2 de novembro de 2008

Ressurreição

Neste dia em que a Igreja Católica ora de modo especial pelos fiéis defuntos e centra a sua reflexão na ressurreição, vem a propósito reler algumas passagens da obra Introdução ao Cristianismo do actual Papa, publicada quando ainda era apenas o Cardeal Joseph Ratzinger (1968). As páginas indicadas são da tradução portuguesa (edições Principia):

1.”A ideia de imortalidade expressa na Bíblia pelo termo ‘ressurreição’ refere-se a uma imortalidade da ‘pessoa’, desse ser uno que é o ser humano.
(…)
2. Trata-se de uma imortalidade ‘dialogal’ (=o que faz reviver), ou seja, a imortalidade não é fruto da impossibilidade natural do ser indivisível para morrer, mas sim da acção salvífica do amante que tem o poder para o fazer: o ser humano já não pode findar totalmente, porque é conhecido e amado por Deus. Se todo o amor aspira à eternidade, o amor de Deus não só aspira a ela como cria e é a eternidade.
(…)
3. O carácter de a ressurreição ser esperada para o fim da história, para os ‘últimos tempos’, e em comunhão com todos os seres humanos indica o carácter comunitário da imortalidade humana, que está relacionada com toda a humanidade.
(…)
4. As reflexões precedentes deixaram ficar mais ou menos claro qual é o ponto essencial do anúncio bíblico da ressurreição: o seu conteúdo essencial não é a ideia de uma devolução dos corpos às almas depois de um longo período intermédio; o seu sentido é dizer aos seres humanos que eles continuarão a viver, não devido ao seu próprio poder, mas porque são de tal modo conhecidos e amados por Deus que Ele não permite que eles pereçam.
(…)
5. ‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno, e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de lhe responder. Aquilo a que numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar numa linguagem mais histórica e actual ’ser interlocutor de Deus’.”

(Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, pp. 256-259)