9 de outubro de 2008

Carta a Sto Inácio de Loyola (III/III)

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Vejo três jesuítas sentados num sofá. Os três estão empenhados na luta contra a SIDA (quando não estão sentados no sofá). Um deles, com um aspecto mais duro, está com uma sóbria camisa africana. O seu olhar demonstra sabedoria e cautela. Ao seu lado, num tom inteiramente ocidental, um outro jesuíta ao qual prende o olhar simples e desinteressado. De aspecto calmo e atencioso. O terceiro usa uma africana camisa verde florescente com um elefante ao centro. Aspecto de homem com garra e desejoso de levar coisas para a frente por causa do que já viu… por causa do Reino. Sinto que estes homens não têm nada a ver uns com os outros. De facto, a nossa unidade forja-se na diversidade e é através dela que o Senhor nos suscita a busca do ‘magis’[1]. Penso no grupo dos teus primeiros companheiros. Só com Deus e por Deus é que gente tão diferente podia ter sido tão bem encaminhada.

Vejo um índio? Um índio que segue as nossas constituições e a Fórmula do Instituto… será possível? Um índio mergulhado no serviço aos mais pobres, proposto na Congregação Geral XXXII, aliás, pelo Evangelho? Sim, é o irmão Vicente Cañas Kiwxi que, vivendo como índio no meio dos índios, deu a vida por Jesus ao mostrar a justiça que nasce da fé verdadeira. Uma entrega da vida que havia de culminar numa última: o seu assassinato na Amazónia. Sinto uma presença de um Deus que necessita de, a partir de nós, usar as nossas maneiras para nos falar da Sua. Penso na quantidade enorme de companheiros nossos, que já gozam contigo das alegrias da PRESENÇA, por se terem entregue completamente ao serviço destes mais pobres e injustiçados.

Vejo de olhos cerradíssimos, de mãos expressivas e insaciadas com o que diz a um microfone frente a milhares de pessoas, o P Alberto Hurtado. Sinto cravado nas suas expressões o desejo enorme de instaurar uma “ordem social cristã”, no fundo construir o Reino não como um conjunto de perspectivas interiores, mas como uma realidade interna que não consegue nada mais senão extravasar-se. Penso nas palavras do próprio P. Hurtado: “Que faria Cristo no meu lugar?” Penso neste Cristo… o libertador das estruturas injustas.

SONHO… sonhar a Companhia é difícil, aliás, julgo mesmo impossível! Isto é, não somos mesmo nós que devemos sonhar a Companhia, mas sim sonhar as formas de pôr em prática os sonhos d’Aquele que aqui nos congrega: O Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, pobre e humilde, Rei e Senhor nosso! E isto é muito concreto, é a responsabilidade do apóstolo diante do mundo! De nós muito depende porque d’Ele tudo depende!

Somos um corpo de pecadores, o que me faz não me sentir estranho aqui, mas também me faz ver que o pecado não é de Deus e destrói o mundo, como Reino em fermentação. E sempre que a Companhia pecou foi precisamente por se adiantar aos sonhos de Deus para ela própria e para o mundo.

Contudo parece-me para a Companhia, como alguém que faz parte dela, Deus sonha com contemplativos na acção. Sonha com uma acção que provenha cada vez mais dos Seus sonhos, os que contemplamos na intimidade. Acção que transmita esse Deus contemplado! Uma Companhia que, com a agilidade do apóstolo, aceite e dê o peso devido às humilhações e aos elogios, por amor do Nosso Senhor. Sem medo de falar, com coragem de esperar, com a humildade para calar. Mais uma entre muitos que procuram trazer o Reino sem se achar descobridora da pólvora!

Mas sou um miúdo filósofo e o que espero agora é imprimir duas vezes esta carta que te escrevo para que uma seja para tu leres e outra para eu ler daqui a uns anos afim de me rir de algumas coisas que dizia e de me interrogar se vivo aquilo que sonho. O futuro… o futuro da Companhia não depende dela própria, está no seio do próprio silêncio comunicador da liberdade profunda de Deus. N’Ele tudo! Afinal ‘assim como O Eterno Senhor de todas as coisas nos deu a graça para desejarmos viver como Ele e assim nos oferecermos, dar-no-la-á também abundantemente para até ao fim o cumprirmos.”[2] E que assim seja para nós enquanto Deus e o universo de nós precisarem.


Abraço em Cristo Jesus, Nosso Senhor


Missé sj




[1] Magis é um termo latino que significa Mais. É um termo usado por Santo Inácio e muito querido na espiritualidade inaciana como aprofundamento constante e interno da identificação com Jesus.

[2] Inspirado na fórmula dos votos feitos na Companhia de Jesus