30 de Abril de 2008

O fundamento último da existência: algo ou alguém?


Tanto a perspectiva da fé como a perspectiva científica procuram compreender a realidade. E no entanto, entre ambas existe um conflito de séculos. Donde nasce esta tensão? Porque temos tendência a achar que ciência e fé são incompatíveis? Porque é que muitos cientistas olham a religião com tanta desconfiança?

Diz-se frequentemente que a ciência não está preocupada com as grandes questões existenciais. Esse seria afinal o campo de acção da filosofia e da religião. Embora esta afirmação seja muito frequente, julgo que não corresponde inteiramente à realidade. Quando um cientista não crente, por exemplo, afirma que Deus não existe, baseia-se frequentemente em argumentos próprios de uma perspectiva científica estrita, e desta forma acaba por fazer uma afirmação prática da capacidade da ciência para responder às tais grandes questões da nossa existência.

Em que ficamos, pois? A ciência é ou não competente para falar sobre o sentido da nossa vida (ou sua ausência)? Que pode dizer sobre os valores? O seu método é o mais adequado para procurar Deus? Acho que depende da forma como queremos encarar o fundamento último da realidade. Se este for algo (uma causa primeira, uma harmonia cósmica, uma razão universal…), então talvez a ciência seja a forma mais adequada para o procurar (admitindo que existe, claro está, ou mesmo chegando à conclusão de que a ciência nunca o desvelará completamente). Se este, porém, for alguém (um Deus pessoal) então a ciência será certamente insuficiente para nos relacionarmos com ele. A grande questão não é, parece-me, a existência de um fundamento último para a realidade, mas sim o tipo de fundamento que estamos dispostos a procurar: pessoal ou impessoal.

Enquanto numa visão materialista este fundamento último se reduz a um algo que podemos conhecer cientificamente, as grandes religiões monoteístas procuram e acreditam num Deus que é Alguém e não uma coisa, e que não é, portanto, totalmente cognoscível pelo método da ciência. Tentar aplicar a Deus o método científico não resulta, tal como não resulta utilizar o método científico para me relacionar com um amigo (a menos que queira também reduzi-lo a uma caixa de acção reacção). Isto sem desprezar o importante contributo que as ciências (psicologia, biologia, etc) podem dar para a compreensão do ser humano. Desde esta perspectiva, a fé é sobretudo uma experiência de encontro e não uma descoberta científica. As atitudes subjacentes são muito distintas. Se a disposição básica do cientista (enquanto faz ciência) é a dúvida, a disposição básica do crente é a confiança. Enquanto o cientista pensa e experimenta a sua teoria, o crente relaciona-se com Deus, o que exige a utilização de todas as dimensões do seu ser e não exclusivamente a racional. O que não significa, obviamente, cair no fideísmo - o crente deve procurar dar razões da sua fé.

Ilustro as duas atitudes que acabo de referir, materialismo e crença num Deus pessoal, com o exemplo de dois físicos do Séc. XX: Einstein e Heisenberg (1). Einstein era um homem espantado diante da “harmonia universal”, mas não acreditava num Deus pessoal que pudesse relacionar-se com os homens. “Dificilmente encontrareis entre os talentos científicos mais profundos”, afirmava, “um só que careça de um sentimento religioso próprio. Mas é algo muito distinto da religiosidade do leigo. Para este, Deus é um ser de cujos cuidados podemos beneficiar e cujos castigos devemos temer (…). Para o cientista, [Deus] está imbuído da causalidade universal”. Seguindo a lógica que apresentei, podemos esperar que Einstein deposite na ciência a esperança de um dia alcançarmos o conhecimento da “causa universal” ou fundamento último da realidade, como lhe chamei desde o princípio. E é de facto assim. A religião de Einstein nasce de um “temor reverencial” diante da grandeza e da harmonia do Universo, e o seu “deus” é uma “razão universal” que pode ser desvendada sobretudo pela investigação científica. “Um autor contemporâneo”, continua Einstein, “disse, não sem razão, que os verdadeiros investigadores são, nos nossos tempos de predomínio materialista, os únicos homens profundamente religiosos”.

