30 de novembro de 2008

Ele vem aí!

"Mais uma vez!", desabafava um inconformado cristão, antecipando o tempo que hoje começa. "Todos os anos a mesma coisa. Como se já não soubéssemos que Ele vai nascer, já nasceu há uns anos atrás...". Sim, e apesar disto a Igreja insiste todos os anos num tempo chamado Advento, e que se propõe ajudar os cristãos a preparar o Natal.
Para quê estar constantemente a relembrar algo que é público e notável para todos? Não será visível? Luzes, compras, papel de embrulho, músicas melodiosas, azevinho, pinheiros, decorações multicolores... O que mais há a acrescentar? Já não será suficientemente exagerado?
A resposta para estas questões parece ser de uma evidência gritante. Divagando nas leituras deste Domingo
não posso deixar de tentar outra resposta. O Natal pode parecer uma mera comemoração se não soubermos decifrar o seu mais profundo significado. Não podemos ficar indiferentes à intensidade do grito de Isaías: "Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis!". Sim, Isaías, Ele desceu e está entre nós! Veio e ficou. Aquele que é imensamente grande, infinitamente distante da nossa pequenez, decidiu descer ao encontro da fraqueza. O Rei, monarca de todos os poderes, abandonou o seu palácio e desceu à humilde habitação do seu povo. O rico fez-se pobre; o são, doente e o ponderado transviado.
O Natal é um grito no meio do deserto, um gesto sublime cuja irreverência nos sufoca. Deus veio, fez-se um de nós, arriscou aproximar-se. Advento significa "vinda", a descida tão esperada pelo povo do Senhor. O Senhor dos tempos não ficou indiferente perante a súplica da humanidade. Aquele que tinha infinitos motivos para se sentir ofendido, rejeitado e esquecido, decidiu perdoar e caminhar na nossa direcção. Como não ficarmos estupefactos perante esta decisão! Como não nos curvarmos em todo o tempo e lugar erguendo as nossas mãos ao alto! Que amor é este que rejeita todo o orgulho ferido e se não deixa fechar na própria dor!
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; aqueles que caminhavam convencidos de que a sua vida apenas caminhava para o termo, puderam esperar; aqueles que viviam no desespero da dor já não estão sós. Os mais cépticos não podem deixar de se divorciar da dúvida. Deus fez-se homem, estendendo a mão àqueles que havia escolhido.
Chegou o momento ansiado. A espera terminou porque o Senhor se revelou, decidiu não mais ocultar-se. Está exposto na sua grandeza interminável. O menino vestido de simplicidade e pequenez está visível. Que mais poderemos desejar?
A humanidade decaída levantou-se. "Vigiai e Orai" é o apelo inexorável, que ecoa no infinito mais fundo de nós. A alegria que todos os homens e mulheres perseguem desde sempre encontrou uma resposta. Na fragilidade do Menino que está a vir encontra-se a resposta paradoxal. O Amor encarnou estalando com todo o preconceito e malícia. Já não há espaço para rancores, ressentimentos, ódios e guerras.
Queres ser feliz? Então escuta a voz profunda que vem da pequenez da gruta. Vigia e ora. Sê humano. Sê aquilo que és. Reconhece a infinidade da tua existência e abre as mãos. Abraça, levanta, procura, dá! Rejeita a tua razão sempre soberana e quebra definitivamente as cadeias do 'eu', porque Aquele que tudo era, tudo rejeitou para verdadeiramente ser.
Vive e sê! E tudo o resto virá a seguir.


Domingo, 30 de Novembro de 2008 - Domingo I do Advento
LEITURA I Is 63, 16b-17.19b; 64, 2b-7
SALMO RESPONSORIAL
Salmo 79 (80), 2ac e 3b. 15-16.18-19 (R. 4)
LEITURA II
1 Cor 1, 3-9
EVANGELHO Mc 13, 33-37

29 de novembro de 2008

Habitar novas fronteiras

Vivemos num mundo de fossos: entre ricos e pobres, entre ocidente e oriente, entre crentes e não crentes (também entre crentes de diversas religiões)... Estas diferenças podem ser vistas como oportunidades para criar pontes, construir sociedades mais solidárias, dialogar para um mundo mais justo. A espiritualidade que nos deixou S. Inácio de Loiola nos Exercícios Espirituais, a nós jesuítas e a tantos que connosco partilham esta experiência de Jesus Cristo, convida-nos hoje a estarmos presentes e activos nessas fronteiras. Sabemos que a fronteira é um lugar exigente, por vezes perigoso e muitas vezes desvalorizado... Mas estar na fronteira exige sobretudo atenção à voz do Espírito que nos convida a questionar o mundo e a questionar-nos a nós mesmos para permanecermos fiéis Aquele que nos chama e envia.

Este é o mote para a oitava Semana de Estudos de Espiritualidade Inaciana que decorrerá em Fátima de 6 a 8 de Dezembro. 3 dias para reflectir, partilhar e rezar estes lugares que nos desafiam, a partir de conferências, testemunhos e encontros. Um evento aberto a todos, religiosas e religiosos, leigos empenhados, e todos aqueles que desejam descobrir mais a funda a espiritualidade inaciana.

