1 de junho de 2008

Associação Ateísta Portuguesa

Foi ontem, 30 de Maio, constituída a Associação Ateísta Portuguesa. Deixo aqui algumas considerações sobre o significado deste acontecimento, baseando-me na declaração de princípios da .associação.

Pergunto-me se não seria construtivo que os objectivos da nova associação se centrassem antes de mais na urgência de resolver os actuais problemas que a humanidade enfrenta, e para cuja solução não contribuirão apenas os ateus, cépticos e agnósticos, mas também homens e mulheres de variadas crenças religiosas que têm muito em comum no que se refere à filosofia de vida e, sobretudo, no que diz respeito à comum responsabilidade pela humanidade e pelo planeta.

É esta a posição de Edward Wilson, um conhecido e respeitado cientista, ateu convicto e confesso. Na sua obra “A Criação. Um apelo para salvar a vida na Terra”, redigida na forma de uma “Carta a um pastor baptista sulista”, o autor afirma no subtítulo da Parte III da obra: “Os argumentos para salvar o resto da vida são retirados tanto da religião como da ciência.”. E termina a ‘carta’ com as seguintes sensatas palavras:

“Independentemente daquilo que venha a acontecer às tensões entre as nossas mundividências opostas, sejam quais forem os altos e baixos pelos quais a ciência e a religião passem nas mentes dos seres humanos, perdura ainda a obrigação terreal e, porém, transcendente, que estamos ambos moralmente obrigados a partilhar.”

Parece-me, porém, que a nova associação não tem esta perspectiva. Aliás, apesar de afirmar no seu manifesto que o ateísmo não se define “pela mera oposição à religião e ao dogmatismo”, a verdade é que o ‘Portal Ateu’ não faz outra coisa senão opor-se à religião de uma forma completamente indiscriminada e inadequada.

Por um lado, muito do que no portal se critica são as caricaturas das religiões que abundam por esse mundo fora. Neste aspecto, os ateus estão, sem o saberem nem o desejarem, a fazer um favor às religiões, contribuído para que essas caricaturas sejam eliminadas.

Por outro lado, porém, os ateus generalizam as suas críticas a todas as religiões e a todas as pessoas que têm alguma crença religiosa. Tudo se passa como se eu criticasse a caricatura da ciência que é a astrologia, para só dar um exemplo das muitas caricaturas que por aí abundam, e depois generalizasse as minhas críticas a todos os cientistas que se ocupam seriamente da ciência. Não pareceria aos cientistas um procedimento adequado. E com toda a razão. O mesmo se passa com a apreciação que faço do procedimento dos ateus para com as crenças religiosas que não se identificam com as caricaturas que fazem o favor de criticar e demolir: trata-se de um procedimento inadequado.

Acresce ainda que os autores que intervêm no Portal Ateu, parte dos quais criaram agora a nova associação, decidiram ignorar sistematicamente o incontável número de homens e mulheres que um pouco por todo o mundo, em nome das próprias crenças religiosas, se empenham na promoção da paz e da justiça, na reconciliação entre os povos, arriscando voluntariamente a vida em territórios de guerra, ditaduras políticas, fome e miséria, partilhando o sofrimento de tantas pessoas apinhadas em campos de refugiados, seres humanos a quem foi retirado não apenas o património material mas, muito pior que isso, a identidade cultural e a própria dignidade.

Dir-me-ão que não é necessário ter uma crença religiosa para se fazer tudo isto. De acordo. Muitos ateus o fazem também. Não é isso que está aqui em causa. O que está em causa é que as crenças religiosas não se exprimem apenas em forma de caricaturas, mas também no empenho consciente, responsável e deliberado de muitos crentes nas mesmas batalhas de todos os homens e mulheres que não esperam que sejam os deuses a resolver os problemas que lhes competem a eles resolver.

Acredito no realismo e no bom senso das pessoas que criaram a nova associação e espero, por isso mesmo, que predomine na intervenção prática da mesma associação não o interesse em aumentar a crispação existente na sociedade portuguesa, mas sim em promover a paz, a tolerância e a justiça juntamente com todos os homens e mulheres que têm essa filosofia de vida, independentemente das suas crenças, religiosas ou outras.

10 comentários:

Helder Sanches disse...

Caro Alfredo Dinis,

Preocupa-me que seja essa a imagem que tem do Portal Ateu. Naturalmente, teremos que apontar os pontos fracos das religiões, aqueles aspectos desnecessários à fé honesta, individual e sentida.

