4 de janeiro de 2008

O Deus que se revela II - Regressar a Casa


Uma das imagens mais marcantes usadas por Jesus para revelar o Pai é a parábola do filho pródigo: um pai com os braços abertos ansioso por receber de novo em sua casa o filho desobediente. Pondo em ênfase a misericórdia e o acolhimento de Deus, Jesus como que desmonta a figura do juiz implacável e distante, ressentido pelos nossos afastamentos, imagem muito presente nos homens de Israel, e até nos dias de hoje. Como pode um pai fechar a porta de sua casa ao seu filho?

Jesus obriga-nos a pensar neste Pai que nos ama, e não nos limita, não nos quer condicionar nas nossas decisões. Dá-nos liberdade. “Queres a tua parte da herança? Pois eu dou-ta. É tua! Queres partir à descoberta do mundo, sozinho, na busca de alegria e de satisfação? Então parte. Não te digo isto por não querer saber de ti, por não me importar com o teu futuro, mas porque te amo. Sofro sim, mas não por me deixares sozinho. Sofro porque sei que longe daqui não vais encontrar a alegria que procuras...” É um Pai ferido mas não ressentido. É um Pai que sofre mas não por se sentir abandonado, pois no seu coração não há espaço para se preocupar consigo mesmo. Sofre porque sabe que a desobediência do seu filho o vai conduzir à angústia e ao sofrimento.

É um Pai paciente com seus filhos. O filho mais velho, obediente mas, dentro de si mesmo, angustiado, cumpre mas sem convicção, obedece mas não ama o que pratica, no fundo de si deseja seguir o caminho do seu irmão, está convencido que é aí que vai encontrar a sua realização. Reage mal perante o regresso do seu irmão, não entende a alegria do Pai. É o que vai acontecendo nos nossos corações em muitas ocasiões. Praticámos obras de caridade, cumprimos todos os preceitos da lei e depois nos juntámos à porta das igrejas para julgar os filhos desobedientes. Se estivéssemos, de facto, convencidos de que a obediência ao Pai é o verdadeiro caminho da alegria então exultaríamos no dia em que aqueles, que escolheram procurar a sua própria satisfação abandonando a casa do Pai, regressassem ao acolhimento do lar paterno. No fundo do nosso coração ainda desejamos muitas vezes os caminhos da luxúria, do orgulho, da fama, do prestígio, da vida cómoda e despreocupada ao caminho de despojamento e entrega que Jesus nos propõe e que até, aparentemente, seguimos.

O filho mais novo regressa, depois de ter esbanjado todo o dinheiro que tinha recebido de seu pai. Reconhece o mau caminho que seguiu, e colocando de lado todo o orgulho, vai ao encontro da misericórdia acolhedora do seu progenitor. De facto de nada adiantou ir em busca da alegria e da satisfação correndo atrás das soluções fáceis que o mundo lhe apresentava. Mergulhou na profundeza da sua miséria, deu-se conta da fragilidade da sua auto-suficiência e, arrependido dos seus enganos, volta disposto ao encontro reconciliador com seu pai, disposto a ter um lugar menor na casa. Porém o pai recebe-o de braços abertos como se sempre tivesse estado à sua espera e devolve-lhe a dignidade de filho amado.

Deus é este Pai amoroso, conciliador, que nos quer junto d’Ele a desfrutar da alegria e da paz da Sua casa. Está constantemente à nossa espera, não para nos julgar ou castigar, mas para nos abraçar.