17 de Março de 2008

O espanto


Para quem começa a estudar Filosofia um bom desafio é tentar perceber o que vem a ser afinal a Filosofia. Heidegger no seu texto “Que é isto a Filosofia” tenta levar a cabo esta tarefa. Logo no início do texto, ao tentar esboçar uma primeira resposta à sua pergunta “Que é isto, a Filosofia”, Heidegger afirma que os “sentimentos, mesmo os mais belos, não pertencem à Filosofia”, e que esta “não é apenas algo de racional, mas a própria guardiã da ratio”. Numa palavra, “Filosofia é matéria da ratio”. Assim, numa abordagem mais ligeira poderia parecer que, no que ao conhecimento filosófico diz respeito, Heidegger atribui à razão um papel exclusivo. Não me parece, contudo, que assim seja. Ao iniciar a sua discussão, Heidegger cita André Gide - “é com bons sentimentos que se faz má literatura” - com o intuito de esclarecer que a Filosofia não é uma coisa de “afecção, afectos e sentimentos”. Mais adiante, contudo, regressa a esta mesma citação, dando a sensação de não estar afinal de contas tão convencido da distância da Filosofia em relação aos “sentimentos”. Parece, aliás, que poderá ser utilizada a palavra “sentimento” desde que bem entendida. A atitude filosófica é entendida por Heidegger como uma disposição, disposição para escutar o apelo do Ser. Contudo, “a disposição assim entendida não é uma música de sentimentos acidentais e emergentes que apenas acompanhassem o corresponder”. “Quando caracterizamos a Filosofia como corresponder disposto, não queremos com isso, de modo algum, abandonar o pensar às mudanças acidentais e às oscilações dos estados de sentimento.”

Ou seja, se é verdade que a razão é um dos elementos inerentes à actividade filosófica, não parece ser menos verdade que esta não se esgota no racional. Aliás, Heidegger deixa bem claro que mesmo aqueles que reduzem a Filosofia à razão fazem-no numa atitude própria de uma disponibilidade. “Muitas vezes”, afirma, “transparece de longe que o pensar seja um modo de calcular e uma concepção racional livre de toda a disposição”. “Mas também a frieza do cálculo e a prosaica sobriedade do planejar são características de uma disponibilidade”. “E não apenas isto; mesmo a razão que se guarda de toda a influência das paixões está disposta, enquanto razão, à confiança na inteligibilidade lógico-matemática de seus princípios e regras”.

As palavras-chave que este filósofo alemão associa ao filosofar são “espanto”, “admiração”, “escuta”, “disposição”, “resposta ao apelo do Ser”, “correspondência”, “estar determinado”. Trata-se mais de contemplar e escutar do que de pensar, mais de obedecer do que de inventar. “A Filosofia é um modo de competência”, afirma Heidegger, “isto é, de espreitar alguma coisa, e de captar e prender em sua visão que ela mantém em espreita”, ou, “o admirar-se suporta e domina continuamente a Filosofia”. “A Filosofia e o filosofar pertencem à dimensão do Homem que se chama de disposição.

A Filosofia como admiração, como “disponibilidade" parece aproximar-se da fé religiosa. Também a fé não é sentimentalismo ou mera afectividade; também ela não se esgota na razão. A atitude do crente é uma atitude contemplativa, de escuta, de procura de Deus e da Sua vontade em todas as dimensões da existência. Como afirma J. I. González Faus, Jesuíta e teólogo espanhol, “a fé não é uma conclusão da razão, mas um convite da razão”. É interessante notar que o Cardeal Newman utilizava a propósito da fé o conceito de assentimento, ou seja, estar disposto a acreditar, a entrar em relação com Deus. Tal como Heidegger dizia a respeito da Filosofia, poderíamos nós dizer que a fé e o acreditar pertencem à dimensão do Homem que se chama de disposição.