jesus em 1571, após a morte da sua mulher e dos seus filhos. Foi-lhe confiada a missão de ser porteiro em Maiorca, no Colégio da Companhia, onde morreu faz hoje 390 anos. Quando entrou no noviciado, alguém que perguntava para que servia este homem à Companhia recebeu como resposta que servia para ser santo. Deixo um breve excerto dos apontamentos espirituais de S. Afonso.

"O meu coração está cheio de ânsias e desejos de agradar a Deus, pelo grande amor que Lhe tenho, cortando comigo mesmo e com todas as coisas desta vida, para contentar a Deus. E como Ele vê os meus desejos, e trato com Ele e com Nossa Senhora, e só a Eles amo, e não quero amar senão o que eles querem, a Eles recorro, pondo-me a mim e a todas as coisas, minhas e dos outros, em suas mãos. Assim tudo corre bem e segundo a vontade de Deus."

26 de outubro de 2007

Partilhas...


Meu Deus,

faz brilhar diante de mim, na vida do outro, o vosso Rosto.

Essa luz irresistível do vosso olhar, acesa no fundo das coisas, já me lançou em toda a obra a empreender e em todo o trabalho a sofrer.

Concedei-me o favor de vos ver, mesmo e sobretudo, no mais íntimo, no mais perfeito, no mais remoto da alma dos meus irmãos.

Teilhard de Chardin,sj

24 de outubro de 2007

Os Sabores de Deus

A Bíblia conta-nos uma história de encontro entre Deus e um povo. Deus visita pessoas concretas, fala, convida, envia, faz alianças. A sua presença parece real, palpável, visível… Deus deixa-se ver, ouvir, tocar. É o responsável por feitos que todos podem testemunhar. E hoje? Onde está Deus? Porque não o podemos ver, porque não somos capazes de distinguir com nitidez a sua presença? Muitos dirão, desiludidos, que Deus se calou ou que simplesmente nunca existiu. Mas muitos outros continuam a testemunhar o encontro com o mesmo Deus que habitava com o povo da Bíblia. Onde fala Deus então? Como podemos encontrá-Lo, para que nos conte os segredos do Universo e nos mostre o sentido da nossa existência? Talvez a resposta possa desiludir e baralhar, mas Deus fala ao Homem nos seus próprios pensamentos e sentimentos. Era isto, julgo eu, que Jesus quis dizer quando afirmava que faria de cada pessoa a sua morada. Também S. Paulo dizia que somos templos do Espírito Santo. É pois na nossa vida e nos movimentos da nossa interioridade que podemos cruzar-nos com Deus. E como nem tudo o que sentimos vem de Deus, precisamos aprender a distinguir o Seu rasto – é o que em espiritualidade se chama discernimento. A presença de Deus tem sabor. Muitos sabores, que dependem da nossa circunstância pessoal. Mas há três sabores de Deus que são inconfundíveis: a fé, a esperança, e o amor. Parece, afinal, que Deus continua a deixar-se encontrar, mas talvez nos obrigue a usar o paladar.

21 de outubro de 2007

20 Outubro 2007 - Sé Nova de Coimbra

andreas lind antónio ary bruno nobre francisco martins pedro luz pedro silva vasco themudo

Chegados ao fim de dois anos de noviciado, decidimos fazer os primeiros votos na Companhia de Jesus. Fazer votos é decidirmo-nos a seguir um caminho radical que nos é proposto por Jesus: viver como Ele viveu, pobre, casto e humilde, sendo assim sinais do amor de Deus e construtores de um mundo mais justo. Os três votos religiosos são a expressão da entrega, total e livre, que desejamos viver.

Viver em POBREZA consiste em olhar para todas as coisas a partir de Deus e tê-l’O a Ele como única segurança. Num estilo de vida despojado e simples, pondo tudo em comum, comprometemo-nos com a justiça, ao lado dos mais pobres e esquecidos.

A CASTIDADE é a nossa forma de amar cada pessoa, com a máxima proximidade, de forma livre e gratuita e por isso sem exclusividade. Desejamos assim testemunhar o amor universal de Deus, saindo de nós próprios, em contínuo movimento e desinstalação.

Através da OBEDIÊNCIA procuramos fazer a vontade de Deus e não apenas seguir os nossos interesses ou apetites, dando espaço ao serviço e à humildade. A relação adulta e conversada com os nossos superiores torna-nos parte de um corpo, ao serviço da Igreja e do mundo.

Não fazemos os votos sozinhos, nem os fazemos para nós. São um meio e não um fim, o caminho que nos faz cada vez mais jesuítas. Queremos cada dia dizer “sim” à missão que Deus nos confia, certos de que só Ele é capaz dar a cada pessoa uma vida nova, cheia de esperança, sentido e horizonte...

