28 de maio de 2008

Bahok







A dança fala-me muito. Por um lado, por vivê-la na carne como experiência – até mesmo divina –, por outro, por ver a força da entrega, com sentido, dos bailarinos em palco e sentir o quanto posso entrar também na transcendência.

Ontem fui ver o Bahok, de Akram Khan e ainda estou a digerir – quem está em Lisboa ou arredores pode ver o espectáculo no CCB nos próximos dias 30 e 31… É forte, bastante forte, no que fala de tanto sobre nós, humanos. Depois de chegar a casa, já deitado, levei muito tempo até adormecer, a pensar em tudo o que vi, ouvi e sobretudo senti…

2008.Mai.28

Bahok Portadores

Encontro de vida. Sentir como a unidade do sagrado é tocada, vivida numa espera, que atrasa e muda pelos elementos que compõem o ser… Dois monólogos que tentam o diálogo, numa ajuda, diante do desconhecimento de quem se é, onde se está, de onde se vem, tentando saber para onde ir. O futuro impedido de não ficar sem rumo pelo círculo rodopiante da Vida.

Ainda assim a presença do medo, do corpo que desfalece nos braços (des)conhecidos que fundem a linguagem sem voz, gritada pelos gestos que (e)invocam o passado sagrado. A tradição que se traz unicamente fechada no saco. Quem sou?

O mesmo passado calçado, mas liberto para o futuro de encontro, aqui e agora. Neste local de passagem que obriga a parar e a recordar…

… o corpo que se move desde tempos idos, que fala de rituais de cultura…

…reveladora do respeito e dignidade mesmo quando se está perdido em busca da mesma terra que todos tem. No silêncio contrabalançado pelo ritmo forte do pulsar do que é impedido de ser morto…

…memória de Alguém…

Não há diluição, há relação, há Encontro de Vida, com a lágrima de quem escuta a mãe e se descobre Viva…

[É forte muito forte. Senti-me a tocar no sagrado. Como se pode falar de algo que grita pelo encontro sério e profundo do ser humano? Rasgos de tempo e espaço conjugados num só momento unificados por todos.

Senhor, vejo-Te ali a gritar a cada um para que se sinta e Te sinta, para que se encontre e Te encontre, para que se viva e Te Viva…

Cultura, diferença, unidade, respeito, confusão, grito, riso, gargalhada, lágrima… Oração… Vida em Ti…

Sim, somos portadores de tesouro… Não podemos fechá-lo… Não! Temos de, sem medo, abrir e dar… A História, a Tradição, a Vida que não prende, que não fecha, mas que aponta para infinito…]

Para os nómadas, a casa não é uma morada, a casa é aquilo que transportam consigo.


John Berger, Hold everything dear

(pensamento escolhido por Akram Khan, como síntese do Bahok)

2 comentários:

Anónimo disse...

Falas-nos da dança e partilhas, com entusiasmo, esse teu gosto e essa forma - para mim ainda estranha (porque não experimentada) - de (re)encontro connosco, com o outro em relação, com os afectos, as fragilidades que nos marcam, em suma, a Vida e, nela, o Sagrado… Tudo pelo Corpo e com ele, em movimento, em acomodação contínua e em necessário devir…

Sugeres-me, na tua escrita (que roça também o Sagrado, porque vive dessa tua experiência), uma série de cenários e cenas. Escolho-as, monto umas, reformulo outras, interpreto-as e, dessa descoberta (primeira do próprio e em seguida no outro/ Outro), imagino-me já como espectador e a fruir de toda a construção artística…

O teu texto, também, parece-me em construção, inacabado! E estou feliz por senti-lo assim! Fico, para além disso, com a sensação de que ele também está nesse processo de interacção, de agir, em palco, simulacro de existência, em dança, com os bailarinos, contigo mesmo! As tuas palavras dão-me ampla liberdade para Ver e Sentir. Apesar disso, fico com duas marcas basilares: a da Tradição, no que somos ou vamos sendo em conformidade com o que foram os outros; e a do Grito físico, de qualquer um, que neste caso é o duma mulher que descobre a mãe, os laços que a ligam à Vida…

Paulo, depois disto, tenho imensa pena não ter a oportunidade de ver este espectáculo (já no seu todo: o que dele vi e iria ver)no CCB, apesar de me teres despertado a curiosidade (digamos: aguçado o espírito) com este Post. Agradeço-te, caro amigo, pela partilha e, em futuro (já projéctil), por, com o que de ti leio, deixar de estranhar a forma diferente (porque somo-lo todos!) de encontrar aí também Deus.

Um abraço forte,
M.

Suzanne disse...

Como a dan'ca te transporta e nos ajuda a transportar a n'os a sitios reconditos do nosso ser...