30 de novembro de 2007

"Porquê Deus se temos a Ciência?"

Hoje assisti na Faculdade de Filosofia do Pólo de Braga da Universidade Católica a um colóquio sobre fé e ciência. Enquanto ouvia as brilhantes comunicações, que abordaram o tema desde ângulos muito diversos, fui eu próprio reflectindo um pouco sobre a minha própria experiência religiosa em confronto com a experiência de alguns anos de investigação em Física Teórica de Partículas.
Confesso que não me revejo no Deus cuja inexistência muitos ateístas, nomeadamente cientistas, tentam a todo o custo provar. O Deus que os neurocientistas procuram no cérebro humano não passa, na minha opinião, de uma caricatura. Pergunto-me, de facto, porque razão a experiência religiosa ou a palavra Deus evoca quase imediatamente vozes, visões, estados extáticos, milagres, sinais, velinhas e incensos… Eu acredito em Deus e posso assegurar que não tenho visões, nem alucinações, não ouço vozes, nem levito ou saio de mim mesmo quando rezo… Aliás, na maior parte das vezes que alguém falar em visões é para desconfiar. Lembro-me que há alguns anos atrás o P. Carreira das Neves comentava numa conferência que às freiras velhinhas que na confissão lhe vinham falar de visões ele respondia : “Já estás linda!”. Também Santo Inácio, ele próprio um místico, desconfiava de orações muito arrebatadoras. Quando numa ocasião lhe apresentaram alguém que supostamente seria uma pessoa de muita oração afirmou “será de muita oração se for de muita abnegação”. E o P. Nadal, um jesuíta da primeira geração, comentava que de tudo o que se passa na oração só 90% tem origem em Deus.
A presença de Deus no mundo tem muito pouco a ver com misticismos e esoterismos. As marcas da sua presença são, aliás, bem mais visíveis. Quando alguém se entrega de corpo e alma à construção de um mundo mais justo por causa de Deus deixa uma marca que é bem visível. Se alguém quiser encontrar Deus no meu cérebro talvez devesse colocar os eléctrodos na minha cabeça cada vez que sinto o desejo de assumir com garra a minha vida e fazer dela algo que valha a pena, ou cada vez que me deixo espantar por um Universo que não pode caber na minha compreensão, ou simplesmente quando me invade a alegria de acreditar, sem mais, que vale a pena viver…
Que a(s) teologia(s) cristãs devam integrar as evoluções da ciência é para mim evidente. De facto, a fé tem sobretudo a ver com o sentido da existência (da minha, da humanidade, do Universo), mas da existência real. E o objectivo da ciência não é mais do que ajudar-nos a conhecer mais profundamente a realidade. A ciência, se é ciência, não porá em causa uma teologia que seja teologia, antes contribuirá para a purificar e para evitar a alienação. Alienação, aliás, que é um perigo que espreita também a ciência. De facto, uma ciência debruça-se sempre sobre uma porção ínfima (não necessariamente do ponto de vista espacial) da realidade, isolando-a tanto quanto possível para descomplexificar os problemas que tenta resolver. Ao fazê-lo, porém, perde a visão de conjunto. Ou seja, se há alguém que põe palas é o cientista que mergulha no seu laboratório. Porque, se quiser olhar a realidade como um todo, procurando o seu sentido, a sua causa e o seu destino, dificilmente o fará sem entrar no domínio da religião. Claro que poderá sempre dizer que não lhe interessam as questões existencialistas, mas a isso eu chamo fuga e falta de audácia. A atitude do homem crente, pelo menos se acredita num Deus que não é uma caricatura, é a inversa – olha a mesma ínfima porção de Universo que o cientista, mas tem a consciência que esta se integra num horizonte muito mais vasto que encontra em Deus um sentido.
Termino citando o P. João Resina Rodrigues, padre católico e que ao longo de várias décadas aprendeu a conciliar fé com ciência e que resume de forma simples e directa o papel das ciências e o papel das religiões: “Kant diz três coisas fundamentais: o que posso saber, o que devo fazer, o que me é lícito esperar. E achou que a primeira depende da ciência (…) Uma coisa é tentar compreender o Universo. Para isso há a física e a biologia. Se quero saber se houve ou não big bang, se a vida evoluiu ou não, não pergunto à Bíblia, não pergunto à Igreja, que não tem competências nessa matéria. A segunda questão é o que devo fazer, como se deve viver para ser homem. Pergunto à história, às culturas, às religiões. A terceira pergunta é o que me é lícito esperar, qual o sentido de fundo disto tudo. Aí, encontro a questão de Deus.” (inViragem, revista do Metanóia, nãoº 55 – 56, Janeiro – Agosto 2007).
Em jeito de provocação, e citando o título da comunicação do P. Alfredo Dinis, deixo uma interrogação que talvez possa dar o mote a cenas dos próximos capítulos: “Porquê a ciência se temos Deus?”