Em contrapartida, Heisenberg, um dos principais físicos por detrás da teoria da Mecânica Quântica, profundamente impressionado pelas limitações que a ciência impõe ao conhecimento humano, acredita “que o campo do objectivável [possível de conhecer através da ciência] é apenas uma pequena parte da nossa realidade”. Num dos seus textos conta como uma vez Wolfgang Pauli lhe perguntou “acreditas num Deus pessoal?”, ao que respondeu: “Podemos alcançar a razão central das coisas e dos acontecimentos, de cuja existência não pareça haver dúvida, de um modo tão directo como podemos alcançar a alma de outro ser humano? Assim colocada a questão, a minha resposta seria sim (…). Gostaria de te lembrar o famoso texto de Pascal, que ele trazia sempre consigo cozido dentro do casaco, ‘O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, não o dos filósofos e dos sábios’”. A “razão central” de que fala Heisenberg, e à qual nós chamámos fundamento último da realidade, é a tal razão que tanto impressionava Einstein, mas que aqui adquire um claro sentido pessoal.

Estes dois exemplos mostram como ser cientista não é necessariamente equivalente a pôr de lado a hipótese de Deus. A grande questão não é a ciência em si, mas a abertura que cada um manifesta na sua busca do fundamento último da realidade, e a confiança que deposita (ou não) na capacidade do método científico para o desvelar. Para um materialista o fundamento último da realidade não será mais que uma lei universal de certa forma divinizada, e por isso eventualmente alcançável pela ciência, enquanto para um crente será um Deus pessoal, cuja razoabilidade de existência talvez possamos inferir racionalmente, mas cujo conhecimento nunca será totalmente alcançado pela ciência. Acabámos de ver, contudo, que um cientista não é necessariamente materialista, nem um crente necessariamente resistente em relação à ciência.

Em jeito de conclusão talvez possamos reformular a questão inicial, perguntando já não pela (in)compatibilidade entre fé e ciência, mas pela (im)possibilidade de diálogo entre pessoas, sejam elas cientistas ou não, que têm da realidade e do seu fundamento diferentes concepções. Apesar de ser certamente uma tarefa árdua, julgo ser possível construir uma plataforma de entendimento. E quais os pilares desta plataforma? Em primeiro lugar, diria, a humildade e a reverência de alguém que se sabe pequeno e limitado mas que ousa procurar o segredo guardado por um Universo com uma capacidade sempre maior de nos surpreender. Como lemos no Salmo 8, “quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, a lua e as estrelas que Tu criaste: que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares?” Em segundo lugar, o espanto diante do mistério que a existência sempre encerra. Por último, o desejo de cultivar um espírito de abertura que não se deixa aprisionar nas opiniões próprias mas tenta compreender as razões e as opções do outro.

Notas:
1. Ver RAÑada, Antonio F. - Los científicos y Dios. Oviedo: Edições Nobel, 1994.

20 comentários:

alfredo dinis disse...

Caro Bruno,

Bubscrevo o teu texto. Anda assim coloco-te duas questões que algumas pessoas costumam levantar como crítica às crenças religiosas.

A primeira tem a ver com a crença num Deus pessoal. Não estaremos nós a inventar uma criatura divina à nossa própria imagem e semelhança?

A segunda tem a ver com a justificação das crenças religiosas. Como é possível, por exemplo, acreditar em algo ou alguém - Deus - cuja existência se não consegue provar? Não será um disparate ter crenças sobre o sobrenatural que de modo algum se conseguem provar?

Como respondes a estas questões?

Um abraço.

P. Alfredo

Espectadores disse...

Caro Bruno,

Fiquei sem fôlego!
Que bem escrito, não só na forma como no conteúdo.
Parabéns, Bruno.

Um abraço,

Bernardo

Amzevieira disse...

Bruno,
Já tinha saudades de ler os seus textos, pois ajudam-me sempre a pensar um pouco e este é mesmo muito especial, toca em questões importantes.
Apesar das dúvidas, sei que Deus é muito importante na minha vida, e por isso preciso conhecê-Lo melhor.A companhia dos filósofos é uma boa ajuda.
Um abraço
Amália

Gonçalo disse...