17 de outubro de 2007

O Negociante de Pérolas

O cristão é… “semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola” (Mt 13, 45-46). Hoje durante a oração pus-me a imaginar como haveria de responder a alguém que me perguntasse sobre o que significa ser cristão. Lembrei-me, quase imediatamente, da pequena história contado por Jesus sobre um negociante de pérolas que troca tudo o que tem pela pérola mais valiosa que encontrou. Parece-me que todo o ser-humano é um negociante de pérolas. Todos procuramos tornar algum sonho real, todos tentamos, de troca em troca, conquistar maior felicidade. E o cristão também. Com a diferença de que a pérola pela qual deseja trocar tudo é realmente valiosa. A sua ambição é de tal modo desproporcionada que pode chegar a parecer que despreza o mundo, a vida e os seus encantos. Realmente o cristão não sobrevive, vive. O seu horizonte não pertence ao tempo, porque está apaixonado pela eternidade. A sua casa não pode ser mais pequena que o mundo, porque deseja que debaixo do seu tecto caiba toda a humanidade. Não esgota a sua imaginação e as suas forças num projecto pessoal, porque não pode ser feliz sozinho. Procurar uma pérola de tão grande valor pode parecer insensato. Como sabemos, afinal, que existe tal pérola? Não sabemos, de facto, mas acreditamos que um Homem, chamado Jesus de Nazaré, ao morrer e ressuscitar, a encontrou.

10 de outubro de 2007

FÉ?

Quando se fala de fé vêm-nos imediatamente à cabeça mil e uma ideias - o Papa, a inquisição, a Igreja, as guerras religiosas, a compatibilidade com a Ciência, normas morais, polémicas entre políticos e representantes religiosos... Mas o que é afinal a fé? Qual é o seu núcleo essencial? No Evangelho da missa de hoje os discípulos pedem a Jesus que os ensine a rezar. E Jesus, fazendo eco da sua própria experiência, ensina-lhes uma oração muito simples que começa por "Pai Nosso". Julgo que estas duas palavras resumem o essencial da fé cristã. Acreditar é descobrir-me profundamente amado, é confiar que vale a pena acolher a vida mesmo apesar do meu sofrimento e das minhas fragilidades. Mas em Deus não encontro um Pai exclusivo. Deus é Pai de todos os que comigo partilham a existência humana, o que faz de cada pessoa um irmão. Depois de termos bem presente o essencial acho que tudo se pode discutir. Mas tendo a consciência de que pôr em causa a fé cristã não é lutar contra a Igreja ou contra alguma das suas posições, mas sim abdicar da convicção de que cada ser-humano tem lugar num mundo que podemos construir juntos.


9 de outubro de 2007

?Desiludido com Deus?


Só há duas razões para estarmos desiludidos com Deus: (1º) estou a querer d’Ele alguma coisa que me parece boa mas que, de facto, não é; ou (2º) estou a querer que Ele me dê uma graça quando eu quero e não quando Ele quer e sabe ser a melhor altura.

Assim, se estás desiludido, ou se achas que Ele não te ouve para um pouco e olha com cuidado para aquilo que desejas. Se não tens a certeza quanto ao que pedir pede o Espírito Santo (porque não será negado a quem o pedir com confiança). Se estás seguro de que pedes algo de verdadeiramente bom para a tua vida, confia e espera. Na altura em que produzir mais fruto o receberás!

8 de outubro de 2007

Confiar...


"Não te inquietes com as dificuldades da vida, pelos seus altos e baixos, pelas suas decepções, pelo seu futuro mais ou menos sombrio. Quer o que Deus quer. Oferece-lhe no meio das inquietações e dificuldades o sacrifício da tua alma simples que aceita os desígnios da sua providência. Pouco importa que te consideres um frustrado se Deus te considera plenamente realizado, a seu gosto. Perde-te confiando cegamente nesse Deus que te quer e que chegará até ti, mesmo que nunca o vejas. Pensa que estás nas suas mãos, tanto mais decaído e triste te encontres. Vive feliz. Vive em paz. Que nada seja capaz de tirar-te a paz. Nem o teu cansaço. Nem as tuas falhas. E no fundo do teu coração coloca tudo aquilo que te enche de paz. Por isso, quanto te sintas desanimado e triste, adora e confia ."

Teilhard de Chardin

4 de outubro de 2007

[Primeira Semana]
pedir graça a Deus nosso Senhor para que todas as minhas intenções, acções e operações sejam puramente ordenadas para serviço e louvor de sua divina majestade (EE 46)

Hoje termina a primeira semana de aulas do primeiro ano de filosofia: os primeiros passos neste admirável mundo novo do pensar.
Depois dos dois anos de noviciado, de "deserto", à descoberta de Deus, de mim e da Companhia de Jesus, sou agora enviado a estudar filosofia como jesuíta. Uma missão nova, numa comunidade nova, e no entanto com o mesmo fio condutor: seguir Jesus Cristo.
O que fica desta semana? Fica a ideia de não estar aqui apenas para estudar filosofia, não apenas para consumir aquilo que outros pensam e dizem, mas sim para fazer filosofia. Só assim consigo entender esta missão: ser cada vez mais um homem para os outros, dando testemunho do Reino.