27 de novembro de 2007

Em Igreja


Aproveitando a boleia do Paulo, com o seu "Pensamentos Soltos...", também eu escrevo um pequeno texto a propósito do discurso do Papa Bento XVI aos bispos portugueses. Confesso que me deixa um pouco perplexo o espanto que as palavras do Papa provocaram. Justamente porque não dizem nada de novo. Repito, o Papa não diz nada que possa surpreender um católico português responsável e informado. Talvez seja este, aliás, um dos problemas da nossa forma de estar em Igreja. Estamos à espera que o Papa, os senhores bispos e os senhores padres nos digam se a barca mete água ou não, em vez de cairmos na conta de que comunidade cristã precisa do empenho de cada um. Como diz o Papa, "todos somos responsáveis pelo crescimento da Igreja".
E porque não começarmos nós próprios por fazer um exame sobre a forma como construímos a nossa comunidade e sobre como a nossa comunidade se insere na sociedade? Porque não falarmos mais vezes uns com os outros sobre as dificuldades que sentimos? ”Lembrei-me que podia propor um exame em cinco passos decalcado do exame de consciência quotidiano proposto por Sto Inácio de Loyola. Cá vai:

1. Dar graças. Não adianta olhar a Igreja e a nossa comunidade com o sobrolho franzido e como se a Igreja a todos devesse e a ninguém pagasse. Pelo contrário, se queremos falar da Igreja comecemos por dobrar e língua e dar graças. É imenso o que a nossa Igreja portuguesa e cada uma das suas comunidades ofereceu durante séculos ao nosso país, às nossas cidades e aldeias, a cada um de nós e a tantos quer nos precederam na fé. Agradeçamos porque a Igreja, apesar das suas fragilidades, continua a lembrar ao mundo o nome de Jesus e a semear a Sua Palavra, a perdoar pecadores, a consolar quem anda triste, a partilhar com os que têm menos e a curar quem está doente. Enquanto não sentirmos profunda gratidão não adianta passarmos adiante – não conseguiremos ser objectivos nem lúcidos.

2. Pedir luz. Para falar da Igreja não podemos seguir apenas os critérios humanos. É com os olhos postos em Jesus que podemos tomar o pulso às nossas comunidade para perceber se nas suas artérias é o Evangelho que corre. Não adianta muito falar em números, em poder, em actividades que dão nas vistas. São o serviço, a fé, a esperança, o amor sincero aos mais frágeis, e aos pobres, a denúncia da injustiça que nos devem servir de referência.

3. Examinar. Ou seja, olhar a nossa comunidade com olhos de ver e tentar perceber em que aspectos podemos crescer. Deixo uma pista retiradas da mensagem do Papa:
É preciso construir “caminhos de comunhão”, afirma o Papa, “é preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II”. Tiro certeiro. As pessoas que frequentam as nossas comunidades conhecem-se? Somos responsáveis uns pelos outros, ou limitamo-nos a ir à missa como quem vai ao cinema, incapazes de perceber que ao lado pode estar alguém que sufoca de tristeza? A forma como partilhamos os nossos talentos e bens interpela quem não acredita?