Bruno,

Vou aproveitar para deixar também uma questão. Podendo concordar com a frase: "Se este, porém, for alguém (um Deus pessoal) então a ciência será certamente insuficiente para nos relacionarmos com ele", depois de ler o texto fico com a sensação que na tua perspectiva não é apenas insuficiente para nos relacionarmos com ele, mas simplesmente impossível de "ser tocado" pela ciência. Mas sendo este Deus pessoal também "uma causa primeira, uma harmonia cósmica, uma razão universal…" e acreditando tu que a esta é possível que se "toque" com a ciência, não será também possível conhecer (parte de) Deus através da ciência?

Saudades,
Gonçalo

Bruno disse...

Caro Bernardo,
Muito obrigado pelo seu comentário. Espro que nos posamos encontra mais vezes por estas paragens.

Bruno

Bruno disse...

Cara Amália,
É bom saber que o nosso Blog pode ajudar os nossos amigos a a reflectir um pouco sobre a vida e sobre a fé. Realmente Deus não é matéria de certezas. Também eu não sou capaz do O explicar completamente, mas tal como para a Amália, sei que é importante na minha vida.

Um abraço também para si,

Bruno

Bruno disse...

Caro P. Alfredo,

Muito obrigado pelas suas questões. Vou tentar responder responder de forma breve.

Em relação à primeira pergunta ocorrem-me os três comentários seguintes:

1. A origem da consciência é, entre outras, uma das grandes questões em aberto que não parece encontrar uma resposta completamente satisfatória apenas no contexto da ciência. Como se passa, de facto, de um algo a um alguém? Como é que leis físicas actuando sobre partículas elementares dão origem à experiência subjectiva de um eu pessoal? Não seria razoável admitir que o fundamento último da realidade, que dá ao Universo o seu existir e o seu dinamismo, é pessoal? Claro que estou consciente de que os adeptos de uma evolucionismo estrito me responderiam que o aparecimento da consciência pode ser completamente compreendido em termos da evolução Darwiniana. E eu posso apenas responder que tal posição é, na minha opinião, um reducionismo assente em pressupostos que não podem ser provados, e que são mais do âmbito da crença.

2. A fé, antes de ser procura de Deus, é ser procurado por Deus. Não podemos chegar a Deus só porque nos apetece. Também não podemos fazê-lo de forma exclusivamente racional. Conhecemos Deus antes de mais porque Ele se revela. E Deus revela-se como Pessoa - Alguém com quem podemos relacionar-nos, que nos desafia e convida. Como sugeria no ponto 1, um fundamento último da realidade pessoal não tem porque contrariar a razão (aliás, não me parece sequer absurdo dizer que é uma necessidade), mas para para chegar à relação com Ele é necessária fé, tal como é necessária fé (entendida no sentido de confiança) na relação com muitas outras realidades da vida.

3. Também não me parece irrelevante o facto de existirem muitas pessoas que afirmam ter uma relação com um Deus pessoal. Pessoas normais, inteligentes, habituadas a pensar. Pessoas que afirmam que o Deus a quem rezam muda as suas vidas (para melhor).

Em relação à segunda pergunta, começaria por dizer que não conseguimos provar a existência de Deus se entendermos prova num sentido matemático estrito. É menos óbvio, contudo, afirmar que não é possível apresentar provas se estas forem entendidas como evidência.
Posso tentar apresentar algumas dessas evidências. Acreditar em Jesus Cristo, por exemplo, é antes de mais confiar que vale a pena viver de acordo com os seus ensinamentos. Ora, quem o faz poderá descobrir que estes ensinamentos têm uma profundidade e uma capacidade de criticar e transformar a vida que nos leva a reconhecer que existe em Jesus algo de muito especial, um carácter absoluto... "Tu tens palavras de vida eterna", dizia Pedro a Jesus mesmo num dia em que as Suas palavras pareciam não fazer sentido.

É preciso dizer, também, que Deus não é um Alguém fora do Universo. É antes o fundamento último da realidade, o seu sustento. Ms spor isso não tem que se ver ou ouvir tal como vemos ou ouvimos um objecto físico. Tal como uma lei física não se vê (o que não quer dizer que não exista), também Deus não se vê, sendo apenas possível reconhecê-Lo pelos efeitos da Sua presença.

