30 de abril de 2008

O fundamento último da existência: algo ou alguém?


Tanto a perspectiva da fé como a perspectiva científica procuram compreender a realidade. E no entanto, entre ambas existe um conflito de séculos. Donde nasce esta tensão? Porque temos tendência a achar que ciência e fé são incompatíveis? Porque é que muitos cientistas olham a religião com tanta desconfiança?

Diz-se frequentemente que a ciência não está preocupada com as grandes questões existenciais. Esse seria afinal o campo de acção da filosofia e da religião. Embora esta afirmação seja muito frequente, julgo que não corresponde inteiramente à realidade. Quando um cientista não crente, por exemplo, afirma que Deus não existe, baseia-se frequentemente em argumentos próprios de uma perspectiva científica estrita, e desta forma acaba por fazer uma afirmação prática da capacidade da ciência para responder às tais grandes questões da nossa existência.

Em que ficamos, pois? A ciência é ou não competente para falar sobre o sentido da nossa vida (ou sua ausência)? Que pode dizer sobre os valores? O seu método é o mais adequado para procurar Deus? Acho que depende da forma como queremos encarar o fundamento último da realidade. Se este for algo (uma causa primeira, uma harmonia cósmica, uma razão universal…), então talvez a ciência seja a forma mais adequada para o procurar (admitindo que existe, claro está, ou mesmo chegando à conclusão de que a ciência nunca o desvelará completamente). Se este, porém, for alguém (um Deus pessoal) então a ciência será certamente insuficiente para nos relacionarmos com ele. A grande questão não é, parece-me, a existência de um fundamento último para a realidade, mas sim o tipo de fundamento que estamos dispostos a procurar: pessoal ou impessoal.

Enquanto numa visão materialista este fundamento último se reduz a um algo que podemos conhecer cientificamente, as grandes religiões monoteístas procuram e acreditam num Deus que é Alguém e não uma coisa, e que não é, portanto, totalmente cognoscível pelo método da ciência. Tentar aplicar a Deus o método científico não resulta, tal como não resulta utilizar o método científico para me relacionar com um amigo (a menos que queira também reduzi-lo a uma caixa de acção reacção). Isto sem desprezar o importante contributo que as ciências (psicologia, biologia, etc) podem dar para a compreensão do ser humano. Desde esta perspectiva, a fé é sobretudo uma experiência de encontro e não uma descoberta científica. As atitudes subjacentes são muito distintas. Se a disposição básica do cientista (enquanto faz ciência) é a dúvida, a disposição básica do crente é a confiança. Enquanto o cientista pensa e experimenta a sua teoria, o crente relaciona-se com Deus, o que exige a utilização de todas as dimensões do seu ser e não exclusivamente a racional. O que não significa, obviamente, cair no fideísmo - o crente deve procurar dar razões da sua fé.

Ilustro as duas atitudes que acabo de referir, materialismo e crença num Deus pessoal, com o exemplo de dois físicos do Séc. XX: Einstein e Heisenberg (1). Einstein era um homem espantado diante da “harmonia universal”, mas não acreditava num Deus pessoal que pudesse relacionar-se com os homens. “Dificilmente encontrareis entre os talentos científicos mais profundos”, afirmava, “um só que careça de um sentimento religioso próprio. Mas é algo muito distinto da religiosidade do leigo. Para este, Deus é um ser de cujos cuidados podemos beneficiar e cujos castigos devemos temer (…). Para o cientista, [Deus] está imbuído da causalidade universal”. Seguindo a lógica que apresentei, podemos esperar que Einstein deposite na ciência a esperança de um dia alcançarmos o conhecimento da “causa universal” ou fundamento último da realidade, como lhe chamei desde o princípio. E é de facto assim. A religião de Einstein nasce de um “temor reverencial” diante da grandeza e da harmonia do Universo, e o seu “deus” é uma “razão universal” que pode ser desvendada sobretudo pela investigação científica. “Um autor contemporâneo”, continua Einstein, “disse, não sem razão, que os verdadeiros investigadores são, nos nossos tempos de predomínio materialista, os únicos homens profundamente religiosos”.