4. Pedir perdão. Ficar-nos-ia muito bem se nós, cristãos, reconhecêssemos com humildade que são muitas as vezes que erramos. Talvez devêssemos pedir perdão a Jesus sobretudo pelas vezes que Ele gritou pela nossa ajuda e passámos indiferentes em correrias sem sentido, convencidos que somos bons católicos porque afinal até vamos à missa ao domingo.

5. Propor emenda. Não adiantam discursos e exames se tudo ficar na mesma. São precisos passos concretos e muita imaginação. Vistas largas. No local onde vivo e trabalho sou presença da comunidade. E em tudo o que fizer deixarei a sua marca.

(Fotografia de Francisco Campos no AfterXav 05, actividade organizada pela Província Portuguesa da Companhia de Jesus em Dezembro de 2005 e que reuniu em Coimbra cerca 600 jovens)




26 de novembro de 2007

São João Berchmans, SJ


Hoje, a Companhia de Jesus celebra um santo que nos é particularmente especial aqui em casa. São João Berchmans, o nosso padroeiro.
Nasceu em Diest, na Bélgica, em 1599. Entrou na Companhia com apenas 17 anos. Contudo, o seu sonho de anunciar o Evangelho na China terminou muito cedo, com uma forte infecção pulmonar, contraída durante os seus estudos em Roma. Morreu a 13 de Agosto de 1621.
Era um homem inquieto, que nunca deixou de procurar Deus. Gostei de ler alguns excertos das suas cartas, que a liturgia de hoje nos oferece.
«o Senhor bate à porta do meu coração. Nenhuma outra ideia me ocorre, quer durante o estudo, quer durante o descanso; nada mais me vem à mente quando passeio ou me ocupo em qualquer outra coisa; nenhum outro pensamento me assalta senão o de examinar o estado de vida que devo escolher»
«O meu espírito e o meu coração não têm paz enquanto não encontrarem Aquele a quem amam».

22 de novembro de 2007

Pensamentos Soltos...






Só neste fim-de-semana passado tive oportunidade de ler com calma a carta que Bento XVI escreveu aos nossos bispos. Para mim, alguns pontos apresentados pelo Papa não são novidade. De facto, a fé portuguesa anda muito centrada em santos e santinhos, gerando confusões no pensamento sobre isto da religião e da fé. Sem querer cair no perigo da generalização, é notória a cada vez maior desvalorização da celebração dominical e tudo o que está ligado com a Igreja, na sua dimensão comunitária. De que me serve ir todos os anos a Fátima, por exemplo, se isso em nada contribui para uma mudança da minha relação com a comunidade? Até mesmo com Jesus? Maria tem um papel importante enquanto imagem da humanidade que dá o sim à divindade, mas ela não é a divindade.

Também por pensar sobre isto, graças ao que vou escutando nas várias conversas que vou tendo, percebo que tem de começar a haver um questionamento sério sobre o que se prega, anuncia (ou não anuncia), deitando abaixo a imagem clericalista da Igreja. Muitas vezes, em Igreja pergunta-se, “porque é que já não vêm ter connosco?”. Para mim uma pergunta que já demonstra preocupação, mas ainda é voltada para dentro. A meu ver, juntamente com esta questão deve surgir outra: “o que é que nós, Igreja, estamos, ou não estamos, a fazer que provoca este afastamento em relação a nós?”. Penso que Bento XVI também está a colocar esta última questão aos Bispos. Afinal, andamos a centrar a fé nas romarias e não na Pessoa de Jesus. E conhecer a fundo Jesus Cristo não é, de todo, perdoem-me a expressão, esfregar as mãos nesta ou naquela imagem em busca do milagre, ou sabe-se lá do quê. A Teologia é bastante mais séria e a busca da relação com Deus traz muitas responsabilidades. Tem de se perder o medo em partir estruturas antigas e olhar às novas respostas para os dias de hoje. De facto, vinho novo em odres velhos, já se sabe o resultado.