P. Alfredo, sei que as minhas respostas não esgotam de modo algum as suas questões, mas espero que estes breves comentários possam ajudar um pouco.

Um abraço,

Bruno

Bruno disse...

Olá Gonçalo!

Muito obrigado pela tua questão, que me parece muito pertinente. Neste momento não tenho tempo para te responder, mas queria apenas dizer que não me esqueci.

Bruno

Ludwig Krippahl disse...

Caro Bruno,

Espero que não te importes de nos tratarmos por tu (é assim que trato os meus botões e estou mais habituado a pensar nas coisas de forma informal :)

Gostei muito do teu post, tanto por concordar que a ciência e a religião partilham o propósito de perceber o que se passa como pela forma clara com que expuseste as outras coisas de que discordo. Isso é essencial numa conversa interessante.

Comentei o teu texto no meu blog. Havia coisas demais e demasiado interessantes para a caixa de comentários. Aqui queria só felicitar-te pela exposição e "implicar" com este teu comentário:

«A origem da consciência é, entre outras, uma das grandes questões em aberto que não parece encontrar uma resposta completamente satisfatória apenas no contexto da ciência. Como se passa, de facto, de um algo a um alguém? Como é que leis físicas actuando sobre partículas elementares dão origem à experiência subjectiva de um eu pessoal? Não seria razoável admitir que o fundamento último da realidade, que dá ao Universo o seu existir e o seu dinamismo, é pessoal?»

Quando desconhecemos algo temos mesmo que admitir todas as hipóteses. Por isso respondo sim à tua última pergunta. Se não sabemos, adimto essa hipótese.

Mas devemos admití-la, à partida, exactamente ao mesmo nível de todas as outras. É com o acumular das provas (no sentido que tu muito bem usaste) que umas hipóteses se vão tornando mais verosímeis que outras.

Por isso vai uma grande distância entre admitir a hipótese e defendê-la como correspondendo à realidade. E aínda mais longe está a primeira de justificar a crença firme nessa hipótese.

As explicações científicas modernas tornam essa hipótese menos verosímil face à hipótese que a consciência é um processo tão natural como a digestão ou a locomoção. Não refutam nem reduzem nada, mas mostram que o peso das evidências desfavorece a hipótese sobrenatural.

Mas o ponto principal que queria fazer neste comentário já demasiado longo é que admitir a hipótese não é defende-la como verosímil e muito menos confiar que seja verdade. Esta última exige uma justificação muito mais forte que o mero desconhecimento.

leprechaun disse...

Se este for algo (uma causa primeira, uma harmonia cósmica, uma razão universal…), então talvez a ciência seja a forma mais adequada para o procurar (admitindo que existe, claro está, ou mesmo chegando à conclusão de que a ciência nunca o desvelará completamente). Se este, porém, for alguém (um Deus pessoal) então a ciência será certamente insuficiente para nos relacionarmos com ele.


Muitíssimo interessante, ó Bruno!

Deveras, eu também formulo a questão sensivelmente nesses termos, mas...

E por que não algo E alguém... simultaneamente?! Ou seja, o aspecto pessoal de Deus não exclui também outra mais vasta e geral impessoalidade. Dito de outra forma, imanência e transcendência não são atributos mutuamente exclusivos.

De resto, continuo a pensar que não é tão importante discutir Deus... whatever That may be!... mas bem mais experimentá-lo na sua revelação pessoal a cada um que O souber escutar. Essa maravilhosa e inalcançável transcendência existe, sim. É totalmente impossível negá-la a quem já saboreou a sua incrível doçura. E, mais ainda, não se pode mesmo esquecer uma vez vivenciada nesse sacrário íntimo da alma, seja lá o que isso for também.

A questão aqui é que é sempre inexprimível e indizível essa comunhão sagrada... quão pouco podemos falar e tanto mais só calar!

São João da Cruz exprimiu-o o melhor que pode na maravilhosa poesia Toda a Ciência Transcendendo

E, se quiserdes ouvir,
consiste a suma ciência
em num subido sentir
da só divinal Essência:
obra é de sua clemência
o quedar não entendendo,
toda ciência transcendendo.


