28 de janeiro de 2008

os Teus planos são, cada vez mais, nossos


Corresponder ao Teu amor… amando;

e o quanto a intimidade faz de nós, mais o que somos!?


Deixar-me amar… aceitando a vulnerabilidade que provoca. Assusta! Temo o desconhecido... não domino. Ser guiado é tão consolador como desconcertante.

Aprendi a caminhar ao meu ritmo… agora, consentir ser acompanhado por outros passos.

Somente permitir que Outro entre na minha vida pode ainda falar pouco de amor. Implicar-me. Construir e fomentar o gosto pela relação. Admitir que Alguém, para além de mim, enriquece o meu viver. Confiar a um Outro a participação na minha história. Deixar-me alcançar no meu caminhar e aceitar vê-lo modificar-se.

Actos de despojamento para O hospedar no meu íntimo. Já não sou só eu que vivo em mim. Reconheço o bater do Teu coração.

Repousar no Teu regaço é não fixar-me no meu ser. Sei mais quem sou e quem És quando parto ao encontro… e me deixo ser encontrado.

Continuarei a temer… mas não desejo outro caminho senão o nosso.

27 de janeiro de 2008

Rogério José Boscovic (1711-1787)

Físico, matemático e filósofo


(Selo Jugoslavo de 1987)

Rudjer Josip Boskovic (em latim, Rogerio Josepho Boscovich) naceu em Ragusa, actual Dubrovnik, na Croácia, em Maio de 1711 e morreu em Milão, em Fevereiro de 1787. Foi jesuíta e um dos grandes cientistas do seu tempo, sabendo aliar a sua ciência ao saber universal da tradição humanista europeia. Foi físico, matemático, astrónomo, filósofo, diplomata e poeta, tendo estudado nos colégios jesuíticos de Dubrovnik e de Roma. Especializou-se em matemática e física no Colégio Romano, tendo sido designado para a cátedra de matemática deste colégio em 1740.

Como profissional da ciência e por razão das suas investigações, viajou e trabalhou em diversos países europeus, tendo vivido em França, Inglaterra e Itália. Escreveu cerca de uma centena de livros e de artigos. De entre as suas obras de maior envergadura, destacamos algumas das mais famosas: Sobre as Manchas Solares, O Transito de Mercúrio, A Aplicação do Telescópio nos Estudos Astronómicos, A Aberração das Estrelas Fixas, O Movimento dos Corpos Celestes num Meio não Resistente, Sobre Óptica e Astronomia (5 vols.), As Auroras Boreais, Os Diferentes Efeitos da Gravidade nos Vários Pontos da Terra, Elementos de Matemática Geral, Sobre a Divisibilidade da Matéria e os Elementos dos Corpos e Teoria da Filosofia Natural (Theoria Philosophiae Naturalis). Boskovic foi membro de diversas Academias de Ciências europeias, nomeadamente da Academia Russa das Ciências e da Royal Society de Londres, onde foi eleito membro em 1761.

Boskovic foi um defensor acérrimo da teoria de gravitação de Newton, que começou a estudar em 1735 no Colégio Romano. Foi o primeiro cientista a dar-se conta de que as forças de interacção atómica eram devidas a algo mais do que um mero efeito da gravitação. Na sua principal obra, intitulada Teoria da Filosofia Natural, publicada em Viena em 1758 (e posteriormente em Veneza, 1763, Londres, 1922, Estados Unidos, 1966, Zagreb, 1974), apresentou a sua própria teoria atómica da matéria e a sua teoria de forças. Nesta obra desenvolveu o conceito de átomo como um centro de forças de tipo pontual. Na proximidade dos átomos as forças alternavam entre atracção e repulsão, mas longe deles, só operavam as forças de atracção newtoniana. Para explicar a coesão ao nível microscópico, postulou a existência de forças entre as moléculas, cuja direcção e intensidade dependiam da distância inter-molecular. De acordo com a sua teoria, as forças entre átomos mudavam de sinal muitíssimas vezes, em número quase infinito, com a diminuição da distância inter-atómica. Isso exigia potenciais oscilantes, com mínimos relativos em número quase infinito, o que se assemelha à descrição actual dos estados quânticos estacionários.

Estas ideias de Boskovic exerceram uma grande influência nos principais físicos e químicos do século XIX, de tal modo que, mais de um século depois, forças desse tipo foram introduzidas na química-física, sendo actualmente conhecidas por forças de London e de van der Waals. O trabalho de Boskovic inspirou Michael Faraday no desenvolvimento da sua teoria de interacção electromagnética. A influência de Boskovic chegou também ao século XX. Rutherford baseou-se na descrição do modelo atómico de Boskovic para a construção do seu próprio modelo atómico e, de acordo com Lancelot Law Whyte, colaborador de Einstein, a teoria de Boskovic terá servido de base para as contribuições do pai da Teoria da Relatividade para uma teoria de campos unificada.

Boskovic deixou ainda o seu nome ligado a importantes fórmulas da trigonometria esférica e às secções das cónicas. Foi chamado a trabalhar na questão técnica da estabilidade da cúpula de São Pedro pelo papa Bento XIV, mediu um arco de dois graus para o meridiano entre Roma e Rimini e dirigiu o projecto do novo Observatório de Brera.

Os seus contributos na área da astronomia valeram-lhe a atribuição do seu nome a uma das crateras da Lua. O seu nome foi também atribuído a diversas instituições, nomeadamente ao maior instituto de ciências naturais e tecnologia de Zagreb, o Instituto Rogério Boskovic, em Zagreb, fundado em 1950, à Sociedade de Astronomia de Belgrado e ao Observatório de Kalemegdan. Uma imagem deste notável cientista aparece impressa em notas do dinar croata, emitidas pelo Banco da Croácia entre os anos de 1991 a 1994.

