30 de março de 2008

Deus como Esperança


Quando começamos a estudar filosofia, deparamo-nos com uma série de sistematizações da realidade elaboradas ao longo da história. Desde Platão e de Aristóteles, duas grandes sistematizações filosóficas têm marcado o rumo da filosofia durante séculos.

São sistemas que procuram compreender e interpretar toda a realidade, sem deixar lacunas por preencher. Sistemas que integram todas as dimensões do saber humano e que se regem pela racionalidade. Muitas vezes, acabam por ser sistemas abstractos, afastados da vida concreta que os homens percorrem neste mundo.

Para um cristão, esta experiência pode começar por ser assustadora. De facto, nestas sistematizações filosóficas, encontramos sistemas fechados, auto-suficientes, sem lugar para a Graça, ou para o mistério que a vida acaba por ser. Foi um pouco isso que senti ao estudar o pensamento de Platão, Aristóteles e até mesmo de São Tomás.

Curiosamente, em Nietzsche encontrei uma revolta contra este tipo de filosofia, se assim se pode dizer. Até à sua época, os filósofos partiam da realidade vista como um impulso de cima para baixo: do Ser/Bem/ Metafísica até às realidades sensíveis, isto é, a natureza, a matéria, a nossa vida concreta. Nessa lógica, as nossas vidas pertencem e são dominadas por uma realidade superior, afastada de nós.

Nietzsche quer inverter essa lógica, que tem dominado a Humanidade em grande parte por culpa do Cristianismo. Para o filósofo alemão, a realidade não está fora da natureza, não está fora do Homem. Nietzsche quer viver a vida, a vida concreta que temos, sem projectarmos a nossa felicidade para fora deste mundo e desta vida.

No entanto, parece-me que Deus é fundamental para a nossa felicidade no aqui e agora. Para o cristão, Deus não é a explicação da realidade envolvente, mas o sal que tempera tudo o que vivemos e pensamos. Deus não tem de ser encarado como causa de todo o real, mas pode ser vivido como um mistério que se revela ao longo da nossa vida e da nossa busca pessoal.

Se concebermos Deus, não como princípio explicativo da realidade que nos rodeia, mas como uma esperança que levamos dentro de nós, podemos procurar uma verdade que nos seja útil nesta vida que seguimos dia a dia. Nesse caso, mais que respostas muito claras, Deus será fonte de interrogação e da admiração que alimenta a nossa vida.

28 de março de 2008

Porque creio na ressurreição?


«Porque creio na ressurreição? Resumo agora.
Em primeiro lugar, a sua explicação dos factos ocorridos depois da morte de Jesus não é irracional.
Em segundo lugar, porque essa aceitação implica uma oferta de plenitude que eu não encontro noutro lugar e que corresponde à demanda de plenitude que nos constitui como humanos (plenitude de sentido, plenitude de fundamentação, plenitude de justiça, plenitude de amor, de felicidade e de vida). E abre-nos mais possibilidades humanas do que a mera aceitação de fragmentos dispersos (parcialidades de sentido ou de vida ou de gozo) que marcam a nossa existência terrestre, mas que, pelo seu carácter dinâmico, parecem reclamar gritantemente uma plenitude.
E em terceiro lugar porque o caminho para essa plenitude é demasiado contrário aos imediatismos do nosso ser humano para poder ser uma simples projecção de desejos ou um wishful thinking (pensamento do que se deseja): é um caminho que passa precisamente pela renúncia a essa plenitude que anelamos e pela aceitação da finitude, a aceitação da morte e às vezes até a entrega da vida.
Por tudo isso (…) eu creio na ressurreição de Jesus. Pela confluência dessas razões e não por uma só delas. E por causa do que essa ressurreição significa creio também que nele se manifestou Deus (“se deixou sentir”), com essa discrição sem sufocos que o caracteriza e que não invade.
Mas sublinho que “creio”. Embora a considere a resposta mais coerente com os factos, não a considero um facto historicamente demonstrável, mas só testemunhável. Joguei a vida na aceitação dessa interpretação de Jesus e no “plus” de alma que traz à nossa vida neste planeta. Depois aconteceu-me como a muitos outros crentes: vão-se encaixando peças de modo que actua como retroconfirmação. Mas isso, claro, já não é transmissível em fórmulas estereotipadas como as fórmulas lógico-matemáticas. Nem é nem deve sê-lo. É preciso dizer: “Vem e verás” (Jo 1, 46). Aconteceu a muitos pode acontecer-te também a ti».

