27 de abril de 2008

XX Jornadas Teológicas em Braga

Na passada quarta-feira realizou-se na Faculdade de Teologia de Braga um debate sobre criacionismo e evolucionismo, integrado nas XX Jornadas Teológicas organizadas pela Revista Cenáculo, dos estudantes da Faculdade. Tive o prazer de moderar o debate, no qual intervieram os Profs. Ludwig Krippahl, da Universidade Nova de Lisboa, e. Jónatas Machado, da Universidade de Coimbra. O primeiro defendeu o evolucionismo, o segundo o criacionismo. As posições de ambos foram claramente expostas.
Pessoalmente, gostaria que tivesse havido mais debate. Como moderador, pareceu-me haver por parte da assistência pouco interesse em intervir. Por esse motivo, acabei por entrar em debate com o Prof. Jónatas, dado que me pareceu que havia um aspecto da crítica ao criacionismo que não fora referida pelo Prof. Ludwig, nem isso lhe competia. É que o criacionismo não está apenas em contradição com a ciência, ele está também em contradição com o cristianismo. A leitura literal dos dois primeiros capítulos do Génesis não tem qualquer fundamento, e a crítica textual que já vem do século XIX, ajuda a perceber isso. O texto do Génesis quer apenas dizer que Deus é a explicação última de todas as coisas, e pretende também resolver o enigma do sofrimento e da morte.

A argumentação criacionista apresenta-nos um deus inacreditável, exterior ao universo e que se revela mais por certos acontecimentos inexplicáveis porque complexos, do que pela totalidade do universo. Se Deus existe e é o criador do universo, então Ele é tão identificável nas estruturas complexas como nas simples. Definitivamente, não necessitamos de um deus que é interessante sobretudo porque vem de vez em quando tapar os buracos da nossa ignorância, até que a ciência acabe por tapar esses buracos, dispensando esse deus.

A argumentação criacionista fundamenta-se numa epistemologia que procura avidamente vencer a ciência com contra-exemplos ridículos. Por exemplo: facto de um fóssil ter sido erradamente identificado como sendo de um hominídeo, acabando por se revelar ser de um burro, em nada contradiz as teses evolucionistas.
A argumentação criacionista continua a cultivar uma ontologia dualista que afirma ingenuamente a distinção/separação entre matéria e espírito, corpo e alma, este mundo e o outro, imanência/transcendência, etc. Estes dualismos só podem ter um carácter epistemológico. Distinguir não é separar.

A argumentação criacionista faz também uma leitura inacreditável do Novo Testamento ao pretender que tanto Cristo como os seus apóstolos fizeram uma leitura literal do Génesis. Esta interpretação resulta de uma leitura dos textos bíblicos completamente desinformada dos progressos da hermenêutica bíblica desde o séc. XIX.

A argumentação criacionista corresponde a um estado de alta ansiedade porque se recusa a enfrentar o facto de que a narração cristã tradicional sobre a origem do universo e da vida não poderá continuar a ignorar os progressos da ciência e necessita, por conseguinte, de ser substituído por uma nova narração que seja credível e compreensível pela cultura contemporânea.

Em suma, a argumentação criacionista descredibiliza-se a si mesma e, pior que isso, descredibiliza o cristianismo, oferecendo alegremente aos seus críticos muitas das armas com que actualmente acreditam conduzir uma guerra conclusiva contra a religião em geral, e contra o cristianismo em particular quando, de facto, apenas combatem contra um moinho de vento. Compreendo que o façam motivados pela influência que o criacionismo está a ter a partir da América. Mas seria bom não identificar o combate contra este terrível equívoco com uma crítica inteligente e informada da religião em geral e do cristianismo em particular.
Alfredo Dinis,sj

68 comentários:

Marco disse...

Tenho pena de não ter assistido.
fico com a sensação que o defensor do criacionismo não necessita de contraditório. Ele próprio encarrega-se de fazer esse papel.

Gostei particularmente da sua última frase.

António Parente disse...

Subscrevo totalmente tudo o que é escrito neste post.

Abobrinha disse...

Não é verdade que tenha havido falta de vontade da audiência em intervir: houve várias pessoas que queriam fazer perguntas e uma começou mesmo a fazer barulho porque não lhe foram permitidas mais perguntas quando as tinha.

Por outro lado, a pergunta/observação que fez ao Prof. Jónatas Machado estava inteiramente fora do âmbito do debate, que era sobre criacionismo e evolucionismo. Não sobre criacionismo e cristianismo.

Acho que em vez de ter dialogado com um dos intervenientes deveria ter promovido o debate entre os dois convidados. Ter-se-ia ganho mais com o debate e dentro do próprio tema.

Pedro Morgado disse...

Tal como escrevi no meu blogue, parece-me que esta desistência do criacionismo por parte dos sectores mais esclarecidos da Igreja Católica é estratégica. Ainda assim, deve saudar-se a assunção de mais este erro secular.

Na verdade, as bases da teoria criacionista são tão sólidas como as de todos os outros dogmas e, como tal, a crítica inteligente e informada da religião não pode ignorar o facto de existir uma teoria, defendida como dogma durante séculos, que se vai desmoronando às mãos da razão e do conhecimento científico.

Cumprimentos,
PM

alfredo dinis disse...

abobrinha,
não sei se se recorda que a primeira coisa que fiz depois de os dois convidados para o debate terem falado foi dar a palavra ao Ludwig. Esperava realmente que se estabelecesse um confronto entre os dois, mas isso não aconteceu. Olhando para a assistência não tive a percepção de que havia grande vontade do público em se manifestar. Talvez as pessoas estivessem apenas à espera que alguém começasse. Foi isso que me levou a intervir, e não creio que a minha intervenção estivesse fora do tema, nem que tenha sido muito demorada. Repito, esperava reacções mais convictas da parte do público. Mas admito que esta minha percepção não tenha correspondido à realidade.

alfredo dinis disse...

Pedro,
A ideia de que a religião em geral e o cristianismo em particular são imutáveis porque imunes à crítica não corresponde aos factos históricos. O cristianismo está profundamente inserido na cultura humana e esta é dinâmica. Seria estranho que o cristianismo não o fosse. Isto acontece com todas as áreas da cultura, a começar pela ciência. Quando há mudanças radicais no domínio científico haverá provavelmente mudanças na formulação teológica de alguns elementos no domínio do cristianismo. Foi o que aconteceu com as revoluções galilaica e darwiniana, que levaram a profundas mudanças na concepção cristã do universo e da vida. Penso que isto é positivo. O contrário é que seria irracional. Creio também que uma revolução científica está a acontecer no domínio das ciências cognitivas e que isso já começou a provocar interrogações sobre a formulação filosófica e teológica da relação corpo-alma, por exemplo. Acho isto muito positivo.
Quanto às questões específicas que refere, recordo apenas que a linha que divide as opiniões pró e contra não coincide com a que divide cristãos de não cristãos.
Cordiais saudações, e obrigado pelo seu comentário.

Marcos Sabino disse...

”Como moderador, pareceu-me haver por parte da assistência pouco interesse em intervir. Por esse motivo, acabei por entrar em debate com o Prof. Jónatas”

Você entrou no debate com o Jónatas quando ainda havia pessoas na assistência que queriam expor as suas questões.

”O texto do Génesis quer apenas dizer que Deus é a explicação última de todas as coisas, e pretende também resolver o enigma do sofrimento e da morte.”

Quer? Diga antes: na sua opinião quer. Tal como há teólogos que partilham a sua opinião, também há muitos que afirmam que a Bíblia significa mesmo o que lá está escrito. Foi escrita como narrativa histórica, os mesmos traços utilizados em livros como Reis e Crónicas.

”até que a ciência acabe por tapar esses buracos, dispensando esse deus.”

Mas isto é mentira. Quando Einstein melhorou a teoria da gravitação de Newton ele não excluiu Deus de nenhum processo. Apenas explicou aquilo que Newton achava que era acção de Deus. Ele não excluiu Deus do processo. Eu posso continuar a perguntar: E como surgiu a relatividade? É fruto da Evolução ou fruto de Criação?

”Por exemplo: facto de um fóssil ter sido erradamente identificado como sendo de um hominídeo, acabando por se revelar ser de um burro, em nada contradiz as teses evolucionistas.”

Este facto é mais um (há muitos outros :D ) “presente” que Deus dá aos Seus filhos para mostrar aquilo que diz em Salmos 118:8 “É melhor confiar no SENHOR do que confiar no homem”

”Esta interpretação resulta de uma leitura dos textos bíblicos completamente desinformada dos progressos da hermenêutica bíblica desde o séc. XIX.”

Mais uma vez... só está a considerar os “progressos” que lhe convém. Também há “progressos” no sentido oposto.

”e necessita, por conseguinte, de ser substituído por uma nova narração que seja credível e compreensível pela cultura contemporânea.”

O problema é este: hoje mudamos a interpretação que fazemos do Génesis para conciliar a ciência naturalista. Amanhã mudamos outra parte qualquer, depois de amanhã mudamos outra parte. Quando dermos conta (se entretanto Jesus não tiver regressado) já não precisamos da bíblia para nada.

alfredo dinis disse...

Caro Marcos,
Obrigado pelo seu comentário.
1. Repito que não tive a percepção de haver muitos interessados em intervir no debate. Não digo que não havia. De qualquer modo, o debate permaneceu sempre morno, e as poucas intervenções foram em geral mornas. Trata-se, mais uma vez, de uma percepção pessoal.

2. Muitos dos textos do Antigo Testamento são comuns às tradições de outros povos, para além dos judeus. Estes serviram-se de muitas dessas narrações para exprimirem a sua crença num Deus criador. O Marcos sabe que há inúmeras passagens do Antigo como do Novo Testamento que não têm sentido se interpretadas literalmente. Temos que ter critérios para fazer a distinção entre o literal e o metafórico. O Prof. Jónatas afirmou no debate que as passagens que eu citei a propósito do geocentrismo são metafóricas porque pertencem a livros sapienciais, como os salmos. Mas esta não é uma boa resposta. Há passagens em livros não sapienciais que também são metafóricas. Aliás, o Marcos cita o salmo 118 de uma forma literal e não metafórica. Temos que nos pôr de acordo sobre critérios de interpretação textual objectivos. Como já afirmei, a ciência de Galileu obrigou a mudar a interpretação de algumas passagens bíblicas, e ainda bem. Não tomar a sério os progressos da ciência é que não ajuda nada. Muito menos criticar a ciência sem a conhecer, como me parece que fez o Prof. Jónatas.

3. Newton precisava de Deus para que o universo funcionasse. Deus tinha que vir periodicamente corrigir as irregularidades nas órbitas dos planetas para evitar que todo o sistema planetário entrasse em colapso. Hoje, sabemos que Deus não é necessário para tapar esse buraco da nossa ignorância. De facto, com Newton Deus entrou em cena para sair pouco depois.

4. Caro Marcos, não tenha receio da mudança, tenha antes receio do fixismo e do imobilismo. Se ler bem os evangelhos, verá que Jesus passou toda a sua vida a corrigir as interpretações que os judeus faziam dos textos do Antigo Testamento. Foi daí que nasceu o cristianismo. Se Jesus se tivesse resignado às interpretações tradicionais dos mestres da lei do seu tempo, não estaríamos aqui a ter este diálogo.

Saudações cordiais.

Pedro Morgado disse...

Caro Alfredo Dinis,

Agradeço a resposta. Concordo que a ciência esteja em permanente reformulação porque é essa a sua essência: a busca de novos factos para deles poder retirar as conclusões mais acertadas.

A reformulação teológica assente no avanço da ciência é, obviamente, positiva e o cristianismo tem sido uma das religiões mais abertas. O que eu quis ressaltar com o meu comentário são as consequências, tantas vezes nefastas, do período de latência entre a apresentação das conclusões científicas e a sua assimilação pelas diferentes religiões.

Cumprimentos,
PM

Marcos Sabino disse...

"Se ler bem os evangelhos, verá que Jesus passou toda a sua vida a corrigir as interpretações que os judeus faziam dos textos do Antigo Testamento."

Correcto... mas se ler bem os Evangelhos também vê que Jesus se referiu a Adão e Eva como acontecimento real, histórico:

"Porém, desde o princípio da criaçäo, Deus os fez macho e fêmea." (Marcos 10:6)

Deus também considerou o Dilúvio como facto histórico:

"Pois como foi nos dias de Noé, assim terá também a vinda do Filho do homem" (Mateus 24:37)

E de resto, também Paulo nas suas cartas fala de Adão e Eva:

"Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva" (I Timóteo 2:13)

O problema é o seguinte: se não podemos confiar na Palavra de Deus quando fala a respeito de um assunto tão importante como é o da Criação, como ou porque devemos confiar quando fala acerca de um assunto ainda mais importante que é o da Salvação e o da Vida Eterna que Jesus promete?

Se quiser dar uma olhadela ->
http://alogicadosabino.wordpress.com/2008/04/23/cristaos-evolucionistas-que-mais-irao-inventar/

Marcos Sabino disse...

"Deus também considerou o Dilúvio como facto histórico:"

eu quis dizer Jesus.

alfredo dinis disse...

Marcos,

Em Mt. 24,29 Jesus diz: “Logo após a aflição daqueles dias, o Sol irá escurecer-se, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu, e os poderes dos céus serão abalados”, o que parece referir-se a uma profecia apocalíptica de Isaías: “As estrelas do céu e as suas constelações deixarão de brilhar” (Is. 13,10). Estaria Jesus a confirmar esta profecia de Isaías? O que significa ‘as estrelas cairão dos céus’? Estará Jesus a confirmar algum sistema planetário como o de Aristóteles para o qual o universo coincidia com o sistema solar, e as estrelas estava ‘lá em cima’? Estaremos proibidos de acreditar que o universo tem cem mil milhões de galáxias, cada uma com cem mil milhões de estrelas? Todas estas estrelas cairão sobre a Terra, ou só algumas? E o que significa, no universo, ‘cair’? Caem de ‘cima’ para ‘baixo’? O que significa isso no universo tal como o conhecemos actualmente? Estará Jesus a proibir-me de aceitar a teoria do big bang? Estará Jesus a mostrar aqui o seu saber astronómico?

No versículo 31 do mesmo capítulo Jesus diz: “Ele enviará os seus anjos com uma trombeta altissonante para reunir os seus eleitos desde os quatro ventos, de um extremo ao outro do céu”. Que tipo de trombeta acha que poderá ser ouvida em todo o céu? E este céu será o sistema solar, a nossa galáxia, ou todo o universo? E o que são os quatro ventos? Será que Jesus está aqui a dizer que não podemos acreditar que possa haver vida inteligente noutros planetas tanto na nossa galáxia como noutras galáxias? Estará Jesus a mostrar aqui o seu saber astronómico?


Em Mt. 4,5 lê-se: “Então o diabo conduziu-o à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo.” Acha mesmo que o diabo levou Jesus pelos ares e o colocou no cimo do templo? No mesmo capítulo, v.8, lê-se: “Então o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória…” De que monte se veriam todos os reinos do mundo? Estará aqui implícita uma visão da Terra não esférica mas plana? Se a Terra é plana, como se adequa ao nosso conhecimento actual? Se é esférica, diga-me por favor qual é o monte de onde se vêem todos os reinos da Terra.

Em Mt. 12,40 Jesus diz: “Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da Terra três dias e três noites.” Acredita mesmo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre de uma baleia no alto mar? Estará Jesus a confirmar um facto histórico ou simplesmente a servir-se de uma crença comum no seu tempo para falar da sua ressurreição, sem que com isso estivesse a confirmar a aventura de Jonas?

Agora leia as seguintes passagens:

-“Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da Terra três dias e três noites.”

-“Pois como foi nos dias de Noé, assim terá também a vinda do Filho do homem" (Mateus 24:37)

-“Assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos; assim como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida” (1 Cor 15, 21-22).

Tira daqui alguma conclusão?

Saudações fraternas.

Alfredo Dinis

António Parente disse...

Caro Alfredo Dinis

O seu comentário das 10:44 am merecia ser comentado em forma de post.

António Parente disse...

onde se lê "comentado" leia-se "publicado".

Marcos Sabino disse...

Sr. Alfredo Dinis:

Ninguém disse que entender a Bíblia é fácil. Não é por acaso que muitos académicos se dedicam ao estudo dos escritos na língua original. Mas mesmo estudando a Bíblia, há coisas que a nossa mente nunca entenderá plenamente porque possuímos uma mente limitada inserida num corpo corruptível.

Quanto a: ”Em Mt. 24,29 Jesus diz: “Logo após a aflição daqueles dias, o Sol irá escurecer-se, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu, e os poderes dos céus serão abalados”

Isto são referências, de facto, aos acontecimentos do Apocalipse. Não podemos saber o que Jesus quis dizer com “as estrelas cairão do céu” mas pode muito bem significar estrelas a caírem do céu. De resto, se queremos questionar se aquilo que Jesus disse deve entender-se no seu sentido literal vamos também questionar o próprio Apocalipse. Eu não sei se você também não acredita no livro de Apocalipse, mas quase todo o seu relato tem acontecimentos que não cabem no nosso entendimento.

Quanto ao cair das estrelas isso é reafirmado em Apoc. 9:1, por exemplo: “O quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caíra sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo”.

Parece impossível uma estrela cair do céu? E muitas caírem do céu ainda parece mais, não? Mas se queremos “mudar a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível” (Romanos 1:22) então podemos explorar quase toda a bíblia: é impossível uma pessoa ressuscitar, é impossível multiplicar pães e peixes apenas com uma oração, é impossível caminhar por cima das águas, é impossível pôr cegos a ver apenas com um bocado de lama nos olhos, etc…

Quanto à passagem do Diabo, Jesus e o templo acredito no que me diz a Bíblia… que Jesus foi até ao cimo do templo. Se viu ou não viu todos os reinos da Terra… pode ter visto. Não podemos esquecer que Jesus era 100% homem mas também 100% Deus. Convenhamos que não seria das coisas mais difíceis que teria feito.

Quanto a Jonas, acredito também. Pensei que só o relato de Génesis é que fazia confusão aos cristãos evolucionistas mas estou a ver que não. A própria vida de Jesus e suas declarações também faz. Daqui a pouco o que poderemos aproveitar na Bíblia?

Se Jesus não sabia aquilo que estava a dizer em relação a Jonas, Noé, Adão e Eva, Apocalipse, Moisés, etc, como poderia estar certo ao aspecto da Salvação e da Vida Eterna? Não dá para compreender. Se se enganou em quase tudo e usou acontecimentos falsos para suportar as suas ideias, então como poderemos ter a certeza que o que Ele disse acerca da Vida eterna é verdade e não apenas mais uma alucinação?

Abraço

António Parente disse...

"Daqui a pouco o que poderemos aproveitar na Bíblia?"

Uma coisa muito simples, Marcos, e muito poderosa:

"Amarás ao Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração,
com toda a tua alma
e com toda a tua mente.
Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo."

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo Diniz,

Antes de mais, obrigado por este texto que nos dá um panorama do acontecimento, a nós que não estivemos presentes, com grande pena.

Queria apenas fazer duas breves observações ao que escreveu.

«A argumentação criacionista apresenta-nos um deus inacreditável, exterior ao universo»

Queria procurar compreender o que quis dizer com estas palavras. Parece-me que a doutrina cristã distingue, de forma muito clara, Deus da Criação, de forma a evitar o erro do panteísmo. Nesse sentido, parece-me que Deus é realmente "exterior" ao universo, sendo talvez a palavra "exterior" um pouco arriscada porque passível de gerar confusões. Mas certamente que Deus é distinto do universo, do mesmo modo que o infinito é forçosamente distinto do finito, não concorda?

Depois, no que diz respeito à interpretação das Sagradas Escrituras, queria perguntar-lhe o seguinte: como fica a inerrância bíblica com este confronto com as ciências naturais?

Seguindo a argumentação certíssima de São Tomás de Aquino, que negava a teoria da "dupla verdade" defendida por escolásticos como Sigério de Brabante, parece-me necessário que nenhuma verdade de ciência contradiga uma verdade de doutrina, e vice versa.

Neste sentido, parece-me claramente arriscado afirmar que há erro, qualquer erro que seja, nas Sagradas Escrituras, sendo necessário, obviamente um enorme cuidado hermenêutico, porque a correcta interpretação é o "segredo" que mantém a coesão e a veracidade da compreensão da Palavra de Deus.

Da forma como vejo as coisas, o contacto da ciência com as Escrituras provoca apenas (mas não é pouca!) fricção na hermenêutica tradicional, que tem que ser revista e acompanhar as descobertas científicas, mas que não deveria tocar (em teoria) uma vírgula na inerrância.

