21 de outubro de 2008

Jornada Fé e Ciência

A Jornada Fé e Ciência que se realizou no passado sábado na Faculdade de Filosofia deixou em todos o sentimento de que valeu a pena. Não trato aqui de contabilizar resultados, nem vitórias nem derrotas. O espírito da Jornada foi o de permitir que pessoas de diferentes perspectivas se encontrassem para se ouvirem reciprocamente.

Na parte da manhã, a leitura de um texto de Desidério Murcho, impedido de participar presencialmente, introduziu-nos no conceito de ‘racionalidade distribuída’, uma concepção de racionalidade que coloca as crenças ‘na praça pública para discussão aberta’, oposta a um tipo de racionalidade que se fecha à crítica e ao confronto com outras crenças. “A racionalidade está claramente relacionada com a justificação”, mas também, afirma Desidério, “é importante não pensar que a racionalidade é algo como a infalibilidade ou a garantia de verdade.”
Ainda de manhã, a conferência de António Rañada centrou-se em alguns aspectos da mecânica quântica, e a discussão sobre eles acabou por polarizar o debate.

Da parte da tarde houve sessões paralelas em que diversos participantes nas Jornadas tiveram a possibilidade de expor as suas teses.
Em seguida, Agustín Udias falou sobre a relação fé-ciência, e Ludwig Krippahl procurou mostrar que a metodologia científica prova que a crença em Deus é uma hipótese que não tem justificação racional.

A argumentação de Krippahl partiu de diversos pressupostos insustentáveis:
1- a crença em Deus e a própria existência de Deus é uma hipótese empiricamente testável;
2- as narrações mitológicas presentes em todas as religiões, devem ser submetidas a uma crítica científica;
3- uma vez provada a não sustentabilidade das narrações mitológicas de uma religião, pode-se negar a sustentabilidade de todas as demais narrações dessa religião, incluindo as de carácter factual;
4- termos como ‘ciência’, ‘Deus’, ‘realidade’, etc, não necessitam ser definidos;
5- o termo racionalidade aplica-se apenas à metodologia científica;
6- qualquer pessoa que assuma uma crença religiosa deve necessariamente rejeitar como falsas todas as demais crenças religiosas.

Krippahl argumentou tranquilamente utilizando expressões como ‘correspondência com a realidade’ considerando que nem o termo ‘correspondência’ nem o termo ‘realidade’ necessitam ser definidos. Creio no entanto que Krippahl utilizou necessariamente todos os conceitos presentes na sua argumentação com um sentido preciso, e nos convidou, consciente ou inconscientemente, a aceitar esse sentido e não outros, sobretudo outros que estivessem em contradição com a sua cadeia argumentativa.

Ao ouvir a exposição entusiástica de Krippahl, veio-me à mente a enigmática proposição de Wittgenstein: “Sentimos que, ainda que a todas as possíveis questões científicas fosse dada resposta, os nossos problemas vitais não teriam sido tocados. Sem dúvida, não cabe mais pergunta alguma, e esta é precisamente a resposta.” (Tractatus 6.52)

O que mais me impressiona em Krippahl é a sua atitude de quem tem tudo claro na sua mente, de quem não tem qualquer dúvida seja sobre o que for, e que em matéria de religião já provou tudo o que havia a provar. Não tenho essa pretensão.
Como crente, não tenho a pretensão de ter provado seja o que for, tenho a sensação da grande limitação do meu conhecimento, e que a minha argumentação nunca será nem filosofica nem cientificamente conclusiva, por muito que isso me fosse agradável.

Alfredo Dinis

21 comentários:

Xiquinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

Obrigado por partilhar connosco as suas dúvidas e as certezas do Krippahl. Ao ler a enigmática proposição de Wittgenstein, veio-me à memória uma outra de Fernão de Magalhães, esta bem menos misteriosa: “Eu sei que a Terra é redonda porque vi a sombra dela na Lua e eu acredito mais numa sombra do que naquilo que diz a Igreja”.

Ora eu também prefiro as certezas do Krippahl, às dúvidas na Igreja. Será por uma questão de gosto? Talvez… Mas com as certezas do Krippahl, nunca veio mal nenhum ao mundo, ao passo que com as dúvidas da religião, (e hoje porque me sinto generoso não vou acrescentar, católica), é o que se vê…

Um abraço do Xiquinho

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Obrigado pelo seu comentário.
Se ler com atenção os grandes cientistas, incluindo os não crentes, verá que nem todos têm tantas certezas como o Ludwig. Porque será? Serão menos inteligentes? Menos informados?
Quanto 'ao que se vê' no que se refere às dúvidas da religião, quer explicitar 'o que se vê?'. Não chego a compreender o que quer dizer.
Obrigado.