Penso que se ganharia muito mais em começar a escutarmo-nos uns aos outros, em escutar os sinais dos tempos. Há tanto bem na Igreja, que acaba por ficar abafado por mesquinhices que não têm interesse nenhum. De que me serve anunciar que “Jesus é amor” se isso não é vivido? De que serve estar a dizer às pessoas para vir à Celebração Dominical, se não se explica, na medida do possível, o que se passa naquele momento? Não faz sentido ir à Missa por obrigação... Faz sentido quando busco uma relação...

A formação é cada vez mais importante. E começaria pelos padres, diáconos, catequistas. Sair de paradigmas antigos e entrar em pleno, por exemplo, na grande mensagem de esperança do Concílio Vaticano II. Há dias comentaram-me que a Igreja deixou de evangelizar há 1700 anos atrás, quando saiu das catacumbas, porque a partir desse momento deixou de propor, para passar a impor. Tenho noção de que este pensamento pode ser redutor, mas tem o seu quê para reflectir. Jesus veio anunciar a Boa-Nova, tendo sido muito duro perante as atitudes dos fariseus que impunham as suas doutrinas. Afinal, a libertação do ser humano passa por uma relação de esperança e verdade diante de Deus e não de medo, como se de um tirano tratasse. E esta relação tem de ser livre, no sim que é dado a quem ouve e vê Jesus. Ora, nós crentes, temos de ser os primeiros a dar o exemplo do acolhimento, do não julgamento. Sei que me torno repetitivo sobre este ponto, mas a experiência vai-me confirmando esta posição.

Se Bento XVI pede para nos centrarmos em Jesus, torna-se evidente, pelo menos para mim, que temos de voltar o nosso olhar para o Mistério da Encarnação. Não estou a ver Deus encarnar por um capricho, mas sim por este profundo desejo de integrar toda a humanidade na sua divindade. E isto vive-se em comunidade, na relação comigo, com os outros e, sobretudo com Jesus, Deus encarnado. Isto é mesmo muito sério…

21 de novembro de 2007

Procurando o meu Princípio e Fundamento

Com tudo o que de bom a minha vida possa ter, estando eu a viver em Braga, o que me faz estar aqui a estudar… Filosofia… na Universidade Católica?

O que desejo para a minha vida? Que sentido lhe quero dar? Questiono-me a fim de não me perder com o que, no fundo de mim, considero secundário, mas que por vezes, tendo a esquecer! Perdendo o centro… sei que resvalo. Não é tanto pelo receio de cair, que também tenho, mas por temer desencontrar-me com o sentido no meu existir.

A resposta mais verdadeira que posso receber vem da relação com Deus.

Não quero desviar o meu olhar do Teu! Aí encontro-me. Contigo, sou. Com mais ninguém consigo ser eu, apenas aparência de mim. Contudo, a Teu lado, não quero ser outro, senão eu, uma vez que reconheço-me mesmo Amado por Ti, como eu sou.

Agora, focado na relação conTigo, relembrando-me do que me faz estar em Braga, posso ir tomar o pequeno-almoço com serenidade, e deixar escapar uma gargalhada interior. Só sou peregrino quando sei para onde vou!