Boskovic é considerado um dos precursores da teoria atómica moderna. A sua obra mereceu a atenção de Heisenberg e foi objecto de várias reuniões científicas internacionais, realizadas na segunda metade do século XX, mas a importância dessa obra não foi ainda avaliada na sua totalidade. É de crer que o crescente interesse por esta eminente figura do século das Luzes, por parte dos historiadores da ciência, contribua decisivamente para lhe dar todo relevo a que tem direito como marco incontornável da história da física e da matemática.

Álvaro Balsas, S.J.

24 de janeiro de 2008

Visita de Ratzinger a La Sapienza

A visita do Papa a La Sapienza continua a suscitar debates, por vezes pouco objectivos. Deixo aqui algumas informações para quem quiser ter uma ideia tão objectiva quanto possível do que se passou:

1. A Universidade de Cambridge, Inglaterra, tem uma Faculdade de Teologia. Em meados dos anos 80, o então Cardeal Joseph Ratzinger, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, foi convidado a visitar a Universidade. Os estudantes publicaram no seu jornal uma entrevista com o visitante.
2. Palavras do Reitor de La Sapienza:O encontro com o Papa podia representar um momento importante de reflexão para crentes e não crentes sobre problemas éticos e civis, como o empenho na abolição da pena de morte, que são a seiva vital do nosso trabalho didáctico e de investigação. Ouvir a voz de um estudioso que tem escrito sobre temas do nosso tempo teria sido um alimento para a liberdade das consciências e para todos os que se interrogam laicamente.”
3. Cerimónia prevista para a visita do Papa: Lectio magistralis pelo Prof. Mario Caravale, docente de história do direito sobre a pena de morte, seguida das intervenções do Ministro da Universidade, Fábio Mussi e do Presidente da Câmara de Roma Walter Veltroni. Bento XVI interviria no final.
4. Texto de Bento XVI citando Feyerabend e outros (Svolta per l'Europa? Chiesa e modernità nell'Europa dei rivolgimenti, Paoline, Roma 1992, p. 76-79)“No último decénio, a resistência da criação a deixar-se manipular pelo homem, apareceu como um elemento de novidade no conjunto da situação cultural. A pergunta sobre os limites da ciência e os critérios pelos quais ela se deve orientar tornou-se inevitável. Particularmente significativo de uma tal mudança no clima intelectual parece-me ser o modo diversificado como se julga o caso Galileu.(…)E. Bloch: “Uma vez acertada a relatividade do movimento, um antigo sistema de referência humano e cristão não tem qualquer direito de interferir nos cálculos astronómicos e na sua simplificação heliocêntrica; todavia, ele tem o direito de permanecer fiel ao próprio método de preservar a terra no que se refere à dignidade humana, e de ordenar o mundo em relação ao que aconteceu e ao que acontecerá no mundo.” (E. Bloch, Das Prinzip Hoffnung, Frankfurt/Main 1959, p. 920s.; F. Hartl, Der Begriff des Schopferischen. Deutungsversuche der Dialektik durch E. Bloch und F. v. Baader, Frankfurt/Main 1979, p. 111.) P. Feyerabend (texto já conhecido)(...)Do ponto de vista das consequências concretas da revolução galilaica, C. F. Von Weizsacker dá um psso em frente ao ver uma ‘via directíssima’ que conduz de Galileu à bomba atómica.Seria absurdo elaborar com base nestas afirmações uma apressada apologética. A fé não cresce a partir do ressentimento e da recusa da racionalidade, mas da sua afirmação fundamental e da sua inscrição numa racionalidade maior. Quis apenas recordar um caso sintomático que mostra até que ponto a dúvida da modernidade sobre si mesma tenha atingido hoje a ciência e a técnica.”
5. Jornal La Repubblica, socialista: “A três dias da visita de Bento XVI, sobe o termómetro do protesto. Os docentes, tal como os alunos, estão divididos. Anunciam demonstrações contra Bento XVI, o terceiro Papa a visitar La Sapienza depois de Paulo VI em 1964, e João Paulo II em 1991. Organizarão cortejos, campanhas nos meios de comunicação, e realizarão ‘gestos fortes’, como a difusão a alto som de música de dança e ‘house’, na praça em frente à universidade, unidos contra ‘o obscurantismo’ de Ratzinger, tendo os grupos de extrema esquerda anunciado que realizarão um ‘assédio sonoro’”.

23 de janeiro de 2008



Deus é Irresistível...

‘event of the heart'

Fr. Adolfo Nicolas SJ (12 Dez 2007) :

The best of a General Congregation is the event itself, as an ‘event of the heart'. This is a time of intensive search and of exhilarating exchange, where questions and answers do not come lineally, but dance within us and around us, at the rhythm of fraternal and humble mutual openness.

20 de janeiro de 2008


A expectativa era grande. Afinal a última eleição do superior geral dos jesuítas foi em 1983. A congregação geral é, já de si, um grande acontecimento, preparado e vivido com entusiasmo. Mas esta, a 35ª, tinha ainda mais este atractivo. Quem será o homem a quem Deus pedirá o “suave encargo” de conduzir a Companhia de Jesus nos próximos anos? A questão não é só administrativa. Será por excelência o rosto da Companhia, a quem cabe governar cheio de amor e, tanto quanto possível, com eficácia apostólica. Sobre o cargo e os que o ocuparam contam-se ternas anedotas, pormenores da relação com Deus que entusiasmam e nos fazem sentir que pertencemos ao mesmo Corpo.