Saudações,

Alfredo Dinis

António Parente disse...

Caro Alfredo Dinis

Compartilho da sua perplexidade em relação ao pensamento de Ludwig Krippahl.

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

Eu é que agradeço a sua resposta. O que se vê é que das certezas do Ludwig nunca veio mal nenhum ao mundo e tomara podermos dizer o mesmo das (in)certezas das religiões. Cada uma assumindo-se com guardiã da “verdade absoluta” não consegue mais do que semearem ódio e a discórdia por todo o mundo, sem nunca termos visto ninguém intervir para evitar os desvarios que são sempre cometidos em nome Dele.

Vê-se cristãos a matar árabes, árabes a matar judeus, hindus a matar budistas, sunitas a matar xiitas, muçulmanos a matar ortodoxos, e alista podia continuar interminavelmente… Até mesmo na nossa vizinha Irlanda, os civilizados católicos e os civilizados protestantes se esqueceram do mais importante ensinamento de Jesus.

Eu não sendo cientista, nem muito culto, tão pouco muito inteligente partilho das certezas do Ludwig. Sobretudo da certeza que o mundo seria um lugar bem melhor se todos partilhássemos das certezas dele.

Renovado abraço do Xiquinho

Anónimo disse...

Caro Xiquinho,

Esqueceu-se de dizer que, olhando para a história, em nome das certezas: “vê-se ateus matarem cristãos”. De facto, podias “continuar eternamente”. O problema é que existem guardiões da “verdade absoluta” tanto em ateus como em crentes.

Parece-me que um mundo cheio de pessoas que partilhem as certezas do Ludwig não seria um lugar bem melhor. Seria bem melhor se, tanto ateus como crentes, em vez de se fecharem nas suas certezas, “procurassem” mais. Não encontro essa atitude no Ludwig.

Saudações

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

As guerras religiosas raramente são puramente religiosas. Têm sempre componentes políticas, económicas, étnicas, etc. Atribuir à religião a guerra entre católicos e protestantes na Irlanda do norte, por exemplo, não corresponde à verdade histórica. Os protestantes, oriundos da Escócia, na sua maioria, queriam permanecer ingleses. O Exército de Libertação da Irlanda, tinha uma natureza marxista e queria unificar a Irlanda para nela instaurar uma república popular comunista, perdendo os escoceses a sua nacionalidade inglesa. O facto de os membros deste Exército serem católicos não tem a ver com a sua fé, mas simplesmente com o facto de terem nascido num país católico. O Exército não conduziu uma guerra religiosa mas política e ideológica.

Deixar a humanidade entregue apenas à ciência seria uma boa ideia? Não foram os cientistas que construiram a bomba atómica? Dir-me-á que foram os políticos que a fizeram explodir. Sim, mas os cientistas que permitiram a sua construção sabiam perfeitamente qual o uso que os políticos lhe iriam dar, ou não?

O Xiquinho refere apenas os aspectos negativos das religiões. Não lhe parece que há também aspectos positivos, e que estes poderão ter uma importância muito maior que os negativos?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

Eu acho é que as guerras raramente não têm motivações religiosas. Embora concorde que algumas tenham outras motivações, políticas ou económicas, a esmagadora maioria tem por base motivos religiosos porque é isso que a religião provoca: a separação entre os povos em vez da união.

Referi-me à Irlanda apenas para dar um exemplo de que os cristãos, nem entre eles próprios se conseguem entender: o conflito, apesar de mais tarde ter envolvido componentes políticas, tem origem muito antes 1960, que foi mais ou menos quando o IRA desenvolveu a vocação marxista que o Alfredo refere. Para termos em conta a verdade histórica, já muito antes disso, teríamos de recuar até 1640, que foi mais ou menos quando católicos e protestantes se começaram a matar uns aos outros, apenas por uns eram católicos, e os outros protestantes. Por isso é dificil de afirmar que o conflito que se arrastou até ao séc. XX não tem a sua génese em convicções religiosas. Ou veja-se o caso dos ortodoxos e católicos, que há mais de 1000 anos que se entretêm a excomungarem-se uns aos outros, o que só comprova o meu ponto: a religião divide muito mais do que une.
Terá ela aspectos positivos? Alguns, não duvido, mas na minha opinião, insignificantes, quando comparados com a quantidade de malefícios que tem trazido.