Em contrapartida, Heisenberg, um dos principais físicos por detrás da teoria da Mecânica Quântica, profundamente impressionado pelas limitações que a ciência impõe ao conhecimento humano, acredita “que o campo do objectivável [possível de conhecer através da ciência] é apenas uma pequena parte da nossa realidade”. Num dos seus textos conta como uma vez Wolfgang Pauli lhe perguntou “acreditas num Deus pessoal?”, ao que respondeu: “Podemos alcançar a razão central das coisas e dos acontecimentos, de cuja existência não pareça haver dúvida, de um modo tão directo como podemos alcançar a alma de outro ser humano? Assim colocada a questão, a minha resposta seria sim (…). Gostaria de te lembrar o famoso texto de Pascal, que ele trazia sempre consigo cozido dentro do casaco, ‘O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, não o dos filósofos e dos sábios’”. A “razão central” de que fala Heisenberg, e à qual nós chamámos fundamento último da realidade, é a tal razão que tanto impressionava Einstein, mas que aqui adquire um claro sentido pessoal.

Estes dois exemplos mostram como ser cientista não é necessariamente equivalente a pôr de lado a hipótese de Deus. A grande questão não é a ciência em si, mas a abertura que cada um manifesta na sua busca do fundamento último da realidade, e a confiança que deposita (ou não) na capacidade do método científico para o desvelar. Para um materialista o fundamento último da realidade não será mais que uma lei universal de certa forma divinizada, e por isso eventualmente alcançável pela ciência, enquanto para um crente será um Deus pessoal, cuja razoabilidade de existência talvez possamos inferir racionalmente, mas cujo conhecimento nunca será totalmente alcançado pela ciência. Acabámos de ver, contudo, que um cientista não é necessariamente materialista, nem um crente necessariamente resistente em relação à ciência.

Em jeito de conclusão talvez possamos reformular a questão inicial, perguntando já não pela (in)compatibilidade entre fé e ciência, mas pela (im)possibilidade de diálogo entre pessoas, sejam elas cientistas ou não, que têm da realidade e do seu fundamento diferentes concepções. Apesar de ser certamente uma tarefa árdua, julgo ser possível construir uma plataforma de entendimento. E quais os pilares desta plataforma? Em primeiro lugar, diria, a humildade e a reverência de alguém que se sabe pequeno e limitado mas que ousa procurar o segredo guardado por um Universo com uma capacidade sempre maior de nos surpreender. Como lemos no Salmo 8, “quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, a lua e as estrelas que Tu criaste: que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares?” Em segundo lugar, o espanto diante do mistério que a existência sempre encerra. Por último, o desejo de cultivar um espírito de abertura que não se deixa aprisionar nas opiniões próprias mas tenta compreender as razões e as opções do outro.

Notas:
1. Ver RAÑada, Antonio F. - Los científicos y Dios. Oviedo: Edições Nobel, 1994.

27 de abril de 2008

XX Jornadas Teológicas em Braga

Na passada quarta-feira realizou-se na Faculdade de Teologia de Braga um debate sobre criacionismo e evolucionismo, integrado nas XX Jornadas Teológicas organizadas pela Revista Cenáculo, dos estudantes da Faculdade. Tive o prazer de moderar o debate, no qual intervieram os Profs. Ludwig Krippahl, da Universidade Nova de Lisboa, e. Jónatas Machado, da Universidade de Coimbra. O primeiro defendeu o evolucionismo, o segundo o criacionismo. As posições de ambos foram claramente expostas.
Pessoalmente, gostaria que tivesse havido mais debate. Como moderador, pareceu-me haver por parte da assistência pouco interesse em intervir. Por esse motivo, acabei por entrar em debate com o Prof. Jónatas, dado que me pareceu que havia um aspecto da crítica ao criacionismo que não fora referida pelo Prof. Ludwig, nem isso lhe competia. É que o criacionismo não está apenas em contradição com a ciência, ele está também em contradição com o cristianismo. A leitura literal dos dois primeiros capítulos do Génesis não tem qualquer fundamento, e a crítica textual que já vem do século XIX, ajuda a perceber isso. O texto do Génesis quer apenas dizer que Deus é a explicação última de todas as coisas, e pretende também resolver o enigma do sofrimento e da morte.