Estava a estudar, quando simpaticamente o Pedro Silva abriu a porta da sala com o esperado anúncio:

- Já temos Geral! E saiu.

-Já temos geral? Fui então ter com os companheiros que, “de volta” da Internet, sacavam as últimas. Adolfo Nicolás, espanhol a viver há mais de quarenta anos no Japão, Coreia e Filipinas. O Luís Amaral já estava de volta de duas páginas que davam mais pormenores. “A Ásia tem muito ainda para oferecer à igreja”, disse em entrevista de 2007. Era actualmente presidente da “Conferência Jesuíta do Sudeste Asiático e Oceânia”, ou seja, acompanhava de perto uma grande quantidade e diversidade de jesuítas em diversos contextos. Fala de exercícios espirituais que podem ser dados a não cristãos, e diz que ainda há “ mais espaço para experimentar, para tentar, para pensar e trocar experiências”. Os pormenores se saberão com o tempo, mas logo ficou a ideia de um homem com experiência dos dois mundos (ocidente e oriente), e portanto apto a dialogar e lançar pontes.

O entusiasmo continuou, e por algum tempo ouviam-se pela casa conversas animadas acerca da novidade. Passei pela capela e vi que espontaneamente os companheiros ali estavam, aos pés de Jesus, certamente a agradecer e a pedir por um futuro cheio de desafios que o Pe Nicolás vai liderar. Que o Espírito Santo o abençoe. Que o Espírito Santo nos abençoe.

Para mais informações sobre a eleição do P. Nicolás [clicar]

Texto de José Luís

19 de janeiro de 2008

Perfil do novo Padre Geral


Father Adolfo Nicolás

21-Feb-2007

A conversation is an exchange. It leaves neither participant unchanged. This is something that Jesuits and other Christians working in Asia have found for centuries.

It’s been 46 years since Father Adolfo Nicolás first traveled to Japan as a missionary from Spain. His has been a long conversation, first in Japan, but also in Korea and more recently in the Philippines. It’s left him convinced that the West does not have a monopoly on meaning and spirituality, and can learn a lot from the experience of Asian cultures.

‘Asia has a lot yet to offer to the Church, to the whole Church, but we haven’t done it yet’, he says. ‘Maybe we have not been courageous enough, or we haven’t taken the risks that we should.’


It speaks volumes that when Father Nicolás talks about Asia, he uses the term ‘we’. As President of the Jesuit Conference of South East Asia and Oceania, he’s responsible for bringing Jesuits across the region together to think beyond their own countries, and confront challenges facing the globe.

The group he represents stretches from China and Myanmar in the west, to Korea in the north, Australia in the south, and Micronesia in the east. It brings together an incredibly diverse group of cultures and societies. From countries where Christianity has been strong in the past, but is on the wane, to places where Christians make up a small but vibrant minority.

Asked if people from a culture like Japan experience Ignatian Spirituality differently than those in the West, Father Nicolás says the experience was indeed different, but it had yet to be formulated.

‘I think the real experience of the Japanese is different. And it should be different. But the formulation continues to be very much a Western formulation’, he says.

A Japanese Jesuit, Father Katoaki, has recently translated and added comments on the book of the Exercises from a Japanese-Buddhist perspective. Father Adolfo says there has also been some discussion on whether the Exercises could be presented to non-Christians, and how that might occur.

‘The question is how to give the Ignatian experience to a Buddhist’, he says. ‘Not maybe formulated in Christian terms, which is what Ignatius asked, but to go to the core of the experience. What happens to a person that goes through a number of exercises that really turn a person inside-out. This is still for us a big challenge.’

While some work has been done comparing the Ignatian experience with that of Hindus, he says there hasn’t been a lot of work on finding similarities say in Japanese, Chinese or Korean cultures. He says East Asia has been more slow to do this in India, partly because the East Asians have a strong respect for tradition, and hence a respect for Christianity’s European traditions. However, the region’s remoteness also gives it more freedom to be creative.

‘There is more space for experimenting, for trying, for thinking and exchanging’, he says.

Essentially, he says the Exercises are about letting God guide people. This is something that those directing retreats have been wary of in the past, but something that is important when dealing with people from different cultural backgrounds.

‘The fact is, if God is guiding then the Japanese will be guided the Japanese way. And the same with the Chinese, and with people from other religions’, he says.

‘Then the director simply has to be perceptive, to see signs that here God is saying something that I don’t understand, and be humble enough to say continue as long as you keep sane and balanced etc.’

Others throughout Asia are dealing more directly with questions of cultural difference, working as missionaries in countries like Cambodia and Myanmar. Father Nicolás says he’s wary of missionaries who don’t enter into the lives of the people, but keep the patterns of their home cultures – Europe or Latin America - alive in their mind. For them, it’s not about exchange but about teaching and imposing orthodoxy.

‘Those who enter into the lives of the people, they begin to question their own positions very radically’, he says. ‘Because they see genuine humanity in the simple people, and yet they see that this genuine humanity is finding a depth of simplicity, of honesty, of goodness that does not come from our sources.’

That conversation must continue, if we are to learn from Asia and Asia is to learn from us.

‘That is a tremendous challenge, and I think it’s a challenge that we have to face. We don’t have a monopoly, and we have a lot to learn.’

By Michael McVeigh

P. Adolfo Nicolás - Novo Superior Geral da Companhia de Jesus


Ego, Peter-Hans Kolvenbach, S.J. auctoritatie Sedis Apostolicae et universae Societatis, Reverendum Patrem Adolfo Nicolás in Praepositum Generalem Societatis Jesus, in nomine Patris et Filii et Spiritus Sanctus.