Compartilho consigo alguns dos receios que expressa em relação a esta nova associação; daí ter optado por esperar para ver. No entanto, não tenho dúvidas de que é indispensável à nossa sociedade a existência de uma organização que seja a voz dos que não crêem e não temem afirmá-lo.

Resolver as questões que a humanidade enfrenta, conforme refere, não compete apenas nem aos ateus, nem aos crentes, nem à ONGs, nem a ninguém especificamente. Compete a todos e em igual medida. Pela parte da AAP, certamente que contribuirão à sua medida para tal.
Não percebo porque não encontra essa perspectiva na associação.

Cumprimentos.

alfredo dinis disse...

Caro Helder,

Obrigado pela sua resposta.
Estou um pouco intrigado pelo facto de a criação da Associação não merecer particular interesse pelos visitantes do portal ateu.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Helder Sanches disse...

Caro Alfredo,

A julgar por mim, os ateus não são associativistas por natureza. Talvez essa seja a nossa maior fraqueza. ;)

adao pinho cruz disse...

Há muito tempo que deixei de discutir fé e religião com gente crente. Dogmas e argumentos condicionados não são permeáveis à razão, e as conclusões são sempre frustrantes. Sou ateu, rigorosamente ateu, mas já fui crente. Esta parte negativa da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade de um certo obscurantismo e a aliciante liberdade da possível felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice. A paz nascida da libertação de todas as angústias metafísicas, em favor do valor da vida e da força projectora da curiosidade humana, a paz e a serenidade de uma total descrença mística constituem a grande oferta que a vida me fez.

alfredo dinis disse...

Caro Adão,

Apreciei sinceramente a sua intervenção porque vejo nela uma grande frontalidade, transparência e honestidade, valores que muito admiro. Não pretendo ‘discutir’ consigo sobre questões de fé e de religião, uma vez que da sua parte também não o pretende. Mas gostaria de saber se não estaremos mais próximos quanto às nossas não-crenças do que possa julgar.

O Deus que muitas pessoas rejeitam é de facto um Deus inacreditável. Um Deus-ditador que impõe leis e normas absurdas e opressoras. Um Deus-polícia que vigia cada um dos nossos passos e pensamentos para nos punir já neste mundo e, depois, nos lançar para sempre nas profundezas do inferno. Um Deus-tapaburacos, ao qual é necessário recorrer para explicar os mistérios da natureza e do universo que a razão e a ciência ainda não conseguem explicar. Um Deus-indiferente ao sofrimento da humanidade e às injustiças que sofrem os mais débeis e marginalizados da sociedade. Um Deu-violador das leis da natureza para se divertir a fazer milagres que nos confundem e nos obrigam a acreditar que ele existe. Um Deus-alienante, que dispensa os seres humanos de se empenharem a sério na solução dos problemas deste mundo e os convida a andarem com os olhos postos num ‘outro mundo’. Um Deus-castrador que impede os seres humanos de pensar, de questionar, de se interessarem pela beleza do universo em que vivem….

Meu caro Adão, se este é o Deus em quem não acredita, então já somos dois!

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

António Parente disse...

Caro Alfredo Dinis

Qual é o Deus em que acredita?

João Delicado sj disse...

Dois comentários:

1.Acho curioso que haja qualquer tentativa de associativismo no campo do ateísmo:

a)porque é curioso que se juntem pessoas à volta de uma motivação negativa (por ex. não imagino ninguém a criar uma associação de não crentes da vida extra-terrestre);

b)porque a variedade de ateísmos é tão grande que com certeza é mais difícil de associar do que as religiões mais diferentes. E isso, naturalmente, dificulta que se juntem. Afinal: em que acreditam aqueles que não acreditam? É mais difícil de definir do que a fé de qualquer religião.

2.Das conversas que vou tendo em ambiente aberto e cordial com ateus vou chegando à conclusão que, embora afirmem convictamente "não acredito em Deus", o que a maioria realmente quer dizer é "não acredito na imagem de Deus que tenho" - o que quer dizer ainda "não dou crédito a esta imagem de Deus".

E normalmente essa imagem de Deus que têm é de facto assustadora. Isto faz pensar que nesses casos ainda bem que não se acredita em Deus.

