18 de dezembro de 2008

"degrau a degrau"

Considero que venci esta sensação vaga e assustadora que tinha dentro de mim. A vida é realmente difícil, uma luta de minuto a minuto, mas a luta é sedutora. Antigamente via um futuro caótico pela frente, porque eu não queria viver o momento que estava à frente do meu nariz. Queria que tudo me fosse oferecido, como uma criança muito mimada. Às vezes tinha a certeza, embora fosse uma sensação vaga, de que no futuro «poderia vir a ser alguém», de que poderia vir a fazer algo de «espantoso»; e outras vezes aparecia-me novamente o medo caótico de que «no fim estaria perdida». Começo a entender por que é que isso acontecia. Recusava-me a cumprir as obrigações óbvias que tinha pela frente, recusava-me a ir ao encontro do futuro, degrau a degrau. E agora, agora que cada minuto é pleno, cheio de vida e experiência e luta e vitória e depressão, seguido de imediato por mais luta e por vezes sossego, agora deixei de pensar no futuro, quer dizer, é-me indiferente se mais tarde vou realizar algo de espantoso ou não, porque algures no meu íntimo estou certa de que alguma coisa há-de sair. Antigamente vivia continuamente num estado preparatório, tinha a impressão de que tudo o que fazia não era a «sério», mas sim a preparação para algo diferente, algo «grande», a sério. Mas agora deixei-me totalmente disso. Agora, hoje, neste minuto, vivo e vivo plenamente, e a vida é digna de ser vivida.

A 9 de Março de 1941, em pleno ambiente de perseguição e extermínio judeu, Etty Hillesum decidiu «confiar o ânimo reprimido a um insignificante pedaço de papel quadriculado».

A última entrada do seu diário de que há conhecimento data de 13 de Outubro de 1942.
Em Setembro de 1943, Etty foi deportada para Auschwitz, vindo a falecer em Novembro desse ano.



2 comentários:

Anónimo disse...

"degrau a degrau"

"Agora, hoje, neste minuto, vivo e vivo plenamente, e a vida é digna de ser vivida."

Muito muito obrigado por este texto de Etty Hillesum

Missé SJ disse...

obrigado