Talvez a ciência possa penetrar nessa orla do impessoal, ou a mente por trás da matéria, explicando assim o que é agora conhecido como apenas aleatório e sem propósito. De facto, essa já é definitivamente uma hipótese que entrou no campo científico, e desde há várias dezenas de anos, não só agora. Mas de que modo poderia ela ir mais além? No way... man! :)

A questão aqui é que esse outro e mais sublime aspecto do Deus pessoal e imanente ou presente na consciência humana – alma e coração são outras palavras para o mesmo – não pode nunca e jamais ser apreendido racionalmente, essa é uma impossibilidade da própria natureza limitada da razão. Por isso, tal Conhecimento... que é scientia, etimologicamente... tudo transcende do que somos e sabemos e conhecemos. Pois nele não há nem pode haver separação, Bem-Amado e Amante são deveras Um só e para sempre!

Eis como Rumi, o místico dervixe persa, o cantou de forma sublime, porque o viveu e por si o soube:

Rumi: Say I Am You

Alguém bateu à porta da Bem-Amada e uma Voz perguntou:
– Quem está aí?
E o Amante respondeu: – Sou eu.
A Voz então disse:
– Nesta casa não cabem dois.
E a porta continuou fechada. Então o Amante partiu e só retornou passado um ano.
Bateu novamente à porta. E de novo a Voz perguntou:
– Quem és tu?
E ele respondeu:
– Sou TU!
E a porta lhe foi aberta.



And there is NO power whatsoever that can ever deny this Reality... YOU ARE ME!!!


A Unidade... a Unidade!...

Rui leprechaun

(...só TU ÉS na verdade!!! :))


O inexprimível se mostra, é o místico. (...) Sobre o que não podemos falar, devemos calar.

Ludwig Wittgenstein, "Tractatus logico-philosophicus"

leprechaun disse...

Como é que leis físicas actuando sobre partículas elementares dão origem à experiência subjectiva de um eu pessoal?



Uáu... incrível! Nem de propósito... os tais “acasos” serendípicos! ;)

Um vídeo com que acabo de me deparar agora mesmo, ao procurar mais poemas maravilhosos do sufi persa, o divino Rumi!

Os testemunhos são pouco valorizados pela ciência... os tais episódios anedóticos... mas a realidade de que se fala é mesmo a subjectiva, sempre e sempre e sempre a única autenticamente real... porque quanto mais poético mais verdadeiro... sim!... Sim!... SIM!!!

How it feels to have a stroke

Este é um espantoso testemunho pessoal de uma neurocientista, Jill Bolte Taylor, que sofreu um derrame cerebral e relata a sua própria experiência pessoal. Quite moving and very powerful!!! :)

Uma descrição absolutamente fantástica do modo como os dois hemisférios cerebrais processam a informação do mundo exterior e que faz esse paralelo perfeito entre o lógico-racional no esquerdo e o intituitivo-holístico no direito! Algo que de há muito vem sendo dito... e sentido!... por quem experimenta esse inefável “here and now!”... Heaven within somehow!!! :)

Wonderful... simply wonderful... cause I DO KNOW what she is talking about!!!!!!!!!!!

Ah! e o meu miolo funciona bem... more or less... sem derrames nem outras esquisitices...

Rui leprechaun

(...salvo estas patetices!!! :))


PS: Indescritivelmente maravilhoso... cause this is Real... the uttermost Reality we can feel!!!

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Não entendo bem a tua expressão:

"mostram que o peso das evidências desfavorece a hipótese sobrenatural."

Qual hipótese, exactamente? Qual sobrenatural? O que é o sobrenatural?

Saudações,

Alfredo Dinis

Ludwig Krippahl disse...

Caro Alfredo,

O Bruno comentou que «A origem da consciência é, entre outras, uma das grandes questões em aberto que não parece encontrar uma resposta completamente satisfatória apenas no contexto da ciência.» Concordo que a questão está em aberto e que a ciência (ainda?) não responde de uma forma completamente satisfatória.

O meu ponto é que, à partida, todas as hipóteses valem o mesmo mas, com o decorrer da investigação, umas se vão destacando precisamente por serem respostas mais satisfactórias. Porque são mais claras, mais concretas e, especialmente, porque encaixam melhor nas observações.

