14 de maio de 2008

Na minha breve intervenção no debate sobre Fátima, ontem, 13 de Maio, na RTPN, foi-me atribuída pelos produtores do programa uma afirmação que apareceu em rodapé, mas que eu não proferi. Segundo esta nota eu teria citado o actual Papa como tendo afirmado que as aparições de Fátima foram uma criação infantil das crianças. Para que se possa compreender melhor o que está dito pelo Papa, transcrevo a seguir algumas passagens do seu comentário teológico à terceira parte do segredo de Fátima:

A estrutura antropológica das revelações privadas

A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de percepção ou " visão ": a visão pelos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual (visio sensibilis, imaginativa, intellectualis). É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc, não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa. Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do " segredo " de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do " segredo ", mas pode-se facilmente comprovar também noutras visões, sobretudo porque não eram captadas por todos os presentes, mas apenas pelos " videntes ".
(…)
Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos " sentidos internos ". Trata-se de verdadeiros " objectos " que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual. Por isso, exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma. A pessoa é levada para além da pura exterioridade, onde é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis.

Como dissemos, a " visão interior " não é fantasia, mas uma verdadeira e própria maneira de verificação. Fá-lo, porém, com as limitações que lhe são próprias. Se, na visão exterior, já interfere o elemento subjectivo, isto é, não vemos o objecto puro mas este chega-nos através do filtro dos nossos sentidos que têm de operar um processo de tradução; na visão interior, isso é ainda mais claro, sobretudo quando se trata de realidades que por si mesmas ultrapassam o nosso horizonte. O sujeito, o vidente, tem uma influência ainda mais forte; vê segundo as próprias capacidades concretas, com as modalidades de representação e conhecimento que lhe são acessíveis. Na visão interior, há, de maneira ainda mais acentuada que na exterior, um processo de tradução, desempenhando o sujeito uma parte essencial na formação da imagem daquilo que aparece. A imagem pode ser captada apenas segundo as suas medidas e possibilidades. Assim, tais visões não são em caso algum a " fotografia " pura e simples do Além, mas trazem consigo também as possibilidades e limitações do sujeito que as apreende.

Isto é patente em todas as grandes visões dos Santos; naturalmente vale também para as visões dos pastorinhos de Fátima. As imagens por eles delineadas não são de modo algum mera expressão da sua fantasia, mas fruto duma percepção real de origem superior e íntima; nem se hão-de imaginar como se por um instante se tivesse erguido a ponta do véu do Além, aparecendo o Céu na sua essencialidade pura, como esperamos vê-lo na união definitiva com Deus. Poder-se-ia dizer que as imagens são uma síntese entre o impulso vindo do Alto e as possibilidades disponíveis para o efeito por parte do sujeito que as recebe, isto é, das crianças. Por tal motivo, a linguagem feita de imagens destas visões é uma linguagem simbólica.
(...)
E não é necessário que cada elemento da visão tenha de possuir uma correspondência histórica concreta. O que conta é a visão como um todo, e a partir do conjunto das imagens é que se devem compreender os detalhes. O que efectivamente constitui o centro duma imagem só pode ser desvendado, em última análise, a partir do que é o centro absoluto da " profecia " cristã: o centro é o ponto onde a visão se torna apelo e indicação da vontade de Deus.

6 comentários:

Vítor João Oliveira disse...

Caro Professor Alfredo Dinis, descobri agora este blog e já está no smeus favoritos. Aproveito para divulgar o meu projecto aqui http://qualia-esob.blogspot.com/

Agradeço e visita e particpação se quiser.
Abraço, Vítor João Oliveira

Vítor João Oliveira disse...

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Vítor João Oliveira

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

Como se verifica não só o leio aqui ao lado, mas também na Companhia dos Filósofos. E hoje li também o texto do Papa, e não obstante de também o ter lido até ao fim, tenho que admitir que é “areia demais para a minha camioneta…”

Quanto à afirmação que acredito que não proferiu, se me perdoa o atrevimento, estava capaz de apostar a falangeta do dedo mindinho do António Parente, que não disse, mas pensou... mas claro que posso estar enganado...

Aceite um abraço amigo do Xiquinho

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Aprecio a sua paciência e intersse em ler as minhas reflexões. No caso que refere, eu não estou realmente convencido de que as aparições de Fátima foram uma infantil fabricação das crianças. É claro que uma compreensão das aparições que vá para além do nível meramente psicológico pressupõe a crença em Deus - e, neste caso, na Virgem Maria - e a possibilidade de dialogar com ambos. Compreendo que tudo isto pareça a si uma infantilidade. Mas há que ter em conta que o fenómeno de Fátima não tem a ver apenas com o que sucedeu durante alguns meses em 1917. Fátima tem que ser avaliado no conjunto da sua história até hoje, e se é verdade que muitas pessoas se aproveitam para ganhar dinheiro através do negócio de objectos religiosos, o contacto com Fátima tem sido positivo e humanizante para um incontável número de pessoas. É verdade que há ali manifestações religiosas a diversos níveis quanto a uma apreciação objectiva. Mas isso não significa que não predominem as manifestações religosas reveladoras de maturidade. Infelizmente, os meios de comunicação não têm ajudado a passar esta imagem.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Dr. Víctor,

Obrigado pela avaliação positiva que faz deste blog. Já tive ocasião de deixar um comentário no seu.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

freefun0616 disse...

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