É certo que quando se usam expressões figurativas (como "o pôr do sol", e outras), elas não são para levar à letra. E no entanto, também não são falsas nem enganadoras, pelo que não é ferida a inerrância. E também me parece prudente, como sugeria há uns séculos o Cardeal Roberto Bellarmino, manter a leitura literal enquanto não surgir nada que prove que esta leitura tem que ser falsa. O caso de Jonas parece-me complicado de usar, uma vez que não há forma de provar cientificamente a impossibilidade de um acontecimento miraculoso no caso de Jonas. É que se achamos que a história de Jonas é totalmente figurativa, o que nos impede de fazer o mesmo face à real ressurreição do corpo ("sarx") de Cristo?

Digo tudo isto porque me parece que as suas palavras sugerem uma leitura do Génesis bastante distante da leitura literal.

Evidentemente, não peço uma leitura literal quando é certo que o livro do Génesis faz uso frequente de uma linguagem alegórica que ajuda a veicular conceitos complexos a mentes humanas de fraca compreensão.

Mas como ficam, por exemplo, o monogenismo, e Adão e Eva, face a esta forma de ver o Génesis?

Fará sentido, no confronto com a teoria da evolução, descartar o monogenismo? Ou por outro lado, manter necessariamente o monogenismo, mas entendendo o primeiro "homo sapiens" como o primeiro primata a receber uma "forma substantialis" (alma) humana, criação directa de Deus?

Em suma, será que devemos "deitar fora o bébé com a água do banho", na ânsia de não gerar escândalo entre os descrentes?

Parece-me que a atitude sensata continua a ser a de proteger a todo o custo, inviolável, a inerrância das Escrituras, e procurar defender, onde não surgir confronto com clara prova científica em contrário, a leitura literal das Escrituras.

Os acontecimentos miraculosos, impossíveis de reproduzir em laboratório, não são falsificáveis. Logo, não são passíveis nem de prova científica nem de refutação científica.

Obrigado pela sua atenção!

Cumprimentos,

Bernardo Motta

Espectadores disse...

Apanhei o debate a meio, e não sei se partilho de tudo o que disse o Marcos Sabino desde o início do debate, mas certamente que concordo com o conteúdo e com a perplexidade que ele deixou por escrito no seu último comentário.

Bernardo Motta

Pequena irmã em Cristo disse...

Estimados irmãos (e Padre) no Senhor Jesus,

Eis os pensamentos e palavras que, após a leitura do post e dos vários comentários, me vieram à mente e os quais ouso partilhar:

«Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» – Lc 18, 8
O Papa João Paulo II, na encíclica Fides et Ratio, alude e reclama a suma importância da metafísica, e, no ponto 84 diz o seguinte:
«A fé pressupõe claramente que a linguagem humana seja capaz de exprimir de modo universal - embora em termos analógicos, mas nem por isso menos significativos - a realidade divina e transcendente. Se assim não fosse, a palavra de Deus, que é sempre palavra divina em linguagem humana, não seria capaz de exprimir nada sobre Deus. A interpretação desta Palavra não pode remeter-nos apenas de uma interpretação para outra, sem nunca nos fazer chegar a uma afirmação absolutamente verdadeira; caso contrário, não haveria revelação de Deus, mas só a expressão de noções humanas sobre Ele e sobre aquilo que presumivelmente Ele pensa de nós.
Bem sei que, aos olhos de muitos dos que actualmente se entregam à pesquisa filosófica, podem parecer árduas estas exigências postas pela palavra de Deus à filosofia. Por isso mesmo, retomando aquilo que, já há algumas gerações, os Sumos Pontífices não cessam de ensinar e que o próprio Concílio Vaticano II confirmou, quero exprimir vigorosamente a convicção de que o homem é capaz de alcançar uma visão unitária e orgânica do saber. Esta é uma das tarefas que o pensamento cristão deverá assumir durante o próximo milénio da era cristã. A subdivisão do saber, enquanto comporta uma visão parcial da verdade com a consequente fragmentação do seu sentido, impede a unidade interior do homem de hoje. Como poderia a Igreja deixar de preocupar-se? Os Pastores recebem esta função sapiencial directamente do Evangelho, e não podem eximir-se do dever de concretizá-la.»

Partilha: Para João Paulo II a infalibilidade da Igreja tem a função de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita, transmitida e confiada a toda a Igreja, de modo particular quando esta «está ameaçada de deformações e malentendidos». Certa de que “tudo o que ligar na terra será ligada no Céu e tudo o que desligar na terra será desligado no Céu”, de que o Espírito consolador permanece na Igreja e a actualiza na Sua acção regeneradora e ao mesmo tempo imutável. Sem a certeza da infalibilidade da Igreja, nem a Igreja é capaz de determinar e interpretar as verdades da fé nem os teólogos e fiéis crerem nas mesmas e aceitá-las com o mesmo respeito e espírito de fé como a Sagrada Escritura. Pois o amor à Igreja «comporta a fidelidade ao testemunho de fé e ao magistério eclesial». A Sagrada Escritura é Palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo, e tanto a Tradição como o Magistério merecem a mesma credibilidade, pois bebem da mesma fonte, do mesmo Espírito, como no-lo refere o Concílio Vaticano II.



«Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelasTe aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do Teu agrado.
Tudo me foi entregue por Meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» - Mt 11, 25

«A sabedoria é mais ágil que todo o movimento
e por sua pureza tudo atravessa e penetra.
Ela é um sopro do poder de Deus,
uma irradiação pura da glória do Omnipotente,
pelo que nada de impuro entra nela.
Ela é um reflexo da luz eterna,
um espelho imaculado da actividade de Deus
e uma imagem da sua bondade.
Sendo uma só, tudo pode;
permanecendo em si mesma, tudo renova;
e, derramando-se nas almas santas de cada geração,
ela forma amigos de Deus e profetas,
pois Deus só ama quem vive com a sabedoria.» - Sb 7, 24


Partilha: A inteligência, a Sabedoria, são um dom de Deus e que devemos cultivar para a Sua maior glória. São um dom do qual deveremos prestar contas, na mansão do Amor. Como usamos estes dons? Importa sempre e só usá-los para a maior honra e glória de Deus, já que somos seres livres, com livre arbítrio.
A ciência quando abre as portas da razão à luz de Deus e à Fé torna-se preciosa ajuda e verdadeira irmã da teologia, do conhecimento que todos os homens desejam alcançar; torna-se água que sacia a curiosidade de todos. Mas, a verdadeira Sabedoria, para nós Cristãos, é a Sabedoria da Cruz:
«A linguagem da cruz é certamente loucura para os que se perdem mas, para os que se salvam, para nós, é força de Deus. Pois está escrito:
Destruirei a sabedoria dos sábios
e rejeitarei a inteligência dos inteligentes. – 1Cor 1, 18, ou seja toda a sabedoria que se baseia obstinadamente no mero materialismo, desprezando a Deus.


Para mim (mas porque este é o meu caminho... e penso que os santos nunca se preocuparam muito com estas coisas), tanto me faz aceitar o evolucionismo como o criacionismo ou como o evolucionismo criacionista. O que me interessa é o Criador! Tudo vem de Deus. Como, quando, não me interessa. Interessa-me, sim, o "porque". E S. Paulo responde-me dizendo que Deus nos «criou para sermos santos e irrepreensíveis, na Sua presença, no Amor»: Aqui, agora e PARA SEMPRE!


«Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito.» - Jo 3, 5-6

«É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender.» - Mt 13, 13


«Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir.» - Jo 16, 13

Partilha: Dada a minha pouca abertura à Graça, muitas vezes me parece que Deus está no "vento", no "tremor de terra" ou no "fogo" (cf. 1 Rs 19, 12), no tal "anjo de luz". Mas não. O Senhor está na "brisa suave", naqueles que se deixam moldar e penetrar por este Espírito renovador, purificador e santificador; Espírito que me quer "espiritualizar" e ensinar a "espiritualizar" cada palavra divina contida na Sagrada Escritura (e porque não na Tradição) a transcendê-la para a imutabilidade da "Eterna Verdade, verdadeira Caridade!", que é a Santíssima e adorável Trindade.


«E Eu declaro a todos os que escutam as palavras proféticas deste livro (Apocalipse...): Se alguém aumentar alguma coisa, Deus lhe aumentará os flagelos que estão descritos neste livro. E se alguém retirar palavras deste livro profético, Deus lhe retirará a parte que tem na árvore da Vida e na cidade santa, descritas neste livro.
O que é testemunha destas coisas diz:
'Sim. Virei brevemente.'

- Ámen! Vem, Senhor Jesus!

A graça do Senhor Jesus esteja com todos vós.» Ap 22, 18


Que Ele nos inebrie no fogo do Seu Divino e Puríssimo Amor aumentando-nos sempre e cada vez mais a fé e a esperança no Seu Amor e no cumprimento das Suas promessas. Precisamos, eu preciso, desta união a Jesus Cristo «guia e consumador da nossa fé», já que todos nela podemos vacilar, mas Deus nos livre de nela tropeçar…

Graça e Misericódia!

Santa Teresinha passou pela "noite da fé"!…, mas soube ultrapassar o que os sentimentos de abandono e "morte" lhe faziam sentir, caminhando em pura FÉ, e sempre num grande Amor, adorando a Deus em «espírito e verdade».
Deus permitiu que sentisse o "drama" dos que não têm fé, do ateísmo, do niilismo, etc., o que muitos viviam e iriam viver, mesmo na Comunidade Eclesial, numa época em que a ciência espantosamente desabrochava.
Pode-se dizer que a ciência é má? De modo algum! Tudo é bom quando é bem usado e quando tem em vista o fim último para o qual fomos criados. Esta é a grande diferença. Depende agora do uso que na minha liberdade quero dar.
S. Teresinha sempre teve Fé. Esta reside na Vontade, nem sempre no sentimento, e cultiva-se na oração, nos sacramentos, etc. Ela foi crescendo, assim, na fé, numa fé que se revelou vitoriosa apesar de todas as dificuldades. Se não estou em erro é S. Teresa d'Ávila quem diz que "Deus nunca manda (ou permite) um trabalho sem que depois o pague bem pago". Há que ter muita confiança! Muita Fé! Muita Esperança! Muito Amor a este Deus que ainda hoje continua a sofrer o drama de não ser amado e acolhido como Deus que é Pai e que a todos ama.

É verdade! Hoje a Igreja faz celebra a memória de S. Catarina de Sena. Que ela interceda por toda a Igreja para que todos nos deixemos iluminar – sempre – pelo Espírito da Verdade!

Confio-me às vossas orações.


Pequena irmã em Cristo

Mats disse...

A táctica seguida pelo Dinis é a mesma que causou a morte do cristianismo Bíblico na europa ocidental:

* A ciência (= naturalismo) descobriu X, mas a Bíblia diz Y. ENTÃO vamos re-interpretar a Bíblia, porque, como nós sabemos, o homem nunca se engana.

Sr Dinis, a "ciência" diz que mortos não ressuscitam, mas Jesus Cristo ressuscitou. Quem é que está certo? A Bíblia ou a "ciência" ( = naturalismo) ?

Boa sorte com as suas "prioridades", sr Dinis.

PS: Quando tiver tempo, leia Êxodo 20:11, e diga-me o que é que Deus quis dizer com "Em seis dias".

Marcos Sabino disse...

António Parente:

"Uma coisa muito simples, Marcos, e muito poderosa:

"Amarás ao Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração,
com toda a tua alma
e com toda a tua mente.
Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo."
"


Sim, estes versículos são daqueles que nós, cristãos que acreditam na bíblia, consideramos como versículos-chave.

Mas a questão-chave é: se a bíblia não está correcta no que diz em relação ao passado das origens, como posso confiar nela quando fala sobre a Salvação? Se o Génesis é treta, então os Evangelhos também podem ser treta. E se os Evangelhos são treta, a única coisa que fica deles são as bonitas histórias de Jesus.

Será a nossa função "eliminar" as partes que não nos interessam e ficar apenas com aquelas que nos interessam e que, em princípio, não entram em choque com o que diz o mundo?

É que se queremos enfiar a ciencia naturalista na bíblia então vamos ter de re-interpretar à medida que ela apresenta as suas novas conclusões. E pelo que eu vi, isto já chegou ao ponto de se duvidar das palavras do próprio Jesus.

António Parente disse...

Marcos Sabino


A Bíblia diz o fundamental: Deus é o Criador. Como o processo se desenrolou parece-me ser do campo da ciência. A teoria da evolução e o Big Bang não negam Deus. Quem nega Deus é o ateísmo que usa a ciência como arma contra Cristo. E aí esse ateísmo é ajudado pelo criacionismo que em vez de ser capaz de dialogar e discutir criticamente no campo da filosofia tenta fazê-lo no campo da ciência. E os dois puxam e repuxam a ciência para que sirva os seus interesses. Por isso surgiu o design inteligente que tenta ser uma espécie de cristianismo "científico".

No meio desta discussão perde-se o essencial do Cristianismo: vivê-lo em vez de o discutir. A Bíblia dá-me um significado para a vida, uma esperança, um sentido para a minha existência. A ciência não me dá isso, não me consegue demonstrar que a minha fé é vã nem o tenta. Quem o quer fazer é o ateísmo militante e radical que procura afastar os homens de Deus. Mas não o consegue.

Pergunte-lhes se conseguem provar que Deus existe e responder-lhe-ão, tal como Bertrand Russell lhes ensinou, que isso é um ónus seu e depois falam-lhe de sereias, dragões e extra-terrestres, tudo para esconder a sua incapacidade em dar uma resposta concreta. É contra isto que deve lutar, no campo da filosofia e não no da ciência.

A "luta" é contra o ateísmo radical e militante, Marcos. Não é contra a ciência.

É a minha opinião.

Pequena irmã em Cristo disse...

Caríssimos,

Acabei, há pouco, de rezar o Ofício de Leituras, e ao ler a primeira leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. João, lembrei-me de transcrever uma parte que penso ser oportuna.
Há que advertir (sabem melhor que eu…) que todos os livros contidos na Sagrada Escritura, na Bíblia, são considerados pela Igreja "inspirados". Portanto há que ler a Bíblia como Palavra de Deus, ou seja, como Palavra do Pai, Palavra que é o Verbo de Deus que "encarna" na palavra. Mediante a ajuda do Santo Espírito há que transcendê-la, indo ao encontro da Sabedoria, do Verbo escondido no seio do Pai e presente na palavra. E, então, unir a vida concreta a ela, à Palavra: a Deus, O qual faz as suas delícias em estar com os filhos dos homens.

Diz assim:

«Quanto a vós, procurai que em vós permaneça o que ouvistes desde o princípio. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também vós permanecereis no Filho e no Pai. E esta é a promessa que Ele nos fez: a vida eterna. Escrevo-vos isto a propósito dos que procuram enganar-vos.»

E agora acrescento o que diz S. Paulo, o apóstolo dos gentios e um verdadeiro enamorado de Jesus Crucificado:

«Mas tu, ó homem de Deus, foge dessas coisas. Procura antes a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e da qual fizeste uma bela profissão na presença de muitas testemunhas.» -1 Tm 6, 11-13

Espero ter ajudado.

Faço votos de uma fé viva, inabalável e perseverante, na Verdade.


Pequena irmã em Cristo.

alfredo dinis disse...

Marcos,

1. A ciência não tem que se preocupar com a ressurreição porque esta não é um fenómeno que acontece no espaço e no tempo. Não é uma reanimação. Sabe o que é a ressurreição? Sabe explicá-la? Sabe como era o corpo de Cristo ressuscitado? Terá Ele comido peixe com os seus discípulos depois da ressurreição?

2. É claro que acredito na mensagem do Apocalipse, mas este livro, mais que nenhum outro, está cheio de simbologia. Interpretá-lo literalmente não é acreditar nele, pelo contrário, é ler o que lá não está.

3. No que se refere às passagens que se referem à natureza, não podemos pôr de lado o que sabemos com base no conhecimento humano adquirido. E sabemos que uma estrela não ‘cai’. E se caísse, a Terra arderia muito antes de ser tocada por ela!

4. “Se Jesus não sabia o que estava a dizer…” – Não se trata de Jesus não saber o que estava a dizer, trata-se de sabermos nós o que Jesus estava a dizer! Se há algo em que Jesus foi perito foi em metáforas, analogias e comparações. Mas os termos utilizados não têm que ser necessariamente interpretados em sentido literal. O que é importante é compreender a mensagem, e aí Jesus soube sempre muito bem o que estava a dizer.

5. Quanto a Jonas, não acredito que ele tenha estado no ventre de uma baleia durante três dias, mas isso em nada me impede de acreditar que Jesus ressuscitou.

Saudações.

António Parente,

Obrigado pelas suas intervenções que considero sempre muito a propósito e esclarecedoras. De facto, é preciso não nos embrulharmos na leitura da Bíblia sendo incapazes de distinguir o que nela é essencial. Subscrevo as suas intervenções.

Saudações.


Espectadores,

1. Concordo consigo em que tanto ‘interior’ como ‘exterior’ são termos que só se aplicam a seres no espaço e no tempo. Acredito que Deus não é o universo mas também acredito que está profundamente unido a ele, criando-o continuamente. O erro criacionista consiste, a meu ver, em acreditar que Deus está mais presente nos acontecimentos complexos e muito difíceis de explicar, como a formação do DNA, do que nos acontecimentos menos complexos, como o quotidiano nascer do sol. É esta presença que por vezes parece transformar-se em ausência – como se Deus interviesse na natureza só de vez em quando – que me parece dar a impressão de que Ele lhe é exterior.

2. Quanto à inerrância da Escritura: a sua mensagem central, que o António Parente fez o favor de nos lembrar, é simples, acessível a qualquer ser humano. Na Bíblia não há erros quanto a esta mensagem – o amor a Deus e ao próximo. A Bíblia não pode estar errada em matérias que têm a ver com os fenómenos naturais simplesmente porque não há nela qualquer intenção de nos ensinar questões de geografia, astronomia, geologia, etc. Se a lermos como se isto não fosse assim, nós é que estaríamos a introduzir erros nela. Precisamos por isso de ter muito cuidado. No que se refere a Jonas, já disse ao Marcos que eu não deixo de acreditar na ressurreição de Cristo se considerar como não histórica a aventura de Jonas. Ela é apenas um termo de comparação de que Jesus se serve.

3. Tanto o monogenismo como o poligenismo são compatíveis com a fé cristã. A criação pode ser vista como um acto realizado em seis dias, ou como um processo realizado ao longo de milhões de anos. Esta hipótese só tem argumentos a seu favor. A primeira só tem elementos contra. O problema de saber quando surgiram os primeiros seres capazes de se interrogar sobre o sentido do mundo e da vida e de procurarem uma resposta em Deus não será nunca resolvido pela ciência nem pela teologia. A questão da alma substancial levar-nos-ia longe. Fica para outra altura.

Saudações.

pequena irmã em Cristo,

Obrigado pelas suas longas considerações. Estou plenamente de acordo consigo em que nos basta afirmar que Deus é o Criador, e que para nós cristãos a verdadeira sabedoria é a sabedoria da cruz. Estamos no essencial e, enquanto cristãos, isto nos basta!

Saudações.

mats

1. Ex. 10:11: “em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou ao sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o.”

Tem que interpretar esta passagem no seu conjunto e na sua intenção que é a de justificar a organização dos dias de trabalho e de descanso como vontade de Deus. Se vamos interpretar cada elemento por si só, como os ‘seis dias’, então teremos que acreditar que Deus se cansou imenso a fazer o universo, de facto ficou tão exausto que teve que descansar. Corresponde esta imagem ao Deus de Jesus Cristo?

2. A ciência nada tem a dizer sobre a ressurreição porque esta não é um acontecimento espácio-temporal. Por isso não tenha que escolher entre o que diz a Bíblia e o que diz a ciência.

Saudações.

Mats disse...

Alfredo,
"1. Ex. 10:11: “em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou ao sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o.”

Tem que interpretar esta passagem no seu conjunto e na sua intenção que é a de justificar a organização dos dias de trabalho e de descanso como vontade de Deus.


A validade da comparação só tem efeito se o exemplo é tão real como o que é mandado. Deus disse "trabalhem 6 dias, e descancem um", PORQUê? Porque Eu (Deus) criei em 6 dias, e parei ao 7ª dia".
Este mandamento (o 4º) não faria sentido se os dias não fossem literais.

Se vamos interpretar cada elemento por si só, como os ‘seis dias’, então teremos que acreditar que Deus se cansou imenso a fazer o universo, de facto ficou tão exausto que teve que descansar.

Descançar da criação, obviamente. O contexto é claro nisso.


