23 de novembro de 2008

O Rei vai nú

Neste Domingo festejamos o dia de Cristo Rei. "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus", foi a inscrição que Pilatos mandou pôr sobre cabeça de Jesus quando foi condenado à morte.


Muitos anos mais tarde, no ano 1925, adivinhava-se à distância outra guerra, a segunda mundial, mais espantosa que a primeira e que custaria 26 milhões de vidas.


Naquela hora, sofrida na Europa, o Papa Pio XI fez ouvir a sua voz e gritou: "A paz de Cristo, pelo reinado de Cristo!". Assim sendo, com a encíclica chamada "Quas Primas", o Papa instituía a Festa de ‘Cristo Rei do Universo’.


Pio XI insistia na necessidade de reconhecer a autoridade universal de Cristo, porque a aceitação de Cristo faria desaparecer as divisões de pessoas, classes sociais, povos e nações, que acabaria com os ódios e deitaria por terra toda injustiça e toda a escravidão.


Assim concluía o Papa: "é necessário que Cristo reine na mente dos homens, é necessário que Cristo reine na vontade dos homens, é necessário que reine nos corações dos homens, por um ardente amor à Ele; e é necessário que Cristo reine em nossos corpos e em nossos membros para que sirvam à paz externa da sociedade e à paz interna de nossas almas.”


Ora, mas afinal o que quererá dizer hoje Cristo ser Rei? Se Ele veio trazer a salvação a cada um e não às massas, como se de um acordo político se tratasse, que tipo de reinado é este que quer abarcar cada pessoa da história, na sua realidade e circunstância, num abraço comum?


Primeiro há que reconhecer que todos temos imagens feitas na cabeça quando ouvimos algumas palavras do Evangelho que nos é apresentado hoje. Por exemplo: “Sentar-Se-á no Seu trono de Glória”, “Então o Rei dirá” ou ainda “Separará uns de outros”. Estas três expressões levam-nos a imaginar um Deus distante e frio na sua posição de arbitrariedade a separar os bons dos maus, numa inflexibilidade que parece não dar espaço à misericórdia. Mas confrontemos as nossas imagens com o que vemos em Jesus:



Os tronos da glória de Jesus

“Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei-de encontrá-las” diz-nos hoje o profeta Ezequiel. Esta frase parece encaixar na descrição dos tronos do Rei Jesus: a manjedoura (sem luzes nem anjos), e a cruz (sem adornos dourados). São tronos porque neles se dão a conhecer as leis deste Rei: Dar a vida em favor dos outros. O trono do Rei parece então deixar de ser uma poltrona acima da estratosfera, e torna-se palco de visita e redenção de Deus.

No trono da manjedoura conhecemos o Rei que está no meio de nós. Perto das vidas comuns da gente simples. Não é o Rei distante dos castelos e palácios, nem faz acessão de pessoas como nós tantas vezes fazemos. O trono é de visita e muita proximidade do nosso coração, das nossas vidas e opções, mas também das nossas dificuldades e crises de sentido.

No trono da cruz conhecemos o Deus da esperança. Não só nos dá Vida nova cheia de esperança e futuro para cada ser-humano, como também, não obstante o sofrimento, dá a vida virado para o mundo e de costas para a cruz. Mostra-nos assim que o amor não é desencarnado, dói realmente. Mas o essencial não é a dor. Ela é o meio indispensável daqueles que são fiéis ao amor. Amor por tudo aquilo para onde, quem ama, se vira de todo o coração.



Rei, diz-me com quem andas, dir-Te-ei Quem és

“Conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.” Nesta frase do salmista leio que só se deixa refrescar e reconfortar quem é necessitado. Só os mais pobres e esquecidos, os que reconhecem de coração sincero a sua pequenez diante de Deus, se deixam guiar pela sede. E, fiel ao amor pelo qual nos visita constantemente, o Rei Jesus faz-se companheiro de caminho dos mais pequeninos do reino, nos quais Se quer deixar reconhecer. É muito fácil admitirmos que as prostitutas, os esfomeados e os drogados são os tais pequeninos que precisam da nossa proximidade e acolhimento, mas admitir que são eles os predilectos de Deus e que neles O podemos ver, reconhecer e adorar, talvez já seja mais difícil dizer e viver. Somo chamados por Cristo a servi-los, não para lhes mostrar o caminho que temos por certo mas para neles nos encontrarmos profundamente com o Senhor, que nos há de transformar o coração se soubermos ir ao encontro dos mais necessitados como mendigos de Deus.

Dizia a Madre Teresa de Calcutá: “No final de nossas vidas não seremos julgados pelos muitos diplomas que recebemos, por quanto dinheiro fizemos ou por quantas grandes coisas realizamos. Seremos julgados pelo ‘Eu tive fome e deste-me de comer. Estava nu, e vestiste-me. Eu não tinha casa e abrigaste-me’.”



O Rei daquela paz que divide e separa uns de outros

Este Rei vai nu! Vive pobre não para fazer a apologia da miséria mas para enriquecer a cada um de nós. Ama e por isso esvazia-se porque dá tudo o que tem, como aqueles apertos vazios que sentimos quando transmitimos totalmente alguma coisa funda que nos estava agarrada ao coração, que dispõe da nossa vida a outros. Será este Rei aquele que determina de forma longínqua quem são os bons e os maus? Não será antes Aquele que propõe um estilo de vida de progressiva insignificância para dar significância aos outros pelo serviço desinteressado e de amor radical que vai contra todas as nossas tendências de honra e prestígio? Será este amor radical, que nos dá uma paz profunda ao coração agradecido diante de tudo, fazendo-o discernir tudo a partir do espírito de Cristo, que só se abraça no contacto constante com a Palavra de Deus, especialmente presente nos gestos de Jesus? Nunca saberemos. Nunca chegam as nossas palavras para entrarem a fundo no que querem realmente dizer estas promessas. Contudo sabemos que esta paz do Rei vem para aqueles que querem amar cada irmão independentemente de si próprios, rejeitando uma vida vista como ‘propriedade privada’, como o Rei Jesus que serve de joelhos, sendo “tudo em todos”. Não é aceite totalmente por ninguém. E separa aqueles que acham que já vivem tudo isto daqueles que, sabendo que sozinhos nada vivem, de coração sincero buscam esta paz e clamam por Deus com verdade, por vezes usando até o Seu nome.



LEITURA I Ez 34, 11-12.15-17

SALMO RESPONSORIAL Salmo 22 (23), 1-2a.2b-3.5-6 (R. 1)

LEITURA II 1 Cor 15, 20-26.28

EVANGELHO Mt 25, 31-46

Bom Domingo