A neuropsicologia tem hoje um grande número de hipóteses detalhadas e um grande corpo de evidências e tudo isso aponta num sentido: a consciência é um processo natural. As alternativas são demasiado vagas e não têm qualquer poder explicativo nem as observações sugerem alguma necessidade de propôr algo para além de coisas como cérebro, neurónios e reacções químicas.

«Qual hipótese, exactamente? Qual sobrenatural? O que é o sobrenatural?»

Precisamente. Há quem defenda há algo para além da natureza, para além disto que podemos observar. Mas talvez por isso essa hipótese não consegue ser mais que uma especulação vaga sem justificação.

Não admira assim que outras hipóteses lhe passem à frente :)

Um abraço,
Ludwig

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Não creio que seja necessária a categoria 'sobrenatural', que me parece essencialmente filosófica. Tenho animado um debate semanal na Faculdade de Filosofia sobre o tema dos dualismos. O tema geral do debate é o seguinte: 'estes dualismos que nos perseguem' (www.dualismos.blogspot.com). Creio que os dualismos são úteis do ponto de vista epistemológico, para 'arrumar o mundo', mas bastante inúteis do ponto de vista ontológico. A realidade é uma só. Expressões como 'para lá deste mundo' não significam nada. A consciência é um fenómeno natural, evidentemente. A religião é um fenómeno natural, evidentemente, num sentido que nada tem de oposto a sobrenatural.

O exterior de um copo está 'para lá' do seu interior, mas esta distinção é epistemológica. Na realidade só há um copo.

Obrigado pelas tuas estimulantes reflexões.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Ludwig Krippahl disse...

Caro Alfredo,

Estou de acordo que esses dualismos são epistemológicos e mais, são um sintoma da ignorância e não do conhecimento. Concordo que o sobrenatural é uma categoria desnecessária. Tal como já propûs para o dualismo entre "como" e "porquê", ou mesmo este que o Bruno aqui aponta entre "algo" e "alguém". São tudo ilusões criadas por uma falha de conhecimento.

Uma falha que a ciência já está a ultrapassar. Hoje em dia podemos ter uma visão detalhada e profunda que mostra como todos os "alguém" são "algos" e todos os "porquê" são "comos" e todo o sobrenatural é apenas uma lacuna no conhecimento da natureza.

Penso que a única coisa em que discordamos é que eu acho imprudente, e injustificado, avançar com uma ontologia para além do que a epistemologia permite. Primeiro temos que saber antes de afirmar o que é. Se fizermos o contrário vamos errar.

Bruno disse...

Caro Ludwig,
Em primeiro lugar peço desculpa por demorar tanto tempo a responder ao teu comentário, que agradeço muito...

Fico também contente pela apreciação generosa que fazes do meu texto e por escreveres as tuas objecções de forma clara e directa.

A questão que me deixas é complexa e está, parece-me, no cerne do diálogo fé-ciência. Tentarei fazer alguns esclarecimentos.

1. Depois de ter lido o comentário que deixaste no teu blog acerca do meu texto fiquei com a sensação de que esqueci uma parte importante da relação com um fundamento último da realidade pessoal (Deus). É que não se trata apenas de o procurar mas também de ser procurado por ele. Ou seja, não se trata simplesmente de uma busca mas dum encontro que configura um convite. A fé não é, deste modo, uma mera questão científica (embora seja necessária uma pré-disposição, como em quase tudo na vida), mas antes uma aceitação ou uma recusa de um convite. Realmente ter fé é sobretudo aceitar viver de um determinado modo, que para os cristãos se identifica fundamentalmente com o modo de viver de Jesus Cristo.

2. Entra aqui uma diferença importante entre a ciência e a fé. É que a ciência tem como pilar principal a dúvida, enquanto a fé tem por pilar a confiança (embora em ambas não dispensem ambas as disposições). Se Deus é pessoal é muito natural que a confiança seja indispensável para me relacionar com ele. Não é assim nas relações humanas?(dou-me conta que estou a repetir o que afirmei no texto inicial)...