Onde me queres levar, Senhor? Seguindo-Te, não me poderei perder (Diário Espiritual Sto Inácio Loyola)

16 de novembro de 2007

Sugestão de leitura II


Livro: "Rezar com o Padre Arrupe"
Selecção e adaptação: José A. García, S.J.
Colaboração: Ignacio Iglesias sj, Veridiano Léon sj
Editorial A.O. – Braga
ISBN 978-972-39-0680-6

Neste livro recolhem-se orações do P. Pedro Arrupe, S.J., que foi Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1983. Não se trata de textos para ler, mas de ajudas para rezar, ao jeito do P. Arrupe, com simplicidade, confiança filial, naturalidade, quase como quem respira. Nada há de artificial nestas orações. Brotam da vida, elevam-se a Deus com toda a confiança e voltam à vida quotidiana, na certeza de terem sido atendidas. É assim a oração dos grandes orantes. Era assim a oração do P. Arrupe...

(texto retirado de www.webboom.pt)

14 de novembro de 2007

Hoje é dia de festa

Pedro Arrupe nasceu em Bilbau a 14 de Novembro de 1907, ou seja, há precisamente cem anos. Em 1923 partiu para Madrid onde estudou Medicina. Em Janeiro de 1927 entrou no Noviciado da Companhia de Jesus em Loyola, terra natal do fundador desta ordem religiosa, Sto. Inácio. Depois de alguns anos de formação em filosofia e teologia na Bélgica, Holanda e Estados Unidos, foi destinado à missão do Japão, para onde partiu em 1938. Durante 27 anos trabalhou neste país do Oriente. Aqui desempenhou vários cargos desde pároco, a mestre de noviços até provincial. Durante 33 dias foi preso sob suspeita de espionagem, viveu a primeira bomba atómica da história da humanidade, percorreu o mundo a contar a sua experiência e em 1965 foi eleito 28.º Superior Geral da Companhia de Jesus, cargo que exerceu até as forças o traírem no verão de 1981. Viveu uma década de limitação e doença até à sua morte em Roma no dia 5 de Fevereiro de 1991.

Não é certamente pelos seus 18 anos como Geral que aqui o recordamos, nem certamente pelo trabalho infatigável no Japão, nem ainda pelo seu desejo profundo de acabar com as injustiças no mundo. Arrupe foi muito mais. Evocamos o homem optimista, agarrado a uma esperança tão firme que nem a maior bomba da humanidade pôde afectar. O seu sorriso, que brotava atrevidamente nas adversidades, é o maior testemunho do seu jeito de caminhar. O seu segredo, esse não oferece dúvidas, “foi o meu ideal desde que entrei na Companhia, foi e continua a ser o meu caminho, foi e será sempre a minha força. Tirem Cristo da minha vida e tudo desabará como um corpo a que se retirasse o esqueleto, o coração e a cabeça.” Todavia não é Arrupe o protagonista desta história: é Jesus!

13 de novembro de 2007

Sugestão de leitura


LAMET, Pedro Miguel, "Pedro Arrupe - O polémico superior-geral dos Jesuítas. Da bomba de Hiroshima à crise do pós-Concílio", Braga/Coimbra, A.O./Tenacitas, 2005.

Pedro Arrupe foi alguém que atravessou com intensidade a segunda metade do século XX, deixando um rasto de esperança e oferecendo instrumentos para a construção de uma humanidade mais justa e solidária. Esta apaixonante biografia dá-nos conta do impacto deste polémico superior-geral dos jesuítas na Igreja Católica e na história do mundo.

Quando em 1965 Arrupe foi eleito superior-geral dos jesuítas, trazia na sua reduzida "bagagem" um relógio parado. Sim, Pedro Arrupe vivia em Hiroshima naquela hora em que rebentou a bomba atómica!... Este é o símbolo da sua história. Um choque, uma paragem, uma viragem que é um recomeço, uma hora nova. Qual é a fibra daqueles que se arriscam quando parece só haver ferramentas gastas?
(texto retirado de www.tenacitas.pt)

12 de novembro de 2007

O Noviciado segundo Arrupe





Hoje os jesuítas celebram Santo Estanislau Kostka, o padroeiro dos noviços.
Nasceu em 1550 na Polónia, no seio de uma família nobre. Em 1564 foi para Viana de Áustria cursar estudos clássicos. Cedo sentiu o desejo de entrar na Companhia de Jesus, contra a vontade de seu pai e irmãos. Fugiu de casa e foi a pé para a Alemanha e depois para Roma, onde acabou por entrar no Noviciado. Morreu em 1568, com fama de santidade, antes de completar o seu noviciado.

