28 de dezembro de 2008

Um menino destes não se improvisa!


Hoje festejamos o dia da ‘Família de Nazaré’. É pedido a todos os cristão que, especialmente neste dia, se comprometam cada vez mais a sério a tomar esta família por modelo. Mas, simples e directamente, como poderemos tomar por modelo uma família em que o Pai é adoptivo, a Mãe é a virgem que concebe por obra do Espírito Santo e o filho é totalmente homem e Deus ao mesmo tempo? Não será esta família um ideal impossível? Uma formulação inatingível, fechada dentro de uma redoma de vidro?

A semana passada li uma frase num jornal, dizia ser do Paulo Coelho mas por acaso é de Jesus e vem em São Lucas. “Conhece-se a árvore pelos seus frutos”. Talvez possamos conhecer se a árvore (família de Nazaré) é boa, pelo fruto (Jesus). No tempo da sua vida pública Jesus foi um homem próximo dos mais pobres, amigo dos que eram marginalizados pela sociedade, tinha uma linguagem que era entendida pelos cultos e pela gente simples, comia com os sacerdotes do templo e com os cobradores de impostos e prostitutas, conversou com Nicodemos e com a mulher adultera e a todos transformou.

Um menino destes não se improvisa! Para isto Deus confiou o seu próprio filho a uma família simples e pobre. Foi aí que o ‘Filho de Deus’ aprendeu a falar, a tratar da Sua higiene pessoal, a vestir-se, a comer à mesa com quem quer que fosse, a ler a ‘Palavra de Deus’ na sinagoga, a rezar, a aproximar-Se dos mais pobres e esquecidos da sociedade nos quais reconheceu os filhos predilectos do seu Pai, que por meio d’Ele se iria tornar Pai de todos. Um menino destes não se improvisa!

Talvez neste tempo de infância, Jesus terá conhecido alguma pastora que sacrificara 99 ovelhas, deixando-as no deserto, para ir à procura daquela que estava perdida. Será que foi nalgum passeio de família ou da comunidade judaica, antes do sabbath para não se esgotarem os passos permitidos pela lei, que Jesus contemplou os lírios do campo e as aves do céu ou um semeador de trigo e grãos de mostarda? Conheceu certamente, às escondidas, algum estrangeiro, samaritano por certo, que lhe agradeceu a hospitalidade, alegando já ter cuidado e tratado de um israelita que vira meio morto na beira da estrada, por ter sido assaltado no quilometro 113. E ainda conheceu algum Pai que perdoou e acolheu o filho depois deste, fugido de casa, lhe ter gasto muito dinheiro em roupas de marca, festas e mulheres.

Foi certamente no seio desta família, e/ou por causa dela, que Jesus aprendeu a ouvir Deus e a perceber-Se enviado a ser o libertador e redentor de toda a humanidade. Levantar os que estavam social e interiormente abatidos e espezinhados pela sociedade. Foram eles a mulher adúltera e Nicodemos, o cego de Jericó e a Samaritana, os pescadores da Galileia e as multidões de quem se encheu de compaixão e pregou depois de uma longa caminhada que fizera. Levar à ruína os que se elevam à custa de outros, para que se levantem a partir do que são e não a partir da honra e glória que criam para proveito próprio. Foram eles alguns fariseus e doutores da lei, os homens ricos e poderosos da época, os que exploravam os trabalhadores. Um menino destes não se improvisa!

Diz o Evangelho de hoje que Jesus crescia em inteligência, robustez e graça. Como podem as nossas famílias tomar por modelo a família de Nazaré a fim de educarem os filhos para este crescimento de Jesus? Certamente que levar os filhos à escola, inscreve-los no futebol e oferecer-lhes o “Etiqueta e Boas Maneiras” da Paula Bobone é algo de muito bom, mas que não chega para criar ‘outros’ Jesus. A inteligência e a robustez são dimensões importantíssimas para o crescimento, e seria um desprezo pela criação não cuidar delas por desleixo. Contudo é essencial que a família cristã crie, na relação entre pais e filhos, um espaço vital para Deus. Sabendo que viver em Deus não consiste num ideal esfumado e afastado da realidade, nem se resume a uma data de ritos caídos do céu. É, antes de tudo, uma vida que se deixa tocar por um Deus Pai que se vai conhecendo pela leitura da vida de Jesus, e assim aprende a ler, criar e desenhar a sua própria vida a partir do exemplo e forma de ser de Jesus.

Com Jesus, o modelo de família não se resume a uma data de perfeições. O modelo de família cristã para hoje, feito ícone na de Nazaré, é aquela que, pela união e capacidade incondicional de perdão sincero e construtivo, faz com que a criança perceba que a sua família é maior que o seu agregado familiar. Assim a família deixará de ser somente um ponto de estabilidade ou lugar de origem, mas será lugar de Pentecostes, presença do espírito de Deus que envia para o serviço aos irmãos. Assim sendo já ninguém tirará um curso para ganhar muito dinheiro, ninguém mais dará esmola e atenção para ser bem visto, ninguém mais dará presentes de casamento para receber outros, ninguém mais será cego. Deus será tudo em todos, porque cada um de nós tentará ser tudo para todos, a imagem de Cristo que passou fazendo o bem.

Resta perguntar: Será que é isto que esperamos para as nossas famílias e comunidades religiosas? E se os meios para chegarmos a este fim não forem os que me apetecem ou os com que eu concordo, estou disposto a colaborar no projecto de Deus? Jesus é para mim motivo desta salvação?


(Embora neste filme Jesus seja demasiadamente caucasiano para um judeu, vale a pena ver)