2. A ciência nada tem a dizer sobre a ressurreição porque esta não é um acontecimento espácio-temporal.


Quem disse isso? Os Apóstolos de Cristo, e o Próprio Cristo considerava a Sua reissurreiçaõ como um evento temporal, e real.

Mats disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mats disse...

Alfredo,
Pus aqui um comentário:

http://darwinismo.wordpress.com/

alfredo dinis disse...

mats,

O que quer dizer com a afirmação "os Apóstolos de Cristo, e o Próprio Cristo considerava a Sua reissurreiçaõ como um evento temporal, e real."? Quer especificar?

Continua mesmo convencido de que Deus se cansou imenso com a criação?

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo,

Obrigado pela sua resposta. Desta vez serei mais breve:

Queira insistir na ressurreição de Cristo na carne ("sarx"); o episódio de Tomé parece-me extremamente claro em relação à ressurreição de Cristo de forma tangível; o Seu Corpo não seria, certamente, um corpo mortal, mas sim glorioso (como será o nosso um dia), mas era certamente tangível, logo presente no tempo e no espaço;

Depois, pegando no que escreveu de forma numerada, e usando a mesma numeração:

1. Totalmente de acordo consigo

2. Continuo sem ver razões fortes para se duvidar da história de Jonas; e tomei-a apenas como um exemplo: que razões (mesmo estritamente científicas) temos para recusar a realidade histórica de um evento milagroso? pode considerar tal evento como probabilisticamente raro, mas não pode provar que não aconteceu; concordando totalmente consigo em que não devemos procurar aprender sobre ciências naturais na Bíblia, pois não foi escrita para tal, acho que é muito arriscado defender que existam erros na Bíblia; explico-me melhor: quando no Génesis se diz que o Espírito pairava sobre as águas, não temos que achar que se está a falar de H20, pode ser uma linguagem figurativa para designar a matéria-prima, ainda sem forma. Por outras palavras, uma Criação ainda em estado informal. Deste modo, compreendo o que lá está escrito, mesmo em termos cósmicos, e não tenho que dizer que o texto está errado ou que não veicula verdades cósmicas (mesmo que não as queira ensinar enquanto tal).

3. Não vejo como é que o poligenismo é compatível com a doutrina cristã. E parece-me que mistura a questão da duração temporal da Criação, que é outra diferente. Nada tenho contra uma interpretação não literal do número de dias da Criação, e por várias razões: a) a duração do dia poderá ter sido outra há milhões de anos; b) a palavra "dia" pode ter sido usada de forma figurativa, para designar etapas diferenciadas do processo criativo de Deus; c) e outras mais que agora não me ocorrem.
No entanto, e por causa da importância fulcral do Pecado Original, o poligenismo é muito problemático: destrói o pecado primevo, que é a marca notória da humanidade caída, elimina a necessidade salvífica de Cristo, entre outras más consequências. O Papa João Paulo II deixou claro que ele, partilhando de forma entusiástica as descobertas evolucionistas, insistia na criação de Adão como a insuflação da primeira alma humana num ser vivo (eventualmente um primata).

E são de Pio XII estas doutas palavras, retiradas da Humani Generis:

«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(…)»

Um abraço,

Bernardo Motta

Espectadores disse...

Mais um detalhe: a criação a de Adão a partir do barro pode ser, mais uma vez, uma linguagem figurada perfeitamente compatível com o evolucionismo. Arrisco uma interpretação: o primata sem alma humana é mortal duas vezes: no corpo e ná alma. Logo, em termos espirituais (o domínio de ensino da Bíblia), o primata é como o barro inerte. Uma analogia entre o barro sem vida biológica e o primata sem vida espiritual.

Nesse sentido, essa passagem pode ser interpretada como o pegar num animal privado de espiritualidade, e insuflá-lo com o espírito da vida interior e imortal.

Desta forma, não se diz que os textos estão errados, e ao mesmo tempo, preserva-se o monogenismo e a radical diferença espiritual entre um ser humano e um outro qualquer ser vivo (mesmo primata).

Um abraço,

Bernardo Motta

António Parente disse...

Bernardo

o site paroquias.org, que ambos concordaremos ser um site católico, tem online a Bíblia dos Franciscanos Capuchinhos.

Reli ontem à noite a introdução ao Génesis e nada me parece em contradição com o que o Padre Alfredo Dinis escreveu.

Podes comprovar no link:

http://www.paroquias.org/biblia/?m=4&n=1

Por outro lado, relembro a última aula do Padre Carreira das Neves na Universidade Católica (está no blogue que tenho agora: antonioparente.com). Tudo o que ele escreveu corrobora o que o Padre Alfredo Dinis aqui colocou como comentário.

O problema que se coloca, na minha opinião, é a apropriação da ciência por parte do ateísmo e a tentativa de dar um substracto pseudo-científico a questões de antureza filosófica e religiosa. Isso não se combate, na minha opinião, com uma leitura literal de Bíblia mas com capacidade de refutação de argumentos ilegítimos. Não fazer isso é cair nos erros dos nossos irmãos evangélicos.

Posso estar enganado porque reconheço que a tua cultura católica é muito superior à minha.

alfredo dinis disse...

Mats,
Li com atenção os seus comentários no seu blog. Fico com a sensação de que estamos a repetir exactamente o mesmo confronto – e os mesmos erros! – de há quinhentos anos acerca do caso Galileu. Aí também os protestantes erraram tanto como os católicos ao contraporem à hipótese heliocentrista a tradicional tese geocentrista argumentando que a Bíblia afirma que a Terra não se move, e que a Bíblia não pode estar errada. Não, de facto a Bíblia não está errada, nós é que podemos estar errados e assim, mesmo que involuntariamente e com a melhor boa vontade e espírito cristão, podemos introduzir, os nossos erros na leitura que fazemos da Bíblia.

Cordiais saudações.

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Bernardo,
Agradeço-lhe por manter este interessante diálogo. Gosto de numerar as minhas considerações para as estruturar melhor.

1. Por vezes parece que o Bernardo considera que interpretar metaforicamente uma passagem da Bíblia é o mesmo que dizer que ela está errada. Como no caso de Jonas. Mas você mesmo faz interpretações metafóricas de algumas passagens. Eu não compreendo, quanto a Jonas, que a comparação de Jesus com ele acerca da sua ressurreição dependa radicalmente da verdade histórica do episódio de Jonas. Nem eu estou a acusar a Bíblia de errar só por considerar que o episódio de Jonas não é histórico. Não lhe parece? Lembre-se do poema épico de Camões Os Lusíadas, no qual se fala do gigante Adamastor, personificador de todos os perigos que os portugueses tiveram que vencer no mar. O facto de não ter nunca existido tal personagem em nada diminui a força da comparação nem a verdade histórica da coragem dos portugueses, nem dos perigos reais que tiveram que enfrentar nas suas viagens marítimas.

2. Sobre o poligenismo, o Papa Pio XII afirma que ‘não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original’. O que o Papa afirma não me parece ser que ‘definitivamente’ não é possível o poligenismo, mas sim que ‘não se entende como isso é possível’. Um entendimento de como isto é ou não possível depende de como se interpreta o pecado original. O Bernardo acredita que o pecado original consistiu realmente em Eva ter comido uma maçã? Hoje, não sei se algum teólogo aceita esta interpretação. Mas se o pecado original não foi isto, o que foi? A literatura sobre o que foi – ou o que é! – o pecado original continua a aparecer constantemente nas livrarias e bibliotecas. Já vê que se o pecado original não foi literalmente cometido por Eva ao comer a maça, ele pode ser atribuído a várias pessoas, talvez mesmo a toda a humanidade. Além disso, os teólogos são unânimes em interpretar o pecado original não como um pecado semelhante aos pecados de que falamos habitualmente, como quebra de um mandamento específico. Não me peça que resuma aqui milhares de livros e artigos sobre o assunto. Mas podemos voltar cá, se quiser.

3. No que se refere à alma substancial que Deus cria e que entra no corpo de cada novo ser, há outros modos de interpretar esta questão. Aconselho-o a ler o livro de J. Ratzinger Introdução ao Cristianismo, que, a este respeito, afirma: “Ter alma espiritual quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo a que, numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar, numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’.” (p. 259 da traduçãoportuguesa, ed. Principia). Ratzinger não nega que se possa falar também de corpo e alma na forma tradicional, substancialista, mas crê que a perspectiva relacional é mais actual e compreensível. Afinal, o que é a alma senão aquilo que verdadeiramente nos dá vida? E o que é que nos dá vida especificamente humana e não apenas biológica? Não serão as relações que temos com os outros e, principalmente com Deus? Vista nestes termos, a alma já não tem uma relação tão radical com a questão de Adão, do pecado original e do poligenismo. O diálogo é proposto por Deus a todos os seres humanos, e não teve que começar necessariamente por um casal apenas.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro A. Dinis,

Então se o ser humano não tem uma alma substâncial, como poderá sobreviver à morte do corpo? Cristo não afirmou que existia uma vida eterna, que iamos todos ressuscitar?
Sem alma substâncial o que acontece depois da morte?
A morte é um fim?
Será que o ser humano não poderá viver o paraíso quando morre?

Uma alma substâncial parece mais fácil para responder a estes problemas.

Um abraço,

José

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,
Sabes dizer-me o que é a alma substancial? É uma coisa que entra e que sai do corpo? És tu mesmo sem o corpo? Pode viver sem o corpo? Para que precisará então dele na ressureição final? Aconselho-te também a leitura do livro de J. Ratzinger Introdução ao Cristianismo (ed. Principia). Segundo Ratzinger, o que é imortal é a relação de amor que Deus tem connosco, e nós somos essa relação. E como estamos exxertados em Deus, não desapareceremos.

Saudações,
Alfredo Dinis

Mats disse...

Alfredo,
"O que quer dizer com a afirmação "os Apóstolos de Cristo, e o Próprio Cristo considerava a Sua reissurreiçaõ como um evento temporal, e real."? Quer especificar?

O Senhor Jesus Cristo, os Apóstolos, e a igreja cristã através da historia viu a ressurreição como um evento histórico, que aconteceu no espaçço e no tempo. É por causa disso que a igreja cresceu e propagou-se.

Continua mesmo convencido de que Deus se cansou imenso com a criação.
COntinuo convencido que Deus descançou da criação no dia 7. Não que Ele esteja cansado, mas que ele parou de fazer o que estava a fazer.

Espectadores disse...

Caro António,

Obrigado pela sugestão. Apenas quero fazer ver que não estou a introduzir uma discórdia radical, ou uma contestação total ao que o Pe. Alfredo escreveu. Antes pelo contrário, é evidente que temos uma base de entendimento bastante larga.

Só tenho procurado expandir o debate, tentando evitar que um assunto muito complexo não seja alvo do máximo possível de ilacções. Nesse sentido, estou a tentar fazer de "advogado do Diabo", porque tenho ideias em formação sobre estes temas e gosto de debater as minhas concepções com quem sabe, para as colocar à prova e para solidificar conceitos.

Estamos todos a falar sobre um tema difícil de expor preto no branco. Há diferenças muito ténues entre as nossas várias posições, mas essas pequenas diferenças podem acarretar consequências grandes. Daí a minha insistência em minúcias.

É certo que as Sagradas Escrituras não são livros de ciência, nem devem ser lidas desse modo. É certo que o uso de linguagem alegórica ou metafórica é perfeitamente lícito, e é até a forma natural encontrada pelo Espírito Santo para ajudar os seus escribas de ocasião a colocar por escrito conceitos metafísicos em linguagem corrente.
E é também certo que essa linguagem metafórica, por ser metafórica, não tem que ser tida como falsa ou enganadora.

O que me preocupa, sobretudo tomando em consideração que, a haver infalibilidade, ela está do lado do Espírito Santo (e não do lado dos cientistas), se descarte talvez depressa demais certas interpretações literais. O meu receio é só o de que, na esperança de se agradar ao confuso mundo moderno, se deitem fora sistematicamente muitas boas leituras literais, sem sequer existirem razões científicas para tal.

Um abraço,

Bernardo

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo,

«Agradeço-lhe por manter este interessante diálogo.»

Sou eu quem tem que lhe agradecer!

«Gosto de numerar as minhas considerações para as estruturar melhor.»

Acho que faz muito bem, isso ajuda bastante.

«1. Por vezes parece que o Bernardo considera que interpretar metaforicamente uma passagem da Bíblia é o mesmo que dizer que ela está errada.»

Não, não, nem por sombras.

«Como no caso de Jonas.»

Em relação ao caso de Jonas, como em relação a tantos outros, parece-me que a leitura literal convive bem com a leitura metafórica. Sucede apenas que eu não vejo razões fortes para descartar a leitura literal. Do ponto de vista experimental, pelo que conhecemos do sistema digestivo das baleias, parece-me uma história improvável. Mas desse ponto de vista, do que conhecemos do corpo humano, a ressurreição de Cristo também é improvável. E no entanto, esta última têmo-la por certa.

«Mas você mesmo faz interpretações metafóricas de algumas passagens.»

Claro que sim!
Parece-me que há várias leituras estratificadas de cada trecho da Bíblia, desde a literal à teológica, passando pela metafórica ou alegórica. O que eu quis frisar foi apenas que se deve manter, sempre que possível, sempre que não existam provas certas e claras em contrário, a leitura literal.

«Eu não compreendo, quanto a Jonas, que a comparação de Jesus com ele acerca da sua ressurreição dependa radicalmente da verdade histórica do episódio de Jonas.»

Não, certamente que não depende. Dou-lhe toda a razão. Se assim não fosse, teríamos que assumir a veracidade histórica de todas as parábolas usadas por Jesus.

«Nem eu estou a acusar a Bíblia de errar só por considerar que o episódio de Jonas não é histórico. Não lhe parece?»

Claro que sim.

«2. Sobre o poligenismo, o Papa Pio XII afirma que ‘não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original’. O que o Papa afirma não me parece ser que ‘definitivamente’ não é possível o poligenismo, mas sim que ‘não se entende como isso é possível’.»

Bom, eu não faço essa leitura. Parece-me que o poligenismo é tido como incompatível. A forma de escrever típica do Papa Pio XII poderá gerar equívocos, e admito que não sou especialista e posso estar enganado. Mas parece-me forçoso ler as palavras do Santo Padre como abonatórias em favor do monogenismo e reprobatórias face ao poligenismo.

Note-se que o Papa está a dar espaço de manobra às teorias evolucionistas, visto que as ciências naturais não são a área de infalibilidade do magistério petrino. No entanto, o pronunciar de doutrina cristã já é. E não vejo como ficaria o Pecado Original sem Adão e Eva ententidos como primeiro par de seres humanos, ou seja, seres vivos dotados de alma humana.

«Um entendimento de como isto é ou não possível depende de como se interpreta o pecado original.»

Certamente!

«O Bernardo acredita que o pecado original consistiu realmente em Eva ter comido uma maçã? Hoje, não sei se algum teólogo aceita esta interpretação.»

Não necessariamente uma maçã, ou o comer de um fruto em concreto. Entendo-o como uma desobediência concreta, localizada no tempo e no espaço, a um mandamento divino. E que essa desobediência foi cometida pelo primeiro homem e pela primeira mulher, tendo cada um tido a sua quota parte de culpa, visto que toda a espécie (homem e mulher) ficou comprometida com o pecado a partir daí.

«Mas se o pecado original não foi isto, o que foi? A literatura sobre o que foi – ou o que é! – o pecado original continua a aparecer constantemente nas livrarias e bibliotecas.»

Não tenho a presunção de ter a resposta definitiva. Apenas partilho do conhecimento que tenho da doutrina cristã clássica acerca do Pecado Original.

«Já vê que se o pecado original não foi literalmente cometido por Eva ao comer a maça, ele pode ser atribuído a várias pessoas, talvez mesmo a toda a humanidade.»

Como?
Se a doutrina cristã sempre o tratou como um pecado concreto, cometido por pessoas concretas (Adão e Eva), e depois transmitido por descendência a toda a humanidade? Um bébé recém-nascido traz a marca do pecado original porque o recebe por herança dos seus pais. O bébé não o cometeu, mas tem-no. E por isso precisa do baptismo que, entre outras coisas, o limpa desse pecado herdado.

Como podemos atribuir a uma criança recém-nascida, por exemplo, a co-autoria do Pecado Original?

Não entendo como é que se pode conceber o Pecado Original como cometido por toda a humanidade.

Herdado por toda a humanidade, isso sim, estou totalmente de acordo. Mas cometido, não.

«Além disso, os teólogos são unânimes em interpretar o pecado original não como um pecado semelhante aos pecados de que falamos habitualmente, como quebra de um mandamento específico.»

Há certamente uma enorme diferença, no facto de que, para toda a descendência de Adão e Eva é um pecado que se herda. O Pecado Original, em Adão e Eva, é causa.

Numa criança recém-nascida, o Pecado Original é efeito. Logo aí há uma enorme diferença. Mas parece-me que o conceito do Pecado Original contém tudo o que é preciso para se aceder a grandes verdades sobre o homem, sobre a introdução do pecado no mundo, sobre a origem da morte e do sofrimento, entre outras coisas.

«Não me peça que resuma aqui milhares de livros e artigos sobre o assunto. Mas podemos voltar cá, se quiser.»

Ora essa, eu sei bem a dificuldade enorme que é debater assuntos destes por escrito nestes espaços curtos. Eu já agradeço, e muito, a sua retribuição aos meus comentários!

«3. (...) ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder.»

Só posso partilhar desta definição.

«Aquilo a que, numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar, numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’.” (p. 259 da traduçãoportuguesa, ed. Principia). Ratzinger não nega que se possa falar também de corpo e alma na forma tradicional, substancialista, mas crê que a perspectiva relacional é mais actual e compreensível.»

Porque razão não poderíamos assumir as duas perspectivas? Uma mais ontológica, e a outra mais relacional?
Parece-me que todo o cristianismo está cheio destas misturas de atitudes complementares, e sai mais rico delas.

«Afinal, o que é a alma senão aquilo que verdadeiramente nos dá vida? E o que é que nos dá vida especificamente humana e não apenas biológica? Não serão as relações que temos com os outros e, principalmente com Deus?»

Totalmente de acordo!

«Vista nestes termos, a alma já não tem uma relação tão radical com a questão de Adão, do pecado original e do poligenismo.»

Aqui é que já não o sigo!
Concordo com tudo o que disse sobre a alma do ser humano, mas aqui é que me parece importante ir buscar de novo a definição escolástica da "forma substantialis", porque é ela que nos ajuda a perceber filosoficamente porque razão nos chamamos e reconhecemos como humanos.

É porque partilhamos algo de ontológico e profundo com esse Adão e essa Eva. E isso que partilhamos é o nosso património biológico (genético) mas também espiritual! Porque a nossa "forma substantialis" tanto nos determina em corpo como em espírito. E aí, se o que se herda por via biológica entra na nossa constituição, o que se herda por via espiritual também!

É que a nossa pertença à espécie humana é muito importante, porque quer significar a nossa pertença a uma categoria transcendente de seres imortais em alma, que durante um intervalo finito de tempo se associa a um corpo mortal.

E, segundo as Sagradas Escrituras, essa categoria de seres ficou toda ela transformada e alterada pelo gesto singular de Adão e de Eva.

Por muitas voltas que se dê, não compreendo o poligenismo nem vejo como compatibilizá-lo com o cristianismo sem fazer um enorme esforço argumentativo, que me parece forçado e deslocado.

«O diálogo é proposto por Deus a todos os seres humanos, e não teve que começar necessariamente por um casal apenas.»

Bom, mas aqui entramos num problema também científico. Sem o primeiro casal, como é que se propaga o genoma humano? Será que o genoma teria surgido por evolução em vários locais e em instantes de tempo distintos?

Eu não consigo dissociar totalmente a paternidade biológica da paternidade espiritual. São coisas distintas, mas que ocorrem em simultâneo, com a concepçãode cada novo ser humano.

Mesmo assumindo a teoria da evolução, quando Deus insufla uma alma humana, pela primeira vez num ser vivo (provavelmente um primata), criando o primeiro homem e a primeira mulher, há algo de radical que se transforma nesse ser vivo pré-humano, e também ao nível biológico. É o nascer da raça humana, mesmo que a suponhamos como tendo sido criada a partir de matéria viva pré-existente e não humana.

É assim que eu vejo esta questão tão espinhosa, e para o fazer, não preciso nem de deitar fora o monogenismo, nem de desrespeitar os resultados das modernas ciências em matéria de mecanismos evolutivos e de biologia.

Mais uma vez, obrigado pela sua paciência e pelo seu tempo!

Um abraço,

Bernardo

Marco disse...

Será que a procura e valorização do significado simbólico das escrituras é uma forma de adaptar a Bíblia à modernidade e à ciência, uma forma de distorção dos seus ensinamentos originais? Ou será isso uma forma de encontrar o que a Bíblia tem de mais profundo e valioso?