Este é um dia especial no noviciado, que celebra o seu padroeiro, e para a toda a companhia. Este homem é para nós uma fonte de inspiração, pela sua persistência e pelo apelo fortíssimo que o moveu a entrar na Companhia contra a vontade de muitos que lhe eram tão queridos.

Recordo-me do meu noviciado, concretamente de um texto do Padre Arrupe que lemos e rezámos logo na primeira provação. Nele, Arrupe procurava mostrar a importância do noviciado enquanto a base de toda a formação jesuítica.

O Noviciado é um tempo onde nos retiramos para podermos experienciar Deus. Uma experiência individual de Cristo, através da oração que se torna uma necessidade do nosso dia à dia. Um tempo para aprofundar o carisma inaciano e entrar no «nosso modo de proceder», «sentir-se pedaço da Companhia». Um tempo onde deixo de ser «eu e a Companhia, mas eu que sou da Companhia, sentindo-me identificado com ela».

Um tempo para me conhecer melhor a mim próprio. Saber quem eu sou na relação com Deus e com os meus companheiros, que também me formam a mim como jesuíta. Só assim poderei saber o que Deus quer de mim.

É uma carta muito inspiradora que termina com o optimismo a que Arrupe nos habituou:

«São palavras de vida eterna. É uma vida ideal. Ser Jesuíta não é algo trágico. Pelo contrário, é algo que dá satisfação, satisfação que nasce por dentro. Daí a necessidade da formação espiritual, do amor a Cristo, do amor à Companhia, do sentido apostólico, da universalidade, do serviço à Igreja e do sentir com a Igreja».

o sorriso do P. Arrupe


Do P. Arrupe já muito se disse e escreveu e continuará a escrever. Tendo-o conhecido pessoalmente em Roma, durante os meus estudos de Teologia, temo que nos esqueçamos de referir o seu belo sorriso que revelava e comunicava uma grande serenidade. Sabendo nós que ele foi Superior Geral da Companhia de Jesus numa época particularmente difícil, e que as suas posições proféticas lhe traziam muitas críticas de autoridades da Igreja, juntamente com muitos louvores de quem o ouvia e conhecia de perto, aquele seu sorriso só poderia significar que ele estava em Deus e era do ponto de vista de Deus que avaliava as pessoas e as situações. Também esta sua maneira de estar na vida pode ser para nós uma lição que nos reconduz ao essencial. Tal como a irmã de Marta, o P. Arrupe escolheu a melhor parte, e por isso soube evitar as inquietações e agitações pelas quais tantos de nós ainda nos deixamos dominar.

P. Alfredo Dinis,sj

11 de novembro de 2007

"Sou surdo, padre..."


O padre Arrupe tem histórias espantosas. Sempre que ouço alguma, há uma coisa que não posso deixar de reparar: são histórias com pessoas!

Sim, o padre Arrupe podia ter sido só um grande estratega, óptimo a distribuir jesuítas pelas partes do mundo mais necessitadas, um negociador politicamente hábil e reconhecido. Mas a verdade é que, muito mais do que um “homem de negócios”, o padre Arrupe impressiona pelo trato pessoal, pela estima que tem a cada pessoa que conhece, pela simplicidade dos seus gestos pequeninos.