27 de novembro de 2008

O relatório pessimista da National Intelligence Council



O National Intelligence Council (NIC), entidade norte-americana que coordena o trabalho de todas as agências de inteligência do país, revelou um relatório demolidor a médio prazo para os EUA. Desde logo, afirma que a actual crise financeira é apenas o início de uma radical mudança na economia mundial, com a transferência do histórico poderio do Ocidente para o Oriente.
"Os próximos 20 anos serão de transição para um novo sistema, para uma nova ordem mundial, onde os riscos serão grandes e difíceis de antever", diz o relatório "Global Trends 2025".
Prevê que até 2025 o Mundo será um lugar muito mais perigoso, evidencia igualmente que as populações mais pobres, sobretudo de África, terão ainda mais dificuldades a nível alimentar.
Segundo o NIC, a passagem de um mundo com duas superpotências para um sistema multipolar é geradora de mais conflitos.
No horizonte de 2025, o relatório aponta que o aquecimento global, bem como a escassez de recursos, estarão "inevitavelmente" na origem de novas guerras. A esta análise o NIC junta a disseminação de armas nucleares em países considerados "párias" e em grupos terroristas.

Este relatório parece-me mesmo pessimista em relação ao nosso futuro.
A Humanidade está perante um grande desafio, que necessita de uma resposta, não individual de um ou outro país, mas de uma Humanidade unida para o mesmo fim.
As nossas decisões, não afectam apenas os nossos países, mas todo o planeta. O descuido de uns traz consequências para outros. Os desafios são grandes: o aumento populacional, a escassez alimentar, o problema ambiental, todos estes problemas parecem cada vez mais sérios e mais próximos. A solução não se pode encontrar nem nos EUA, nem no Oriente, mas apenas numa Humanidade Unida para o mesmo fim. Enquanto os estados não deixarem de lado os seus interesses, não poderá haver uma solução ou resolução para a crise que hoje atravessamos. O que me preocupa neste relatório, é este sistema multipolar que começa a surgir, na minha opinião, apenas uma humanidade unida pode encontrar a solução para uma maior equidade. Um sistema multipolar, promove não só um maior número de conflitos, mas também um maior distanciamento entre nações.
Isso sim é na minha perspectiva o maior obstáculo para o futuro da nossa Humanidade.

25 de novembro de 2008

S. João Berchmans

Não foi importante entre os seus contemporâneos nem conseguiu fazer alguma viagem perigosa em nome de Cristo. Não curou nenhum doente nem descobriu nenhuma Verdade de Fé. Não fundou, ou sequer reformou, alguma ordem ou diocese. Não aprendeu um dialecto desconhecido, nem defendeu algum povo indígena; não “levantou voo” na oração, nem se lhe abriu a camada de ozono para que ele pudesse ter visto algo menos natural que o ecrã deste computador …


Nasceu em Diest, na Bélgica, em 1599. Entrou na Companhia de Jesus com apenas 17 anos. Contudo, o seu sonho de anunciar o Evangelho na China terminou muito cedo, com uma forte infecção pulmonar, contraída durante os seus estudos em Roma.

Morreu a 13 de Agosto de 1621, com 22 anos.


Então porque é que se justifica estar a ler este texto sobre um rapaz tão normal?

Porque, durante a sua curta vida, ele fez tudo o que era banal de forma extraordinária! A Igreja não o esquece para lembrar que cada gesto pode ser mais do mesmo ou pode ganhar a carga dum verdadeiro milagre.


Hoje, 26 de Novembro de 2008, faz sentido tornar cada gesto num momento intencional de construção do Reino que tanto desejamos? O João Berchmans transformou a vidinha dele em algo pleno de sentido; nós, ou temos uma finalidade, um objectivo, nas nossas vidas e tomamos cada pequena decisão em função desse fim, ou andamos aqui a encher chouriços (literalmente a investir em bilhetes da lotaria do “Quem-Quer-Acordar-Frustrado-No-Dia-Dos-Seus-80-Anos?”).

24 de novembro de 2008

Beato Miguel Pró








Um santo ‘normal’

Todos nós temos sempre algumas ideias feitas do que deve ser um santo. Talvez nem sempre as saibamos distinguir muito bem da ideia de perfeccionismo. Ora, conhecer o beato Miguel Pró ou ‘Cocul’, alcunha que lhe davam desde pequeno, faz com que essa visão se esbata. Miguel Pró foi sempre uma pessoa de uma alegria muito natural, gostava de contar piadas e transmitia muita boa disposição aos companheiros. Gostava de tocar guitarra e, durante o tempo de formação, costumava fazer cartoons para alegrar os companheiros mais abatidos ou introvertidos. E isto não era uma atitude contrastante com os longos momentos que passava em silêncio à conversa com Deus, senão uma continuação da sua vida próxima do Senhor, que fazia com que ele O mostrasse mesmo sem dizer o Seu nome.


Um santo de boina e cigarro na boca

“Se Cristo vivesse (hoje), andaria certamente vestido como eu; usaria os mesmo meios de transporte que eu; teria ido onde eu fui, teria feito o que eu fiz”. Porque razão terá Miguel Pró dito isto? Depois de voltar para o México, após a ordenação e o curso de teologia, Miguel Pró entra num país que começa a perseguir violentamente todos os cristãos. Vestido como o comum dos trabalhadores, ele começa por ir à casa das pessoas para confessá-las e celebrar missa com elas. E não uma missa qualquer. Uma missa que comprometia cada um a perdoar os políticos e soldados opressores, bem como a comprometerem-se num serviço concreto àqueles que mais sofriam com estas medidas e acções, pois, segundo ele, pela missa “tudo se encara de um ponto de vista diferente, tudo se adapta a horizontes mais amplos, mais generosos”.