Lembro que S. Paulo foi o primeiro cristão a fazer este tipo interpretações. Afinal ele até conseguia ver significados simbólicos em textos que aparentemente nada têm de simbólico (como a história de Abraão e as duas esposas [Gal 4:22-26], ou a história do monte Horeb [I Cor 10:1-4]).

(Já escrevi sobre este tema aqui)

Alguém quer sugerir que S. Paulo também estava enganado?

Para mim é óbvio que os textos sagrados contêm linguagem simbólica e alegórica para testar os crentes, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.

Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.


Bernardo,
A mim o conceito de pecado original (mesmo que herdado, e não cometido) parece-me uma concepção demasiado negativa sobre o ser humano. Além disso parece-me profundamente contraditório a Justiça de Deus. Como pode Deus - que é suposto ser a Suprema Justiça - condenar alguém que "tem pecado desde nascença"?

Anónimo disse...

Caro A. Dinis:

Alma substancial é uma substância que subsiste (eterna, indestrutível) por isso criada por Deus que é eterno. Junta-se ao corpo, pois o Deus criou um universo espacio temporal. Sendo assim, o que verdadeiramente interessa não será a alma?
Porque é que a alma não poderá existir? A ressurreição final porventura fala de um corpo espacio temporal?
Imortal é a relação com Deus, mas como se manifesta essa relação depois da morte? Logo, não terá necessariamente que existir alma substancial?


saudações

Espectadores disse...

Olá Marco!

Usando uma ideia do Chesterton, diria que o Pecado Original é a principal certeza e coisa provada que podemos ter: basta olhar à volta. A doença, a morte, os defeitos do ser humano, tudo isso é resultado do Pecado Original.

Claro está que, para o aceitarmos, temos que aceitar a visão do homem no Paraíso, antes da Queda, uma vida sem morte, sem dor, sem doenças, sem dificuldades.

Em relação ao Pecado Original, é na verdade uma situação de privação da graça santificadora de Deus. Por isso, é necessário baptizar uma criança tão cedo quanto possível.

A discussão teológica quanto ao destino das crianças não baptizadas, que seguramente não cometeram pecado algum porque não tiveram sequer essa possibilidade, é uma discussão ainda aberta.

Hoje em dia, quase ninguém coloca tais crianças no Inferno, apesar de essa hipótese ter sido defendida em tempos. A discussão hoje é em defender:

a) que tais crianças vão para o Céu; ou seja, que são resgatadas para gozarem da visão beatífica de Deus

b) que tais crianças ficam num limbo, uma situação indolor e inócua, na qual elas não têm a visão beatífica de Deus (porque não foram baptizadas) mas também não sofrem.

Eu gosto de pensar que a a) corresponde à verdade. No entanto, não devemos perder de vista a importância central do baptismo. Pensar que a hipótese b), a do limbo, é plausível, anima-nos a procurar o baptismo para as nossas crianças e a defender o enorme valor desse sacramento.

Eu não discuto, caro Marco, se o Pecado Original dá ou não uma ideia negativa do homem. Eu digo só o óbvio: o homem, se tem virtudes, tem também defeitos. A imperfeição humana não se discute: é um facto. O Pecado Original é um conceito cristão que procura explicar a imperfeição do homem pós-Queda.

É por isso que eu digo que, de todos os pontos da doutrina cristão, o Pecado Original é daqueles poucos que, como dizia o Chesterton, podemos constatar todos os dias da nossa vida, seja olhando para o mundo à nossa volta, seja (e isto é o pior) olhando para nós mesmos ao espelho!

Um abraço

Bernardo

antonio ary sj disse...

Caro Bernardo,

revejo-me completamente no que diz, apoiando-se em Chesterton:

"diria que o Pecado Original é a principal certeza e coisa provada que podemos ter: basta olhar à volta. A doença, a morte, os defeitos do ser humano. A imperfeição humana não se discute: é um facto. O Pecado Original é um conceito cristão que procura explicar a imperfeição do homem."

Mas porque precisa de um "pós-queda"? Aquilo que me parece a mim (na minha ignorância) é que o estado não é de "pós-queda" mas antes de "pré-salvação". Deus cria (no presente, note-se) o homem, radicalmente necessitado d'Ele, mas também radicalmente capaz de O negar. Porque não ver o "jardim do Éden" como o futuro, e não o passado?

Aqui chego a uma consideração mais geral, correndo o risco de me aventurar num terreno em que a minha autoridade é mais que duvidosa...

Os conceitos de "ciência" e de "história" (por exemplo) são criações muito recentes (da modernidade) e não podem por isso projectar-se para os autores dos livros da Bíblia, menos ainda para as suas personagens... Um judeu (do Antigo Testamento ou do tempo de Cristo) não tem as preocupações que hoje podemos ter e exigir de um cientista, um historiador, um jornalista...
Na mesma linha, a(s) própria(s) língua(s) e cultura(s) em que foi redigida a Bíblia tem implicações na sua interpretação. Por exemplo: não é de todo imediata a correspondência dos tempos verbais do hebreu para as línguas modernas: o que se quer dizer quando se fala no presente, no passado, ou no futuro? A centralidade da imagem, da metáfora, do simbólico também me parece um dado importante... (só muito modernamente é que nos preocupamos com definições claras, precisas e perfeitamente delimitadas...)

Parece-me que só temos a ganhar com o aprofundamento da leitura (e meditação!) da Bíblia, ajudados pela ciência, a história, e todas as outras disciplinas modernas, mas sem as projectarmos para um texto totalmente alheio a essas preocupações.

(aprendiz de filósofo e de cristão)

alfredo dinis disse...

Caro Bernardo,

Respondo a algumas das suas questões. Mas digo desde já que não o faço como se fosse uma autoridade designada pela Igreja para as resolver. Apoio-me na autoridade de teólogos aceites pela mesma Igreja.

“E não vejo como ficaria o Pecado Original sem Adão e Eva ententidos como primeiro par de seres humanos, ou seja, seres vivos dotados de alma humana.”

Se o pecado original não for entendido a partir de uma leitura literal do Génesis, então não tem uma relação necessária com um só casal de seres humanos. O conceito de ‘alma’ tem origem filosófica e não religiosa.

“parece-me que o conceito do Pecado Original contém tudo o que é preciso para se aceder a grandes verdades sobre o homem, sobre a introdução do pecado no mundo, sobre a origem da morte e do sofrimento, entre outras coisas.”

Mais uma vez, todas essas explicações são possíveis apenas se partirmos de uma interpretação literal do Génesis. O sofrimento e a morte fazem parte da nossa natureza humana. Não precisamos do pecado original para o explicar.

“aqui é que me parece importante ir buscar de novo a definição escolástica da "forma substantialis", porque é ela que nos ajuda a perceber filosoficamente porque razão nos chamamos e reconhecemos como humanos.”

O que nos faz seres humanos é o nosso carácter relacional, a nossa abertura aos outros, a Deus. Neste sentido, a forma substancial não tem nada de substância mas sim de relação.

“Por muitas voltas que se dê, não compreendo o poligenismo nem vejo como compatibilizá-lo com o cristianismo sem fazer um enorme esforço argumentativo, que me parece forçado e deslocado.”

Do ponto de vista científico, são possíveis as duas hipóteses. O monogenismo corresponde a uma leitura literal do Génesis e do pecado original. Sem esta leitura literal o poligenismo é, também do ponto de vista cristão, tão aceitável como o monogenismo.

“Bom, mas aqui entramos num problema também científico. Sem o primeiro casal, como é que se propaga o genoma humano? Será que o genoma teria surgido por evolução em vários locais e em instantes de tempo distintos?”

Sim, a ciência admite essa possibilidade.

“Claro está que, para o aceitarmos, temos que aceitar a visão do homem no Paraíso, antes da Queda, uma vida sem morte, sem dor, sem doenças, sem dificuldades.”

Sim, mas isso não se pode aceitar literalmente, se se aceita a evolução. Se houve paraíso terrestre, onde lhe parece que estava? Na Palestina? Onde? Se aceitamos a evolução, não é possível aceitar uma vida sem morte nem sofrimento.

“que tais crianças ficam num limbo, uma situação indolor e inócua, na qual elas não têm a visão beatífica de Deus (porque não foram baptizadas) mas também não sofrem.”

Esta era uma tradição na Igreja Católica, mas o actual Papa declarou que o limbo não passou de uma mera hipótese teológica que não tem hoje qualquer lógica.

Caro Bernardo, aconselho-o a que leia, por exemplo, o livro de Karl Rahner Curso de Introdução à Fé. Aí encontrará tratadas estas questões de uma forma que me parece muito actual.

Cordiais saudações.

alfredo dinis disse...

Caro Anónimo,
A alma é um conceito de origem filosófica e não religiosa. Até há pouco tempo, acentuava-se muito o dualismo corpo-alma. A ideia de que no momento da concepção de um novo ser os pais geram o substrato biológico e Deus gera uma alma que entra nesse substrato biológico é inaceitável. O P. Karl Rahner considera que Deus é tanto o autor do corpo como da alma, e quando geram um novo ser os pais geram um ser inteiro em virtude do poder de Deus. Também a teologia católica acentua a unidade corpo-alma formando cada pessoa. Como afirma S. Paulo nós já existimos em Deus, nele nos movemos e nele somos. A morte será como que um abrir de olhos para a realidade em que já vivemos, Deus. Neste sentido, quando morrermos não precisamos de ir para lado nenhum, continuaremos no seio de Deus onde já nos encontramos. Como afirma o actual Papa, aquilo a que tradicionalmente se chamou alma como ‘forma substancial do corpo’, hoje deverá ser chamada ‘relação de amor com Deus’, uma relação que Ele estabelece com cada ser humano no momento da sua concepção, e que é eterna porque Ele é eterno.

Cordiais saudações.

Espectadores disse...

Caro António Ary,

«Mas porque precisa de um "pós-queda"? Aquilo que me parece a mim (na minha ignorância) é que o estado não é de "pós-queda" mas antes de "pré-salvação".»

E porque não ambos?
Sempre foi tradição cristã interpretar o pecado de Adão e Eva como um evento histórico, real e concreto. Eu vejo nessa historicidade uma explicação muito sólida e plausível para explicar a introdução do Mal no mundo e na vida do Homem. Afinal, Deus pode bem ter criado o Homem sem o pecado. Esse Homem sem pecado seria Adão e Eva. Pelo Mal (representado pela serpente), o Homem toma a opção de desobedecer. Em vez de se alimentar da Árvore da Vida, que lhe dava imortalidade em todos os sentidos, o Homem opta pela Árvore da ciência do Bem e do Mal, ou seja, opta por usar o seu livre arbítrio para desobedecer.

Este gesto de Adão e Eva teve consequências reais e históricas para toda a Humanidade. A morte. As dores de parto. A necessidade de trabalhar para obter subsistência.

Por isso, vejo que estamos num claro "pós-queda" e também num "pré-salvação".

«Deus cria (no presente, note-se) o homem, radicalmente necessitado d'Ele, mas também radicalmente capaz de O negar.»

Eu não gosto muito da expressão de Deus "criar no presente". Porque apenas no mundo material é que podemos falar em passado, presente e futuro. O tempo só faz sentido para quem vive sujeito a ele. Deus cria na eternidade. Parece-me mais seguro falar assim. Do ponto de vista de Deus, trans-temporal, não há segredos: Deus vê Adão, vê Cristo feito Homem, vê-nos a todos, no passado, presente e futuro. De forma imediata e extra-temporal.

Não vejo mal nenhum em falar, como sempre se falou, na Criação como um acontecimento histórico, por referência ao Génesis, desde que tenhamos em mente que o passado da Criação é uma perspectiva nossa, criatural, porque para nós o tempo é importante. Nesse sentido, Adão é para nós passado. Do ponto de vista de Deus, passado, presente e futuro fundem-se numa única visão instantânea. Pelo menos, parece-me que assim é que faz sentido ver as coisas.

«Porque não ver o "jardim do Éden" como o futuro, e não o passado?»

Ah, discordo totalmente!
Porque o jardim do Éden foi para Adão e Eva o paraíso terrestre.
A vida eterna de Cristo é o paraíso celeste. Há, em termos de simbolismo, um belo paralelo entre a Jerusalém terrestre (cujo Templo foi derrubado, sendo os judeus expulsos de lá - analogamente à expulsão dos nossos pais do Éden) e a Jerusalém celeste, essa cidade brilhante e imaculada, que seguramente não se encontra na Terra.

Eu não tenho grandes dúvidas em aceitar a ideia do jardim do Éden como um local terrestre concreto, porventura hoje inacessível por causa das dramáticas mudanças na geosfera, entretanto ocorridas. Parece-me lógico que, aceitando o carácter histórico do relato do Génesis (e eu aceito-o), é consequente aceitar a realidade física e concreta do jardim do Éden.

Hoje em dia, estas questões colocam imensas dificuldades a muitos crentes, e a mim também já me colocaram. Mas hoje em dia, depois de muita reflexão, já não percebo bem as razões que levam tantos a hiper-simbolizar o Génesis. Há lá muito de simbólico, mas será tudo simbólico?

«Aqui chego a uma consideração mais geral, correndo o risco de me aventurar num terreno em que a minha autoridade é mais que duvidosa...»

A minha idem!

«Os conceitos de "ciência" e de "história" (por exemplo) são criações muito recentes (da modernidade) e não podem por isso projectar-se para os autores dos livros da Bíblia, menos ainda para as suas personagens...»

Eu não seria tão categórico. Muitos livros na Bíblia, diria mesmo quase todos, são claramente históricos: relatam acontecimentos, e até o fazem quase sempre de forma cronológica, mesmo não apresentando, é claro, a precisão que hoje tanto apreciamos.

«Um judeu (do Antigo Testamento ou do tempo de Cristo) não tem as preocupações que hoje podemos ter e exigir de um cientista, um historiador, um jornalista...»

Que tipo de preocupações?
Se falamos de precisão, de rigor descritivo, de formato, concordo.
Se falamos de verdade, discordo.

«Na mesma linha, a(s) própria(s) língua(s) e cultura(s) em que foi redigida a Bíblia tem implicações na sua interpretação.»

Sim, tem. Mas eu não partilho da ideia, algo radical a meu ver, de que a língua e a cultura nos levam necessariamente a um relativismo interpretativo. Essas ideias fizeram moda no século XIX mas parecem-me hoje ultrapassadas.

«Por exemplo: não é de todo imediata a correspondência dos tempos verbais do hebreu para as línguas modernas: o que se quer dizer quando se fala no presente, no passado, ou no futuro? A centralidade da imagem, da metáfora, do simbólico também me parece um dado importante... (só muito modernamente é que nos preocupamos com definições claras, precisas e perfeitamente delimitadas...)»

Concordo com tudo isto, mas no entanto, não podemos levar essas considerações longe demais, fazendo-nos duvidar de que os textos sacros nos queiram transmitir acontecimentos reais e concretos. A Bíblia é um poema? Será em muitas partes. Mas será tudo poesia? Certamente que não. Na ânsia de evitar o confronto das Escrituras com a História e com outras ciências, nós, os crentes, corremos vezes demais o enorme risco do hiper-simbolismo, de transformar tudo em metáfora e analogia.

«Parece-me que só temos a ganhar com o aprofundamento da leitura (e meditação!) da Bíblia, ajudados pela ciência, a história, e todas as outras disciplinas modernas, mas sem as projectarmos para um texto totalmente alheio a essas preocupações.»

Assino por baixo!

«(aprendiz de filósofo e de cristão)»

Outro! ;)

Bernardo

Pequena irmã em Cristo disse...

Pe. Alfredo e todos,

Tinha muitas coisas para dizer mas creio não ser necessário. Para além de ser muito jovem para entrar nestas "boas discussões" (prefiro o silêncio em Deus pois só Ele, no Seu infinito Amor, é capaz de iluminar os corações) está tudo dito no Catecismo da Igreja Católica que o Papa João Paulo II quis oferecer à Igreja de Cristo Jesus vendo já as confusões das mentes dos Cristãos, dos Católicos e de todos. Também está muita coisa dita na Tradição (?), que, na pessoa dos Doutores da Igreja – esses verdadeiros e reconhecidos Teólogos – que tantos bons ensinamentos deixaram, bem como tantos Santos e Santas (muitos místicos) que generosamente expuseram o fruto das suas reflexões, meditações e Encontros com Deus.

Que a intercessão de todos eles, e de Maria, nos ajudem a viver em despojamento de tudo, em Fé, em esperança e Amor, pois só assim nasce o Encontro e só assim se pode viver desde já o doce «Céu na terra».

Reze por esta "pequena irmã"!

Saudações

Pequena irmã em Cristo disse...

Pe. Alfredo e todos,

O mesmo comentário que o anterior, mas com uns acréscimos...

Tinha muitas coisas para dizer mas creio não ser necessário. Para além de ser muito jovem para entrar nestas "boas discussões" (prefiro o silêncio em Deus pois só Ele, no Seu infinito Amor, é capaz de iluminar os corações) está tudo dito no Catecismo da Igreja Católica que o Papa João Paulo II quis oferecer à Igreja de Cristo Jesus vendo já as confusões das mentes dos Cristãos, dos Católicos e de todos. Também está muita coisa dita na Tradição (?), que, na pessoa dos Doutores da Igreja – esses verdadeiros e reconhecidos Teólogos – que tantos bons ensinamentos deixaram, bem como tantos Santos e Santas (muitos místicos) que generosamente expuseram o fruto das suas reflexões, meditações e Encontros com Deus. Deus serviu-se deles para nos mostrar a Sua originalidade e Omnipotência. O santo Padre Pio tinha o dom da bilocação, teve os estigmas, tudo isto nasce do Sobrenatural. O próprio S. Paulo diz que quando teve aquele "êxtase" não sabe se foi no corpo se fora dele… (alma). S. Inácio fala tanto das potências da alma. Há uma paz que pode nascer da saciedade das paixões humanas, mas a verdadeira paz é profunda, é na Cruz, numa vida despojada, vazia de tudo para se deixar invadir plenamente pela Vida da alma e do corpo (nessa unidade que nos faz "pessoas"), pela luz, pelo Amor que é o próprio DEUS!

Deus serviu-se destas pessoas, não porque fossem melhores, penso eu, mas para bem de toda a Igreja e de toda a humanidade, para que vendo os bens que lhes concedeu desejemos, não esses mesmos bens, mas sim o Autor desses bens, o Criador!

Desde o início da Criação, passando pela Encarnação e pela Ressurreição Deus tem-Se mostrado, na Sua Imutabilidade, um Deus original e entregue a cada criatura humana.

Que a intercessão de todos eles, e de Maria, nos ajudem a viver em despojamento de tudo, em Fé, em esperança e Amor, pois só assim nasce o Encontro e só assim se pode viver desde já o doce «Céu na terra».

Reze por esta "pequena irmã"!

Saudações

alfredo dinis disse...

pequena irmã em Cristo,

Obrigado pelo seu comentário. Concordo com o que diz. Temos que nos fixar no essencial que é o amor a Deus e ao próximo, não é? Se isto estiver assegurado, estaremos salvos. Quando ao modo como falamos de nós, do mundo e de Deus, acredito que seja muito imperfeito. Um dia veremos 'face a face' e então compreenderemos quanto os nossos actuais conhecimentos são imperfeitos.

Saudações fraternas,

Alfredo Dinis,sj

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo,

Mais uma vez, obrigado pela sua resposta.

«Se o pecado original não for entendido a partir de uma leitura literal do Génesis, então não tem uma relação necessária com um só casal de seres humanos.»

1. Eu insisto em que, havendo uma série de afirmações tão distintas e complexas no Génesis, é arriscado quer rejeitar a leitura literal em todas elas, quer impor uma leitura literal em todas elas; se eu não aceito o literalismo estrito, custa-me a aceitar o simbolismo estrito;

2. O pecado original, a meu ver, não tem uma relação só com um casal de seres humanos; foi causado por eles, e é herdado por todos nós.

«O conceito de ‘alma’ tem origem filosófica e não religiosa.»

Porque razão diz isto? Eu concordaria se nos referissemos apenas à "anima" escolástica, que surgiu da tentativa (bem sucedida, a meu ver) de conciliar os conceitos aristotélicos (por exemplo, no "De anima") com a revelação cristã.

Mas, já no Antigo Testamento, os hebreus concebiam que a matéria inanimada ganhava vida ("animava-se") graças a um "sopro" insuflado por Deus. Veja-se a criação de Adão descrita deste modo. Esse "sopro", que literalmente "anima" a matéria inanimada, não é a alma?