A história que mais me impressiona no padre Arrupe passa-se no Japão. Mestre de noviços, nunca deixou de ter tempo para ensinar catequese às pessoas mais simples. Conta-se que, durante seis meses, assistia pontualmente a essas catequeses um ancião japonês, que se limitava a fixar Arrupe nos olhos. Ao fim de seis meses, intrigado, o padre Arrupe resolveu-se, finalmente, a falar com o ancião e a perguntar-lhe o que achava de tudo aquilo que ele tinha vindo a ensinar. “Sou surdo, padre – respondeu. Olhei-o sempre nos olhos. O senhor não mente. No que o senhor crê, eu também creio”.

Não, não era uma questão de gestos, palavras ou obras: Arrupe era maior do que tudo isso! O brilho que trazia nos olhos falava, sem que fosse preciso dizer nada, do seu Senhor Jesus e de quanto a relação com Ele era importante. "Olhei-o sempre nos olhos. O senhor não mente."...

Somos cristãos. O que é que os nossos olhos dizem ao mundo?

10 de novembro de 2007

Três Jesuítas falam do P. Arrupe.
(parte de um filme mais longo)

video

9 de novembro de 2007

Um novo caminho


Madrid, início dos anos anos 20, Pedro Arrupe é um estudante de medicina aplicado, vai com certeza tornar-se um grande médico. No seu tempo livre começa a visitar os bairros pobres dos subúrbios da capital espanhola...

No meio da vida universitária, Pedro interroga-se. "Comecei a perguntar-me cada vez com mais frequência: Para que vim ao mundo? Para viver uns anos num anonimato estéril e, depois, enfrentar a outra vida sem ter feito nada que valha a pena? Aquelas pobres crianças, marcadas por uma vida dura, abriram-me os olhos. Fizeram-me pensar. Despertaram em mim a ânsia das grandes aspirações, que até então tinha arrastado, perdido na corrente da inconsciência, e alertaram-me para o caminho descuidado da minha vulgaridade. Corria o risco de viver a mocidade sem elevação, mas porque Ele quis, consegui deter a marcha e escolher novos caminhos."

[contado por P. Lamet, em Pedro Arrupe, Ed. Tenacitas 2004]


A vida dste homem deixa-me a pensar também, o que faço com a minha vida? Lá no fundo, sei que ela só vale a pena ser vivida se for para os outros, se for para ser entregue, nas grandes causas e nas pequenas coisas do dia-a-dia... Mas estarei eu pronto, em cada dia, em cada manhã, a escolher este caminho de novidade?

Que fiz eu por Cristo? Que faço eu por Cristo? Que farei eu por Cristo?
S. Inácio de Loyola

8 de novembro de 2007

Outro "louco" como Tu







Senhor, dá-me o teu amor, que me faça perder a minha "prudência humana" e me leve a arriscar a dar o salto, como S. Pedro, para ir para Ti: não me afundarei enquanto confiar em Ti.

Não quereria ouvir: "Homem de pouca fé, porque duvidaste?". Quantos motivos teológicos, ascéticos, de prudência humana, aparecem no meu espírito e tentam demonstrar-me "sob aparência de bem" com muitas razões humana, que o que Tu me inspiras e pedes é imprudente: uma loucura.

Tu, Senhor, segundo isso, foste "o mais louco dos homens", pois inventaste essa insensatez da cruz.

Senhor! Ensina-me que essa insensatez é a tua prudência, e dá-me tal amor à tua pessoa para que seja eu também outro louco como Tu.

P. Pedro Arrupe,sj
Encontro com provinciais, México D. F., em Novembro de 1972


7 de novembro de 2007

Pedro Arrupe - 100 anos


Na próxima quarta-feira, dia 14 de Novembro, faz 100 anos que nasceu Pedro Arrupe, o Jesuíta Basco que foi Geral da Companhia de Jesus e que dá o nome à nossa Comunidade.

Há figuras que marcam a história. E Arrupe marcou profundamente a história da Companhia de Jesus, a história da Igreja e, atrevo-me a dizer, a história do mundo. À Companhia de Jesus devolveu o espírito de Sto Inácio, à Igreja ofereceu um Corpo para levar às comunidades cristãs os ventos frescos do Concílio Vaticano II, ao mundo gritou a esperança, guiando milhares de mãos no serviço aos mais pobres de um mundo profundamente marcado pela injustiça.