“A minha vida?!... Que é que ela vale? Dá-la pelos meus irmãos não será ganhá-la?”

Acusado de ter participado na tentativa de assassinato de Álvaro Obregón, presidente mexicano, Miguel Pró é preso. O governo, ocultando por este facto o desejo de acabar com a vida do padre que mantinha clandestinamente algumas comunidades cristãs activas contra a ordem governamental, é condenado à morte por fuzilamento sem qualquer processo judicial prévio. A 23 de Novembro, depois de se ajoelhar em oração na terra nua, Miguel Pró é fuzilado de braços abertos, frente aos políticos e soldados do regime, a quem perdoava.



Diante de uma vida dada em favor do seu povo, por um amor a Jesus reflectido na sua profunda dedicação aos mais pobres, onde O encontrava, volta a ressoar a frase do salmista: “Levanta o pobre da miséria, para o fazer sentar-se com os grandes do seu povo”.
Na vida de Miguel Pró reactualiza-se a vida de Jesus que mostra com clareza a diferença entre perder a vida e dá-la em favor de muitos.

23 de novembro de 2008

O Rei vai nú

Neste Domingo festejamos o dia de Cristo Rei. "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus", foi a inscrição que Pilatos mandou pôr sobre cabeça de Jesus quando foi condenado à morte.


Muitos anos mais tarde, no ano 1925, adivinhava-se à distância outra guerra, a segunda mundial, mais espantosa que a primeira e que custaria 26 milhões de vidas.


Naquela hora, sofrida na Europa, o Papa Pio XI fez ouvir a sua voz e gritou: "A paz de Cristo, pelo reinado de Cristo!". Assim sendo, com a encíclica chamada "Quas Primas", o Papa instituía a Festa de ‘Cristo Rei do Universo’.


Pio XI insistia na necessidade de reconhecer a autoridade universal de Cristo, porque a aceitação de Cristo faria desaparecer as divisões de pessoas, classes sociais, povos e nações, que acabaria com os ódios e deitaria por terra toda injustiça e toda a escravidão.


Assim concluía o Papa: "é necessário que Cristo reine na mente dos homens, é necessário que Cristo reine na vontade dos homens, é necessário que reine nos corações dos homens, por um ardente amor à Ele; e é necessário que Cristo reine em nossos corpos e em nossos membros para que sirvam à paz externa da sociedade e à paz interna de nossas almas.”


Ora, mas afinal o que quererá dizer hoje Cristo ser Rei? Se Ele veio trazer a salvação a cada um e não às massas, como se de um acordo político se tratasse, que tipo de reinado é este que quer abarcar cada pessoa da história, na sua realidade e circunstância, num abraço comum?


Primeiro há que reconhecer que todos temos imagens feitas na cabeça quando ouvimos algumas palavras do Evangelho que nos é apresentado hoje. Por exemplo: “Sentar-Se-á no Seu trono de Glória”, “Então o Rei dirá” ou ainda “Separará uns de outros”. Estas três expressões levam-nos a imaginar um Deus distante e frio na sua posição de arbitrariedade a separar os bons dos maus, numa inflexibilidade que parece não dar espaço à misericórdia. Mas confrontemos as nossas imagens com o que vemos em Jesus:



Os tronos da glória de Jesus

“Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei-de encontrá-las” diz-nos hoje o profeta Ezequiel. Esta frase parece encaixar na descrição dos tronos do Rei Jesus: a manjedoura (sem luzes nem anjos), e a cruz (sem adornos dourados). São tronos porque neles se dão a conhecer as leis deste Rei: Dar a vida em favor dos outros. O trono do Rei parece então deixar de ser uma poltrona acima da estratosfera, e torna-se palco de visita e redenção de Deus.

No trono da manjedoura conhecemos o Rei que está no meio de nós. Perto das vidas comuns da gente simples. Não é o Rei distante dos castelos e palácios, nem faz acessão de pessoas como nós tantas vezes fazemos. O trono é de visita e muita proximidade do nosso coração, das nossas vidas e opções, mas também das nossas dificuldades e crises de sentido.

No trono da cruz conhecemos o Deus da esperança. Não só nos dá Vida nova cheia de esperança e futuro para cada ser-humano, como também, não obstante o sofrimento, dá a vida virado para o mundo e de costas para a cruz. Mostra-nos assim que o amor não é desencarnado, dói realmente. Mas o essencial não é a dor. Ela é o meio indispensável daqueles que são fiéis ao amor. Amor por tudo aquilo para onde, quem ama, se vira de todo o coração.



Rei, diz-me com quem andas, dir-Te-ei Quem és

“Conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.” Nesta frase do salmista leio que só se deixa refrescar e reconfortar quem é necessitado. Só os mais pobres e esquecidos, os que reconhecem de coração sincero a sua pequenez diante de Deus, se deixam guiar pela sede. E, fiel ao amor pelo qual nos visita constantemente, o Rei Jesus faz-se companheiro de caminho dos mais pequeninos do reino, nos quais Se quer deixar reconhecer. É muito fácil admitirmos que as prostitutas, os esfomeados e os drogados são os tais pequeninos que precisam da nossa proximidade e acolhimento, mas admitir que são eles os predilectos de Deus e que neles O podemos ver, reconhecer e adorar, talvez já seja mais difícil dizer e viver. Somo chamados por Cristo a servi-los, não para lhes mostrar o caminho que temos por certo mas para neles nos encontrarmos profundamente com o Senhor, que nos há de transformar o coração se soubermos ir ao encontro dos mais necessitados como mendigos de Deus.