Considera que o conceito de "alma" como "forma substancial" já não se aplica? Como se explica então a clara existência de finalidade e de forma nos seres vivos, e no ser humano em concreto?
Se os átomos e moléculas que nos compõem podem ser vistos como a causa material do nosso ser, e os processos biológicos como causas eficientes, porque razão rejeitar a alma como causa formal do nosso ser?

A meu ver, todas as dificuldades epistemológicas levantadas por áreas científicas tão distintas como a das teorias evolucionistas e a da física quântica, por exemplo, podem ser resolvidas filosoficamente usando os conceitos escolásticos clássicos de matéria e forma, de acto e potência.

Só estou a insistir nisto porque me parece um excelente património. Por um lado, graças a São Tomás, estes conceitos filosóficos foram maravilhosamente harmonizados com a revelação cristã, e por outro, continuam a ser conceitos úteis e válidos para resolver problemas científicos.

Eu não consigo compreender o surgimento da vida, a organização da matéria, sem causas finais e formais.

No que diz respeito ao ser humano, a alma e o estudo das suas faculdades parece-me ser essencial, precisamente, para nos distinguir dos primatas e de outros animais. Sem negar que estes também tenham alma, têm seguramente uma alma radicalmente diferente da nossa.

Eu entendo a sua preocupação com o manter a alma unida ao corpo, e não posso estar mais de acordo. Pois, a meu ver, quando Deus cria um ser humano, cria-o alma e corpo, uma alma unida a um corpo (este valioso raciocínio protege-nos do erro da reencarnação). No entanto, é também verdade que, uma vez desaparecido o corpo, a alma persiste, pelo que é nela que devemos situar a nossa "casa" ontológica.


«Mais uma vez, todas essas explicações são possíveis apenas se partirmos de uma interpretação literal do Génesis. O sofrimento e a morte fazem parte da nossa natureza humana. Não precisamos do pecado original para o explicar.»

Certamente que não. Mas se acreditarmos que Deus criou o Homem primordial (Adão e Eva) sem sofrimento e sem morte (como eu acredito), então o Pecado Original é a chave para a compreensão de toda a história da Queda e da Redenção.

«O que nos faz seres humanos é o nosso carácter relacional, a nossa abertura aos outros, a Deus. Neste sentido, a forma substancial não tem nada de substância mas sim de relação.»

De acordo, o carácter relacional é essencial, e nunca o neguei.
Perdoe-me a ignorância filosófica, mas como é que há relação sem substância? A relação estabelece-se entre entes, correcto? Ora esses entes têm substância, correcto? Até Deus tem substância. Nós dizemos no Credo, acerca do Filho, que é "consubstancial ao Pai", ou seja, da mesma substância que o Pai.

Repare que eu não nego, em nada, a perspectiva relacional. Só acho que deve coexistir com a perspectiva substancial.

«Do ponto de vista científico, são possíveis as duas hipóteses.»

Sim, sem dúvida.

«O monogenismo corresponde a uma leitura literal do Génesis e do pecado original. Sem esta leitura literal o poligenismo é, também do ponto de vista cristão, tão aceitável como o monogenismo.»

Eu insisto neste ponto: porquê rejeitar, liminarmente, essa leitura literal, em todas as expressões que lá constam? Nalgumas pontuais, ainda compreendo e aceito. Mas em todas? Será que, em nome de uma ciência evolucionista ainda sem respostas definitivas para a origem da vida, muito menos a humana, temos o direito de rejeitar totalmente o conteúdo literal do Génesis, ficando só com o simbólico?

Neste aspecto, eu não resisto a dar uma mão aos nossos irmãos evangélicos (e outros) que mantêm uma grande confiança na literalidade do Génesis, apesar de eu mesmo contestar algumas leituras literais que eles fazem.

E recuso-me terminantemente a minorar a perspectiva que eles trazem ao debate. A meu ver, o problema é tão complexo que não me parece prudente afirmar, como se feito, que os criacionistas fazem o seu próprio contraditório. Eles têm bons argumentos que não podem ser desprezados de forma leve.

«Sim, a ciência admite essa possibilidade.»

Pois, mas a ciência faz bem em admitir todas as possibilidades, enquanto não tem uma resposta definitiva. E parece-me que nós, cristãos, faríamos bem em manter, no que diz respeito às Sagradas Escrituras, o sentido literal das expressões até que uma verdade científica comprovada nos mostre que a leitura literal estava errada. Em que é que este meu raciocínio está errado?

«Sim, mas isso não se pode aceitar literalmente, se se aceita a evolução.»

Ah, mas então chegamos ao cerne do problema, caro Pe. Alfredo!

É que eu não estou ainda disposto a abandonar o que escrevi atrás, que faz parte da tradição cristã que recebi, sem que a verdade última científica acerca da origem do homem esteja bem definida.

Eu aceito a selecção natural como mecanismo comprovado. Aceito todos os resultados laboratoriais demonstrados. No entanto, em laboratório, nunca se gerou vida, muito menos humana, a partir de matéria inanimada.

Isso mostra o quão arriscado é agarrarmo-nos ao evolucionismo como chave explicativa da verdade última sobre a vida corpórea do Homem. Nesse sentido, creio que o Génesis, lido em certos trechos de forma literal, ainda tem muito para nos ensinar.

«Se houve paraíso terrestre, onde lhe parece que estava? Na Palestina? Onde?»

Porventura em África, onde alguns situam o surgimento do primeiro grupo de seres humanos.

«Se aceitamos a evolução, não é possível aceitar uma vida sem morte nem sofrimento.»

Mais uma razão para se lidar com o máximo de cuidado com estes temas, porque claramente há uma fricçâo entre a tradição cristã e certas formas de se ver o evolucionismo. E não me parece que essa fricção se resolva com posições extremadas, seja contra a leitura literal, seja pela leitura literal.

«Esta era uma tradição na Igreja Católica, mas o actual Papa declarou que o limbo não passou de uma mera hipótese teológica que não tem hoje qualquer lógica.»

Eu não estou a defender o limbo, estou apenas a apontar esta questão como mais um argumento a favor da tese de que há algo de sério e real acerca do Pecado Original. Com a rejeição do conceito de limbo, procurou-se recentemente vincar bem a realidade do estado de queda:

«Il peccato originale comporta uno stato di separazione da Cristo, il che esclude la possibilità della visione di Dio per coloro che muoiono in questo stato.»

O documento da Comissão Teológica que estudou este tema deixa razões suficientes para acreditarmos que a salvação tradiza por Cristo é suficiente para limpar o pecado original dos bébés que morrem sem o baptismo. Estamos de acordo neste ponto. Mas o texto sublinha claramente a realidade de Adão, do Pecado Original trazido pelo primeiro casal, e da marca de pecado original herdada por todo o ser humano, marca essa que, nesta vida, só o baptismo limpa.

«Caro Bernardo, aconselho-o a que leia, por exemplo, o livro de Karl Rahner Curso de Introdução à Fé. Aí encontrará tratadas estas questões de uma forma que me parece muito actual.»

Obrigado pela sua sugestão. É uma obra que ainda não consta da minha modesta biblioteca.

Um abraço,

Bernardo

Pequena irmã em Cristo disse...

Padre Alfredo,

Obrigada pelo comentário. Também me parece essencial amar a Deus e ao próximo: não faz sentido nenhum dizer que se ama a Deus se não se ama o próximo como nosso irmão em Cristo Jesus. Parece-me uma lógica consequência: amar a Deus e receber o Seu amor (a tal "relação") para o retribuir não só a Ele – só – mas também a Ele na pessoa dos irmãos. Quem ama a Deus consequentemente O verá em todos e todas as criaturas remeterão a Ele. Sem amor substancial (Espírito Santo) parece-me não poder haver nenhuma verdadeira e perfeita relação humana – na Verdade – capaz de reforçar a nossa tão digna entidade de "pessoas".

«Um dia veremos 'face a face' e então compreenderemos quanto os nossos actuais conhecimentos são imperfeitos». Pois é… Vivemos na FÉ perante o Mistério. Posso ter dito muito disparates, mas é o meu pensar: pobre e ignorante…

Alguém me disse (pessoa consagrada), para muito espanto meu, que lhe basta o Evangelho e rezar, rezar, rezar. Não perder tempo com o resto. Nem vida de santos, nem raciocínios desmedidos, nada. Oração ininterrupta em FÉ, apenas. Amar, agradecer. Muito bem. Admiro muito, mas ainda sou demasiado curiosa…, e pouco simples, e talvez humilde…

Soli Deo honor et gloria!

Muito agradecida por tudo, por toda a paciência e gentileza.

A-Deus…

alfredo dinis disse...

Caro Bernardo,

Não compreendo bem o que quer dizer com a expressão ‘simbolismo estrito’. Fico com a sensação, quando se fala de interpretação metafórica de algumas passagens da Bíblia, que algumas pessoas crêem que estamos a diminuir a força de revelação dessas passagens. Mas não estamos. O sentido metafórico do livro de Job não lhe retira o extraordinário poder que tem de comunicar uma profunda sabedoria.

O sopro pode ser interpretado como relação. O que me ‘anima’, que me dá a vida realmente humana, que extravasa a vida biológica, é a relação que tenho com Deus e, através dele, com os outros. É nesta linha que vai Joseph Ratzinger em Introdução ao Cristianismo. E creio que é por aqui que vai a teologia católica desde o Vaticano II. Reconheço que o conceito substancial de ‘alma’ predomina nos textos do Magistério. O mesmo Magistério aceita, desde o Vaticano II, que corpo e alma formam um só ser, o ser humano. Formam uma unidade. O problema com esta concepção é que esta unidade é precária e passageira. Ela não existe no início da vida humana. Deus cria a alma enquanto os pais geram o corpo. E deixa de existir no momento da morte. E volta a existir na ressurreição final. Este entrar e sair da alma parece-me um esquema explicativo desnecessariamente complicado. A alma como ‘relação’ pode ser considerada a ‘forma’ do corpo, mas esta forma não tem que ser substancial, a não ser que queiramos permanecer agarrados às formulações aristotélico-tomistas. Mas isso não é uma fatalidade.

Quanto ao aparecimento da vida, sou teilhardiano. A perspectiva de Teilhard de Chardin que vê o processo evolutivo como a estrutura de todo o universo que se vai revelando em todas as suas potencialidades em direcção ao Cristo cósmico é uma excelente concepção que nos permite compreender que não temos que introduzir descontinuidades, de certo modo misteriosas, entre vida e não vida, entre matéria e espírito, nem mesmo entre Deus e universo, sendo certo que Deus não é o universo.

Quanto aos animais, acredito que também sejam amados por Deus e que, como parte do universo que se transfigurará, juntamente com a matéria dos nossos corpos, Deus guardará alguma relação com eles. O que nos distingue deles é a qualidade desta relação que não é dialogal no mesmo sentido que se aplica aos seres humanos o termo ‘diálogo’.

Quanto à possibilidade de pensarmos a relação sem substâncias que a constituam, a Igreja Católica sempre compreendeu que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus porque não são três substâncias. O que faz o Pai ser Pai é a sua relação com o Filho e com o Espírito. A relação é constitutiva de cada uma das pessoas da Trindade. Não é algo de exterior, que se acrescentasse àquilo que fossem em si mesmas, como se pudessem ser concebidas independentemente da relação. Pensar o Pai sem O pensar como relação seria ‘aniquilá-lO’. S. Tomás reconheceu isto mesmo, como toda a teologia católica, mas cometeu, a meu ver, um dos erros mais graves da teologia: negar que esta compreensão da Trindade se aplique à compreensão da humanidade. Mas não somos imagem de Deus? O que nos faz sê-lo? Para S. Tomás é a inteligência que nos constitui como imagem da Trindade. Tenho pena, uma pena quase infinita, deixe-me desabafar, que S. Tomás não tenha proposto que, como imagem de Deus, nós ‘somos relação’, tal como as pessoas da Trindade. Neste sentido, nós já estamos em Deus exactamente do mesmo modo que o Filho está no Pai e o Pai no Filho. Nós já estamos, desde o momento da concepção, nesta relação que nos constitui, no sei da Trindade, pessoas amadas por Deus. Não necessitamos de um dualismo eu-Deus, duas substâncias, para que entre elas se possa estabelecer uma relação.

Quanto ao pecado original, a teologia não o nega, mas dá-lhe um significado que não tem absolutamente nada a ver com uma interpretação literal do Génesis.

Caro Bernardo, li com gosto o seu artigo sobre Galileu no ‘portal dos ateus’. Eu tenho uma desagradável sensação, quando discutimos o ‘caso Darwin’: é que me parece que estamos mesmo a repetir o erro de hermenêutica bíblica que se cometeu no caso Galileu. A argumentação é praticamente a mesma. As razões para interpretar, erradamente, certas passagens da bíblia em sentido literal, são exactamente as mesmas de hoje, para interpretar literalmente certas passagens bíblicas. Como pergunta Francis Collins na obra A Linguagem de Deus: ‘será que não aprendemos nada com o caso Galileu?’.

Finalmente, esclareça-me brevemente uma dúvida: o Bernardo acha que se pode harmonizar o evolucionismo (em sentido não ateu) com a leitura literal do Génesis? A sua ideia de que o paraíso terrestre talvez tenha sido criado na África, porque segundo a ciência parece ter sido lá que surgiram os primeiros seres humanos, deixou-me essa impressão.

Um abraço,

Alfredo Dins,sj

alfredo dinis disse...

pequena irmã em Cristo,

Não sei se usa a expressão 'amor substancial' em sentido filosófico ou em sentido mais espiritual, no sentido de 'fundamantal'.

Sendo embora verdade que sem oração não podemos viver, concordo com a irmã em que temos que estar atentos ao que se passa neste mundo para lhe comunicar o Evangelho de Jesus.

Saudações fraternas,

Alfredo Dinis,sj

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo,

Muito obrigado pela sua mensagem, que me ajudou muito a esclarecer alguns aspectos.

«Não compreendo bem o que quer dizer com a expressão ‘simbolismo estrito’.»

Quero significar uma leitura das Escrituras da qual o nível literal de interpretação foi totalmente removido, permanecendo apenas os níveis metafórico e teológico.

«Fico com a sensação, quando se fala de interpretação metafórica de algumas passagens da Bíblia, que algumas pessoas crêem que estamos a diminuir a força de revelação dessas passagens. Mas não estamos.»

Não, claro que não estamos. Em muitas passagens, o sentido metafórico é muito mais importante e profundo que o literal.

«O sentido metafórico do livro de Job não lhe retira o extraordinário poder que tem de comunicar uma profunda sabedoria.»

Certamente que não. Não o nego. Apenas me interroguei acerca das razões que levam a uma remoção total da leitura literal. É que não há base epistemológica, parece-me, para negar um acontecimento como o de Job dentro da baleia, lido literalmente. Também não há base para o provar, é certo.

«O sopro pode ser interpretado como relação. O que me ‘anima’, que me dá a vida realmente humana, que extravasa a vida biológica, é a relação que tenho com Deus e, através dele, com os outros. É nesta linha que vai Joseph Ratzinger em Introdução ao Cristianismo.»

Eu sei que pareço teimoso, mas não quero remover uma vírgula de tudo o que Pe. Alfredo me tem explicado sobre a relação e a sua importância, que eu não nego e tenho que aceitar totalmente. Mas sucede que eu entendo que só há relação entre substâncias. Por isso, parece-me que a visão relacional depende, ontologicamente, da visão substancial.

«E creio que é por aqui que vai a teologia católica desde o Vaticano II.»

Mas esta nova teologia rejeita a visão substancial? Ou pretende apenas, como me parece, sublinhar o aspecto relacional, dando-lhe um novo destaque e uma nova profundidade?

«Reconheço que o conceito substancial de ‘alma’ predomina nos textos do Magistério. O mesmo Magistério aceita, desde o Vaticano II, que corpo e alma formam um só ser, o ser humano.»

Apenas desde o Vaticano II porquê?
Parece-me que sempre o aceitou, se não estou em erro. A substância "ser humano", para ser realmente uma substância, deve definir aquilo que, perante os acidentes, permanece igual a ela própria.

Substância é, afinal, o que num dado ente não muda e permanece o mesmo. Do pouco que percebo da exposição de São Tomás, a individuação substancial de cada ser humano, sendo feita necessariamente pela alma (a parte perene do composto "homem", sua a parte "formal"), abarca também o corpo na mesma substância.

Tenho aqui à mão "Do ente e da essência", de São Tomás de Aquino, onde a certa altura se lê:

"ela [a alma humana] torna-se a tal ponto próxima das coisas materiais, que a realidade material é levada a participar no seu ser, de modo que da alma e do corpo resulte um só ser num só composto, embora esse ser, enquanto pertence à alma, não seja dependente do corpo"

«Formam uma unidade. O problema com esta concepção é que esta unidade é precária e passageira.»

Não o sigo.
Parece-me que o termo "passageira" (e também o termo "precária") só se aplicam à parte material de cada ser humano. Mas só há duração temporal "do lado de cá", ou seja, do lado material e temporal do nosso ser. Do ponto de vista de Deus, ou se quisermos, do ponto de vista da alma, a unidade permanece sempre a mesma. É essa mesma unidade, que junta uma alma "extra-temporal" a um corpo "temporal", que evita o erro grosso da reencarnação.

«Ela não existe no início da vida humana. Deus cria a alma enquanto os pais geram o corpo. E deixa de existir no momento da morte. E volta a existir na ressurreição final. Este entrar e sair da alma parece-me um esquema explicativo desnecessariamente complicado.»

Eu não consigo concordar com a forma como o Pe. Alfredo afirma que a alma existe e deixa de existir, entra e sai, etc...

Parece-me que está a aplicar terminologia temporal à alma, que não está sujeita, na sua essência, ao tempo.

Perdoe-me o atrevimento de parecer que o estou a corrigir, mas estou apenas a tentar ver se há algum erro no meu raciocínio, e que erro será esse.

Da forma como vejo as coisas, a alma permanece criada na eternidade de Deus, desde sempre e para sempre. A criação de uma alma por Deus é feita com a associação imediata de um corpo a essa alma. Ora, é esse corpo que tem uma localização específica no tempo e no espaço. Tudo o que se analisar em termos temporais, com palavras como "antes", "depois", etc., só se aplica ao corpo. Mas a unidade deste com a alma permanece imutável na eternidade de Deus.

«A alma como ‘relação’ pode ser considerada a ‘forma’ do corpo, mas esta forma não tem que ser substancial, a não ser que queiramos permanecer agarrados às formulações aristotélico-tomistas.»

As palavras são complicadas, e geram confusão. Para mim, e parece-me que também para S. Tomás, "substância" é o que define a essência de um ser, aquilo que permanece o mesmo independentemente dos acidentes. Por isso, tudo o que quisermos individuar, ou considerar em si mesmo, tem que ser algo de substancial (ou outro termo que se invente para o mesmo conceito).

Eu não estou a defender necessariamente uma escola terminológica. Estou à procura da verdade última destes conceitos ontológicos, e parece-me que a ideia de substância, use-se a palavra que se quiser usar, é a seguinte: em termos ontológicos, o que é que individua uma coisa, o que é que a define enquanto coisa, independente dos seus acidentes e das mudanças que lhe são impostas com o devir?

Eu uso o termo substância, em última análise, para dizer "Quem é o Pe. Alfredo?", "quem é o Bernardo?", e acho que só uma noção como a de substância ajuda a encontrar uma resposta independente das alterações que os nossos corpos e mentes "sofrem" durante uma vida corporal atribulada e sujeita à matéria.

Por isso, só consigo conceber algo em si mesmo e individuado, e ontologicamente persistente, como sendo substancial.

Depois, é entre as várias substâncias que se estabelecem relações, e aqui volto a juntar-me ao que o Pe. Alfredo expôs acerca da importância da perspectiva relacional.

«Quanto ao aparecimento da vida, sou teilhardiano. A perspectiva de Teilhard de Chardin que vê o processo evolutivo como a estrutura de todo o universo que se vai revelando em todas as suas potencialidades em direcção ao Cristo cósmico é uma excelente concepção que nos permite compreender que não temos que introduzir descontinuidades, de certo modo misteriosas, entre vida e não vida, entre matéria e espírito, nem mesmo entre Deus e universo, sendo certo que Deus não é o universo.»

Parece-me que é possível existir distinção sem separação. Concordo que a descontinuidade ontológica pode ser problemática, sobretudo na relação entre Deus e as criaturas. No entanto, parece-me que algo pode ser distinguido (como Deus da Criação, como Deus de uma alma humana), sem que isso implique uma ruptura ontológica ou uma descontinuidade.