O P. Adolfo Nicolás tem 71 anos, nasceu em Palência, Espanha. Entrou na Companhia de Jesus aos 17 anos. Em 1964 parte para Tóquio, onde estuda teologia. De 1971 a 2002 foi professor de teologia na Universidade Sophia, e de 1978 a 1984 foi director do Instituto Pastoral da Ásia Oriental; provincial da província do Japão de 1993 a 1999. Desde 2004 era moderador da Conferência dos provinciais do Sudeste Asiático e Oceania.

Felicitamos o novo P. Geral e pedimos para ele todos os dons do Espírito Santo para levar adiante a missão que acaba de receber.

Eleição do 29º Superior Geral SJ

Na fotografia o P. Kolvenbach entrando com os eleitores na sala onde decorrerá a eleição.

Começou esta manhã em Roma a eleição do 29º Geral da Companhia de Jesus. Depois de quatro dias de oração, reflexão e troca de informação ("murmurações"), os 217 eleitores da Congregação Geral 35 irão eleger o sucessor de Sto. Inácio de Loyola. O dia começou às 8h00 com a Missa do Espírito Santo. Já na sala na onde decorrerá a eleição, os eleitores recitaram o Veni Creator Spiritus, ao que se seguiu uma exortação e um tempo de oração individual. Neste momento as votações deverão estar a decorrer.

Sto Inácio deixou nas Constituições (parte XIX) as características e qualidades que se devem encontrar no Superior Geral da Companhia de Jesus. A fasquia é bem elevada, mas é certamente alguém com um perfil parecido a este que os eleitores estão a tentar encontrar:

« 1. A primeira das qualidades, que são para desejar no Prepósito Geral, é uma grande união e familiaridade com Deus Nosso Senhor (...).

2. A segunda, que seja homem que, pelo exemplo de todas as virtudes, ajude a todos os da Companhia. Nele deve resplandecer principalmente a caridade para com o próximo, e em particular para com a Companhia, assim como a verdadeira humildade, que o tronem amável, tanto a Deus como aos homens.

3. Deve também estar livre de todas as paixões, tendo-as dominadas e mortificadas para que interiormente não lhe perturbem o juízo da razão, e exteriormente seja tão senhor de si que (...) não possam notar nele coisa alguma desedificante, nem sequer uma palavra.

4. Saiba, contudo, fundir tão bem a necessária rectidão e severidade com a benignidade e mansidão, que nunca se deixe dobrar diante do que julgar ser mais agradável a Deus Nosso Senhor (...).

5. São-lhe igualmente muito necessárias a magnanimidade de alma e a fortaleza para suportar as fraquezas de muitos (...).

6. (...) que seja dotado de grande inteligência e juízo, para que não lhe falte talento para as questões especulativas nem para as questões práticas que ocorrem. Todavia ainda mais necessária [que a ciência] lhe são a prudência e a experiência nas coisas espirituais e interiores, para discernir os diversos espíritos, para dar conselho e remédio a tantas pessoas em seus problemas espirituais.

(...)

10. Finalmente, deve ser dos homens mais eminentes em todas as virtudes, e dos de mais merecimentos dentro da Companhia, conhecido por tal desde longo tempo. Se faltassem algumas das qualidades acima mencionadas, não lhe falte ao menos uma grande bondade e amor à Companhia, e juízo recto com boas letras. Quanto ao resto, pode em grande parte, com o auxílio e favor divino, ser suprido por aqueles que tem consigo para o ajudarem (...).»

17 de janeiro de 2008

O caso "Sapienza"


Os recentes (não) acontecimentos na Universidade "La Sapienza", Roma, dão muito que pensar. O que se passa na cabeça de quem se sente "humilhado e ofendido" com a visita do Papa a uma Universidade? Arrisco-me a dizer que o preconceito encontrou na ciência e no ateísmo um esconderijo. Julgamos demasiado facilmente que ser ateu e cientista é sinónimo de ser aberto, tolerante, livre de preconceitos. De tal maneira que estes acontecimentos têm pelo menos uma virtude: põem a descoberto o gato que afinal se escondeu com o rabo de fora. Talvez possamos começar neste blog uma discussão sobre laicidade, laicismo, a relação da Igreja com a ciência e temas afim, e o editorial de José Manuel Fernandes no Público de hoje é um bom mote. Vale a pena ler!

O papel da sapienza e da honestidade no debate intelectual

17.01.2008, José Manuel Fernandes

Quando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso...