J. I. González Faus, Deus e a Fé. Razões do crente e do não crente. Cruz Quebrada: Casa das Letra, 2005, pp. 168-169.
Imagem: Ressurreição, Marc Chagall

17 de março de 2008

O espanto


Para quem começa a estudar Filosofia um bom desafio é tentar perceber o que vem a ser afinal a Filosofia. Heidegger no seu texto “Que é isto a Filosofia” tenta levar a cabo esta tarefa. Logo no início do texto, ao tentar esboçar uma primeira resposta à sua pergunta “Que é isto, a Filosofia”, Heidegger afirma que os “sentimentos, mesmo os mais belos, não pertencem à Filosofia”, e que esta “não é apenas algo de racional, mas a própria guardiã da ratio”. Numa palavra, “Filosofia é matéria da ratio”. Assim, numa abordagem mais ligeira poderia parecer que, no que ao conhecimento filosófico diz respeito, Heidegger atribui à razão um papel exclusivo. Não me parece, contudo, que assim seja. Ao iniciar a sua discussão, Heidegger cita André Gide - “é com bons sentimentos que se faz má literatura” - com o intuito de esclarecer que a Filosofia não é uma coisa de “afecção, afectos e sentimentos”. Mais adiante, contudo, regressa a esta mesma citação, dando a sensação de não estar afinal de contas tão convencido da distância da Filosofia em relação aos “sentimentos”. Parece, aliás, que poderá ser utilizada a palavra “sentimento” desde que bem entendida. A atitude filosófica é entendida por Heidegger como uma disposição, disposição para escutar o apelo do Ser. Contudo, “a disposição assim entendida não é uma música de sentimentos acidentais e emergentes que apenas acompanhassem o corresponder”. “Quando caracterizamos a Filosofia como corresponder disposto, não queremos com isso, de modo algum, abandonar o pensar às mudanças acidentais e às oscilações dos estados de sentimento.”

Ou seja, se é verdade que a razão é um dos elementos inerentes à actividade filosófica, não parece ser menos verdade que esta não se esgota no racional. Aliás, Heidegger deixa bem claro que mesmo aqueles que reduzem a Filosofia à razão fazem-no numa atitude própria de uma disponibilidade. “Muitas vezes”, afirma, “transparece de longe que o pensar seja um modo de calcular e uma concepção racional livre de toda a disposição”. “Mas também a frieza do cálculo e a prosaica sobriedade do planejar são características de uma disponibilidade”. “E não apenas isto; mesmo a razão que se guarda de toda a influência das paixões está disposta, enquanto razão, à confiança na inteligibilidade lógico-matemática de seus princípios e regras”.

As palavras-chave que este filósofo alemão associa ao filosofar são “espanto”, “admiração”, “escuta”, “disposição”, “resposta ao apelo do Ser”, “correspondência”, “estar determinado”. Trata-se mais de contemplar e escutar do que de pensar, mais de obedecer do que de inventar. “A Filosofia é um modo de competência”, afirma Heidegger, “isto é, de espreitar alguma coisa, e de captar e prender em sua visão que ela mantém em espreita”, ou, “o admirar-se suporta e domina continuamente a Filosofia”. “A Filosofia e o filosofar pertencem à dimensão do Homem que se chama de disposição.

A Filosofia como admiração, como “disponibilidade" parece aproximar-se da fé religiosa. Também a fé não é sentimentalismo ou mera afectividade; também ela não se esgota na razão. A atitude do crente é uma atitude contemplativa, de escuta, de procura de Deus e da Sua vontade em todas as dimensões da existência. Como afirma J. I. González Faus, Jesuíta e teólogo espanhol, “a fé não é uma conclusão da razão, mas um convite da razão”. É interessante notar que o Cardeal Newman utilizava a propósito da fé o conceito de assentimento, ou seja, estar disposto a acreditar, a entrar em relação com Deus. Tal como Heidegger dizia a respeito da Filosofia, poderíamos nós dizer que a fé e o acreditar pertencem à dimensão do Homem que se chama de disposição.

16 de março de 2008

Domingo de Ramos


Quem dizem os Homens que Eu sou?

"Para a Igreja, em cada ano que celebra a Páscoa, é importante confrontar-se com esta questão: quem é Jesus Cristo? É que a Páscoa encerra a nossa verdade mais profunda, de quem somos, o que é a nossa vida, de que é que precisamos para ser libertos, qual é o sentido radical da nossa existência. Jesus Cristo é ou não decisivo para a resolução definitiva da nossa vida, da vida dos homens de todos os tempos? Tal como Jesus, com a Sua entrada em Jerusalém, quis provocar a cidade a tomar uma posição a Seu respeito, e este é o enquadramento do drama da Paixão, para tudo recomeçar na surpresa da ressurreição, assim a Igreja, com esta Liturgia do Domingo da Paixão, nos interpela a tomar uma posição clara e actual, neste momento da nossa vida, sobre a questão: quem é para mim Jesus Cristo? Essa resposta acompanhará e influenciará o modo como vamos percorrer com o Senhor, em Igreja, a memória da Paixão e da Ressurreição."


Da Homilia de D. José Policarpo no Domingo de Ramos

Fotografia de Fernando Ribeiro - Procissão dos Passos, Braga 2008

11 de março de 2008

Galileu vai ter estátua no Vaticano em 2009

A estátua Galileu em "tamanho natural" e esculpida em mármore será colocada nos jardins do Vaticano, numa homenagem pedida pelos membros da Academia Pontíficia das Ciências.