Com todo o respeito pelo escritor e cientista jesuíta, cuja obra conheço mal (li o "A Minha Fé"), do que li não me foi fácil extrair uma leitura filosófica objectiva. Concordo que há passagens de grande intuição, mas pareceu-me mais uma intuição poética do que uma intuição intelectual.

Por exemplo, a ideia teilhardiana de "Transformação Criadora" parece-me uma complicação desnecessária. Uma vez que mistura dois processos distintos (e que coexistem), criando um terceiro termo que não me parece necessário. Uma coisa é Deus criar as formas de vida, por exemplo (algo extra-temporal), outra coisa é a mudança temporal dessas mesmas formas (o que parece estar a suceder à matéria orgânica com os processos evolutivos).

Mas repito: conheço mal a obra de Teilhard, e não quero ser injusto.

«Quanto aos animais, acredito que também sejam amados por Deus e que, como parte do universo que se transfigurará, juntamente com a matéria dos nossos corpos, Deus guardará alguma relação com eles.»

Sim, certamente que sim. A diferença ontológica, parece-me, é que a forma dos animais não humanos não é uma forma subsistente, ao invés da alma humana, que é uma forma subsistente.

«O que nos distingue deles é a qualidade desta relação que não é dialogal no mesmo sentido que se aplica aos seres humanos o termo ‘diálogo’.»

Estamos a ir ao encontro um do outro, Pe. Alfredo: só há diálogo verdadeiramente pleno entre substâncias persistentes, como é o caso de Deus e do homem.

«Quanto à possibilidade de pensarmos a relação sem substâncias que a constituam, a Igreja Católica sempre compreendeu que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus porque não são três substâncias.»

Sim, mas o Deus uno é uma substância!
A substância dá a unidade, a relação dá a alteridade.

O que faz o Pai ser Pai é a sua relação com o Filho e com o Espírito. A relação é constitutiva de cada uma das pessoas da Trindade. Não é algo de exterior, que se acrescentasse àquilo que fossem em si mesmas, como se pudessem ser concebidas independentemente da relação.»

Ah, mas não podem! Sem relação, cai a Trindade! Totalmente de acordo.

«Pensar o Pai sem O pensar como relação seria ‘aniquilá-lO’. S. Tomás reconheceu isto mesmo, como toda a teologia católica»

Totalmente de acordo.
No entanto, porque razão não se veria Deus (uno) como substância?

«mas cometeu, a meu ver, um dos erros mais graves da teologia: negar que esta compreensão da Trindade se aplique à compreensão da humanidade.»

Nunca me tinha dado conta! Pode ajudar-me, por favor, a encontrar o local onde São Tomás o comete?

«Mas não somos imagem de Deus? O que nos faz sê-lo? Para S. Tomás é a inteligência que nos constitui como imagem da Trindade. Tenho pena, uma pena quase infinita, deixe-me desabafar, que S. Tomás não tenha proposto que, como imagem de Deus, nós ‘somos relação’, tal como as pessoas da Trindade.»

Sim, de facto, essa visão relacional faz muita falta. E São Tomás nunca a afirmou? (estou a perguntar, desconheço...)

«Não necessitamos de um dualismo eu-Deus, duas substâncias, para que entre elas se possa estabelecer uma relação.»

Aqui é que eu não o sigo. Se não há nada de subsistente, de substancial, de "real" em sentido ontológico, a relação estabelece-se como? entre que termos? ou melhor, entre que tipo de termos não substanciais é que essa relação se estabeleceria?

«Caro Bernardo, li com gosto o seu artigo sobre Galileu no ‘portal dos ateus’. Eu tenho uma desagradável sensação, quando discutimos o ‘caso Darwin’: é que me parece que estamos mesmo a repetir o erro de hermenêutica bíblica que se cometeu no caso Galileu.»

Espero que não!
Essa foi uma das razões que me levou primeiro a estudar o caso Galileu, antes de me lançar, como faço agora, num trabalho sobre Criação e Evolução.

«A argumentação é praticamente a mesma. As razões para interpretar, erradamente, certas passagens da bíblia em sentido literal, são exactamente as mesmas de hoje, para interpretar literalmente certas passagens bíblicas.»

Porquê?
No caso Galileu, tratava-se de manter uma cosmovisão aristotélica. No "caso Darwin", parece-me que há implicações mesmo teológicas e doutrinais, como a do Pecado Original. A doutrina cristã revelada não contém uma defesa do geocentrismo ou do heliocentrismo, pelo que a Igreja fez mal em condenar Galileu e o heliocentrismo; no entanto, a doutrina revelada contém uma defesa (parece-me) do monogenismo.

«Como pergunta Francis Collins na obra A Linguagem de Deus: ‘será que não aprendemos nada com o caso Galileu?’»

Ah, mas estamos muito diferentes hoje! Eu nunca concordaria com perseguições a cientistas, quaisquer perseguições. O estudo científico, dentro dos limites da moral, deve ser feito sem obstáculos. No entanto, a Igreja tem, parece-me, todo o direito de contestar leituras filosóficas e teológicas dos dados científicos que entrem em contradição com o ensinamento doutrinal da Igreja.

Se alguém diz: "Darwin provou que Deus não existe e que não houve Criação!". A Igreja tem o direito de dizer que tal frase extravasa largamente os dados científicos, e tem o direito de a contestar.

Se alguém diz: "Darwin mostra-nos que não houve um Adão e uma Eva", parece-me que estamos também a fazer os dados falar mais do que eles podem, e aqui a Igreja também pode e deve meter-se na discussão e defender as suas ideias de sempre.

Mas meter-se na discussão não pode ser algo feito como no caso Galileu, com métodos repressivos. Aliás, a Igreja hoje já não dispõe desses métodos.

«Finalmente, esclareça-me brevemente uma dúvida: o Bernardo acha que se pode harmonizar o evolucionismo (em sentido não ateu) com a leitura literal do Génesis?»

Sim, penso que sim. No entanto, e mais uma vez, não me refiro a uma leitura estritamente literal, na qual tudo fosse tomado à letra.

Por exemplo, quando se diz que Adão foi feito do barro, não me choca interpretar essa expressão de forma alegórica, ou seja, feito a partir de formas animais não subsistentes (como, por exemplo, espécies animais sub-humanas).

Note que a minha forma de ver as coisas é extremamente delicada, mas espero que esteja certa. Por um lado, eu não estou totalmente convicto da verdade de todas as teses neo-darwinistas, apesar de não negar a selecção natural. É o surgimento de novas espécies que me faz ainda muita confusão. Bem como o surgimento da vida, para o qual ainda não me parece que exista uma resposta definitiva.

Por outro lado, penso que a solução para este problema complexo está em evitar o literalismo estrito e o simbolismo estrito. Manter a fidelidade ao magistério infalível, e ao mesmo tempo, respeitar as reais verdades científicas, descartando visões filosóficas materialistas.

«A sua ideia de que o paraíso terrestre talvez tenha sido criado na África, porque segundo a ciência parece ter sido lá que surgiram os primeiros seres humanos, deixou-me essa impressão.»

Bom, não quero de forma alguma sugerir um local de modo categórico. Não estudei a paleontologia de forma profunda para poder arriscar um local.
Só me parece precipitado recusar a realidade concreta do Éden, bem como a realidade concreta do monogenismo, do casal Adão e Eva.

Mais uma vez, muito obrigado, caro Pe. Alfredo, por esta estimulante troca de ideias!

Um abraço,

Bernardo

Espectadores disse...

Pe. Alfredo,

Poderá dar-se o caso de me perguntar porque razão eu descarto a literalidade do barro e não descarto a literalidade de Adão e Eva como primeiro casal humano.

Em primeiro lugar, uma precisão: não estou a descartar nem a afirmar nada de forma categórica, estou apenas à procura da melhor hermenêutica, daquela que será, idealmente, mais conforme com a realidade.

Se eu acho a literalidade do barro menos provável, é porque a hipótese de o Homem ter sido feito a partir de barro ou a partir de um primata, em termos de "matéria prima", não me parece que altere grande coisa em termos doutrinais.

No entanto, a passagem do monogenismo, que garante a explicação da introdução do pecado no mundo, e que justifica a vinda de Cristo ao mundo, ao poligenismo já me parece demasiado arriscada. E por isso, para proteger o monogenismo, leio a existência do primeiro casal de forma literal.

É como se o leme que eu usasse na minha hermenêutica aproximativa fosse o leme da doutrina imutável e infalível da Santa Igreja. Se me agarrar a ela, não corro risco de errar nessa matéria. E as verdades da ciência nunca me prejudicarão, uma vez que a verdade não contradiz a verdade.

A asneira mais grave, no caso Galileu, foi a de tomar o geocentrismo como parte integrante da doutrina imutável e infalível da Santa Igreja. Dir-me-á o Pe. Alfredo: e o monogenismo, fará mesmo parte dela? Eu penso que sim, e espero conseguir montar uma boa argumentação nesse sentido!

Um abraço,

Bernardo

Victorino disse...

Nas origens, o homem saiu das mãos do Criador como fruto de uma iniciativa de amor. Depois, o pecado ofuscou nele a marca divina. Enganados pelo maligno, os progenitores Adão e Eva faltaram ao relacionamento de confiança com o seu Senhor, cedendo à tentação do maligno, que neles infundiu a suspeita de que Ele era um rival e queria limitar a sua liberdade.

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
PARA O LXXX DIA MISSIONÁRIO MUNDIAL
(Domingo, 22 de Outubro de 2006)

Será que o papa se confunde nestas matérias?

E o que diz a ciência actual tão cultuada nos tempos hodiernos e amanhã fora de moda?

As evidências fornecidas pelos restos fósseis encontrados durante as escavações feitas em Marieta, no Egipto, tem permitido descobrir neste continente as diferentes etapas que conduziram ao hominídeo. Neste sentido vai-se ainda andar muito mais longe, pois se tem conseguido estabelecer também a existência de uma fêmea humana primigénia que viveu em África há duzentos mil anos.
As últimas comprovações das pesquisas realizadas manifestam e coincidem na existência de só uma fonte. De um lado as evidências genéticas oferecidas pelo estudo do ADN herdado da Mãe levou à conclusão de que a humanidade provém de uma Eva africana.

Anne Bowocock, da Universidade de Texas, liderou uma equipa de investigação que centrou os seus estudos em pequenos segmentos altamente repetidos e variáveis do ADN (chamados microsatélites) nos fõsseis humanos africanos, comprovando que estas foram as populações mais antigas, pois os conglomerados humanos que se afastam das suas origens desenrolam menor diversidade genética.

A antropologista norte-americana Diane Waddle, da Universidade de Nova Iorque, recorreu a um método estatístico conhecido como “correlação de matriz” para comparar as diferenças existentes entre os diferentes crânios humanos. As conclusões foram: “ ... as análises quantitativas apresentadas aqui apoiam a crença de uma só origem dos seres humanos modernos, em contraste à de longos processos evolutivos..

O facto é que a Biologia actual considera possível a história de Adão e Eva (“o mito”, como se costuma dizer nos círculos poligenistas), isto é, a do casal que funda uma espécie. Isso na verdade já foi demonstrado em outras espécies. É o caso, por exemplo, das 600 variedades genéticas de moscas drosófilas actualmente existentes no Havai, todas elas descendentes de uma única fêmea fecundada.

Conclusão
Quando as teses de Darwin começam a desaparecer das Universidades dos EUA por se tratar meramente de uma tese sem comprovação científica e o evolucionismo começa a cheirar a mofo, alguns mais desinformados ainda debatem teses absurdas e não acompanham as novas descobertas. Nem Darwin nem Jonatas Machado… Terieis de ser vós a assumir o papel de D. Quixote e defensor de causas perdidas contra os moinhos do criacionismo, ou ficam pelo Sancho do evolucionismo?

Os tempos mudaram!!!

alfredo dinis disse...

Caros Bernardo e Victorino,

Não me esqueci das vossas interrogações, mas não tenho tido oportunidade de lhes responder adequadamente. Prometo fazê-lo no próximo domingo.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Reverendíssimo,

Enquanto não responde, esclareça-me uma curiosidade. Teilhard de Chardin foi um padre jesuíta, adepto ferrenho da teoria da evolução, de Darwin, que se envolveu numa pesada fraude para fazer passar o esqueleto de um macaco pelo de um homem primitivo, o "homem de Piltdown". Foi advertido na altura por Pio XII.

Isto será real? Ficção? Aquilo que se criticou em Jonatas Machado é afinal um rabo de palha de um membro Jesuíta?

Desculpe, mas quero apenas esclarecer. Honro e prezo os jesuítas. Defendi-os várias vezes em circulos públicos.

alfredo dinis disse...

Caro Bernardo,

Não sei se ainda vai ter paciência para ler a minha resposta ao seu último post. Vou procurar ser breve.

1. Sobre a questão da alma e do corpo. Concordo consigo quando se refere ao problema da linguagem que utilizamos para nos referirmos a realidades que extravasam o universo espacio-temporal. Dizer que Deus cria as almas são criadas por Deus desde toda a eternidade parece evitar a questão de introduzir a actividade criadora de Deus na temporalidade humana. Mas porque não? Não sei bem o que significa que Deus já criou todas as almas. Segundo S. Tomás estas têm capacidade de conhecer mesmo separadas do corpo, entre a morte e a ressurreição. Estarão todas as almas já criadas por Deus desde toda a eternidade mas ainda não incarnadas num corpo num estado de actividade cognitiva? De relação com Deus e com os anjos e santos? Por outro lado, o Magistério da Igreja sempre afirmou o dualismo corpo-alma. Mas o Magistério tem autorizado os teólogos a ensinarem nas universidades e a publicarem textos que, não sendo criticados me parecem automaticamente aceites. Ora, há na teologia do século XX uma tendência para reformular significativamente este dualismo. Já lhe referi o actual Papa na sua obra ‘Introdução ao Cristianismo’. Há outros que preferem a perspectiva relacional em vez da substancial, por ser mais adequada à cultura actual.

2. Sobre ‘relação’ e ‘substância’. Tanto Boécio como S. Tomás aceitam que Deus é uma substância. Nela coexistem três Pessoas, e o que as constitui são as relações que entre elas se estabelecem. Repare que temos aqui uma substância e diversas relações. Não precisamos de ter três substâncias para termos várias relações. O que me parece é que se somos criados à imagem e semelhança de Deus, então não me parece tão difícil de conceber que somos relação à imagem e semelhança da Trindade. De facto, só há uma substância, que é Deus, e nós existimos nela, como diz S. Paulo: ‘Nele nos movemos, existimos e somos’. E Jesus, na grande oração sacerdotal de despedida, no Evangelho de S. João, pede ao Pai pelos discípulos: ‘guarda-os em ti, para serem um só, como Nós somos’ (Jo. 17,11); ‘para que todos sejam um só, como Tu, Pai estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós’ (Jo 17,21), ‘de modo que sejam um, como nós somos Um’ (Jo 17,22).

Segundo Boécio, as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.

Nesta linha segue S. Tomas de Aquino que na Summa Contra Gentiles afirma: “a relação, que realmente se acrescenta à substância, possui o último e o mais imperfeito grau do ser. O último porque supõe não apenas o ser da substância, mas também o ser dos outros acidentes que estão na origem da relação... O mais imperfeito, dado que a natureza mesma da relação, sendo do ser-a-um-outro, o seu ser próprio, que se acrescenta à substância, depende não apenas do ser da substância, mas também do ser de um agente exterior” (Summa Contra Gentiles, Roma: Desclée & C.-Herder, 1934, 159). Porque se deve acrescentar a substância à relação? Se S. Tomás não tivesse acreditado que o que nos faz imagem de Deus é a inteligência e, em vez disso, tivesse considerado que é a natureza relacional que nos faz ser quem somos, em Deus, tanto a filosofia como a teologia ocidentais estariam muito diferentes hoje.

3. Sobre a relação do ‘caso Darwin’ com o ‘caso Galileu’, referia-me à interpretação literal da Bíblia. No processo de Galileu foi sempre invocado o princípio de que, em princípio, a Bíblia deve ser interpretada literalmente. Este princípio fora explicitamente declarado pelo Concílio de Trento, e não oferece nenhum problema, porque deixa aberta a possibilidade da interpretação metafórica. Mas no tempo de Galileu, as passagens da Bíblia que se referiam ao movimento do Sol eram interpretadas literalmente pelos seus adversários, com a justificação de que Galileu não provara cientificamente o movimento da Terra. De facto, não provara, mas os indícios eram muitos. Hoje parece-me que se comete o mesmo erro no que se refere à interpretação dos primeiros capítulos do Génesis: poderiam ser interpretados metaforicamente se houvesse prova científica que o justificasse. Mas para alguns não há. O Papa João Paulo II considerou que a evolução das espécies é uma teoria com suficiente justificação científica. Tal como no caso de Galileu, em relação ao universo, não é possível harmonizar uma interpretação literal do Génesis com o evolucionismo. Nem sequer uma interpretação não estritamente literal. Tal como no caso Galileu, a ciência obriga a refazer a narração da criação ds humanidade desde o princípio. Foi isso que tentou fazer Teilhard de Chardin, um homem de quem se parece ter ainda medo.

Caro Bernardo, afinal acabei por não ser tão breve como gostaria. Obrigado pela paciência!

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

alfredo dinis disse...

Caro Victorino,

O Papa Bento XVI falou em termos metafóricos. Pode crer! Em 'Credo para o Homem de Hoje' (Ed. Franciscana, p. 49) afirma: 'o aparecimento do espírito significa ... que o movimento ascendente chegou à meta que lhe estava destinada'. O ser humano é o resultado de um 'movimento ascendente' em terminologia de Teilhard de Chardin, que Bento XVI cita com frequência.

Não é verdade que as Universidades americanas estão a deixar o evolucionismo. Você sabe que não é verdade. Poderá haver algumas que o façam - o país tem milhares de universidades. Mas não as mais prestigiadas.

Quando diz que a Biologia prova que os seres humanos descendem de uma fêmea, deve saber que isso é apenas uma hipótese. Mas mesmo neste caso, essa fêmea, a Lucy, surgiu num determinado momento evolutivo, e não tem nada a ver com a Eva do Génesis, literalmente interpretado. Não acredito que seja possível harmonizar uma interpretação literal do Génesis com a Biologia actual. Não se trata de uma crença.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

Se fizer uma pesquisa elementar na internet verá que a acusação feita a Teilhard de Chardin que refere tem muito pouca consistência. A mesma acusação é feita a diversos personagens. S. Jay Gould fez essa acusação a Teilhard sem ter suficientes provas para isso. Como era um cientista respeitado, passou a mensagem de que Teilhard colaborou na fraude. Quem conhecer a vida de Teilhard verá que a acusação não tem fundamento.

Teilhard de Chardin foi repreendido por muitas autoridades na Igreja, mas não directamente por qualquer Papa. Foi, pleo contrário, louvado pelos Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Esta é a verdade.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Andrade disse...

Visto as aparentes discrepâncias em relação ao magistério da Igreja presentes neste blog por parte de alguns intervenientes, gostaria de deixar aqui um conjunto de textos pesquisados sobre este assunto. Do catecismo da Igreja Católica, da Fides et Ratio, dos documentos auxiliares presentes no site da Congregação para o Clero, e de grandes Papas: João Paulo II e Bento XVI.

Fique a nossa língua muda perante estes testemunhos de eloquência e verdade.

CIC
Interpretando de maneira autêntica o simbolismo da linguagem bíblica à luz do Novo Testamento e da Tradição, a Igreja ensina que nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram constituídos em um estado "de santidade e de justiça original". Esta graça da santidade original era uma participação da vida divina.

(Título)
O PECADO ORIGINAL UMA VERDADE ESSENCIAL DA FE

São Paulo ensina-nos que dois homens estão na origem do género humano: Adão e Cristo... "O primeiro Adão", diz ele, "foi criado como um ser humano que recebeu a vida; o segundo é um ser espiritual que dá a vida." O primeiro foi criado pelo segundo, de quem recebeu a alma que o faz viver... O segundo Adão estabeleceu sua imagem no primeiro Adão quando o modelou. E assim se revestiu da natureza deste último e dele recebeu o nome, a fim de não deixar perder aquilo que havia feito à sua imagem. Primeiro Adão, segundo Adão: o primeiro começou, o segundo não acabará. Pois o segundo é verdadeiramente o primeiro, como ele mesma disse: "Eu sou o Primeiro e o último"

Fonte: Catecismo Igreja Católica (em português do Brasil)


Sucessivamente, o Papa Pio XII fez ouvir a sua voz quando, na carta encíclica Humani generis, preveniu contra interpretações erróneas que andavam ligadas com as teses do evolucionismo, do existencialismo e do historicismo. Explicava ele que estas teses não foram elaboradas nem eram propostas por teólogos, mas tinham a sua origem « fora do redil de Cristo »; (68) <…> Por último, também a Congregação da Doutrina da Fé, no cumprimento do seu múnus específico ao serviço do magistério universal do Romano Pontífice, (70) teve de intervir para sublinhar o perigo que comportava a assunção acrítica, feita por alguns teólogos da libertação, de teses e metodologias provenientes do marxismo. (71) Vemos assim que, no passado, o Magistério exerceu reiteradamente e sob diversas modalidades o discernimento em matéria filosófica. Aquilo que os meus Venerados Predecessores enunciaram, constitui um contributo precioso que não pode ser esquecido.