Dizia a Madre Teresa de Calcutá: “No final de nossas vidas não seremos julgados pelos muitos diplomas que recebemos, por quanto dinheiro fizemos ou por quantas grandes coisas realizamos. Seremos julgados pelo ‘Eu tive fome e deste-me de comer. Estava nu, e vestiste-me. Eu não tinha casa e abrigaste-me’.”



O Rei daquela paz que divide e separa uns de outros

Este Rei vai nu! Vive pobre não para fazer a apologia da miséria mas para enriquecer a cada um de nós. Ama e por isso esvazia-se porque dá tudo o que tem, como aqueles apertos vazios que sentimos quando transmitimos totalmente alguma coisa funda que nos estava agarrada ao coração, que dispõe da nossa vida a outros. Será este Rei aquele que determina de forma longínqua quem são os bons e os maus? Não será antes Aquele que propõe um estilo de vida de progressiva insignificância para dar significância aos outros pelo serviço desinteressado e de amor radical que vai contra todas as nossas tendências de honra e prestígio? Será este amor radical, que nos dá uma paz profunda ao coração agradecido diante de tudo, fazendo-o discernir tudo a partir do espírito de Cristo, que só se abraça no contacto constante com a Palavra de Deus, especialmente presente nos gestos de Jesus? Nunca saberemos. Nunca chegam as nossas palavras para entrarem a fundo no que querem realmente dizer estas promessas. Contudo sabemos que esta paz do Rei vem para aqueles que querem amar cada irmão independentemente de si próprios, rejeitando uma vida vista como ‘propriedade privada’, como o Rei Jesus que serve de joelhos, sendo “tudo em todos”. Não é aceite totalmente por ninguém. E separa aqueles que acham que já vivem tudo isto daqueles que, sabendo que sozinhos nada vivem, de coração sincero buscam esta paz e clamam por Deus com verdade, por vezes usando até o Seu nome.



LEITURA I Ez 34, 11-12.15-17

SALMO RESPONSORIAL Salmo 22 (23), 1-2a.2b-3.5-6 (R. 1)

LEITURA II 1 Cor 15, 20-26.28

EVANGELHO Mt 25, 31-46

Bom Domingo


22 de novembro de 2008

Resposta a Ludwig Krippahl

O Ludwig Krippahl, fez no seu blog (ktreta) algumas afirmações acerca do meu texto (in)tolerância religiosa que gostaria de comentar aqui porque elas são comuns a muitos outros não crentes.

1. Referindo-se à minha crítica a Steven Harris e Richard Dawkins, que considero estarem possuídos de um fundamentalismo científico e antireligioso, afirma Ludwig que eles

“Querem apenas que cada adulto possa decidir, livre e informado, se quer religião e qual religião prefere. E se há coisa que às religiões custa tolerar é a liberdade de escolher qualquer fé ou fé nenhuma. Especialmente tolerar aos seus crentes a liberdade de mudar de crença.”

Se ambos quisessem ‘apenas’ isto, então estaríamos todos de acordo. Os crentes não fundamentalistas não valorizam a pressão irracional do medo como motivação de qualquer crença. E se há coisa que religiões como o cristianismo mais respeitam ‘é a liberdade de escolher qualquer fé ou fé nenhuma.’ É verdade que os fundamentalistas islâmicos são contra esta liberdade, mas não podemos cometer a falácia de fazer generalizações precipitadas.

2. O Ludwig afirma de si mesmo:

“considero que todas as religiões são más. Umas são piores que as outras mas nenhuma tem vantagens que compensem porque não há nada na religião que não fosse melhor sem ela. Uma religião diz não mates e não roubes mas mais vale não o fazer por respeitar os outros do que porque deus manda. O amor, a esperança, a justiça e o que mais calhe é tudo melhor, e mais genuíno, se adoptado de forma crítica e ponderada em vez de pela fé. Essa vontade de crer para além do que a crença merece contamina tudo o que a religião possa ter de bom, impedindo-o de ser tão bom como poderia ser.”

O Ludwig contrapõe a motivação racional para o bem à motivação religiosa para o mesmo bem. Mas a motivação religiosa não só não se opõe à motivação racional como a pressupõe. Não seria de louvar que um crente afirmasse fazer esta ou aquela boa acção não porque creia racionalmente que a deva fazer mas apenas porque a religião o obriga. A religião amplia o sentido e a motivação do sentido e da motivação racional, mas não a dispensa nem se lhe opõe. É por ignorar tudo isto que o Ludwig pode fazer afirmações como a anterior e ficar muito convencido de que pensa bem.

3. O Ludwig admite rever a sua posição de crítica à religião,

‘por exemplo, se o Alfredo me explicar como é que acreditar na assunção de Maria, na transubstanciação da hóstia ou na ressurreição de Jesus me tornava uma pessoa melhor. Cuidava melhor dos meus filhos? Amava mais a minha família? Era mais íntegro, melhor profissional, melhor amigo? Não me parece, porque tudo isto é independente de qualquer dogma. Além disso, adoptar um dogma ia privar-me da virtude fundamental que é a disposição para questionar as minhas opiniões e admitir os meus erros. Trocar isso pela fé é muito mau negócio.”