A argumentação criacionista apresenta-nos um deus inacreditável, exterior ao universo e que se revela mais por certos acontecimentos inexplicáveis porque complexos, do que pela totalidade do universo. Se Deus existe e é o criador do universo, então Ele é tão identificável nas estruturas complexas como nas simples. Definitivamente, não necessitamos de um deus que é interessante sobretudo porque vem de vez em quando tapar os buracos da nossa ignorância, até que a ciência acabe por tapar esses buracos, dispensando esse deus.

A argumentação criacionista fundamenta-se numa epistemologia que procura avidamente vencer a ciência com contra-exemplos ridículos. Por exemplo: facto de um fóssil ter sido erradamente identificado como sendo de um hominídeo, acabando por se revelar ser de um burro, em nada contradiz as teses evolucionistas.
A argumentação criacionista continua a cultivar uma ontologia dualista que afirma ingenuamente a distinção/separação entre matéria e espírito, corpo e alma, este mundo e o outro, imanência/transcendência, etc. Estes dualismos só podem ter um carácter epistemológico. Distinguir não é separar.

A argumentação criacionista faz também uma leitura inacreditável do Novo Testamento ao pretender que tanto Cristo como os seus apóstolos fizeram uma leitura literal do Génesis. Esta interpretação resulta de uma leitura dos textos bíblicos completamente desinformada dos progressos da hermenêutica bíblica desde o séc. XIX.

A argumentação criacionista corresponde a um estado de alta ansiedade porque se recusa a enfrentar o facto de que a narração cristã tradicional sobre a origem do universo e da vida não poderá continuar a ignorar os progressos da ciência e necessita, por conseguinte, de ser substituído por uma nova narração que seja credível e compreensível pela cultura contemporânea.

Em suma, a argumentação criacionista descredibiliza-se a si mesma e, pior que isso, descredibiliza o cristianismo, oferecendo alegremente aos seus críticos muitas das armas com que actualmente acreditam conduzir uma guerra conclusiva contra a religião em geral, e contra o cristianismo em particular quando, de facto, apenas combatem contra um moinho de vento. Compreendo que o façam motivados pela influência que o criacionismo está a ter a partir da América. Mas seria bom não identificar o combate contra este terrível equívoco com uma crítica inteligente e informada da religião em geral e do cristianismo em particular.
Alfredo Dinis,sj

13 de abril de 2008

Ainda a propósito da Educação...

Enviaram-me este texto de Alice Vieira, escritora:

A geração do ecrã



Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.


Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os 'Morangos com açúcar', só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.


Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos – bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.


Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar...- é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas...).

Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!

O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma
professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.
Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.

Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.
Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.

E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos
olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.
E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido. Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.

E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto
acontecesse. A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as
auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.

A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.


A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de
comportamento. E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.


E nós deixamos.

10 de abril de 2008

Crisma e Cristianismo em 60 minutos


Um companheiro que está a preparar um grupo de pessoas para o sacramento do Crisma pediu-me que participasse numa das reuniões do grupo. “Sabes o que eu gostava?” _ perguntou-me ele, “Que dissesses ao grupo o que é para ti essencial sobre o Crisma o Cristianismo. Imagina que tinhas que preparar um grupo, do zero, e que só tinhas um encontro!” Aceitei o desafio e gostaria de partilhar algumas das ideias que tive para esse encontro.

Todos nós, que aspiramos a receber ou que já recebemos o Crisma, fomos baptizados. Provavelmente a maioria de nós recebeu o Baptismo quando ainda era uma criança. Isso significa que os nossos pais (e padrinhos) tinham para nós um projecto de vida cristã e se comprometiam a alimentar esse projecto em nós, até que fôssemos capazes de assumir a vida cristã como adultos.