Fonte: Fides et Ratio


Per tutti questi motivi, stupiscono le affermazioni di perentoria certezza nelle teorie evolutive. Talora pateticamente contraddittorie… Lo scienziato serio, più attento alle osservazioni che alle sue idee, è costantemente messo di fronte allo spettacolo della creazione, con tutta la sua carica di imprevedibilità ma soprattutto di bellezza, di meraviglia, di inesauribilità.
Fonte Congregação para o clero (documentos) Ler mais em (it.): http://www.clerus.org/clerus/dati/1999-05/06-2/EvoluzioneCreazione.rtf.html

La verità di fede circa la creazione dal nulla («ex nihilo»), sulla quale ci siamo soffermati nelle catechesi precedenti, ci introduce nelle profondità del mistero di Dio, Creatore «del cielo e della terra». Secondo l'espressione del Simbolo apostolico: «Credo in Dio Padre onnipotente, creatore...», la creazione è attribuita principalmente al Padre. In realtà essa è opera delle tre persone della Trinità secondo l'insegnamento già presente in qualche modo nell'Antico Testamento e rivelato pienamente nel Nuovo, particolarmente nei testi di Paolo e di Giovanni.
GIOVANNI PAOLO II
La creazione è rivelazione della gloria di Dio
mercoledì, 12 marzo 1986

O sopro de Jesus é o Espírito Santo. Reconhecemos aqui, antes de mais, uma alusão à narração da criação do homem no Génesis, onde está escrito: "O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida" (Gn 2, 7). O homem é esta criatura misteriosa, que provém totalmente da terra, mas no qual foi posto o sopro de Deus.

HOMILIA PAPA BENTO XVI
DURANTE A CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
PARA A ORDENAÇÃO DE 21 SACERDOTES
NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Domingo, 15 de Maio de 2005

José Manuel disse...

Reverendíssimo,

Espero que saiba ler inglês.

Academics fight rise of creationism at universities· More students believe Darwin got it wrong
This article appeared in the Guardian on Tuesday February 21 2006

A growing number of science students on British campuses and in sixth form colleges are challenging the theory of evolution and arguing that Darwin was wrong. Some are being failed in university exams because they quote sayings from the Bible or Qur'an as scientific fact and at one sixth form college in London most biology students are now thought to be creationists.

Duncan Campbell The Guardian, Tuesday February 21 2006 Article

Disse ao vitorino que a Biologia dificilmente se conjuga com o Adão e a Eva. Curioso, de acordo com este artigo, cada vez mais estudantes de Biologia pensam o contrário. E aderem ao que diz a bíblia. Fanáticos? Serão? O artigo é do Guardian... tem o seu prestígio...

Quando disse que nenhum papa condenou Chardin, talvez não soubesse que Pio XII o fez...

Crítica tanto as outra teorias... O evolucionismo também é uma teoria. A promoção do diálogo poderá trazer novos conceitos, ideias, evolução – essa palavra que tanto gosta. Creio que o mistério da vida humana talvez se possa enquadrar com Darwin, como com todas as questões do ADN que têm sido descobertas, entre outras teses bonitas como a que li no Público recentemente e que dizia que as primeiras formas de vida teriam descido com as primeiras chuvas, do Céu, achei bonito, simbólico, e eram cientistas que o diziam... Tudo teorias, teses, nada de certezas. Permanece o mistério…

Disse que Bento XVI é pelo evolucionismo (citou até algo que me parece não ter muita relação, aliás, incompleto). Chamo-lhe a atenção ao que escreveu o vitorino e o andrade. São citações fortes de Bento XVI e que a sua pobre frase do livrinho dos franciscanos foi incapaz de refutar...

Muito obrigado entretanto por esta possibilidade de diálogo, bem-haja, mais força teológica e científica, recomendo-lhe. Parece que a balança está a pender mais para o outro lado e talvez esta questão mereça o seu equilíbrio. Mas como os Jesuítas são mais dados ao estudo do que à oração, penitência, e esses medievalismos, logo, logo vai achar um livro que refute. Desde que não seja pró teologia da libertação, claro...

Recomendo-lhe Tomás de Aquino: colocava a cabeça no sacrário para resolver algumas questões e dizia que aprendia mais diante do Santíssimo do que com todos os livros lidos.

Saudações cordiais,

José Manuel

alfredo dinis disse...

Caro Andrade,

Deixo-lhe aqui algumas citações do Magistério sobre o evolucionismo:

“o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente” (Pio XII Humani generis 36)

“non creano ostacoli una fede rettamente compresa nella creazione o un insegnamento rettamente inteso dell’evoluzione: l’evoluzione infatti presuppone la creazione; la creazione si pone nella luce dell’evoluzione come un avvenimento che si estende nel tempo - come una “creatio continua” - in cui Dio diventa visibile agli occhi del credente come Creatore del Cielo e della terra.”Discurso de João Paulo II aos participantes no simpósio internacional sobre ‘fé cristã e teoria da evolução” (1985)
“In his encyclical Humani Generis (1950), my predecessor Pius XII has already affirmed that there is no conflict between evolution and the doctrine of the faith regarding man and his vocation, provided that we do not lose sight of certain fixed points….
Today, more than a half-century after the appearance of that encyclical, some new findings lead us toward the recognition of evolution as more than an hypothesis.* In fact it is remarkable that this theory has had progressively greater influence on the spirit of researchers, following a series of discoveries in different scholarly disciplines. The convergence in the results of these independent studies—which was neither planned nor sought—constitutes in itself a significant argument in favor of the theory.” (John Paul II, Message to the Pontifical Academy of Sciences 1996)

O evolucionismo só é rejeitado pelos Papas quando se apresenta na sua versão ateia de pretender eliminar Deus no que se refere à origem da vida. Nenhum dos Papas rejeita a teoria da evolução que seja compatível com a fé em Deus criador. Mas a teoria da evolução é certamente incompatível com uma interpretação literal do Génesis. Não encontará em nenhum texto do Magistério a afirmação explícita de que o Génesis deve ser interpretado literalmente, e que Adão e Eva foram criados literalmente do pó da terra, sendo Eva criada a partir de uma costela de Adão.


Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro José Manuel,

A afirmação de que cada vez mais estudantes de biologia estão a aceitar que Adão e Eva existiram é demasiado vaga. Pelo que conheço da realidade portuguesa, não creio que isso esteja a acontecer. Se tem dados mais concretos, peço que mos envie.

Falando de S. Tomás, ele analisou diversas questões como, por exemplo, a seguinte: "Será que no corpo ressuscitado crescem as unhas e os cabelos?"

Que lhe parece?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo,

«Não sei se ainda vai ter paciência para ler a minha resposta ao seu último post. Vou procurar ser breve.»

Não faz sentido falar em paciência quando se corre por gosto!
O meu problema não tem nada a ver com paciência, mas sim com tempo e inspiração!
Muito obrigado pelo tempo que tem despendido neste debate.

«1. Sobre a questão da alma e do corpo. Concordo consigo quando se refere ao problema da linguagem que utilizamos para nos referirmos a realidades que extravasam o universo espacio-temporal. Dizer que Deus cria as almas são criadas por Deus desde toda a eternidade parece evitar a questão de introduzir a actividade criadora de Deus na temporalidade humana. Mas porque não? Não sei bem o que significa que Deus já criou todas as almas.»

Parece-me que, de novo, a palavra "já" nos está a enganar. O que me parece é que, fora do tempo e do espaço, Deus tem todas as criaturas como reais e suas numa espécie de "eterno presente". Sem qualquer consideração temporal ou espacial, porque aquilo que nós somos, de forma perene, ou seja, a nossa alma, está para lá do tempo e do espaço.

«Segundo S. Tomás estas têm capacidade de conhecer mesmo separadas do corpo, entre a morte e a ressurreição. Estarão todas as almas já criadas por Deus desde toda a eternidade mas ainda não incarnadas num corpo num estado de actividade cognitiva?»

Concordo necessariamente com São Tomás.
No entanto, penso que a linguagem temporal nos está a enganar novamente.
Repare que está a usar, novamente, uma expressão temporal: "mas ainda não incarnadas".
Do modo como vejo as coisas, é o corpo que nos "agarra", de certo modo ontológico, a uma presença num intervalo espacial e temporal. É como se a criação de uma alma humana por Deus implicasse sempre uma "corporização", por muito curta que esta seja no tempo (por exemplo, no caso do aborto espontâneo de um ovo fecundado com poucos instantes de vida).

Não me parece que faça sentido falar em actividade cognitiva "antes" ou "depois" da vida terrena, uma vez que esses termos temporais não se aplicam no domínio ontológico do sobrenatural. Eu diria, parece-me que em sintonia com São Tomás, que há sempre actividade cognitiva para o ser humano "fora" da vida terrena. A vida sobrenatural tem primazia sobre a corpórea, e a primeira não deixa de ser fortemente condicionada pela segunda. Daí advém a importância e a causalidade que todos os nossos actos terrenos "transportam" para a vida sobrenatural da alma.

Do ponto de vista da consciência neurológica, esta só faz sentido enquanto se desenrola o "drama" da nossa vida terrena. Enquanto temos células neuronais vivas. No entanto, do ponto de vista sobrenatural, temos sempre actividade cognitiva. Só que esta actividade, do ponto de vista terreno, é feita através dos sentidos. É como se os nossos sentidos fossem uma pequena janela que ilumina o nosso conhecimento interior enquanto estamos vivos. No entanto, o conhecimento interior da nossa alma é capaz de abrir muitas janelas, não só a pequena janela sensorial.

Por isso, eu diria que a nossa alma tem sempre faculdades cognitivas, que no caso corpóreo advêm sempre dos sentidos. São Tomás explica que, do ponto de vista corpóreo, todo o conhecimento que chega ao intelecto tem que atravessar os sentidos. Mas esta restrição não se aplica à actividade cognitiva da alma considerada em absoluto.

Não sei se me expliquei ou se compliquei...

«De relação com Deus e com os anjos e santos?»

Parece-me que essa relação se mantém sempre. No entanto, no espaço-tempo da nossa vida, não temos uma visão clara dessa relação, pelo facto de que estamos a olhar para a nossa realidade e para a realidade que nos rodeia através da janela estreita dos sentidos, que não mostra o invisível.

«Por outro lado, o Magistério da Igreja sempre afirmou o dualismo corpo-alma.»

Sim, mas eu vejo-o como um dualismo sem separação, quando se considera o ser humano como ele é, como um todo. Vejo o binómio corpo-alma como uma distinção dual sem separação. Ontologicamente, uma separação radical seria um absurdo, pois não estaríamos então a falar do mesmo ente distinto. E as almas humanas são entes distintos, apesar de serem seres compostos. A distinção corpo-alma não quebra o ser humano ao meio.

«Mas o Magistério tem autorizado os teólogos a ensinarem nas universidades e a publicarem textos que, não sendo criticados me parecem automaticamente aceites.»

Não sei a que textos se refere, mas parece-me possível supor uma situação na qual se autorize livremente a especulação teológica dentro de certos limites da doutrina, sobretudo nos pontos não especificados ou detalhados pela Revelação, e tal não implica necessariamente uma aceitação, mas apenas uma permissão para especular.
Por exemplo, durante muito tempo, existiram teólogos contra e a favor da teoria do limbo. Antes da recente proclamação magisterial, ambas eram toleradas (e penso que será correcto dizer que, hoje, defender o limbo não é algo proibido), e no entanto, eram opostas. Ou seja, o Magistério não poderia ter aceite ambas, porque isso seria contraditório, e no entanto, permitiu a sua publicação, ensino e debate, sem criar obstáculos intransponíveis a qualquer um dos lados. Isto passou-se durante largos séculos, parece-me, do pouco conhecimento que tenho da matéria.
Ou seja, a não censura (ou autorização de publicação) de uma tese não implica a aceitação ou defesa da mesma. A tese pode corresponder a um tema teológico que está em aberto e que não colide com a doutrina estabelecida.

«Ora, há na teologia do século XX uma tendência para reformular significativamente este dualismo. Já lhe referi o actual Papa na sua obra ‘Introdução ao Cristianismo’. Há outros que preferem a perspectiva relacional em vez da substancial, por ser mais adequada à cultura actual.»

Sob pena de parecer teimoso, e temendo ser visto como arrogante, parece-me que é, não só possível, como até útil, complementar a visão substancial com a visão relacional. Insisto neste ponto: somos substâncias, assim como Deus também é substância. As relações estabelecem-se entre pessoas: cada pessoa humana é uma substância distinta, enquanto que as três pessoas divinas partilham da mesma substância. No entanto, a substância da criatura é distinta da substância divina. Por exemplo, uma é finita e a outra é infinita. Eu teria horror a imaginar um mundo de substâncias distintas (como nós somos distintos de Deus) em que tais substâncias não estabelecessem qualquer tipo de relação pessoal.

E, permita-me um pouco de ironia, não me parece que a cultura actual tenha grande coisa a aportar a este debate.
Vivemos tempos de grande euforia tecnológica, que reina sobre um caos intelectual como penso que nunca houve. Parece-me seguro afirmar que hoje sabe-se muito mais do que antigamente, mas se somarmos a sabedoria de todos os seres humanos vivos e a sabedoria de todas as obras escritas e tradições orais que chegaram aos nossos dias.
No entanto, se fizermos uma análise estatística da pessoa comum, a cultura anda muito por baixo. Como comparar a sofisticação intelectual da Suma Teológica (que foi concebida como manual para o ensino) com o que se ensina hoje em dia nas universidades (já nem falo no Ensino Básico e Secundário)?
O ensino massificou-se, disseminou-se. Aperfeiçoou-se e especializou-se. Mas, em termos da média, é muitas vezes nivelado por baixo.
Como poderia ser de outra maneira? A nossa capacidade cognitiva mantém-se a mesma do homem medieval. Se nos especializamos, então vamos perder conhecimento geral. Se temos que absorver mais informação nova que os nossos antepassados não possuíam, então temos que perder profundidade em muitas matérias antigas.

Hoje em dia, nenhuma universidade ou escola secundária debate questões filosóficas como a da natureza da alma. Simplesmente, tornou-se tema tabu, porque tudo o que tem a ver com religião deve ser erradicado do ensino. Sobre religião nas escolas, hoje em dia, fala-se do caso Galileu para dizer mal da Igreja e de Darwin para se poder atirar aos miúdos a parangona de que ele destruiu a Bíblia. Tudo tretas para formatar as mentes dos jovens estudantes.

Posto isto, penso que deveríamos procurar a verdade sobre estas matérias sem nos preocuparmos muito em adequar o conteúdo da verdadeira teologia à cultura actual. A forma, essa sim, deve ser adequada à comunicação com a cultura actual. Por essa razão, estou neste momento a escrever num teclado de um computador portátil! A forma sim, devemos modernizá-la. Mas o conteúdo não pode ser "comprimido" (diríamos hoje, "zipado"!) para caber na caixa pequena e estreita que corresponde à ideia que a cultura actual tem da religião e da teologia.

A pessoa comum tem, hoje em dia, uma ideia infantil e estreita acerca destas matérias. Falo por mim, e também contra mim!
Mesmo pessoas com formação universitária chegam à idade adulta e ao meio das suas vidas sendo completos analfabetos em filosofia e teologia. Só Deus sabe o esforço que eu tenho feito contra esse analfabetismo da minha pessoa, do qual me dei conta há poucos anos, quando constatei o quão ignorante eu era.

Bom, passemos adiante, que já escrevi demais...

«2. Sobre ‘relação’ e ‘substância’. Tanto Boécio como S. Tomás aceitam que Deus é uma substância. Nela coexistem três Pessoas, e o que as constitui são as relações que entre elas se estabelecem. Repare que temos aqui uma substância e diversas relações. Não precisamos de ter três substâncias para termos várias relações.»

Correcto, mas parece-me que há uma distinção que deve ser reforçada.
É que se, no caso humano, a substância corresponde à pessoa, no caso divino, na substância divina, coexistem três pessoas. Como explica Boécio no "De Trinitate", a relação ocorre entre pessoas. Eu fui pouco claro atrás, porque é um facto que, de modo geral, para se incluir também o caso divino, devemos afirmar que a relação é sempre entre pessoas. Sucede apenas que, nos seres humanos, falar em pessoa ou em substância é o mesmo.

«O que me parece é que se somos criados à imagem e semelhança de Deus, então não me parece tão difícil de conceber que somos relação à imagem e semelhança da Trindade. De facto, só há uma substância, que é Deus, e nós existimos nela, como diz S. Paulo: ‘Nele nos movemos, existimos e somos’.»

É certo que a nossa existência substancial está "pendurada" na existência substancial de Deus, pois o nosso "ser" é participação no Ser divino. Mas não pode haver confusão de identidade. Essa dependência ontológica não elimina a distinção entre criatura e Criador. Não elimina a distinção entre substância divina e substância humana. Até por causa do predicado de finitude (ou infinitude), ou outros predicados (perfeição, simplicidade, etc.). Como é que se poderiam aplicar predicados diferentes e contraditórios a uma mesma substância?

«E Jesus, na grande oração sacerdotal de despedida, no Evangelho de S. João, pede ao Pai pelos discípulos: ‘guarda-os em ti, para serem um só, como Nós somos’ (Jo. 17,11); ‘para que todos sejam um só, como Tu, Pai estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós’ (Jo 17,21), ‘de modo que sejam um, como nós somos Um’ (Jo 17,22).»

Ah, mas todos estes trechos não implicam, de forma alguma, uma confusão de substâncias. Porque razão não lê nestas palavras uma união de substâncias distintas? Parece-me que elas apontam para uma união de substâncias e não para uma identidade de substâncias. Não será que estes trechos nos mostram uma analogia? A unidade divina está na sua substância única, que “junta” as três pessoas num só Deus. Mas a união entre todos os homens, sugerida pelos trechos que citou, não pode ser feita supondo uma identidade de substâncias!
O que nos faz únicos é, precisamente, o facto de sermos substâncias individuadas e distintas. Somos todos diferentes uns dos outros! Serão essas diferenças meramente acidentais? Não podem ser!

Não queria invocar uma palavra feia, mas se, como diz o Pe. Alfredo, a nossa substância é a mesma que a divina, isso só tem uma possível expressão: panteísmo. Como escapar ao panteísmo, se identificamos a nossa substância com a divina?

«Segundo Boécio, as criaturas, pela sua condição, são sempre distintas em substância. Já as pessoas da Trindade, possuindo relação entre si (é ela que origina a Trindade), não são entes substancialmente distintos. São entes iguais em substância.»

Totalmente de acordo, mas acho que esta última frase é totalmente compatível com o que eu acabei de escrever.

«Nesta linha segue S. Tomas de Aquino que na Summa Contra Gentiles afirma: “a relação, que realmente se acrescenta à substância, possui o último e o mais imperfeito grau do ser. O último porque supõe não apenas o ser da substância, mas também o ser dos outros acidentes que estão na origem da relação... O mais imperfeito, dado que a natureza mesma da relação, sendo do ser-a-um-outro, o seu ser próprio, que se acrescenta à substância, depende não apenas do ser da substância, mas também do ser de um agente exterior” (Summa Contra Gentiles, Roma: Desclée & C.-Herder, 1934, 159).

As palavras de São Tomás apontam claramente para uma distinção de entes (substanciais).

«Porque se deve acrescentar a substância à relação? Se S. Tomás não tivesse acreditado que o que nos faz imagem de Deus é a inteligência e, em vez disso, tivesse considerado que é a natureza relacional que nos faz ser quem somos, em Deus, tanto a filosofia como a teologia ocidentais estariam muito diferentes hoje.»

Não consigo concordar com a sua conclusão.
Penso que a definição tomista está muito boa, e é complicado (mas talvez não impossível) superá-la.
De facto, para haver relação entre entes, os entes têm que existir!
Não vejo como negar que a relação seja sempre algo que se acrescenta a substâncias pré-consideradas. Mesmo a relação entre as três Divinas Pessoas supõe sempre uma substância (no caso divino, apenas uma substância - nos outros casos, sempre pelo menos duas substâncias).