Mas nunca ninguém disse que uma pessoa tem necessária e automaticamente um comportamento ético mais irrepreensível que um não crente em virtude da sua fé. Por outro lado, o Ludwig crê que um crente não pode questionar as suas opiniões nem deixar-se questionar por outros, nem admitir os seus erros. Eu afirmo, muito pelo contrário, que para um cristão – falo da religião que melhor conheço – não só não constitui uma virtude fundamental não se deixar questionar nem admitir os seus erros, mas o contrário é que é de louvar. João Paulo II, por exemplo, admitiu que os teólogos católicos contemporâneos de Galileu erraram na interpretação de algumas passagens da Bíblia nas quais se basearam para fundamentar a sua sentença contra ele.

4. O Ludwig afirma.

“não considero que o Cardeal Patriarca de Lisboa tenha sido intolerante por dizer que «O afastamento de Deus, ou o seu esquecimento e negação, constituem o maior drama da humanidade.»(2) Nisto parece-me que eu e o Alfredo estamos de acordo. Ambos condenamos como intolerante um ateu que queira acabar com a religião a todo o custo e ambos aceitamos como expressão legítima de uma opinião que um padre diga mal do ateísmo. O que me preocupa é que o Alfredo use dois pesos e duas medidas, avaliando por outros critérios o caso em que um ateu diz que a religião é má. Preocupa-me mas não me surpreende. Para se ter fé numa religião sem ter fé em todas é preciso o hábito de usar um critério para uma coisa e outro diferente para as outras todas. Esse hábito eu não quero adquirir porque leva à intolerância. Para se ter fé numa religião sem ter fé em todas é preciso o hábito de usar um critério para uma coisa e outro diferente para as outras todas. Esse hábito eu não quero adquirir porque leva à intolerância.”

O Ludwig deve saber que os cristãos não pregam a intolerância para com as outras religiões. Preferem valorizar o muito que nelas há de positivo. É por esta razão que os cristãos preferem o diálogo construtivo à imposição das suas crenças, muito menos à violência. E é por isso que os cristãos estão na linha da frente na promoção do diálogo construtivo com os não crentes, respeitando a sua descrença. Aqui se situa D. José Policarpo. Outro tanto não poderei dizer de ateus como Harris e Dawkins quanto à sua atitude em relação aos crentes. Não há aqui dois pesos nem duas medidas. O que há são duas atitudes diametralmente opostas.

20 de novembro de 2008

(In)tolerância religiosa

No meu recente debate com o meu colega Ludwig Krippahl, na Escola Secundária de Oliveira do Bairro, sobre o tema “Será que a tolerância religiosa faz sentido?”, dei uma resposta positiva a esta pergunta.

1. Procurei num primeiro ponto esclarecer que para a Igreja Católica a tolerância religiosa para com as religiões não cristãs se baseia no facto de em todas elas haver manifestações autênticas da aspiração dos povos a Deus. Numa intervenção nas Nações Unidas (2002), o representante do Vaticano afirmou:

O mistério de Deus e a fé n’Ele estão no centro de cada cultura e constituem o maior de todos os mistérios. A religião exprime os sonhos, as esperanças e as aspirações mais profundos da pessoa humana. A fé religiosa ajuda a formar a visão do homem em relação ao mundo e diz respeito ao seu relacionamento com o próximo. Com efeito, na história do mundo inteiro, os diferentes povos e culturas dão testemunho dos muitos e diversificados modos de a humanidade abordar o significado da criação, da história e da sua existência pessoal.

Por outro lado, na mesma intervenção se repudiam todas as formas de intolerância religiosa:

"O recurso á violência, em nome do credo religioso, constitui uma perversão do próprio ensinamento das principais religiões. Hoje, a Santa Sé confirma aquilo que muitos líderes religiosos repetiram com tanta frequência: "O uso da violência nunca deve ter uma justificação religiosa, nem pode fomentar o crescimento do sentimento religioso autêntico".
As diferenças entre as tradições religiosas devem ser aceites, respeitadas e toleradas. A prática de qualquer credo há-de ser vivida no respeito pelas outras tradições religiosas. A tolerância religiosa deve fundamentar-se na convicção de que Deus deseja ser adorado por pessoas livres. Esta convicção exige que respeitemos e honremos a nossa consciência pessoal, onde todas as pessoas encontram Deus."

2. Em segundo lugar, afirmei que esta posição da Igreja Católica é consensual mesmo entre pessoas não crentes, excepto aquelas que adoptaram um fundamentalismo científico. Autores como Sam Harris (O Fim da Fé), e Richard Dawkins, (A Ilusão de Deus), para só dar dois exemplos) exprimem a sua intolerância religiosa sem meios termos aos afirmarem que a religião só faz mal, é um veneno que é preciso extirpar imediatamente e a todo o custo. Ludwig Krippahl crê que eu considero fundamentalismo científico a mera crítica da religião, mas eu afirmo que a crítica à religião, mesmo que venha do lado da ciência, só pode ser benéfica. Nenhum crente bem informado teme a crítica de uma ciência bem informada. Este não é o caso dos fundamentalismos científicos a que me referi.

3. Finalmente, citei o caso da posição de um prestigiado cientista, Edward Wilson, que. Apesar de ser um não crente considera que a religião tem um papel importante a desempenhar, juntamente com a ciência, na defesa na natureza. Afirma ele no final da obra A Criação:

“O que poderemos fazer? Esquecer as diferenças, digo eu. Encontrarmo-nos em terreno comum. Isso pode não ser tão difícil como parece a princípio. …Independentemente daquilo que venha a acontecer às tensões entre as nossas mundividências opostas, sejam quais forem os altos e baixos pelos quais a ciência e a religião passem nas mentes dos homens, perdura ainda a obrigação terreal e, porém, transcendente, que estamos moralmente obrigados a partilhar… o amor pela criação”

O fundamentalismo científico e intolerante de Harris e Dawkins para com a religião, contrasta com a tolerância construtiva e inteligente de Wilson. Tenho a sensação de que o Ludwig se aproxima mais de Harris e Dawkins que de Wilson. Estarei enganado?