O tempo dá por vezes razão aos que parecem não a ter mais depressa do que os próprios se atreveriam a esperar. Há uma semana, nas páginas do PÚBLICO, Rui Tavares atacava Vasco Pulido Valente por este ter sugerido, na sua expressão, que "a Igreja é capaz de ter de viver novos tempos de clandestinidade". O que era obviamente ridículo. E impensável.
Nem uma semana passou sobre esse texto e acabamos de assistir não à "passagem à clandestinidade", mas a algo igualmente impensável: em Roma, na sua prestigiosa Universidade, crismada "
La Sapienza" (A Sabedoria), um grupo de professores mobilizou um protesto que conseguiu levar o Papa Bento XVI a declinar o convite para falar na sessão inaugural do ano lectivo. Porquê? Porque consideraram que o convite a um dos grandes intelectuais europeus da actualidade - uma qualidade que só por cegueira se pode negar ao antigo cardeal Ratzinger - era "incongruente" com a laicidade da universidade. Ou seja, um cidadão de Roma e do mundo, um bispo que se distinguir como académico, viu serem-lhe barradas as portas do que devia ser um templo da ciência em nome de um princípio sectário e de um preconceito que levou um grupo de cientistas a deturparem o que tinha dito num passado já longínquo. Na sua arrogância consideraram mesmo o homem que manteve uma polémica aberta e elevada com Habermas como sendo "intelectualmente inconsistente".
Ernesto Galli della Loggia, editorialista do Corriere de
la Sera, ele mesmo um defensor dos princípios da laicidade, escrevia ontem que o gesto dos professores, poucos mas com responsabilidades, traduzia "uma laicidade oportunista, alimentada por um cientismo patético, arrogante na sua radicalidade cega". Uma laicidade que não hesitou em seguir o mesmo caminho dos islamitas radicais que tresleram o famoso discurso de Ratisbona, deturpando-o e descontextualizando-o, para atacarem Bento XVI. E Giorgio Israel, um professor de História da Matemática que se distanciou dos seus colegas, explicou que estes tinham construído o seu caso a partir de "estilhaços de um discurso" realizado pelo então cardeal Ratzinger em Parma há 18 anos. O processo foi muito semelhante ao de Ratisbona: em vez de notarem que o Papa citava outrem para a seguir marcar as suas distâncias, pegaram nas palavras do autor citado - em Parma o filósofo das ciências Paul K. Feyerabend - para, atribuindo-as a Bento XVI, considerarem que este dava razão à Igreja na sua querela com Galileu. O sentido do discurso de Parma, prosseguia o mesmo Giorgio Israel, era exactamente o contrário da caricatura que esteve na origem do protesto: afirmar que "a fé não cresce a partir do ressentimento e da recusa da modernidade".

Mas que universidade é esta, que cidade é esta, que Europa é esta, que fecha as portas a alguém como Bento XVI, para mais com base numa manipulação? Não é seguramente a que celebra não apenas a tolerância, mas a divergência, a discussão em busca da verdade. E que por isso não aceitou sequer ouvir o que o bispo de Roma lhe tinha para dizer. E que já sabemos o que era, pois o Vaticano já divulgou o discurso.
Como este Papa nos tem habituado, era, é, um grande texto, uma extraordinária aula onde o teólogo e o professor, unidos num só, discorrem sobre o papel da Igreja e o da universidade, que, "na sua liberdade face a qualquer autoridade política e eclesiástica, encontra a sua vocação particular, essencial para a sociedade moderna", a qual necessita de instituições autónomas de interesses ou lealdades particulares, antes dedicadas à "busca da verdade".
Evoluindo entre referências modernas (John Ralls e Habermas) e clássicas (com destaque para o "pouco devoto" Sócrates, que elogia e defende), socorrendo-se de Santo Agostinho e S. Tomas de Aquino, Bento XVI escreveu um texto que, devemos admiti-lo, seria uma afronta para os seus detractores. Por possuir a abertura e a universalidade que são o oposto do seu sectarismo anticlerical. Por defender que "o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade. E isto significa que a razão, no fim do dia, acabará por se vergar às pressões dos interesses e do utilitarismo, perdendo a capacidade de reconhecer a verdade como critério único".
E alcançar a verdade implica questionar - mas não ignorar - as certezas de hoje. E um Papa, na universidade, não vem para "impor a fé de cima, pois esta é antes do mais um dom da liberdade".

No tribunal de "
La Sapienza" foi um Papa que quiseram colocar no lugar de Galileu, e foram cientistas que fizaram o papel do acusador de então, o cardeal Roberto Bellarmino, porventura mostrando ainda menos compaixão.
Mas nisso, infelizmente, não andam sozinhos. Já repararam como, entre nós, vai por aí um debate sobre Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente terem chamado "fascista" a Sócrates, o que nenhum deles chamou. Como, de resto, nem o próprio António Barreto chamou, pois o seu raciocínio completo é: "Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições."
Como é mais sexy discutir o "fascismo", ilude-se o que o próprio autor considera ser "o importante" - o que é mais depressa chicana política do que debate intelectual, perdoe-se esta franqueza, que só pode ser tomada pelo que é: um desafio a recusar o mau exemplo de "
La Sapienza".


13 de janeiro de 2008

Bernard Lonergan (1904 – 1984)

Natural do Canadá, Bernard Joseph Francis Lonergan, padre jesuíta, filósofo e teólogo, foi um pensador brilhante e original. Durante vários anos as suas ideias foram estudadas nas mais variadas áreas do saber: ciências naturais, economia, sociologia, filosofia e teologia. Foi professor na Universidade Gregoriana em Roma, em Harvard e também no Boston College até 1983. A originalidade do seu trabalho está sobretudo em ter proposto, através de um profundo estudo da mente em acção, um método de inter-relação entre todos estes ramos do saber e da experiência humana.

“Sê atento, sê inteligente, sê razoável e sê responsável”. São os traços que marcam, para Lonergan, a atitude fundamental da pessoa que é autêntica. Máximas do género "Trata os outros como queres ser tratado" não podem, em última análise, ser fundamentais porque não há uma máxima superior que nos leve a aderir a elas. Nem tão pouco as autoridades nos podem dar os nossos valores últimos, porque não há uma autoridade superior que nos diga que autoridades seguir.

O que Lonergan nos diz é, no fundo, que todos nos guiamos por critérios como “sê atento, sê inteligente, sê razoável e sê responsável”, independentemente do modo como se manifestam em nós, e é por eles que escolhemos as máximas e as autoridades pelas quais reger a nossa vida.

O seu método empírico generalizado clarifica as operações que se dão no sujeito no que diz respeito à escolha de valores. É uma busca das normas morais inatas e de um possível sentido para a objectividade moral. Num mundo em que há tanta incompreensão e diversidade cultural, ética, etc, Lonergan parte do pressuposto de que o desenvolvimento da verdadeira moralidade só será possível se os jogadores "puserem as cartas na mesa".