Já quanto à bomba não me parece o exemplo mais indicado para comparar com as certezas do Ludwig. Se eu fosse cínico, até teria de concordar com muitos historiadores que defendem que foi ela que permitiu a sobrevivência da Europa durante a guerra fria. E repare-se que até hoje, a sua utilização apenas foi feita pelos políticos da nação que orgulhosamente se diz “founded under God”… O que não diriam certos comentadores anónimos, que sem mencionar factos acusam os “ateus de matar cristãos”, se em vez desses politicos cristãos tivessem sido os políticos ateus da defunta união soviética os autores de tamanha proeza…

Renovado abraço do Xiquinho!

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

Numa resposta no blog do Ludwig disse: "A ressurreição de Jesus e a assunção de Maria ao céu não são acontecimentos testáveis. Não sei que ideia fazes da ressurreição de Jeus, mas ela não foi certamente a reanimação do corpo morto na cruz, nem a sua aparição aos discípulos foi do género de poder ser fotografada ou filmada se tal fosse possível na altura."

Nunca tinha ouvido tal coisa e gostava que explicasse melhor estas afirmações.
Concordamos que os ditos milagres que acontecem hoje em dia podem ser testados científicamente, no sentido em que posso dizer científicamente por exemplo esta pessoa tinha cancro e agora entrou em remissão? Porque é que não poderia dizer cientificamente que numa altura Jesus estava morto e depois Jesus passou a estar vivo?

Cumprimentos

PS - passei esta citação para aqui porque achei que a minha mensagem no blogue do Ludwig se podia perder no meio de tantas mensagens.

António Parente disse...

Xiquinho

Não deturpe a história da Irlanda a seu belo prazer. Se quer recuar então vá até ao Século XII quando tuo começou. Deixo-lhe dois pequenos textos para o ajudar. O resto investigue por sua conta. Tenha curiosidade intelectual. Vá mais adiante.

"Para compreendermos o problema [da Irlanda do Norte], temos que buscar suas raízes no século XII, quando começou a conquista inglesa do território irlandês e a partir de então podemos perceber que o problema não é religioso, pois nesse período não havia "protestantes". O que estava em jogo era o aumento do poder real, no contexto da crise feudal e do início do processo de formação da Monarquia Nacional. Para Henrique II, a conquista de territórios significava o aumento de seu poder, uma vez que, a nobreza irlandesa tornava-se vassala do rei e consequentemente passava a lhe dever benefícios, tanto em gêneros, como em tributos ou inclusive em homens para a formação de exércitos. Desde 1175 o rei impôs seu poder através da Tratado de Windsor, a partir do qual passaram a valer as leis inglesas para a Irlanda.
O domínio da Inglaterra retraiu-se durante os séculos XIV e XV, período de crise decorrente da Guerra dos Cem Anos (1337 - 1453) contra a França; e da Guerra das Duas Rosas (1455 - 85), que envolveu praticamente toda a Inglaterra, numa disputa entre as grandes famílias de nobres pelo poder. Após a Guerra das Duas Rosas iniciou-se a Dinastia Tudor, que centralizou o poder e, com Henrique VIII consolidou o absolutismo no país."

Mais:

"Durante o reinado de Jaime I (1603-25), consolidou-se o controle das terras pelos ingleses, em especial na região do Ulster, onde foi instituído um sistema de colonização baseado na pequena propriedade, discriminando-se os irlandeses.
A situação de exploração e miséria determinou o início de uma grande rebelião em 1641, violentamente reprimida pelas tropas de Oliver Cromwell, líder da Revolução Puritana, fanático calvinista que havia deposto o rei e proclamado a República na Inglaterra, que derrotou completamente a rebelião em 1652, quando então, a maior parte das terras passaram para a mão dos ingleses.
Até o final do século os irlandeses rebelaram-se outras vezes e foram reprimidos, consolidando-se o poder inglês. Após a derrota de Jaime II em 1690, os irlandeses viveram um período de miséria e de perseguições, responsável pelo desenvolvimento de um maior sentimento nacionalista e católico, uma vez que a repressão inglesa passou a estar associada à religião "protestante"."

Marco disse...

Sempre filmaram a conferência?
Se sim, vão colocá-la no YouTube?