3. Ou seja, não se trata de colocar ao mesmo nível duas hipóteses, mas de aceitar ou recusar um Alguém que se insinua na comunidade dos crentes, na Bíblia (no caso dos cristãos), na minha interioridade. Como digo, fé é sobretudo confiança, mas existem, contudo, evidências (que não são propriamente as "provas" científicas) de que realmente a promessa que me é feita tem algum fundamento. Posso sempre olhar para a forma como a minha vida é mudada.

4. O facto de a ciência conseguir compreender cada vez melhor a consciência não quer dizer que Deus fique automaticamente excluído. Podem existir, julgo, vários níveis explicativos. Imagina que tens ao fogão uma chaleira com água a ferver. Se te perguntar porque é que a a água está a ferver podes responder de muitas maneiras, mas todas elas válidas. Podes dizer-me que está em curso uma transição de fase ou que alguém acendeu o fogão. Mas podes também dizer-me que a água ferve porque queres fazer um chá. Com a consciência, e toda a realidade em geral, passa-se o mesmo. A ciência percebe cada vez melhor o Universo, mas parece não poder dizer muito sobre o seu sentido ou a sua finalidade, ou mesmo a sua origem. Claro que precisamos manter um olho na ciência, mas estas questões parecem lançar-nos mais no âmbito da filosofia e da religião. A este respeito vale a pena lembrar que a ciência moderna empobreceu o conceito de causalidade, reduzindo-a a uma causalidade eficiente (e mesmo esta entendida de forma muito estrita), o que denuncia que estamos a evitar uma série de perguntas lícitas sobre a realidade.

5. Sem querer menosprezar o método científico, o que aliás, dada a minha formação, não me seria fácil, atrevo-me a afirmar que a pretensão de querer compreender toda a realidade utilizando apenas o método científico é no mínimo arrojada. Trata-se de um reducionismo metodológico cujos pressupostos não podem ser justificados. Exemplifico. A metodologia científica pressupõe a regularidade e a repetibilidade, mas estas parecem ser descaradamente violados pelas experiências humanas, em que a unicidade e a individualidade mais do que meramente presentes parecem ser dominantes. No seu inevitável processo de simplificação e idealização, a metodologia científica ignora dimensões da realidade, mas isso não quer dizer que elas não existam. Será que não existem outras formas de alcançar a verdade que não o método científico?

Caro Ludwig, disse muitas coisas e talvez pouco organizadas. Infelizmente o tempo não deu para mais. Muito obrigado, mais uma vez, pelo teu interesse e pelos teus comentários.

Um abraço,

Bruno

Ludwig Krippahl disse...

Caro Bruno,

«Se Deus é pessoal é muito natural que a confiança seja indispensável para me relacionar com ele. Não é assim nas relações humanas? [...] Ou seja, não se trata de colocar ao mesmo nível duas hipóteses, mas de aceitar ou recusar um Alguém que se insinua na comunidade dos crentes»

Em parte concordo. A ciência lida com as questões de facto, se é ou não assim, mas não nos ajuda a decidir o que fazer disso. A ciência (entendida como hipóteses testáveis e os seus testes empíricos) diz-me que os meus filhos gostam de mim (pelo que observo do seu comportamento), mas não me diz que devo gostar deles. Isso é uma escolha minha e não uma questão de fazer corresponder uma hipótese à realidade.

Mas em parte discordo. Nota que começas «Se Deus é pessoal». Eu também começaria “Se os meus filhos existem, então gosto muito deles”. A segunda parte é uma decisão minha, não tem a ver com ciência, mas a primeira é uma questão de facto. É algo que tenho que conhecer. E isso tem a ver com ciência. Ou seja, a condição para que a tua hipótese faça sentido é uma questão científica.

E, ao contrário das nossas relações com outros seres humanos, nós não temos evidências que Deus seja uma pessoa. É certo que a Alexandra Solnado escreve livros a dizer que fala com Jesus e há relatos antigos que afirmam que Deus é pessoa, e assim por diante. Mas isso não é nada comparado com as evidências que eu tenho que me indicam que os meus filhos existem.

«Se te perguntar porque é que a a água está a ferver podes responder de muitas maneiras, mas todas elas válidas. Podes dizer-me que está em curso uma transição de fase ou que alguém acendeu o fogão. Mas podes também dizer-me que a água ferve porque queres fazer um chá.»