E faz pensar ainda que muitos ateus têm como motivação profunda (mesmo que inconsciente) uma repugnância provocada por algum acontecimento ou situação traumáticas e que lhes deixaram como marca um horror à ideia de Deus. Daí a necessidade em se afirmarem contra Deus. E do horror a Deus até às contruções racionais que o justificam é só um saltinho (quase) imperceptível!

A irritação que vem ao de cima em muitas destas conversas é sintomático de que, mesmo estando a esgrimir argumentos racionais, o que está a acontecer de facto é que se estão a remexer feridas antigas.

Por isso é importante ganhar consciência das nossas motivações mais profundas. Só aí percebemos o que nos move a rejeitar ou a aceitar.

Cumprimentos a todos e obrigado por este diálogo.

[e não queria deixar de lado a pertinente pergunta colocada a Alfredo Dinis: em que Deus acredita?]

freefun0616 disse...

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sidónio silva disse...

Eu não acredito porque acreditar é um acto estúpido. Pode parecer que estou a ser indelicado para os crentes, mas não. Se se disser, por exemplo, que é uma acto de estupidez fumar não se está a chamar estúpido a quem fuma. À crença oponho o conhecimento baseado num estudo metódico. E conheço a história, e como, por alturas do neolítico, o homem começou a criar deus, "à sua imagem e semelhança" como gostava de dizer Freud, glosando a bíblia das três maiores religiões ocidentais - hebraico, cristianismo e moçulmanismo. E, para falar do absurdo destas religiões, e apenas no âmbito da história,basta dizer que a criaçao, por deus, do universo e do homem é feita apenas no início do neolítico,quando o homem "inventa" a agricultura e a pastorícia,aprendendo a cultivar plantas e a domar animais, e deixando a vida de recolector e caçador em que havia vivido ao longo dos cerca de 200.000 anos anteriores. Adão vive, simbolicamente, nesta passagem, o éden inicial simboliza o paleolítico e a condenação ao trbalho "com o suor do seu rosto" é o neolítico que se lhe seguiu. Os seus dois filhos, já são lavrador um e pastor outro. Assim,há o absurdo de deus ter criado o homem há uns 9.000 anos (o neolítico parece ter-se iniciado efectivamente na Palestina há uns 9.000 anos, mas os judeus, apoiando-se na sua história bíblica, dizem que a idade do mundo é de apenas 5.000 e tal anos.
A criação do mundo pelo deus destas religiões é mesmo uma alegoria da revolução neolítica.
E assim foi criado o homem há 5.000 e tal anos, quando ele já vivia há 200.000. Isto, falando só do homem, não do que ele foi antes e e do universo, e apenas no âmbito da história.

Sidónio Silva

sidónio silva disse...

Eu não acredito porque acreditar é um acto estúpido. Pode parecer que estou a ser indelicado para os crentes, mas não. Se se disser, por exemplo, que é uma acto de estupidez fumar não se está a chamar estúpido a quem fuma. À crença oponho o conhecimento baseado num estudo metódico. E conheço a história, e como, por alturas do neolítico, o homem começou a criar deus, "à sua imagem e semelhança" como gostava de dizer Freud, glosando a bíblia das três maiores religiões ocidentais - hebraico, cristianismo e moçulmanismo. E, para falar do absurdo destas religiões, e apenas no âmbito da história,basta dizer que a criaçao, por deus, do universo e do homem é feita apenas no início do neolítico,quando o homem "inventa" a agricultura e a pastorícia,aprendendo a cultivar plantas e a domar animais, e deixando a vida de recolector e caçador em que havia vivido ao longo dos cerca de 200.000 anos anteriores. Adão vive, simbolicamente, nesta passagem, o éden inicial simboliza o paleolítico e a condenação ao trbalho "com o suor do seu rosto" é o neolítico que se lhe seguiu. Os seus dois filhos, já são lavrador um e pastor outro. Assim,há o absurdo de deus ter criado o homem há uns 9.000 anos (o neolítico parece ter-se iniciado efectivamente na Palestina há uns 9.000 anos, mas os judeus, apoiando-se na sua história bíblica, dizem que a idade do mundo é de apenas 5.000 e tal anos.
A criação do mundo pelo deus destas religiões é mesmo uma alegoria da revolução neolítica.
E assim foi criado o homem há 5.000 e tal anos, quando ele já vivia há 200.000. Isto, falando só do homem, não do que ele foi antes e e do universo, e apenas no âmbito da história.

Sidónio Silva