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Podes crer que sempre que há um conflito, seja de que natureza for, há crentes envolvidos na procura da paz, em nome da sua fé. Mesmo quando um conflito é abertamente de natureza religiosa - não creio que isto aconteça na maioria dos casos, mas não tenho dados objectivos sobre isto - há crentes de ambos os lados a trabalhar pelo fim desse conflito. Há pessoas crentes - leigos, padres, bispos - que servem de mediadores em muitos conflitos. A Comunidade de Santo Edídio, em Roma, por exemplo, tem sido mediadora em conversações entre beligerantes, por exemp+lo em África, que têm conduzido à paz. Os exemplos não são tão poucos que não mereçam ser tomados a sério. As lutas entre católicos e protestantes pertencem ao passado, o mesmo acontecendo com as excomunhões recíprocas entre católicos e ortodoxos.

Estou certo de que os conflitos religiosos ainda existentes terminarão dentro de uma ou duas décadas.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Gonçalo,

Acontecem curas 'milagrosas' em ambientes não religiosos, incluindo a cura de cancros, sem que a pessoa tenha que acreditar em Deus ou pedir-lhe a cura.

Na concepção da Igreja Católica, o essencial do milagre, termo que signiica 'sinal', não está no facto de algo de inexplicável acontecer, mas no facto de algo de extraordinário acontecer como sinal da presença de Deus. Esta definição de milagre permite acreditar nos milagres de Jesus, mesmo que hoje a medicina mostre que algumas situações que se identificavam com possessões demoníacas não passavam de ataques de epilepsia. O facto de ser epilepsia ou possessão demoníaca é inteiramente secundário. O facto de a pessoa doente se sentir curada pela presença de Jesus é que é o sinal que constitui o milagre.

Considero que amar os inimigos, socorrer os necessitados, para só dar dois exemplos, são certamente milagres maiores do que, por exemplo, encontrar um emprego por intercessão de um qualquer santo.

Quanto à ressurreição de Jesus, sabemos muito pouco como aconteceu. Mas sabemos que a ressurreição, tanto a de Jesus como a nossa, não é um regresso à vida biológica anterior à morte. Quando se fala da 'ressurreição de Lázaro', estamos, de facto, a falar da 'reanimação de Lázaro', o que é muito diferente.

Cristo Ressuscitado era certamente a mesma pessoa que vivera com os discípulos, mas não se lhes manifestou da mesma maneira que antes da sua morte. As narrações sobre as aparições de Cristo ressuscitado não constituem um manual de teologia sistemática, são narrações soltas, passadas a escrito por diferentes pessoas e em diversos contextos. Todas elas significam apenas que Jesus não foi vencido pela morte, que continua a viver, mas agora não encerrado, como nós, no espaço e no tempo.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Marco,

A Jornada Fé e Ciência não foi filmada. O Ludwig gravou em audio a sua comunicação e tirou algumas fotografias. Prometeu colocar este material no seu blog www.ktreta.blogspot.com.

Saudações,

Alfredo Dinis

Xiquinho disse...

Estimados Alfredo e António,

Eu aceito que o conflito tenha tido origens mais antigas e mesmo que as suas motivações não tenham sido puramente religiosas.

No entanto o que eu também gostaria de os ver aceitar é que hoje em dia, essencialmente, o que os divide, são as suas convicções religiosas. Apesar de já não se matarem à escala de antigamente, continuam divididos e isso é inegável.

Por isso é que afirmo que além de constituírem um factor de divisão, as religiões revelam aqui também outra característica: a sua inutilidade; se os católicos e protestantes irlandeses seguissem verdadeiramente os ensinamentos cristãos, há muito que teriam posto de lado as suas diferenças.

O problema é que dentro da missa se comportam como muito bonzinhos, mas quando chegam cá fora, fazem precisamente o contrário do que o que ouviram lá dentro.

E assim, além de inútil, a religião revela-se também perversa: já sabemos que os homens sozinhos são capazes das maiores malvadezas, mas quando se convencem que as fazem “em Nome de Deus”, as suas torpezas atingem níveis imagináveis.

E acreditem que nada me move contra católicos ou protestantes em particular, falo destas apenas porque calhou, pois considero todas as religiões igualmente nocivas para a saúde pública.

Infelizmente, muitas vezes, os crentes olham para a sua própria religião e não conseguem ver nada de errado nela. Acham por isso que fazem parte de uma causa muito meritória. Mas esquecem-se do que o mundo sofre por causa das religiões… religiões dos outros, evidentemente…

Renovado abraço do Xiquinho

António Parente disse...

Estimado Xiquinho

Presumo que os seus conhecimentos de análise histórica sejam reduzidos. É certo que a matriz religiosa acabou por marcar o conflito irlandês. Todavia, de um lado estão os republicanos e do outro os monárquicos e nunca o vi classificar o conflito como uma luta entre republicanos e monárquicos.