Gostei de encontrar de novo o Ludwig, e de voltar mais uma vez à Escola Secundária de Oliveira do Bairro. Agradeço o extraordinário acolhimento recebido por parte dos docentes, em particular pelo nosso anfitrião o Dr. Vítor Oliveira, pela Directora e Vice-Directora da Escola, pelos alunos que nos serviram gentilmente o almoço, pelos que introduziram o debate com uma excelente representação teatral e, finalmente, pelos que seguiram o debate com claro interesse. A todos desejo um bom ano escolar.

17 de novembro de 2008

S. Roque Gonzalez, S. Afonso Rodriguez e S. Juan del Castillo

No dia 16 de Novembro, a Companhia de Jesus celebra a entrega de três homens que dedicaram o seu trabalho missionário ao sonho das Reduções, conhecidas como Reduções do Paraguai, pagando por isso com o preço da sua vida.

Roque Gonzalez (nascido em Assunción, Paraguay em 1576), Afonso Rodriguez (nascido em Zamora em 1598) e Juan del Castillo (nascido em Toledo em 1596), entre muitos outros, procuraram levar a fé em Jesus Cristo aos índios, não apenas baptizando e catequizando, mas concebendo toda uma organização social que lhes concedia uma autonomia e uma dignidade nunca vistas. Os índios juntavam-se em aldeias onde aprendiam a ler e a escrever na sua própria língua, mas também os mais diversos ofícios (muitos revelaram-se grandes artistas, produzindo magníficos retábulos, quadros e estátuas) Todos tinham uma inclinação natural para a música, e alguns mostraram ser compositores dotados. Todas as povoações, que chegaram a ser 57 e a albergar cerca de 112 mil índios, tinham escola e biblioteca. Uma das reduções possuía um dos melhores observatórios astronómicos do mundo de então, noutra foi instalada a primeira tipografia sul-americana. Para além disso, os guaranis tinham o seu próprio governo e uma economia comunitária inspirada na economia solidária que sempre haviam conhecido e que não diferia muito da que fora posta em prática pelas primeiras comunidades cristãs.

Esta autonomia chocava frontalmente com a influência até aí exercida pelos feiticeiros que planearam a morte dos três Jesuítas, sendo eles brutalmente assassinados a 15 e 17 de Novembro de 1628, fazendo deles não apenas mártires da fé católica, mas também da cultura indígena e da liberdade política.

O exemplo destes homens e de tantos outros que, durante os séculos XVII e XVIII, deram vida pela utopia da afirmação e autonomia das povoações indígenas anima ainda hoje os jesuítas a anunciar a fé sem a desligar as condições materiais e culturais em que vivem aqueles a quem são enviados. Muito antes das recentes Congregações Gerais, estes santos viveram o ideal de uma fé que exige a justiça e o diálogo com as culturas.
O fim da nossa missão (o serviço da fé) e o seu princípio integrador (a fé dirigida à justiça do Reino) estão dinamicamente relacionados com a proclamação inculturada do Evangelho e o diálogo com outras tradições religiosas, como dimensões integrais da evangelização (CG 34 decreto 2, n. 15).

Escrito por António Ary

16 de novembro de 2008

Vem tomar parte na alegria do teu Senhor



‘Um homem, ao partir de viagem,
chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.’

Está sempre de viagem o Senhor, sempre ao encontro dos que o esperam. Enquanto isso, e chamando-nos à mesma viagem, confia-nos os seus bens. Concede-nos os seus dons, não como algo estéril a guardar, mas como verdadeiros talentos a pôr a render.

Se olhar um talento vendo apenas o brilho que tem por si, se o procurar guardar, enterro-o. É tímido o meu coração que se fecha angustiado no que tem com medo de o não ter. Temeroso, não tem fé em si nem em Deus que a ele confia, que nele confia. Como é infeliz aquele que abafa o dom que o Senhor lhe deu, que o enterra e ninguém mais o vê!

Ora, é outro o convite do Senhor. Com o talento que recebo, que eu não fique parado! É o Senhor que me dá oportunidade de crescer e de alcançar uma felicidade diferente, verdadeira. Não a de enterrar, mas a de plantar, regar e cuidar para que dê fruto abundante. Então, quantas bocas poderei alimentar, quantas amarguras poderei consolar? Das sementes que me deu o Senhor, quantos cestos de fruta não lhe poderei retribuir? Na verdade, reconheço o Senhor que volta em cada um daqueles que encontro e a quem posso dar algo do que pus a render.

Creio que é então que oiço,

‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu Senhor’.