E parece-me que a relação entre Deus e o Homem, a relação mais perfeita que existe entre Deus e uma criatura, é sempre do tipo intelectual, desde que se contextualize este termo. São Tomás faz uma brilhante definição no “De veritate” (I,2): «res naturalis inter duos intellectus constituta est», por outras palavras, a realidade natural está constituída entre dois intelectos, o divino, que cria todas as coisas através do Verbo, e o humano, capaz de as apreender intelectualmente.

É, precisamente, através de uma "comunicação" intelectual (tome-se a palavra "intelecto" em contexto escolástico) que se estabelece a relação entre Deus e o Homem. De outro modo, fora do contexto corpóreo (as almas consideradas distintamente da sua vida corporal), como é que poderíamos "ver" Deus, "ver" as outras almas humanas, uma vez “fora” desta vida?

Falo de uma visão sobrenatural, não sensorial, que se pode perfeitamente apelidar de "visão intelectual", pois a alma considerada separadamente tem uma forma puramente intelectual. Eu acho que o Pe. Alfredo está a separar a relação Deus-Homem da sua natureza intelectual (ou sobrenatural) sem razão para o fazer.

No fim de contas, do mesmo modo que a alma imaterial é aquilo que nós somos "sempre" (independentemente de termos uma existência corpórea que é finita e passageira), também a nossa relação com Deus, independentemente do nosso “destino” sobrenatural, é perpétua e perene. Mesmo sofrendo as tormentas do Inferno, não há forma de nos desligarmos ontologicamente de Deus. Mesmo os condenados não deixam de ser criaturas, nem as suas almas são extintas, mesmo que estejam “perdidas” de forma definitiva. Aliás, o carácter definitivo desta “condenação” tem a ver com algo de natureza profundamente existencial, e nada tem de temporal ou passageiro. É porque algo muda efectivamente, e irreversivelmente, no âmago da alma condenada que esta sofre o destino que sofre.

O que me parece que sucede com o caso da condenação é que tais almas optaram (livremente) por tentar (e sublinho "tentar") quebrar essa relação com Deus. Perdem então a amizade com Deus (de forma unilateral e assimétrica), e a relação fica reduzida a um mínimo ontológico. Enquanto que a relação entre a alma bem-aventurada e Deus é uma relação rica e infindável de realização da dita, a relação entre a alma condenada e Deus fica reduzida a uma relação puramente ontológica, apenas na vertente criatural. No fundo, é como se a alma condenada estivesse presa num tremendo engano existencial sem saída. Mas a ligação ontológica dessa alma condenada a Deus mantém-se sempre, porque a alma condenada não é destruída.

Para fechar este parêntesis, o intelecto, entendido em sentido escolástico, é o que “sobrevive” ao tempo e ao espaço. Logo, é o âmago do nosso ser. Logo, tal âmago está sempre em relação (intelectual) com Deus.

Mas note-se: estou apenas a tentar defender o meu ponto de vista, sem qualquer pretensão de ensinar o que quer que seja a alguém, muito menos a si!

Vamos agora a Galileu!

«3. Sobre a relação do ‘caso Darwin’ com o ‘caso Galileu’, referia-me à interpretação literal da Bíblia. No processo de Galileu foi sempre invocado o princípio de que, em princípio, a Bíblia deve ser interpretada literalmente. Este princípio fora explicitamente declarado pelo Concílio de Trento, e não oferece nenhum problema, porque deixa aberta a possibilidade da interpretação metafórica.»

Até aqui, nada tenho a objectar.

«Mas no tempo de Galileu, as passagens da Bíblia que se referiam ao movimento do Sol eram interpretadas literalmente pelos seus adversários, com a justificação de que Galileu não provara cientificamente o movimento da Terra.»

E não provara!

«De facto, não provara, mas os indícios eram muitos.»

E eram!
Mas seriam suficientes para motivar uma revisão à hermenêutica bíblica que se fizera até então?
Não estou a justificar a condenação de Galileu: estou a justificar a recusa da Igreja em rever a hermenêutica clássica numa situação de ausência de provas definitivas.

«Hoje parece-me que se comete o mesmo erro no que se refere à interpretação dos primeiros capítulos do Génesis: poderiam ser interpretados metaforicamente se houvesse prova científica que o justificasse. Mas para alguns não há.»

De que é que falamos, Pe. Alfredo?
Que provas? Conseguimos já reproduzir o surgimento da vida em laboratório?
A Teoria da Evolução é muito sólida: tem provas científicas e laboratoriais claras e sólidas. Mas está provada a origem da vida? Está provada a origem do corpo humano?
Eu penso que se misturam provas de natureza diferente. Provou-se o mecanismo da selecção natural. Provou-se a forte correlação genética entre todos os seres vivos, o que aponta para um ser primordial no topo de uma teórica "árvore da vida". Mas provou-se apenas essa forte correlação, e não se demonstrou de forma alguma qual foi o mecanismo exacto do surgimento da vida. Enquanto não se reproduzir a ontogénese em laboratório, como se poderá ter a certeza?

Pessoalmente, eu já acho um acontecimento suficientemente espantoso o surgimento do primeiro ser humano, Adão. Em termos probabilísticos, seria algo raríssimo (probabilidade quase nula).
Quanto mais supor que os seres humanos tenham surgido um pouco por todo o globo, segundo a tese poligenista (que eu rejeito).

«O Papa João Paulo II considerou que a evolução das espécies é uma teoria com suficiente justificação científica.»

Eu não faço essa interpretação: parece-me que o Papa João Paulo II disse que a teoria da evolução das espécies “era mais do que uma hipótese”. Ou seja, que era uma teoria consistente e sólida. Ninguém hoje o nega. Mas não me parece que o Papa a tenha encarado como um facto, que, em boa verdade, não é. Logo, porquê alterar a hermenêutica do Pecado Original, sobretudo quando esta é tão importante para toda a cristologia, para a salvação, para a redenção? E sobretudo, considerando que é possível compatibilizar o Pecado Original com uma teoria da evolução que seja monogenista e também não materialista?

«Tal como no caso de Galileu, em relação ao universo, não é possível harmonizar uma interpretação literal do Génesis com o evolucionismo.»

Mais uma vez, penso que isso depende muito dos trechos bíblicos que se lê de forma literal. Está a falar de uma interpretação 100% literal? Nesse caso, penso que poderá ter razão, Pe. Alfredo.
Mas teremos que passar de uma interpretação 100% literal do Génesis (que a Igreja Católica já não faz há largos séculos, se é que alguma vez fez) para uma interpretação 100% metafórica?
São estes extremos que me fazem medo. Um pouco como, a São Tomás, fazia alguma confusão a radicalização, quer do heliocentrismo quer do geocentrismo. A ciência deu-lhe razão: o modelo de Einstein superou ambos. E, mesmo assim, será este modelo o último e definitivo? Penso que não, e a mecânica quântica está cá para dar pistas nesse sentido.

Num cenário de uma ciência em permanente evolução e revisão de paradigmas, será que vamos fazer revisões hermenêuticas ao sabor das teorias? Não seria melhor fazê-lo ao sabor dos factos, que são sempre mais sólidos do que teorias, mesmo que boas?

«Nem sequer uma interpretação não estritamente literal.»

Não percebo o porquê da sua posição, que me parece tão radical: porquê saltar logo para uma interpretação 100% metafórica?
Eu não tenho grande apego aos detalhes materiais da narrativa do Génesis (barro, terra, costelas, maçãs, árvores). No entanto, tenho grande apego aos detalhes doutrinais (monogenismo, acto voluntário de desobediência de Adão e Eva, introdução do pecado no mundo, etc.). Porque razão não se consideraria uma interpretação metafórica para os detalhes materiais e literal para os detalhes doutrinais? No entanto, eu não quero passar a ideia de que há uma só leitura possível, no actual estado de conhecimentos, ou sequer um número pequeno de leituras possíveis. A questão é complicada.

«Tal como no caso Galileu, a ciência obriga a refazer a narração da criação ds humanidade desde o princípio. Foi isso que tentou fazer Teilhard de Chardin, um homem de quem se parece ter ainda medo.»

Eu acho que o caso em questão é muito diferente do caso Galileu. Por várias razões, mas só vou referir algumas, por economia de espaço. Por um lado, o problema do caso Galileu é multi-facetado e não permite leituras simples: é um problema político, científico, filosófico, teológico, e sobretudo, humano (no sentido dos feitios das pessoas envolvidas).

Na sua faceta teórica, há que considerar, pelo menos, dois problemas: o problema filosófico (geocentrismo aristotélico em colisão com o heliocentrismo emergente) e o problema teológico (acerca da interpretação das Sagradas Escrituras). Apesar de o primeiro ter tido muito peso, há que reconhecer que o caso Galileu foi justificado pelos próprios inquisidores como sendo um problema teológico relativo à correcta interpretação das Escrituras.

O heliocentrismo e geocentrismo não têm posição central na doutrina cristã. Teriam para a cosmovisão aristotélica, que naquele tempo estava bastante misturada com a doutrina cristã. Mas o que o Pe. Alfredo parece propor não é a troca de um modelo cosmológico por outro. É mexer no coração da doutrina: mexer na queda de Adão e Eva, mexer na causa e origem da introdução do pecado no mundo, e talvez ainda (o pior de tudo), mexer na necessidade da redenção.

Se é verdade que Galileu não tinha provas para o sistema copernicano, essas provas apareceram entretanto (graças às teorias de Newton, que trouxeram a novidade da dinâmica, fazendo sair finalmente o problema dos limites da cinemática, e às experiências de Gugliemini, que trouxeram a validação experimental), e a razão é importantíssima: a Terra está sempre em movimento. Logo, a detecção e demonstração empírica do movimento da Terra era só uma questão de aperfeiçoamento experimental, porque o fenómeno, sendo constante e persistente ao longo dos séculos, não "foge" da experimentação.

O problema da origem da vida (qualquer vida, mas sobretudo a humana) é um problema histórico, com uma localização precisa no tempo e no espaço: pode suceder que seja um fenómeno único e irrepetível. E não há forma de meter a História dentro do laboratório e obter provas definitivas. Com as ciências históricas, e a ontogénese faz parte das ciências históricas, porque diz respeito a um acontecimento histórico, apenas se pode proceder com a adaptação de modelos teóricos aos dados que chegaram até nós ou que podemos obter hoje. O que enfraquece bastante o poder probatório dos resultados científicos deduzidos pelos evolucionistas.

Agora junte-se a dificuldade probatória da ontogénese à importância teológica do Pecado Original, e tem-se uma dupla razão reforçada para não se rejeitar esta doutrina só porque há uma teoria moderna que a aparenta contradizer.

Tudo joga a desfavor: a contradição entre ambas pode ser aparente, a doutrina cristã em jogo é importante e as provas científicas são fracas por causa da natureza histórica do fenómeno em questão.


Conheço mal a obra de Teilhard de Chardin: li algumas coisas, como o "A Minha Fé", e apesar de admirar o entusiasmo que ele transmitiu à sua escrita, não consigo encontrar (pelo menos nessa única obra que li) um sistema filosófico claro, ou sequer algumas ideias filosóficas que se possam trabalhar (seja para demonstrar, seja para refutar). A sua escrita parece-me, sobretudo, "poética".

Por isso, eu não diria, de forma alguma, que Teilhard fosse alguém que me metesse medo. Acho que, muitas vezes, acabamos injustamente a criticar as pessoas (cujas intenções seriam as melhores), fazendo-o totalmente sem caridade cristã, em vez de criticarmos apenas as suas ideias, se discordamos delas.

Se alguma vez eu me atirasse numa crítica desse tipo, caso quisesse fazê-lo, seria às ideias de Teilhard e não à sua pessoa. Penso que esta regra deveria ser geral.

«Caro Bernardo, afinal acabei por não ser tão breve como gostaria. Obrigado pela paciência!»


Faço minhas as suas palavras!
Face ao que alguns escreveram em comentários anteriores, alguns em tom polémico e negativo, eu queria terminar este longo comentário com algumas palavras de louvor à Companhia de Jesus, da qual fazem parte os criadores e contribuidores deste blogue. A minha espiritualidade não seria a mesma sem os Jesuítas, a quem devo muito do que sou. A Igreja não seria a mesma sem os Jesuítas, a quem todos os católicos têm uma dívida de gratidão imensa.

Mesmo discordando de si, Pe. Alfredo, em questões aqui e acolá, este estímulo de debate intelectual que o Pe. Alfredo aqui nos traz, vem claramente imbuído de um amor imenso a Cristo e à Igreja, e é a marca constante da Companhia de Jesus.

Peçamos a materna intercessão de Nossa Senhora, para que Deus Pai nos mande o Seu Espírito, e os nossos finitos intelectos sejam iluminados mais um pouco, e nos seja permitido vislumbrar melhor a eterna verdade que ainda não nos é totalmente acessível.

Um grande abraço!

Bernardo

alfredo dinis disse...

Caro Bernardo,

Obrigado pela sua longa e elaborada resposta. Este diálogo foi interessante, e creio que as nossas convergências, bem como as nossas divergências, ficaram claras.

Não resisto ainda a recordar-lhe que as obras de Teilhard de Chardin são bem mais que inocente poesia. Se assim não fosse, como se compreende que a Congregação para a Doutrina da Fé tenha alertado os formadores dos jovens, sobretudo nos Seminários e Universidades da Igreja, para o perigo que os mesmos jovens correm se lerem as obras de Teilhard. Isto aconteceu quando um pouco por todo o mundo estas mesmas obras eram traduzidas, publicadas e estudadas. Apesar desta censura, Teilhard continuou a ser estudado e o seu pensamento nunca até hoje deixou de ser objecto de inúmeros congressos por todo o mundo. Em 1981, quamdo um pouco por todo o lado se celebrava o centenário do nascimento deste autor, a Santa Sé publicou uma declaração recordando que a censura de 1962 continuava válida. E até hoje não corrigiu esta declaração. Se tudo não passasse de mera poesia, porquê tanta ansiedade - inútil! - em desaconselhar a leitura das obras de Teilhard?

E mesmo para terminar, gostaria que me dissesse qual é o autor do século XX que mais o inspira nas suas posições filosóficas e teológicas.

Desta vez consegui mesmo ser breve!

Obrigado pelas suas amáveis palavras sobre a Companhia de Jesus.

Um abraço do P. Alfredo Dinis,sj

Espectadores disse...

Caro Pe. Alfredo,

Antes de mais, as minhas desculpas pela demora na resposta. Tenho tido uma agenda profissional bastante pesada, e isso tem-me impedido de dar a continuidade a estes e outros debates.

Obrigado pela sua paciência!

«Não resisto ainda a recordar-lhe que as obras de Teilhard de Chardin são bem mais que inocente poesia.»

Não quero ser mal interpretado. Eu sei que o Pe. Teilhard de Chardin não queria ser lido como poeta. O que quis dizer foi que é difícil (pelo menos para mim tem sido) contestar ou até compreender a sua visão teológica e filosófica porque não encontro (pode ser apenas problema meu) consistência terminológica que mo permita.

No fundo, pareceu-me que o Pe. Teilhard de Chardin tinha uma visão muito pessoal, rica e intuitiva, e que não hesitou em partilhá-la com todos.

Não sei se ele pretendia fornecer uma nova teologia que suplantasse a tradição escolástica. Acha que sim?

Talvez ele só pretendesse, à sua maneira, contar aos outros a forma como ele via estas coisas...

«Se assim não fosse, como se compreende que a Congregação para a Doutrina da Fé tenha alertado os formadores dos jovens, sobretudo nos Seminários e Universidades da Igreja, para o perigo que os mesmos jovens correm se lerem as obras de Teilhard.»

O Pe. Alfredo está a colocar-me numa situação difícil, e se calhar já se deu conta disso. ;)
Eu não sou especialista nestas coisas, e muito menos na obra do Pe. Chardin. Seria presunção da minha parte comentar de forma categórica esta questão da proibição às obras de Teilhard, porque para o fazer eu teria que ter estudado todos os processos em causa, e teria que conhecer profundamente as obras às quais as proibições se reportam. Teria que conhecer as razões do autor e as razões da Congregação.

Só queria dizer uma coisa muito curta, baseada na minha experiência pessoal com o pouco que li do Pe. Teilhard de Chardin. Não compreendo a lógica de um Deus evolutor (em Deus não deve existir mudança, pois é puro acto perfeito). Por essa razão, também não compreendo a mudança que o autor parece sugerir para Cristo, que sendo Deus, também está revestido da perfeição que torna qualquer mudança desnecessária.

Do pouco que li, não me parece que o autor atribuísse essa mudança à natureza humana de Cristo, mas sim a um "Cristo cósmico", que ele por vezes chama de "Cristo Ómega", pelo que essa mudança ainda me faz mais confusão.

Sou sincero: a leitura da obra de Teilhard, longe de me ter ajudado a compreender melhor a doutrina cristã, baralhou-me.

Eu não sou, regra geral, a favor de proibições de leitura. Como verá no final deste comentário, eu li e leio autores nada católicos e até bastante arriscados para quem está a amadurecer a sua formação católica.

No entanto, sempre me senti muito sortudo pela ajuda que fui recebendo pelo caminho (de amigos, professores, familiares, do Espírito Santo), que me tem permitido identificar "a posterori" como boas ou más as obras que vou lendo. Essa sorte não é sempre garantida.

A leitura de uma obra com erros é sempre algo de arriscado. Não estou a dizer categoricamente que a obra de Teilhard tenha erros (não tenho conhecimentos para o demonstrar). Nem estou a defender que se vede o acesso a certas obras ou autores. A obra da maioria dos filósofos da modernidade, Descartes, Kant, Nietzsche, etc., é praticamente incompatível com o cristianismo e no entanto é sempre enriquecedor conhecê-la.

Mas há uma nuance, que é importante para a Congregação, e que gostava de deixar à sua consideração. Alguém tem que verificar se as obras classificadas pelos seus autores como sendo de teologia católica o são, de facto, e isso é uma tarefa ingrata e dura, mas que tem que ser feita.

Imagino que as proibições relativas a Teilhard tenham a ver com o facto de que a Congregação teria achado que o seu conteúdo não poderia ser visto ou lido como sendo teologia católica de sólida ortodoxia.

Mas estou a conjecturar, porque não estou a par de todos os dados nem dos argumentos de ambas as partes.

«Apesar desta censura, Teilhard continuou a ser estudado e o seu pensamento nunca até hoje deixou de ser objecto de inúmeros congressos por todo o mundo.»

Se calhar, também tem a ver com a atracção irresistível do "fruto proibido"! ;)

«Em 1981, quamdo um pouco por todo o lado se celebrava o centenário do nascimento deste autor, a Santa Sé publicou uma declaração recordando que a censura de 1962 continuava válida. E até hoje não corrigiu esta declaração.»

Se calhar, é porque a censura terá uma razão de ser. Insisto: eu teria que conhecer a questão a fundo para poder ter uma posição categórica.

«Se tudo não passasse de mera poesia, porquê tanta ansiedade - inútil! - em desaconselhar a leitura das obras de Teilhard?»

Poderei ter gerado equívoco ao usar o termo "poesia". Não era, certamente, no sentido de considerar a obra de Teilhard inócua, que não é, mas sim uma obra que a mim me parece mais uma obra de "intuição pessoal" do que uma obra com a consistência e o poder demonstrativo que normalmente se encontra em tratados de teologia ou de filosofia.

«E mesmo para terminar, gostaria que me dissesse qual é o autor do século XX que mais o inspira nas suas posições filosóficas e teológicas.»

Ah, pergunta difícil!
Procuro ser ecléctico nas minhas escolhas, mas o tempo é curto e acabo por andar sempre em torno dos autores que me dizem mais, fazendo certamente escolhas limitadas e deixando de parte autores excelentes que acabo por não ficar a conhecer.

As minhas referências do século XX, em matéria de filosofia e teologia, se tivesse que as mencionar brevemente, teriam que ser o padre Garrigou-Lagrange, o filósofo Etienne Gilson e o padre Stanley Jaki, um autor que estou agora a descobrir com entusiasmo e satisfação!

Mas também tenho muitas leituras heterodoxas. Li e leio muito René Guénon (quase a obra completa), tenho grande interesse pelos autores da filosofia portuguesa, apesar de os conhecer mal, e tenho muito interesse por todas as formas religiosas, ocidentais ou orientais.

Também teria que referir dois autores católicos que me marcaram muito: C. S. Lewis e G. K. Chesterton.

E, no topo da lista, longe, mas longe desta gente toda, coloco o grande São Tomás. Para mim, até hoje, é insuperável.

«Obrigado pelas suas amáveis palavras sobre a Companhia de Jesus.»

São sinceras e sentidas! Tenho várias e longas ligações de amizade e de família à Companhia!

Um grande abraço!

Bernardo

freefun0616 disse...

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