30 de novembro de 2008

Ele vem aí!

"Mais uma vez!", desabafava um inconformado cristão, antecipando o tempo que hoje começa. "Todos os anos a mesma coisa. Como se já não soubéssemos que Ele vai nascer, já nasceu há uns anos atrás...". Sim, e apesar disto a Igreja insiste todos os anos num tempo chamado Advento, e que se propõe ajudar os cristãos a preparar o Natal.
Para quê estar constantemente a relembrar algo que é público e notável para todos? Não será visível? Luzes, compras, papel de embrulho, músicas melodiosas, azevinho, pinheiros, decorações multicolores... O que mais há a acrescentar? Já não será suficientemente exagerado?
A resposta para estas questões parece ser de uma evidência gritante. Divagando nas leituras deste Domingo
não posso deixar de tentar outra resposta. O Natal pode parecer uma mera comemoração se não soubermos decifrar o seu mais profundo significado. Não podemos ficar indiferentes à intensidade do grito de Isaías: "Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis!". Sim, Isaías, Ele desceu e está entre nós! Veio e ficou. Aquele que é imensamente grande, infinitamente distante da nossa pequenez, decidiu descer ao encontro da fraqueza. O Rei, monarca de todos os poderes, abandonou o seu palácio e desceu à humilde habitação do seu povo. O rico fez-se pobre; o são, doente e o ponderado transviado.
O Natal é um grito no meio do deserto, um gesto sublime cuja irreverência nos sufoca. Deus veio, fez-se um de nós, arriscou aproximar-se. Advento significa "vinda", a descida tão esperada pelo povo do Senhor. O Senhor dos tempos não ficou indiferente perante a súplica da humanidade. Aquele que tinha infinitos motivos para se sentir ofendido, rejeitado e esquecido, decidiu perdoar e caminhar na nossa direcção. Como não ficarmos estupefactos perante esta decisão! Como não nos curvarmos em todo o tempo e lugar erguendo as nossas mãos ao alto! Que amor é este que rejeita todo o orgulho ferido e se não deixa fechar na própria dor!
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; aqueles que caminhavam convencidos de que a sua vida apenas caminhava para o termo, puderam esperar; aqueles que viviam no desespero da dor já não estão sós. Os mais cépticos não podem deixar de se divorciar da dúvida. Deus fez-se homem, estendendo a mão àqueles que havia escolhido.
Chegou o momento ansiado. A espera terminou porque o Senhor se revelou, decidiu não mais ocultar-se. Está exposto na sua grandeza interminável. O menino vestido de simplicidade e pequenez está visível. Que mais poderemos desejar?
A humanidade decaída levantou-se. "Vigiai e Orai" é o apelo inexorável, que ecoa no infinito mais fundo de nós. A alegria que todos os homens e mulheres perseguem desde sempre encontrou uma resposta. Na fragilidade do Menino que está a vir encontra-se a resposta paradoxal. O Amor encarnou estalando com todo o preconceito e malícia. Já não há espaço para rancores, ressentimentos, ódios e guerras.
Queres ser feliz? Então escuta a voz profunda que vem da pequenez da gruta. Vigia e ora. Sê humano. Sê aquilo que és. Reconhece a infinidade da tua existência e abre as mãos. Abraça, levanta, procura, dá! Rejeita a tua razão sempre soberana e quebra definitivamente as cadeias do 'eu', porque Aquele que tudo era, tudo rejeitou para verdadeiramente ser.
Vive e sê! E tudo o resto virá a seguir.


Domingo, 30 de Novembro de 2008 - Domingo I do Advento
LEITURA I Is 63, 16b-17.19b; 64, 2b-7
SALMO RESPONSORIAL
Salmo 79 (80), 2ac e 3b. 15-16.18-19 (R. 4)
LEITURA II
1 Cor 1, 3-9
EVANGELHO Mc 13, 33-37