Domingo XXXIII do Tempo Comum, 15 de Novembro de 2008

LEITURA I Prov 31, 10-13.19-20.30-31

SALMO RESPONSORIAL Salmo 127, 1-2.3.4-5 (R. cf. 1a)

LEITURA II 1 Tes 5, 1-6

EVANGELHO Mt 25, 14-30

14 de novembro de 2008

Reportagem sobre o Noviciado

(será necessário instalar um pequeno programa)

São José Pignatelli


Nasceu em Saragoça, Espanha, em 1737, numa família nobre. Entrou no noviciado da Companhia de Jesus em 1753, com 16 anos e depois de terminados os estudos foi ordenado sacerdote em 1762.
Em 1767, a exemplo de Portugal com o Marquês de Pombal, também Carlos III expulsou os jesuítas de Espanha. José Pignatelli tornou-se, então, o provincial de cerca de 600 jesuítas a bordo de 13 navios que desembarcaram na Córsega. Depois de uma viagem a pé de mais de 450 quilómetros, foram acolhidos em Ferrara.
Por essa altura, os Bourbons, uma família que dominava várias casas reais europeias, pressionavam o papa Clemente XIII para que suprimisse a Companhia de Jesus mas, enquanto este resistiu, o papa Clemente XIV, seu sucessor, acabou por a suprimir em 1773. Apesar de ter deixado de ser jesuíta, assim como todos que nessa altura eram membros da Companhia de Jesus, José Pignatelli continuava a viver como jesuíta em Bolonha.
Entretanto, na Rússia a Companhia “sobreviveu” pois a Czarina Catarina II da Rússia não emitiu a bula papal de supressão da Companhia nos territórios sob o seu domínio. Quando José Pignatelli soube disto pediu autorização ao papa Pio XI para se juntar à província russa da Companhia de Jesus. Nesta altura, também Fernando, duque de Parma, entrou em negociações com a Rússia e em 1793, três jesuítas, entre os quais José Pignatelli, abriram uma casa da Companhia no seu ducado. Em 1797, já com 60 anos, fez novamente os votos na Companhia de Jesus.
A partir daqui, José Pignatelli trabalhou incansavelmente para restaurar a Companhia, com a esperança de a ver restaurada em todo o mundo. Foi mestre de noviços, provincial de Itália e ainda foi expulso de Nápoles por José Bonaparte, tendo que fugir para Roma.
Depois de 40 anos de exílio e com a saúde já muito debilitada, José Pignatelli acabou por morrer, em 1811, sem ver a restauração da Companhia em todo o mundo, que aconteceu em 1814 decretada pelo papa Pio VII.
A questão não está em acabar com os problemas e com as dificuldades que possa ter a vida, nem nós o conseguimos, nem Deus vem fazer isso, trata-se de saber para onde se vai, o que se quer, onde está realmente o centro da nossa vida, e, por saber que é aí que se irá encontrar Vida, comprometemo-nos em ir lá chegando, independentemente se isso custa ou não, se é fácil ou difícil. E é aqui que está Deus, a fazer caminho também. S. José Pignatelli, com a sua vida, é exemplo disto.

Por Duarte Rosado, SJ

12 de novembro de 2008

Santo Estanislau Kostka


«era modelo de constância e de piedade,querido de todos e a ninguém molesto,pequeno de corpo mas grande e nobre de alma»
São palavras de Pedro Canísio, Provincial da Alemanha, referindo-se a Estanislau Kostka, o santo que hoje celebramos na Companhia de Jesus.
Original da Polónia, nasceu em 1550 em Rostków no seio de uma família nobre. Partiu para Viena de Áustria, a fim de cursar estudos clássicos, com a idade de 14 anos. Cedo mostrou desejo de enveredar por uma vida religiosa, mas a sua família opôs-se firmemente.

Contudo, Estanislau lutou pela sua aspiração e partiu como mendigo, numa descomedida peregrinação, primeiro para a Alemanha e depois para Roma, a fim de ingressar no Noviciado da Companhia de Jesus. Chegou a Roma, já bastante doente, e veio a falecer dez meses depois, com apenas 18 anos de idade.
É, de facto, um exemplo de determinação para os dias de hoje. Apesar da sua fragilidade, conseguiu realizar o seu sonho de se tornar jesuíta, ainda que a muito custo. Ganha-se sempre a vida com aquilo que se ama. Estanislau Kostka é disso exemplo. É uma questão de entrega pelas causas em que acreditamos e pela vida que sentimos ser para nós: a vida que a Graça sugere.

Primeira Conferência de Obama e o convite de Bento XVI.








Barack Obama deu a primeira conferência de imprensa depois de ter sido eleito para a presidência dos Estados Unidos. O Presidente eleito disse, que é urgente adoptar medidas que revitalizem a economia e ajudem as famílias em dificuldades, o mundo vive nesta altura o maior desafio económico da nossa era.
Obama frisou que, até à tomada de posse, no dia 20 de Janeiro, a responsabilidade da governação continua a ser da actual administração.
Obama diz que o Congresso dos Estados Unidos deve aprovar medidas urgentes de estímulo económico, ou antes, ou depois, de ele tomar posse em Janeiro. Mas frisa que, até lá, a responsabilidade é do actual Presidente George W. Bush.

Bento XVI, no dia 5 de Novembro, enviou uma mensagem de felicitação ao presidente eleito dos Estados Unidos, na qual o convida a «construir um mundo de paz, solidariedade e justiça».
«A tarefa do presidente dos Estados Unidos é uma tarefa de imensa e altíssima responsabilidade, não só para seu país, mas para o mundo todo, dado o peso que os Estados Unidos têm em todos os campos do cenário internacional».
«Por isso, todos desejamos ao novo presidente que responda a estas expectativas e às esperanças que se depositam nele, servindo eficazmente o direito e a justiça e encontrando caminhos adequados para promover a paz no mundo; favorecendo o crescimento e a dignidade das pessoas no respeito dos valores humanos e espirituais essenciais.»
«Os crentes rezam para que Deus o ilumine e o assista em sua elevadíssima responsabilidade».