Este método dá-nos a possibilidade de conhecer as categorias explicativas da nossa moralidade e do nosso modo de valorizar, o que nos permite conceptualizar o que se passa em nós a nível de valores, e também justificar perante os outros as nossas opções fundamentais, como por exemplo a nossa fé.

Para aprofundar: [Clicar] e o texto de Luís Providência, S.J. [Clicar]

12 de janeiro de 2008

Retiro....



[No passado dia 5 estivemos de retiro... Eu estava a precisar! O Natal foi muito intenso... Como sempre! Já mais para o final do dia, estava na capela de Sto Inácio, na nossa casa de Soutelo e escrevi algo... Não tinha ideia de publicar, mas depois de ter partilhado com algumas pessoas pensei: porque não? E aqui vai... Não alterei nada do texto... A parte final, em negrito, é o excerto de uma oração de Fernando Pessoa... Os links a meio do texto são para o vídeo "Juntos... vimos o mundo" e para a oração do P. Arrupe.]

2008.Jan.05

Ir... Buscar... Sou em caminho. Encontrar o desconhecido que se revela com o abrir dos olhos... O ver que abala, inquieta, tira o cómodo na busca do mais que intensifica o olhar...
Quero conhecer-Te para viver. Não me interessa uma sabedoria sem vida, apenas fechada no intelecto das certezas. E as dúvidas que permitem o aumento da fé? O mundo concentra-se na objectividade do que está dado e adquirido. Será assim?

Chega de esquemas farisaicos de perda de identidade em nome de sabe-se lá do quê.
O Abraço divino acontece com o despertar do meu conhecimento interno, conhecendo-me com abertura conheço o mundo que se revela e O revela...


Saber ---> Sentir! Todas as certezas sobre o Amor e nenhuma é desperta na vivência, no consolo de que somos amados e salvos...


Ah! Que grito que quero soltar... Sentir-Te descaradamente em cada esquina, em cada olhar, em cada desejo, saltando de esquemas rigoristas em que tudo está alicerçado no ritual estabelecido. E o ritual da vida do outro lado do mundo? Tão diferente e tão igualmente certo. E a pessoa que vive sabedorias diferentes, marcada por uma história de vida que pouco ou nada conjuga com a doutrina estabelecida? Dizes-nos a cada instante para perdermos o medo e o que se vê é o passo que não é dado...


O que queres de mim? Sinto-te a me pedir para dar saltos, em passos coreográficos diferentes do habitual... Tens-me preparado como ainda o fazes... E não é para longe, é para muito perto... Saltos que permitem a renovação. Encarnar tornar o corpo, a carne mais vivos. Deixar desabrochar a fé encarnada do humano, sem pudores, medos, vergonhas. Tu és corpo, és carne em cada um de nós. Chega de ter medo!


Arrisca! Tu és +!


Senhor, passando-me pelo pensamento a oração do P. Arrupe, peço-te torna-me ainda mais louco! Louco por ti e a fazer santas loucuras em teu nome. Loucuras que me peças... Quero ouvir-Te, e não ter medo de ser louco aos olhos do mundo, mesmo (e sobretudo) do mundo eclesiástico. Nalguns pontos tão vazio de ti. Tenho muito a aprender, mas já muito é demasiado claro. O mundo grita por Ti e nós não estamos a dar resposta.

Há um passo fundamental: Amar! Ser capaz de me amar com o que sou, amar-Te e amar os outros também com o que são... O Amor leva ao perdão... O Perdão leva à vida... A Vida leva à comunhão, que mais não é que o Teu Corpo feito carne em nós!


Quero Viver isto... Quero viver o Amor, o Perdão, a Vida, a Comunhão...


Senhor que és o céu e a terra, a vida e a morte, o sol és tu, a lua és tu e o vento és tu também... Onde nada está tu habitas, onde tudo está o teu templo, eis o teu corpo. Dá-me alma para te servir e alma para te amar... Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e te servir como a um pai...


Arrisca! Sê +!
JUNTOS...

video

10 de janeiro de 2008

A Congregação Geral 35 nas notícias

A Congregação Geral 35 numa reportagem na SIC, com o contributo do Pe. Alberto Brito

Uma questão de amor...

Jesus avança em direcção a nós, fala no mais íntimo do nosso ser, ajuda-nos a romper com as falsas concepções acerca da nossa existência, traz um sentido novo a todas as coisas. Abre-se em nós a esperança de um mundo novo, de uma vida centrada na novidade que Jesus, o Ungido de Deus, nos veio trazer. Assume-se como Filho de Deus provocando escândalo entre os judeus para quem Deus era Alguém poderoso e cheio de dignidades, uma entidade distante do homem. Anuncia a todos nós que o Pai nos quer igual a Ele pois só assim poderemos participar da Sua glória. Deus afinal é nosso Pai e ama-nos profundamente. Quer-nos junto a Ele a partilhar da Sua alegria. Jesus é o Filho de Deus e, como tal, chamado a ser como o Seu Pai. Todavia convida-nos, a nós também, a seguir o seu exemplo, a sermos seus imitadores tal como Ele é do Pai, pois todos somos filhos de Deus. Para participarmos no banquete divino temos que estar vestidos com o traje de festa. Para entrarmos na comunhão total, na união de amor com o Pai precisamos de pertencer à mesma natureza que Ele mesmo pertence, natureza essa ditada pelo amor.

