17 de maio de 2008

Estórias...



[Uma amiga especial enviou-me este texto de José Luís Peixoto...

...respondi-lhe com o que está abaixo...]


"Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de Julho. As grandes manhãs de Julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?; aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, acreditas?

E nessa noite choveu.

No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo de cartão estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei. Foi o meu pai que me tirou de lá.

Para ti, para o nosso filho, para mim, quis um cavalo de cartão, sem a chuva. Um idílio impossível, sem a culpa que não se pode evitar. A culpa que tu e eu não tivemos. A condenação certa por existirmos. Conforme um precipício no fim de uma corrida: os corredores a terem de vencer e a meta a ser a linha de um precipício. Ou uma faca suspensa sobre nós, uma faca que se nos enterra nas costas a qualquer instante, sem motivo, uma faca que às vezes olhamos e sabemos que está lá pronta a cair e que vai cair, a qualquer instante, sem motivo. Uma faca enterrada nas costas, para sofrermos ou nos levar sofrendo. Não escolhi este destino. Escolhi estradas desconfiando que todas eram a mesma. E todas eram a mesma."


José Luís Peixoto, Nenhum Olhar

M...

Com o que me envias pergunto? Que estradas surgem então para caminharmos? Facilmente me surge no pensamento a estrada da própria vida, remetida para a certeza de que somos em caminho. Não será, esta, uma resposta demasiado fácil? Talvez, dependendo de como encaro(amos) a vida. A vida se for banal a resposta é tornada ela mesmo fácil, até mesmo um facilitismo de uma rapidez de quem não quer ir mais além que a própria banalidade do respirar, simplesmente... No entanto, na profundidade exigida pelo sim diário que acontece no nosso coração, deixamos que o cavalo de cartão não adormeça aqui ou ali, mas esteja situado, mais, incorporado nas entranhas mais fundas do ser. Assim, a estrada ganha um outro contorno e todas as estradas passam a ser uma com as implicações que tenho contigo, com aquele que está ali a passar na sua estrada, no fundo o outro que me interpela a comunicar. Comungando da Vida, não na simples respiração, mas no acto de assimilar(-te) o ar que já não é de ninguém em particular, mas nosso, sim, nosso... Respiramos o mesmo, o infinito que acontece porque não conseguimos ser medíocres... Simplórios até... Não, vamos ao ínfimo do que podemos... Afinal, a verdade desenha-se com os passos dados. O que é o passado sem o olhar para o futuro? E o que sou eu, perdido na culpa que não é minha? Sim, se sou porque sou, trago a vida já não no baloiçar do cavalo de madeira, nem na fragilidade do de cartão, mas na segurança do Amor que não é matéria, mas de uma transcendência apenas permitida à carne que se deixa viver, dando-se...

Sim, choro diante do esquecimento de algo - ou alguém - especial. Como não o poderia fazer? Como se quem faz parte se apartasse. O meu olhar fica tremido diante do desbotar que nunca desejei, mas que acontece sem dar conta e sem que possa impedir... Mas a cor deixada na terra pode vivificar se alimentar o sonho mais profundo com toda a intensidade que me pode caracterizar... E as tais gotas, que (me) amachucaram, dão vigorosidade e com as lágrimas confundidas, tornam-se elas mesmas fonte de alimento para a transfiguração da Vida que partiu, mas que nunca deixará de ser... Porque o Amor não permite a morte, apenas que o rosto deixe de ser limitado, para ser pleno... E mesmo na dor, no rasgar do desespero como ponta do finito que ainda resta, a semente germina e dá fruto, porque Ele a quer mais perto de si...

Com o meu beijinho voador... De quem te/vos pensa e reza...