9 de outubro de 2008

Carta a Sto Inácio de Loyola (II/III)

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Vejo despida, no meio de terra batida, uma lápide erguida ao jesuíta P. Hoffmann. Na lápide da tumba do europeu só há gravadas letras da Índia onde ele viveu e se ofereceu para trabalhar pelo Reino. No cimo da lápide há uma cruz… parece a única coisa ocidental, mas nem isso é! Sinto a Companhia como um corpo expropriado de si próprio, que não vai para a Missão em seu nome, mas em nome de Jesus por aqueles a quem há de servir, ao ponto de serem estes a falar dele na sua própria língua. Penso que era isto que querias quando nos propunhas que, à maneira de Jesus, fôssemos pobres e humildes ao ponto de, livres de tudo tal como o próprio Cristo humanado, incarnássemos o Evangelho nas culturas e as culturas no Evangelho.
Vejo na Coreia, vastos campos injustamente expropriados a muitas pessoas para construir um aeroporto militar. Três jesuítas, num altar improvisado sobre a terra, oferecem uma missa pelos desalojados. Sinto o desejo de sofrer com aqueles que sofrem na pele a injustiça por causa da (in)justiça de outros. Penso que quando sugeres nos Exercícios Espirituais que nos associemos aos sofrimentos de Cristo sofredor também nos convidas a que nos associemos ao sofrimento de cada pobre onde Cristo, o crucificado, sofre.
Vejo no México, uma criança numa Via-Sacra a fazer o papel de Jesus com uma cruz às costas. Sinto que ao acolher esta criança a Companhia está no fundo a tirar-lhe a grande “cruz” que é não ter consigo o pai que, ilegalmente emigrado, foi à busca de emprego. Penso na gratuidade de darmos o que de graça recebemos. Dar o nosso tempo gratuitamente a cada pessoa pode ‘mover mais montanhas’ que todas as corridas do mundo. Era nisto que pensavas quando, alojado, servias nos hospitais por onde passavas?
Vejo Aldo Giachi. Jesuíta italiano. A cadeira de rodas sobre a qual se movia não foi impedimento para querer e ir como missionário para o Chile. Sinto pequenez e admiração diante de este calibre de homens que nesta mínima Companhia não buscaram em nada ‘felicidades privadas’, mas jogaram-se completamente na glorificação do Pai. Penso no desejo teu de que nos libertássemos do nosso querer e interesse e que nos abandonássemos ao querer e interesse de Nosso Senhor.
Vejo dois homens a portar traves de madeira aos ombros. Um deles é jesuíta! Está a trabalhar na Indonésia em Papua com alguns trabalhadores explorados pelas injustiças humanas. Sinto que ser Cristo para os outros é uma atitude interior que se ultrapassa completamente a si própria. “O Cristo vivente faz-se apostólico!”[1] O jesuíta que aparece na foto não está a fazer nenhuma prova… está a ser Cristo, ao lado dos que sofrem! Penso que servir os homens e quebrar as cadeias de injustiça também era o que o Pai te pedia em La Storta quando queria que O servisses.
Vejo um velho de barbas. Cruz castanha ao peito salientada pela camisa branca que a ampara. Por de trás dos óculos lança os olhos atentos para os dois túneis de um microscópio. É o P. Adolfo Fontes. Na estação biológica da Nicarágua observa exemplares de novas espécies de minúsculos moluscos. Sinto vontade de também olhar e contemplar esse Deus cósmico plenamente presente em cada coisa! Penso que a experiência de Deus de um ‘contemplativo na acção’ não se pode fechar nas naves das catedrais. Também devemos fazer a experiência de Deus em qualquer trabalho que seja, para assim podermos achar em tudo um anúncio da Sua fantástica vinda, que é já!, que é constante em todas as coisas, pois em tudo Ele opera e Se digna oferecer-se-nos.

(a continuar...)



[1] Arrupe, Pedro – alocução ao noviciado português da companhia de Jesus


4 comentários:

Helder disse...

Não se pode andar só a falar de pobres, pobres e mais pobres. Jesus também comeu com os ricos.

Anónimo disse...

Em seguimento da pergunta anterior, não correm os jesuítas o risco de se tornarem, ou já se terem tornado, numa ong de padres com tendências de esquerda?

Missé sj disse...

Caro Helder, agradeço o seu comentário. Antes de mais gostaria de citar D. Óscar Romero quando diz que: “Deus quer salvar os ricos mas, precisamente por querer salva-los, diz-lhes que não se salvarão enquanto não se converterem ao Cristo que decidiu deixar-se identificar precisamente com os mais pobres”. A pobreza em sentido geral pode ter imensos significados, contudo o D Óscar referia-se precisamente à material face aos que, por carecerem de sentido, só se preocupam consigo próprios.
Creio que o sentido de uma atitude de compromisso com os mais pobres e marginalizados passa por uma leitura encarnada das bem-aventuranças. O acento não está na bem-aventurança dos pobres por serem pobres, mas porque deles é o reino de Deus. Do mesmo modo, os que choram não são bem-aventurados por chorarem mas porque serão consolados. Esta leitura implica-nos na salvação/consolação de todos os que sofrem, porque somos extensão da acção de Deus se formos premiáveis a Sua acção em nós. Não quer dizer que a pobreza se cinja à materialidade mas o compromisso com os mais pobres reside na continuação da missão d’Aquele cuja missão era a de “anunciar a boa nova aos pobres” à luz do Espírito do Senhor que sobre Ele repousava e por isso não só a partir da sua concepção de uma determinada classe social mais desfavorecida. É missão e não convicção.

Quanto à pergunta que compara os jesuítas a uma ong com tendências esquerdistas gostava de dizer que percebo a pergunta porque de certa forma pode dizer-se que houve alguns exageros da parte de alguns padres e leigos que, desejosos de instaurar o mesmo Reino pelo qual trabalhamos, quiseram fazê-lo de uma forma por vezes violenta e/ou politizada depois de terem considerado esgotados todos os meios pacíficos face a opressões reais quanto a maiorias empobrecidas. Contudo vou-lhe responder citando uma pessoa essencial para a Companhia e uma muito importante na sua história: Jesus Cristo e o Pe. Pedro Arrupe.
“Quem não é contra nós é por nós” Se alguém está igualmente preocupado com a vida de uma pessoa a quem lhe são negados princípios básicos, quer seja de direita ou de esquerda, temos que dialogar com ela e não rejeitarmos o trabalho do Espírito Santo que trabalha não nos que têm noções de fé, mas podem estar acomodados, mas nos que O buscam de coração sincero, mesmo chamando-Lhe outros nomes. Tudo isto sem esquecer que, como dizia o Pe. Arrupe, “a Companhia é do evangelho e por isso não se casa com nenhum partido político ou ideologia”.

freefun0616 disse...

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