Desejo pois que Obama, considere e reflicta na mensagem enviada pelo Santo Padre, até porque ele nos próximos dias irá formar a equipa presidencial. Nos primeiros tempos de mandato, esta equipa terá certamente como tarefa principal enfrentar a grave crise económico-financeira que os Estados Unidos e o Mundo atravessam.

9 de novembro de 2008

Hoje é Domingo!

A humanidade percorre a sua caminhada apoiada em exemplos triunfantes e vitoriosos. Depois do Evangelho que a Igreja propõe neste Domingo, até aprece que também Jesus entra nesta lógica de super-herói. O acto de força e até de uma certa rebeldia, que nos é apresentada hoje, impressiona ao colocar Jesus Cristo num papel inesperado.
Na verdade a expulsão dos vendilhões do templo é usada, muitas vezes, como um contra exemplo da mansidão representada em Jesus Cristo. O Filho de Deus de chicote na mão, a derrubar as bancas, a provocar a desordem? É igualmente um texto ilegitimamente usado por muitos cristãos para justificar as suas fúrias e irritações. Porém é necessário fazer uma leitura e reflexão correcta para não cairmos em tentativas frustradas de justificação das nossas fraquezas. A motivação de Jesus não era, certamente, egoísta e fechada no centro da nossa limitada visão da realidade.
Jesus vem ao encontro de todas as nossas dúvidas e hesitações, de todos os nossos enganos. O que Jesus faz no templo é mostrar que algo de grandioso se anuncia na relação com Deus. Esta relação não é o templo, não pode ser o templo, é algo mais profundo, algo verdadeiramente vitalizante que transforma a nossa vida em algo maior e mais sublime.
Há uma água que quando se junta às outras águas não as pode deixar na mesma. Há um novo alento, uma nova vida que tudo transforma, que tudo altera e renova. Após a sua passagem nada poderá ficar igual. Os templos de pedra, lugares de encontro da humanidade com o seu Criador, não são simplesmente um espaço do universo físico, erguido como símbolo ou ícone. O templo é o lugar da vida, da nova existência que Jesus prometera a Nicodemos. Não há sinal mais preciso do que o gesto inesperado de Jesus. O templo, as pedras sobrepostas, não são elas a nossa fé!
Este homem, que nada pode deixar ficar igual, rompe com todas as nossas lógicas, com todas as nossas seguranças, e nada mais deseja do que inaugurar uma nova era. O tempo de uma humanidade verdadeiramente realizada, de encontro a uma felicidade que não pode vir de factores externos, mas que está no nosso próprio coração, no modo como aprendemos a lidar com os acontecimentos. Esta vida, esta nova vida prometida, só pode vir de uma nova existência aliada a uma verdadeira relação com Aquele que nos amou primeiro.
Sim, a vida, essa água que tudo purifica e transforma à sua passagem é Jesus Cristo. Depois de o descobrirmos nada poderá ficar igual!


Domingo, 9 de Novembro de 2008 - DEDICAÇÃO DA BASILÍCA DE LATRÃO
LEITURA I Ez 47, 1-2.8-9.12
SALMO RESPONSORIAL Salmo 45 (46), 2-3.5-6.8-9 (R. 5)
LEITURA II 1 Cor 3, 9c-11.16-17
EVANGELHO Jo 2, 13-22

3 de novembro de 2008

Natureza
&Espiritualidade

Visita à Lagoa de Bertiandos - Ponte de Lima

2 de novembro de 2008

Ressurreição

Neste dia em que a Igreja Católica ora de modo especial pelos fiéis defuntos e centra a sua reflexão na ressurreição, vem a propósito reler algumas passagens da obra Introdução ao Cristianismo do actual Papa, publicada quando ainda era apenas o Cardeal Joseph Ratzinger (1968). As páginas indicadas são da tradução portuguesa (edições Principia):

1.”A ideia de imortalidade expressa na Bíblia pelo termo ‘ressurreição’ refere-se a uma imortalidade da ‘pessoa’, desse ser uno que é o ser humano.
(…)
2. Trata-se de uma imortalidade ‘dialogal’ (=o que faz reviver), ou seja, a imortalidade não é fruto da impossibilidade natural do ser indivisível para morrer, mas sim da acção salvífica do amante que tem o poder para o fazer: o ser humano já não pode findar totalmente, porque é conhecido e amado por Deus. Se todo o amor aspira à eternidade, o amor de Deus não só aspira a ela como cria e é a eternidade.
(…)
3. O carácter de a ressurreição ser esperada para o fim da história, para os ‘últimos tempos’, e em comunhão com todos os seres humanos indica o carácter comunitário da imortalidade humana, que está relacionada com toda a humanidade.
(…)
4. As reflexões precedentes deixaram ficar mais ou menos claro qual é o ponto essencial do anúncio bíblico da ressurreição: o seu conteúdo essencial não é a ideia de uma devolução dos corpos às almas depois de um longo período intermédio; o seu sentido é dizer aos seres humanos que eles continuarão a viver, não devido ao seu próprio poder, mas porque são de tal modo conhecidos e amados por Deus que Ele não permite que eles pereçam.
(…)
5. ‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno, e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de lhe responder. Aquilo a que numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar numa linguagem mais histórica e actual ’ser interlocutor de Deus’.”

(Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, pp. 256-259)