Ali ao lado, na vizinha Escócia também existem católicos e protestantes. Até existem equipas de futebol que são as bandeiras de uma e de outra comunidade (Celtic e Glasgow). Toda a gente sabe, inclusivé o Xiquinho, que na Escócia não existe guerra civil. Mas isso interessa ao Xiquinho? Claro que não, porque um exemplo deste tipo já não fundamenta a tese preconceituosa do Xiquinho de que a religião é má. Existem muitos países em que a religião é maioritária e que são pacíficos. Interessam ao Xiquinho esses exemplos? Claro que não, o Xiquinho só aceita o que alimenta os seus preconceitos.

Se eu seguisse os mesmos padrões de análise do Xiquinho falava-lhe da Rússia de Estaline e da China de Mao onde o ateísmo era a religião do Estado. Protestaria o Xiquinho, eloquentemente, "que não, não senhor, nada foi feito em nome do ateísmo" e eu enviar-lhe-ia pelo correio meia dúzia de livros que comprovam as minhas teses.

Falar-lhe-ia, também dos regimes autoritários onde a religião não existe e onde a fome, a miséria e a opressão são o pão nosso de cada dia. Protestaria imediatamente o Xiqunho "que não, que não, o ateísmo não tem nada a ver com isso" e eu mostrar-lhe-ia que historicamente a ausência de religião está ligada à opressão e miséria.

Claro que cairíamos num impasse com o Xiquinho a apontar-me os exemplos maus da religião e eu os do ateísmo. No fim, talvez eu ficasse com uma ligeira vantagem.

Mas se fossemos intelectualmente honestos, eu e o Xiquinho, reconheceríamos que somos nós, eu e o Xiquinho e mais uns milhares de milhões de pessoas, que somos responsáveis pelo facto da religião ou do ateísmo ser mau ou bom, porque somos nós que construímos o mundo em que vivemos.

O que não temos direito, nem eu nem o Xiquinho, é de reescrevermos a História a nosso bel prazer para justificarmos as teses do nosso activismo militante. Não é sério nem é honesto.

Quanto à inutilidade da religião, pode sê-lo para si mas não para milhares de milhões de pessoas. Incomoda-o a religião? Azar o seu. Também me incomoda muita coisa que tenho de gramar. Eu aprendi que não sou o centro do mundo e que o mundo pouco se importa comigo. Falta o Xiquinho passar por essa aprendizagem.

Um grande abraço cheio de amizade e estima do

António Parente

luis pereira disse...

com esta resposta do antonio parente (tão genial), só posso dizer ao xiquinho: vai buscar!

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

Obrigado pela resposta. Se percebi bem a sua resposta o caso da ressureição de Jesus é especial, mas o caso da "reanimação" de Lázaro já é testável, no sentido em que poderia dizer que estava morto num dado momento e num momento posterior estaria vivo.
Posso dizer que compreendi?

Cumprimentos

alfredo dinis disse...

Caro Gonçalo,
O caso da reanimação de Lázaro é complexo, e eu não tenho uma explicação pormenorizada sobre o que se passou. O que a Igreja Católica sempre afirmou é que as pessoas que morrem não voltam a esta vida. Por outro lado, sabemos que os critérios para determinar a situação de morte têm variado ao longo da história, e também sabemos que os factos históricos tanto do Antigo como do Novo Testamento, sobretudo o conteúdo dos Evangelhos, tem muito de interpretação e de reflexão teológica. Os evangelistas, como os primeiros cristãos, não estavam interessados nos factos históricos do mesmo modo que nós estamos hoje. Os factos narrados nos Evangelhos só são interessantes enquanto transmitem uma mensagem relativa a Cristo, à sua natureza e missão. Para os primeiros cristãos, o episódio de Lázaro teve mais a ver com a ressurreição de Cristo do que com o facto acontecido com o próprio Lázaro. No tempo de Cristo, a ideia de ressurreição era pouco clara, e era relativamente recente no pensamento judaico. Mesmo na Igreja Católica, a ressurreição nem sempre foi bem entendida, e hoje muitas pessoas continuam a pensar que na ressurreição final se abrirão as sepulturas e delas sairão os corpos que lá foram depositados. Mas esta não é a ideia de ressurreição.

Para um melhor esclarecimento desta questão, poderás ler com proveito o último capítulo da obra de Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo (Edição Principia)

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

Mais uma vez, obrigado pela resposta.

Cumprimentos

freefun0616 disse...

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