Galileu Galilei (1564-1642) nasceu em Pisa e começou a observar a Lua e as estrelas através de um instrumento revolucionário, o telescópio astronómico, e gradualmente confirmou que a Terra girava em torno do Sol, o que já tinha sido defendido antes por Copérnico.

Essa constatação valeu ao cientista a perseguição da Inquisição da Igreja Católica, que lhe exigiu que negasse as suas teorias sob a ameaça de o lançar na fogueira.

O cientista morreu em 1642.

Em 1992, depois de um inquérito de 13 anos, o Papa João Paulo II deu por encerrado o caso Galileu, reconhecendo que a Igreja se tinha enganado.

O ano de 2009 foi proclamado pelas Nações Unidas como Ano Internacional da Astronomia para comemorar a primeira utilização de um telescópio por Galileu.

(notícia retirada de www.rtp.pt)

Pecado - palavra proibida. Ou política e socialmente incorrecta!

Pelos vistos não é de bom tom falar-se de pecado. Parece que estamos todos a arder no fogo do inferno… Será assim? Será que estamos? Será que o desejo mais profundo da Igreja é que o ser humano vá directamente para o inferno? O que é o inferno? Existe? Bem, podia continuar aqui com uma lista intermináveis de questões que estão por detrás de notícias que tenho lido sobre “novas formas de ir parar directamente ao inferno”. O que é isto? Parece que somos, nós crentes, todos uns tolinhos, que não pensamos no assunto e que o maior desejo é ver almas a arder pela vida pecaminosa que levaram…

Não tenho problemas em dizer que nós, Igreja, pecá(a)mos. Muitas vezes por sermos incoerentes na vivência daquilo que pregamos. No entanto, não posso descartar a importância que temos sob vários pontos de vista. E faz-me confusão que em nome da tolerância, se seja intolerante com afirmações como se houvesse de fundo um desejo perverso de ver as pessoas a serem condenadas. Não faz sentido…

O que é o pecado? De forma rápida e directa, é aquilo que me afasta da relação profunda. Primeiramente com os outros, ultimamente com Deus. Ah, mas não é politicamente correcto falar assim, porque eu posso não acreditar em Deus. Muito bem, então, é imoral quando uso o ser humano como um meio e não como um fim em si mesmo. E assim, não se sente o calor do inferno. Bolas, mas não haverá inferno? Em vez de estarmos presos a mitologias, poderemos olhar para a realidade circundante. Em nome de tanto mata-se tanto. E, sim, aí perversamente, vê-se como o ser humano usa e abusa de outros, de modo a se satisfazer esquecendo os outros.

Reconheço que, nós Igreja, contribuímos imenso para a ignorância que se vive no campo teológico, mas por favor, quando se ler ou escutar alguma coisa sobre Igreja, ou relacionado com, antes de embarcar imediatamente, vamos parar para reflectir. Fazer críticas sem sentido [e aqui alargo para toda e qualquer crítica sobre todo e qualquer aspecto], contribui para a estupidificação da humanidade…

10 de março de 2008

Introdução na Filosofia

Este primeiro semestre foi para mim Introdução na Filosofia, uma introdução que é iniciação enquanto entrada, admissão, em algo novo, diferente, do qual começo a fazer parte.

Ao longo do semestre pude descobrir e experimentar, em primeiro lugar, a filosofia enquanto método. Método que significa, antes de mais, um caminho a fazer, no sentido de percorrer, mas também de construir (abrir). A introdução na filosofia só foi verdadeira (ou seja proveitosa) enquanto foi ela mesmo filosofante. Pude experimentar também a filosofia como visão, como um olhar próprio a cada filósofo, a cada ser humano. Um olhar que engloba a história, o mundo, a existência humana e que constitui uma opção, uma tomada de posição na leitura da realidade, na descoberta do seu sentido mais profundo. Em terceiro lugar, a filosofia só se torna possível e real, quando assume a palavra, quando a ideia se faz conceito, como matéria-prima de um método e de uma visão. Conceitos que descrevem o homem: o Amor, a vontade, a escuta, ou a própria realidade, na sua densidade e profundidade como o ser, a essência.

Estes primeiros passos no “mundo” da filosofia foram sobretudo um convite que me foi feito, e continua a sê-lo, cuja resposta se materializa em numerosas páginas de leitura e de escrita, mas vai muito além disso. Este convite foi-me dirigido ao longo deste semestre pelos meus professores em primeiro lugar, mas também colegas e companheiros, em nome da própria filosofia, dos filósofos que me foram apresentados, das suas ideias, sistemas e perspectivas, um convite da própria realidade (do homem, do mundo, da vida) que se quer descobrir diante de mim, que me quer abrir a sua profundidade. Por dele, está, em última instância, um convite de Deus que me confia, como estudante jesuíta, a missão da minha formação filosófica.