O amor, só o amor é caminho de liberdade, trilho para atingir o Paraíso que o ser humano tanto anseia. No fundo de nós habita o desejo profundo de atingir esse espaço onde as preocupações são aniquiladas e em que a angústia não tem lugar. A alegria e a paz querem brotar dentro de nós. Jesus aponta-nos os caminhos. No amor humano temos uma experiência aproximada da relação de Deus com cada um de nós. A nossa alegria é a alegria do ser amado, o seu sofrimento passa a ser o nosso sofrimento. Às vezes até nos esquecemos de nós para que o outro seja, aceitamos perder para que o amado possa ganhar. Aprendemos a perdoar porque desejamos tanto estar unidos ao outro que o ressentimento não tem espaço para existir. Ora, amar assim só é possível quando somos capazes de pôr de lado todo e qualquer interesse que tenhamos em nós mesmos. É exactamente esse o nosso adversário: o egoísmo. Estamos tão preocupados em “ter para nós”, em satisfazer a nossa vontade que não conseguimos “entrar no outro” para mais o compreender e amar.
Deus ama-nos sem egoísmo. Não quer nada para Si.

7 de janeiro de 2008

CONGREGAÇÂO GERAL XXXV


Hoje às 10h00 começou, em Roma, a XXXV Congregação Geral da Companhia de Jesus. A CG é ó órgão supremo de governo dos jesuítas. Contrariamente ao que acontece com os capítulos das outras ordens religiosas, a CG não reúne periodicamente, mas convoca-se apenas para eleger um novo Padre Geral, ou para tratar de assuntos de especial importância que requerem a presença de representantes de toda a Companhia.
Durante a primeira fase, os 225 elementos que participam na CG irão eleger o novo Superior Geral da Companhia de Jesus, que irá suceder a Peter-Hans Kolvenbach, eleito para Geral em 1983. Apesar de o cargo de Geral ser vitalício, P. H. Kolvenbach irá apresentar na CG o pedido de renúncia - “Num momento histórico caracterizado por mudanças tão rápidas, e depois de 25 anos ao leme do governo, creio que a Companhia de Jesus tem o direito a esperar uma infusão de sangue novo”, afirma.
No final da Eucaristia de abertura da CG, foi acesa uma lâmpada no altar de Santo Inácio da Igreja do Gesú, Roma. A lâmpada continuará acesa durante todo o tempo que durar a CG. Este gesto repete-se nas capelas dos jesuítas de todo o mundo (e também na capela da nossa comunidade), como símbolo da oração de toda a Companhia pelo bom sucesso da CG. No acto de acender a lâmpada, o P. Geral rezou a seguinte oração:

“Pai e Mestre Inácio, perscrutador dos caminhos de Deus, amigo fiel do Senhor, humilde servidor de Cristo e do Evangelho debaixo da bandeira da cruz, peregrino incansável da maior glória de Deus através do discernimento e da oração, dócil e obediente ao Senhor e à Igreja sua esposa; Tu que não procuraste riquezas e honras, mas que preferiste ser pobre com Cristo pobre, desprezado com Cristo humilhado, de modo que fosse anunciado a todos o Santo Nome de Jesus em quem está a salvação, intercede por nós diante do Pai de misericórdia, para que neste tempo de graça possamos procurar e encontrar em tudo a Sua divina presença e conhecer a Sua vontade.
Ao eterno Senhor de todas as coisas confiamos esta mínima Companhia, que não foi instituída por meios humanos, mas pela mão poderosa de Cristo Senhor em quem agora pomos a nossa esperança, para que se digne conservar e levar a bom termo aquilo que se dignou começar para Seu serviço e louvor e para ajuda das almas.
A Ti, Pai Inácio e à Companhia do Céu, nos confiamos a nós mesmos pata que confiantes na fé, firmes na esperança e inflamados na caridade evangélica, possamos em tudo amar e servir O Senhor e renovar em cada dia a nossa oração de oferecimento.”

Para seguir os últimos preparativos da CG clicar [preparativos CG]. Para um vídeo sobre a CG clicar [vídeo CG] (em Espanhol).

6 de janeiro de 2008

Epifania

Considerar como a divindade se esconde


O mistério não se deixa esquartejar pelo tempo,

nem dominar pelo espaço.

Ele, luz da luz, permanece incarnado no interior do universo.


A sua Luz é tão forte que cega a superficialidade e

penetra como uma espada de dois gumes.


E ao coração disposto revela-se imagem não dizível.

4 de janeiro de 2008

Francisco Suárez, SJ

Trata-se de um jesuíta que viveu grande parte da sua vida no nosso país. Nasceu em 1548, precisamente no dia 5 de Janeiro, em Granada, no seio de uma família abastada. Seu pai, advogado de renome, fez com que Francisco começasse a estudar Leis com apenas 13 anos, em Salamanca. Três anos depois decidiu fazer-se jesuíta.

Na recém fundada Companhia de Jesus, recebeu uma sólida formação filosófica e teológica. A partir de 1571 começou a leccionar Teologia em várias cidades europeias, desde Salamanca a Roma, até se estabelecer definitivamente na Universidade de Coimbra em 1597.

Hoje, dia do seu aniversário, podíamos recordá-lo por ter iniciado a segunda escolástica seiscentista a partir do pensamento tomista. Podíamos recordá-lo pela grande obra Disputas metafísicas, onde aprofunda a Teologia Natural. Podíamos recordá-lo por ser um dos fundadores do Direito Internacional Moderno. Podíamos recordá-lo por ter criticado, na obra Sobre a guerra e as Índias, as práticas da colonização espanhola. Podíamos recordá-lo pela crítica que fez ao absolutismo régio, mesmo quando se considerava natural o “direito divino dos Reis”.