Queremos dar a conhecer este homem, cuja vida nos faz acreditar que vale a pena ser jesuíta. Durante os próximos 8 dias publicamos alguns traços da vida de um homem surpreendente, carismático, apaixonado e apaixonante, que continua a servir de modelo e inspiração para tantos que acreditam que o mundo pode ser melhor.

3 de novembro de 2007

estes dualismos que nos perseguem

Até que ponto os dualismos que utilizamos para pensar e ‘arrumar o(s) nosso(s) mundo(s) correspondem a realidades igualmente duais ou não passam de formas de entendermos o mundo e nos entendermos quando comunicamos? Correspondem apenas a uma realidade construída pelos seres humanos por uma questão prática ou de conveniência, ou correspondem a alguma realidade objectiva que se nos impõe? Poderemos dispensar esses dualismos? Se não, porquê? Se sim, com que consequências?Às quartas-feiras, das 18h às 19h, encontrar-se-ão na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa quantos estiverem interessados nos debates que constituem um Seminário intitulado 'estes dualismos que nos perseguem'. Antes de cada encontro, poderá ser colocado no blog www.dualismos.blogspot.com um texto que estimule o interesse e a discussão que continuará depois no local dos encontros. Quem não puder estar presente poderá sempre entrar nos debates através do blog.

CORPO-ALMA O primeiro encontro do Seminário estes dualismos que nos perseguem terá lugar no próximo dia 14 na Faculdade de Filosofia, das 18h às 19h. Corpo-alma é o primeiro dualismo em análise. Alfredo Dinis, que animará o debate em torno deste dualismo deixa aqui um texto de Joseph Ratzinger retirado da obra Introdução ao Cristianismo, que servirá de referência para a reflexão, e sobre o qual se poderão desde já tecer considerações naquele blog, as quais serão tidas em conta durante o debate.

"A concepção grega parte do princípio de que o ser humano é formado por duas substâncias originalmente estranhas entre si, sendo uma (o corpo) perecível e a outra (a alma) imperecível, de modo que esta última continua a existir independentemente de qualquer outro ser. Na realidade, só a separação do corpo, que lhe é estranho, abriria à alma a possibilidade de ser ela mesma. O raciocínio bíblico, pelo contrário, pressupõe a unidade indivisa do ser humano, tanto assim que a Bíblia nem tem uma palavra para designar apenas o corpo (separado e distinto da alma); por outro lado, o termo ‘alma’refere-se, na grande maioria dos casos, ao ser humano inteiro, tal como ele existe com a sua corporalidade (…)A imortalidade não é fruto da evidente impossibilidade do ser indivisível para morrer, mas sim da acção salvadora do amante que tem o poder para o fazer: o ser humano já não pode findar totalmente, porque é conhecido e amado por Deus. Se todo o amor aspira à eternidade, o amor de Deus não só aspira a ela, como cria e é a eternidade (…)Ao contrário da concepção dualista da imortalidade, que encontra a sua expressão no esquema grego do corpo e da alma, a fórmula bíblica da imortalidade pretende transmitir uma ideia dialogal que abrange o ser humano como um todo: a essência do ser humano, a pessoa, continuará a existir; aquilo que amadureceu durante a existência terrena de espiritualidade corporificada e de corporalidade espiritualizada continuará a existir de outra maneira. E a sua existência prossegue porque vive na memória de Deus (…)‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de lhe responder. Aquilo a que, numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar, numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’.(…)De resto, neste ponto mostra-se claramente que é impossível, em última análise, fazer uma distinção clara entre ‘natural’ e ‘sobrenatural’.

Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo,São João do Estoril: Principia, 2005, pp. 254-260.