8 de junho de 2008

Razão versus Sentimento



Os sentimentos expressam estados interiores que podem desencadear determinadas acções e interferir com outras. O homem é um ser de sentimentos pois não é indiferente ao mundo que o rodeia. Experimenta no seu mundo interior, que poderíamos denominar de invisível, uma vez que está vedado aos olhos dos outros seres, um sem número de estados que muitas vezes nem o próprio consegue controlar. Na sua especificidade o ser humano torna-se como que uma presa vulnerável perante o contexto em que se insere. Por mais que se esforce o homem nunca conseguirá libertar-se da influência que estes estados interiores lhe provocam. É algo inerente à própria condição humana. Será isto uma limitação quando se parte para o conhecimento?

Segundo muitos pensadores os sentimentos são um alvo a eliminar pois podem deturpar seriamente uma análise. Bastaria aqui recordar Martin Heidegger que na sua busca filosófica afirma que “mesmo os mais belos sentimentos não pertencem à filosofia.” Para se atingir um conhecimento verdadeiro teríamos então que pôr de lado todo e qualquer estado emocional que pudesse afectar a nossa perspectiva. No entanto, este filósofo, diz-nos que é necessário que nos deixemos tocar pelo objecto que queremos conhecer. Para chegar ao real precisamos de ter relação com ele. Ao defender esta tese, Heidegger, parece entrar em contradição. Mas não será todo o conhecimento objectivo fruto de uma análise que parte da nossa subjectividade? Não será esta proposta demasiado exigente para o ser humano?

Geralmente os filósofos da corrente racionalista afirmando o primado da razão entendem que os sentimentos pertencem ao campo do irracional e, como diria Voltaire, “A razão consiste em ver sempre as coisas como elas são.” Ou seja, aqueles que fazem a sua análise do mundo carregados com toda a sua carga afectiva e emocional não estarão a ver as coisas como elas são.

Acredito que alguns estados emocionais podem, efectivamente, deturpar a percepção de uma realidade. Percebo alguns dos fundamentos presentes nos pensadores racionalistas. Todavia acredito que só em estados de extrema dominação dos sentimentos sobre o indivíduo podem conduzir a uma efectiva alteração do real. O homem em si não pode libertar-se de todo e qualquer estado emocional. A razão, definida como uma estância superior aos sentimentos, deixa de ser componente ou exercício humano. O caminho aqui é aceitar e integrar os sentimentos dentro da própria razão, pois também ela, parece-me, vive de estados emocionais. O desejo de conhecimento, que é causa precedente da razão, pode ser definido como um sentimento. Um homem liberto de sentimentos nem sequer poderia exercer a razão, muito menos chegar ao conhecimento da realidade. No seu estado de indiferença a razão acaba por estar a usar de um sentimento de apatia em relação ao objecto do seu conhecimento.

Em Hegel vemos uma tentativa de integrar os sentimentos e os estados afectivos na construção racional. Segundo este autor o homem, deixando-se conduzir pelas suas paixões e apetites, acaba por cumprir, sem o saber, os desígnios da razão. Toda a história humana é conduzida por paixões, necessidades, desejos, estados afectivos vários que se transformam no autêntico motor de toda a acção do homem. Um indivíduo concebido sem sentimentos não teria qualquer motivação para pensar sequer em filosofar.

A razão, acredito eu, não é incompatível com os sentimentos. O conhecimento da realidade transcendente só pode vir da nossa visão transcendental. Talvez esta minha perspectiva possa ser demasiadamente husserliana, todavia não encontro outra justificação para o conhecimento. Faz-me lembrar o exemplo do quadro no qual eu sou um pequeno ponto. Estando inserido em determinado contexto e influenciado por múltiplas situações limito-me à visão que posso ter. Nunca poderei sair do quadro para ter a visão da totalidade e poder explicá-la. Tenho que limitar-me ao que posso alcançar. É natural que uma pessoa que vê um pinheiro pela primeira vez conseguirá reparar num sem número de pormenores que, à partida, um indivíduo que nasceu e viveu toda a sua vida junto a um pinhal não conseguirá captar. Contudo, esta diferença de visões poderá implicar que um atinja mais a realidade que outro? Não captarão ambos a realidade apesar de terem perspectivas diferentes? Portanto o estado racional proposto pelos filósofos racionalistas parece-me uma utopia. É tudo uma questão de conceitos e da sua definição. Cada filósofo define “sentimento” segundo o seu ponto de vista, cada um tem a sua definição de “real”. Isto complica qualquer análise crítica.

Vale a pena questionar este preconceito da razão para com os sentimentos, ou então, delimitá-lo a certos estados afectivos que, de facto, se não bem avaliados podem perturbar a visão da realidade. Que seria o homem se usasse apenas esta “razão”? Que vida seria a nossa? Poderia o ser humano suportar a dureza desta “razão” esvaziada de sentimentos? Para ter uma visão segura da realidade vale a pena integrar estes dois pólos, que não são opostos, mas que se complementam. Não me parece, assim, haver um primado da razão sobre os sentimentos. Vale a pena pensar nisto.


6 comentários:

Anónimo disse...

Um dia antes de ler este post fiquei absorta nos meus pensamentos e peguei no´lápis. Saiu isto que não é de maneira nenhuma um comentário ao post.São sentimentos muito intimos meus.

Há laços que acorrentam
E não me deixam voar
Estão presos de sentimentos
Que não sei expressar

Estão prisioneiros
De emaranhadas emoções
Que quero libertar
Mas não encontro soluções

Voar, pairar,amar
Neste mundo imanente
Abraçar o cosmo,
Ao Deus sonhar
E não vegetar na corrente

Uma leveza infinda
Acima deste sulcar
mas habitas esta terra
Vives de ilusões ainda
Neste peregrinar

Um abraço maria

Rui disse...

Como disseste, a falta de sentimentos, muito provavelmente iria fazer com que nem sequer nos interessássemos pela filosofia. Este explorar, este questionar é realmente uma paixão que temos. Em relação à relação estabelecida pelo objecto, é algo bastante subjectivo, como tu disseste. Pegando em Descartes, o que recebemos dos sentido, pode ser um verdadeiro engano. Podemos estar completamente enganados em relação ao que supostamente estamos a ver.

viviane monteiro disse...

A razão consiste em emaranhadas situações voltadas ao sentimento mais arrebatador do ser humano,"O AMOR".Diante deste sentimento arrebatador, deve haver uma razão perceptível ao homem,haja qual não o entorpeça em meios a inúmeros estados de êxtases..

freefun0616 disse...

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Mc Wellytynhu disse...

Gostei muito desse tópico de Razão versus Sentimento, a filosofia faz com que nós pensamos muito, e adquirimos cada vez mais conhecimento, foi um bom tópico para o meu trabalho de filosofia do 2º ano do ensino médio, fez com que eu entendesse e tivesse ideia de como explicar os 2 artigos juntos e corretos, Obrigado !

Mc Wellytynhu disse...

Gostei do tópico muito bom !