4 de maio de 2008

A profundidade da história de mim






A presença dos céus não é a Tua,

Embora o vento venha não sei donde.


Os oceanos não dizem que os criaste,

Nem deixas o Teu rasto nos caminhos.


Só o olhar daqueles que escolheste

Nos dá o Teu sinal entre os fantasmas.

Sophia de Mello Breyner


É impressionante como a Vida pode falar e não se dar conta disso. Nestes dias, quer pela peregrinação que fiz(emos), quer pela viagem relâmpago a Portimão, fui revisitando a minha história. Quer pelo pensamento solto que surgiu, quer pela conversa que aconteceu, quer ainda pelo momento de oração que me levou a olhar para trás e agradecer. Tanto se passa em mim, atrevo-me a dizer em nós, seres humanos. E, rodeados por este mundo non-stop, nem sempre é possível parar e absorver o que se vive.

Sim, sou um felizardo porque, graças à minha decisão, acabo por ter tempo para isso. Se assim não fosse, não conseguiria dar o melhor de mim como o tenho feito. Nem mais, nem menos, simplesmente o que posso. É estranho diante do mundo que vive de intrigas, lobbies, interesses, em que, em nome da liberdade, se vive uma escravidão cada vez maior… E curiosamente, uma escravidão do próprio interesse, mesmo com o sentimento – numa libertação da consciência – de que é nome de outro – pessoa, país, pátria, humanidade.

Vale-me a esperança expressa no meu olhar, na minha Vida. Precisamente por ter uma história rica de tanto, do mais ao menos simpático. Mas hoje com a perfeita noção de que foi e é em busca do MAIS que me caracteriza na ida até ao infinito. Fico arrepiado com os acessos de mediocridade dos dias de hoje, mas compreendo-os – já passei por eles.

Este poema de Sophia tem-me acompanhado há uns tempos… Tenho-o diante da secretária enquanto leio os intermináveis textos filosóficos. Senti-o como resumo dos meus últimos Exercícios Espirituais. De facto, só o olhar dos escolhidos dá o sinal entre os fantasmas… Não tenho dúvidas de que os escolhidos são aqueles que se escolhem para amar. Olhar a sua história, libertá-la dos medos, ansiedades, e deixar-se ir à profundidade do que são. Para mim é forte, muito forte o Amor. De facto, só o Amor que sinto e que vai crescendo em mim, me permite olhar para o mundo com Esperança… Mesmo correndo o risco de presunção - que se lixe o que os outros pensam de mim - Amo e sinto-me Amado… E isso basta-me, para avançar em profundidade ao que sou e quero dar e, diante deste mundo, não ser de todo um fantasma, mesmo que tenha tudo...