Mas nota que ambas as explicações são científicas. Se eu te disser que a água ferve devido à acção de espíritos invisíveis para além dos nossos sentidos e impossíveis de conhecer pela ciência tu vais retorquir, e bem, “deixa-te de tretas” :)

Este é o problema fundamental. Eu não tenho nada a dizer acerca da relação que tu escolherias ter com Deus se ele existisse ou com os teus filhos se eles existissem. Eu escolheria ter com Deus, se ele existisse, uma relação diferente da que tu escolherias. Mas isso não vale a pena discutir porque são questões pessoais.

O que me interessa é a questão factual, objectiva, da validade do tal «Se Deus é pessoal». É que a hipótese alternativa de não haver nenhum deus pessoal parece-me corresponder melhor ao que observamos e para determinar a existência de Deus a relação que tu escolhas ter com Ele se ele existir é irrelevante.

Julgo que admitirás não podermos provar como falsa a hipótese que são espíritos indetectáveis que fazem a água ferver. Julgo também que não aceitarias essa hipótese como boa explicação porque, apesar de “Se existirem esses espíritos” eles pudessem fazer a água ferver, o facto é que nada justifica assumir que eles existem. A questão que te ponho é, pondo de lado os desejos subjectivos e as escolhas de relação com Deus que possamos fazer, em que é que a hipótese desse deus que tu preferes difere de inúmeras hipóteses igualmente concebíveis, igualmente impossíveis de refutar e igualmente desprovidas de justificação objectiva.

Um abraço,
Ludwig

leprechaun disse...

A neuropsicologia tem hoje um grande número de hipóteses detalhadas e um grande corpo de evidências e tudo isso aponta num sentido: a consciência é um processo natural. As alternativas são demasiado vagas e não têm qualquer poder explicativo nem as observações sugerem alguma necessidade de propôr algo para além de coisas como cérebro, neurónios e reacções químicas.


Ao tempo que eu não vinha aqui!

Mas claro que a consciência é um processo natural, aliás, na natureza tudo deve ser natural.

Contudo, isso não significa que ela se limite a coisas como cérebro, neurónios e reacções químicas.

Isto continua a ser a velha questão do todo ser maior do que a soma das partes e a explicação do conjunto não poder ser feita pela mera compreensão dos seus diversos componentes.

Deveras, há sempre uma questão interessante que se deve pôr e que até tem grande importância no tratamento das desordens mentais: quando falamos dos fenómenos associados ao pensamento a nível do córtex, é a actividade química e eléctrica dos neurónios que produz o pensamento ou este precede essa actividade?!

Ou seja, a mente reduz-se às reacções electroquímicas que a suportam e produzem ou, bem pelo contrário, é ela própria que determina tais reacções, pelo menos nas formas mais elevados de pensamento dirigido e concentração mental? Sem dúvida que sabemos que estímulos em determinadas zonas do cérebro e o uso de substâncias químicas produzem alterações na percepção da realidade, por vezes de forma muito dramática, como o vídeo de Jill Taylor documenta. Mas, por outro lado, a atenção focada produz por sua vez alterações significativas na actividade neuronal, aparentemente invertendo essa relação de causalidade. Significa isto que talvez não seja possível afirmar senão a existência de correlações entre determinadas zonas do cérebro e a actividade consciente do sujeito, pelo menos a nível do pensamento direccionado.

Isto tem consequências muito importantes a nível médico, que são objecto da chamada Mind-Body Medicine. Grosso modo, trata-se do complemento da medicina psicossomática, ou seja, se os estados mentais produzem desequilíbrios orgânicos, como é o caso do stress ou da depressão, então será natural que a alegria ou um estado de paz e serenidade seja conducente à saúde.

Este artigo da "Time Magazine", How The Brain Rewires Itself, mostra algumas pesquisas recentes nesse sentido, validando pois uma antiquíssima técnica chamada "visualização" e que pode ser efectivamente utilizada para promover a saúde e ajudar o corpo a encontrar um estado de equilíbrio.

Logo, que a consciência é natural estamos de acordo claro, mas qual a sua real natureza?! That's the million dollar question, who will grab the prize? :)

freefun0616 disse...

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