3 de outubro de 2007

S. Francisco Borja - Um ex-vice-grande-homem-do-mundo


Hoje comemoramos a festa de S. Francisco de Borja.
Um dos grandes do seu tempo, muitas vezes incompreendido e muito desconhecido nos nossos dias.
Vale a pena por isso deixar aqui dois pequenos textos que podem revelar-nos mais sobre este homem que foi recebido de braços abertos na Companhia de Jesus pelo seu fundador, Sto Inácio de Loiola.

Francisco de Borja era Espanhol, duque de Gandia, vice-rei da Catalunha, casado e com 8 filhos. Ao conhecer a Companhia de Jesus afeiçoou-se tanto a ela que fundou em seu ducado uma Universidade entregue à nova Ordem. Ao morrer-lhe a esposa, renunciou ao mundo e fez-se jesuíta, trilhando generosamente o espírito de S. Inácio. Teve que fugir de Roma para não ser feito cardeal. Ordenado sacerdote, foi eleito Geral da Companhia de Jesus após a morte do Pe. Diogo Lainez, que sucedera a Sto Inácio. Caracterizou-se por sua devoção ao Santíssimo Sacramento. Em seu tempo a Companhia organizou casas de formação e abriu missões em países da América Latina. Foi canonizado por Clemente X em 1671.

Assim como pela secura da terra murcham as flores e os frutos das árvores, assim também, quando a alma se entedia na oração e nos exercícios de piedade, secam-se as flores e os frutos espirituais. Por isso, quem pouco se exercita na meditação e na imitação de Cristo crucificado, mal aprenderá a sofrer e cairá na impaciência. E porque não medita assiduamente, na oração, sobre o conhecimento da própria baixeza e miséria, cai na estima própria e no desprezo do próximo.


(Retirado e adaptado de http://www.puc-rio.br/campus/servicos/pastoral/santo_outubro.html)
Na imagem: A despedida de S. Francisco de Borja da sua família - óleo sobre tela de Francisco Goya

S. Francisco Borja - Uma vida para o que não morre


Nas despedidas da Congregação Geral III, a 3 de Setembro 1564, já tendo sido eleito como Geral da Companhia de Jesus, Francisco de Borja dirige-se aos seus irmãos jesuítas presentes.

“Centrou a sua alocução nos deveres dos jesuítas para com o próximo, para consigo mesmos e para com o Geral. Pediu-lhes que fossem como bons samaritanos pelo mundo e que não se dividissem com dissensões internas.”

“No fim, foi para o meio da assembleia e falou de si mesmo. O Ex-vice-rei, o ex-duque, o ex-esposo, o ex-pai de família, o ex-grande de Espanha, fraco como uma raiz fora de terra, com os olhos vermelhos de chorar e de não dormir, mas com um encantador sorriso nos lábios, disse a seus irmãos:

“Lembrai-vos, padres, que o peso que haveis posto sobre os meus ombros é superior às minhas forças. Farei tudo o que é da minha parte fazer, mas rogo-vos que me ajudeis não só com os vossos conselhos e avisos, mas sobretudo com as vossas repreensões e admoestações, como obriga a caridade. Fazei comigo, vos rogo, como com um jumento de carga. Se se encurva, aligeira-se-lhe o peso; se avança facilmente, dá-se-lhe estímulo; se cai, ajuda-se a que se levante; se se fadiga muito, tira-se-lhe carga. Eu sou a vossa besta de carga. Haveis-me carregado, tratai-me como corresponde… Ajudai-me, pois, com vossas orações; aligeirai-me, sobretudo os que tendes parte no governo; estimulai-me com vossos exemplos e advertências; se me achar cansado, descarregai-me. Se quereis consolar-me, meus amadíssimos padres, que vos veja sempre unidos em sentimentos e em palavras. Tende um só coração, um só espírito; levai mutuamente a vossa carga, afim de que eu possa levar a de todos. Completai a minha alegria para que a nossa seja completa, e nada nos possa arrebatá-la.

Depois, no meio de um silêncio sagrado, Francisco levantou-se e acrescentou estendendo as mãos:

- Não vos movais. Ficai todos quietos, sentados como estais. Então ajoelhou-se e ia beijando um a um os pés dos seus companheiros. Os padres congregados, atónitos, foram saindo e Francisco de Borja começava 7 anos de generalato, ou como ele diria, 7 anos de cruz.”
(
Adaptação do livro “Francisco Borja - Los enigmas del Duque” de Pedro Miguel Lamet)

Na imagem: S. Francisco de Borja - óleo sobre tela de Alonso Cano