3 de fevereiro de 2008

A força do servidor é somente Deus


Da Primeira Homilia do P. Nicolás como Geral SJ

"Antes de mais gostaria de dizer que esta não é uma mensagem para o mundo. É uma simples homilia. Uma reflexão orante sobre as leituras de hoje para os jesuítas que estamos aqui.

A primeira leitura, de Isaías (Is 49, 3.5-6), creio que nos dá a todos nós, cristãos, um pouco da visão sobre a nossa missão no mundo. Isaías diz-nos que fomos feitos para ser servidores, que estamos aqui para servir. É uma mensagem clara sobre a nossa missão como jesuítas, como cristãos, como povo de Deus. Deus faz-nos servidores. Nisto O Senhor encontra satisfação. A tradução espanhola da leitura que foi lida diz que Deus está orgulhoso do Servo. A tradução italiana diz que Deus “tem satisfação”. Creio que esta última tradução se aproxima mais do que a Bíblia quer dizer. Quanto mais nos fazemos servidores, mais agradamos ao Senhor. Creio que esta é uma imagem que hoje devemos levar connosco.

Os jornais, as revistas julgam estes dias como um “cliché”: o Papa Negro, o Papa Branco, poder, encontros, discussões... Mas tudo isto é tão superficial, tão irreal! Isto não é mais que um pouco de alimento para os que amam a política, mas não para nós.

Isaías diz-nos: Servir agrada ao Senhor. Servir é o que conta: servir a Igreja, servir o mundo, servir os homens, servir o Evangelho. Também Sto Inácio nos disse como que num resumo sobre a nossa vida: em tudo amar e servir. E o nosso Papa, o Santo Padre Bento XVI, disse-nos, recordando a essência do Evangelho, que Deus é Amor.

Depois Isaías diz-nos qual é a força do servidor. A força do servidor é somente Deus. Nós não temos outra força. Nem as forças externas da política, dos negócios e dos meios de comunicação, nem a força interna da investigação, do estudo e dos títulos. Somente Deus. Como os pobres. Há pouco conversava com um de vós, sobre uma coisa que me aconteceu no tempo em que trabalhava com emigrantes. Houve uma experiência que me impressionou. A uma filipina que tinha sofrido muito com dificuldades de integração na sociedade japonesa acercou-se outra para lhe pedir conselho: “Tenho dificuldades com o meu marido, não sei se devo divorciar-me ou continuar a tentar”… Pedia-lhe conselho sobre estes problemas bastante habituais. A primeira respondeu-lhe: “Neste momento não sei o que dizer-te. Mas vem comigo à Igreja e rezamos, porque a nós, os pobres, só Deus nos ajuda”. Isto impressionou-me muito, porque é muito verdadeiro. Para os pobres somente Deus é a força. Para o serviço desinteressado sem condições somente Deus é a força. Depois o Profeta continua, falando-nos de saúde. A nossa mensagem é uma mensagem de saúde, de salvação. Isaías indica mais adiante o ponto que mais me impressionou: o nosso Deus, a nossa fé, a nossa mensagem, a nossa saúde são tão grandes que não se podem encerrar num recipiente, num grupo, numa comunidade, ainda que a comunidade seja religiosa. Trata-se de notícias de salvação para todas as nações. É uma mensagem universal porque a mensagem mesma é enorme. Uma mensagem que só por si é irredutível.

Hoje estamos aqui representantes de todas as nações. Todos, todo o mundo está aqui representado. No entanto, as nações continuam a abrir-se ainda mais. Penso agora quais são hoje para mim as “nações”. Com efeito, estamos aqui todas as nações geográfica, mas talvez existam outras nações, outras comunidades não geográficas mas humanas, que reclamam a nossa assistência: os pobres, os marginalizados, os excluídos. Neste mundo globalizado aumenta o número dos que são excluídos por todos, dos que são diminuídos, porque na sociedade têm lugar os grandes e não os pequenos. Todos os pobres, os manipulados, todos esses são quiçá para nós estas “nações”. As nações que têm necessidade do profeta, da mensagem de Deus.

Ontem, depois da eleição, depois do primeiro choque, chegou o momento da ajuda fraterna. Todos vós me saudastes com um cumprimento muito generoso, oferecendo o vosso apoio e a vossa ajuda. Um de vós disse-me num sussurro: “não te esqueças dos pobres!”. Talvez esta tenha sido a saudação mais importante, como quando Paulo se dirige às Igrejas mais ricas pedindo para os pobres de Jerusalém. Não te esqueças dos pobres: estas são as nossas “nações”. Estas são as nações para as quais a salvação é ainda um sonho, um desejo. Talvez a salvação esteja já entre elas, mas não a percebem."

Extracto da primeira Homilia do P. Adolfo Nicolás como Geral da Companhia de Jesus (trad. do Espanhol de Bruno Nobre)