Enfim, são muitas as razões que nos levam a recordar este homem de Deus. Contudo, gostava de recordar apenas um pequeno aspecto do seu pensamento, exposto no De Legibus publicado em 1612.

Numa época onde o individualismo se apresenta como um perigo, o pensamento de Suárez talvez possa servir para aprofundar a reflexão sobre a organização da sociedade e, sobretudo, sobre a maneira de a conceber. Na época de Suárez, todos estavam de acordo que o poder vinha de Deus. A questão era a de saber se Deus conferia esse poder directamente a determinadas pessoas – como defendiam os absolutistas – ou se esse poder era recebido da sociedade – como defendia Suárez, refutando a tese do «direito divino dos reis» defendida, mesmo depois da morte de Francisco, por déspotas como Jaime I ou Marquês de Pombal.

Para Suárez, o poder político é uma propriedade natural de qualquer sociedade civil. Deste modo, os governantes não recebem o poder politico directamente de Deus, mas da sociedade organizada. Antes de Rousseau escrever o Contrato Social, Suárez falou de dois pactos: o de associação, que constitui a sociedade; e o de sujeição, que define o agente da autoridade.

Esta diferença é importante porque, enquanto a perspectiva de Rousseau pode levar ao entendimento individualista como estado natural do ser humano, Suárez concebe o Homem como um ser que realiza a sua natureza na sociedade, isto é, o Homem “faz-se” inserido numa comunidade concreta. Assim, o poder não é a soma da soberania individual de cada um, na medida em que a sociedade é muito mais que o mero somatório dos indivíduos. O poder político é uma propriedade da sociedade e, por isso, é uma entidade moral, ou seja, institui-se tendo em vista o Bem Comum.

Francisco Suárez morreu em Lisboa, a 25 de Setembro de 1617. Os seus restos mortais encontram-se na Igreja de São Roque, depositados na capela do altar da Anunciação.

Para saber mais sobre o pensamento de Francisco Suárez
[«Doctor Eximius» - sobre a vida e o pensamento de Suarez]

[Referências sobre a obra de Suarez]

O Deus que se revela II - Regressar a Casa


Uma das imagens mais marcantes usadas por Jesus para revelar o Pai é a parábola do filho pródigo: um pai com os braços abertos ansioso por receber de novo em sua casa o filho desobediente. Pondo em ênfase a misericórdia e o acolhimento de Deus, Jesus como que desmonta a figura do juiz implacável e distante, ressentido pelos nossos afastamentos, imagem muito presente nos homens de Israel, e até nos dias de hoje. Como pode um pai fechar a porta de sua casa ao seu filho?

Jesus obriga-nos a pensar neste Pai que nos ama, e não nos limita, não nos quer condicionar nas nossas decisões. Dá-nos liberdade. “Queres a tua parte da herança? Pois eu dou-ta. É tua! Queres partir à descoberta do mundo, sozinho, na busca de alegria e de satisfação? Então parte. Não te digo isto por não querer saber de ti, por não me importar com o teu futuro, mas porque te amo. Sofro sim, mas não por me deixares sozinho. Sofro porque sei que longe daqui não vais encontrar a alegria que procuras...” É um Pai ferido mas não ressentido. É um Pai que sofre mas não por se sentir abandonado, pois no seu coração não há espaço para se preocupar consigo mesmo. Sofre porque sabe que a desobediência do seu filho o vai conduzir à angústia e ao sofrimento.

É um Pai paciente com seus filhos. O filho mais velho, obediente mas, dentro de si mesmo, angustiado, cumpre mas sem convicção, obedece mas não ama o que pratica, no fundo de si deseja seguir o caminho do seu irmão, está convencido que é aí que vai encontrar a sua realização. Reage mal perante o regresso do seu irmão, não entende a alegria do Pai. É o que vai acontecendo nos nossos corações em muitas ocasiões. Praticámos obras de caridade, cumprimos todos os preceitos da lei e depois nos juntámos à porta das igrejas para julgar os filhos desobedientes. Se estivéssemos, de facto, convencidos de que a obediência ao Pai é o verdadeiro caminho da alegria então exultaríamos no dia em que aqueles, que escolheram procurar a sua própria satisfação abandonando a casa do Pai, regressassem ao acolhimento do lar paterno. No fundo do nosso coração ainda desejamos muitas vezes os caminhos da luxúria, do orgulho, da fama, do prestígio, da vida cómoda e despreocupada ao caminho de despojamento e entrega que Jesus nos propõe e que até, aparentemente, seguimos.

O filho mais novo regressa, depois de ter esbanjado todo o dinheiro que tinha recebido de seu pai. Reconhece o mau caminho que seguiu, e colocando de lado todo o orgulho, vai ao encontro da misericórdia acolhedora do seu progenitor. De facto de nada adiantou ir em busca da alegria e da satisfação correndo atrás das soluções fáceis que o mundo lhe apresentava. Mergulhou na profundeza da sua miséria, deu-se conta da fragilidade da sua auto-suficiência e, arrependido dos seus enganos, volta disposto ao encontro reconciliador com seu pai, disposto a ter um lugar menor na casa. Porém o pai recebe-o de braços abertos como se sempre tivesse estado à sua espera e devolve-lhe a dignidade de filho amado.

Deus é este Pai amoroso, conciliador, que nos quer junto d’Ele a desfrutar da alegria e da paz da Sua casa. Está constantemente à nossa espera, não para nos julgar ou castigar, mas para nos abraçar.

2 de janeiro de 2008

Dois abraços confiantes: ao património recebido nos dias passados. O outro, ao Incerto que aí vem.