Antes de continuar faço uma breve interrupção porque me lembrei de um argumento muito em voga contra o baptismo de bebés incapazes de escolher se querem ou não ser cristãos. De facto porque não esperar até que tenham idade e capacidade para optar? Talvez muitos dos baptizados em criança venham a abandonar a fé e a vida cristã, por isso não há razão para os baptizar. Se quiserem o Baptismo que o peçam mais tarde!

Julgo esta argumentação não tem grande razão de ser por vários motivos. Desde já porque nunca é de desprezar o trabalho da Graça desde muito cedo na vida de uma criança. Depois, porque é inteiramente legítimo que os pais proporcionem aos seus filhos aquele que consideram ser o melhor caminho de crescimento e se comprometam a educá-los nesse caminho. Claro que eles podem mais tarde recusar essa via e optar por outras propostas de vida. Mas também há muitas crianças que, a certa altura, não querem mais ir à escola. Não é por isso que devem deixar de ir, até obrigados se necessário.

Voltando ao nosso assunto; o Crisma é precisamente o sacramento da confirmação, o momento em que o cristão, já adulto, decide assumir publicamente um compromisso com Cristo e com a sua Igreja. Tendo isto em conta, vamos agora às ideias que me parecem fundamentais partilhar com esse grupo de crismandos.

Uma vez, quando confrontada com a forte tendência espiritual e mística dos povos orientais (entre os quais o povo indiano), Madre Teresa de Calcutá disse algo assim: “ O essencial do Cristianismo não é uma ideia nem uma mística, é o amor.” Gostaria de partir desta sábia afirmação para desenvolver um pequeno esquema:

IDEIAS: Bíblia, Doutrina, Sacramentos, Vocação Pessoal

ACÇÃO POR
AMOR


MÍSTICA: Oração, Sentimento, Graças/Dons, Vocação Pessoal


Explico rapidamente o esquema. Como disse, o essencial é viver por amor, aderir e comprometer-se com o mesmo tipo de comportamento que Jesus tinha e ensinava. Sintetizando aquele que me parece ser o essencial da mensagem cristã: “viver fechado nos meus interesses e no meu egoísmo traz tristeza e vazio à minha vida, abrir-me às necessidades dos outros e viver generosamente para eles dá-me alegria e realiza-me profundamente.” É muito simples: há mais alegria em dar do que em receber! Acreditar em Jesus significa acreditar nessa mensagem e procurar vivê-la.

Queres ser santo? Queres ser santa? É a pergunta que se deveria fazer a cada crismando. Estar pronto para receber o Crisma é ser capaz de responder ‘sim’, a esta pergunta. Isto não significa excesso de confiança, nem vaidade. É apenas afirmar que acreditamos no amor e que por isso queremos viver à luz de uma lógica de generosidade e abertura. A santidade nada tem a ver com capacidades excepcionais, nem com uma virtude a toda a prova. Querer ser santo é estar disposto a fazer cada dia um esforço de abertura ao que Deus pode fazer connosco. Cada um tem a sua medida, o importante é acreditar que não há limites para o que de bom Deus pode fazer em nós e através de nós.

Crisma é então uma realidade com duas dimensões: uma de iniciativa e compromisso pessoal (quero comprometer-me numa vida cristã), outra de acolhimento do dom que aí recebemos, o Espírito Santo que nos dá a garantia de que nunca faltará o apoio de Deus.

Aqueles que se comprometem arriscam dizer que sim à exigência da santidade, mas fazem-no porque sabem que essa coragem e ânimo lhes vêem daquele que nunca nos falha.

Já vimos que o essencial é querer viver por amor, ser uma boa pessoa no sentido de estar, tanto quanto possível, ao serviço dos outros. Mas importa ainda fazer uma última distinção muito importante. Qual é a diferença entre uma boa pessoa, que ama e que vive para os outros, e uma “boa pessoa cristã” que também ama e vive para os outros? Vale a pena pensar nisto porque, se não há diferença, então não vale a pena ir à missa, fazer a catequese nem sequer rezar, basta viver por amor.

É bem verdade que há muita gente que não é religiosa e que vive generosamente entregando-se a boas causas e ao serviço dos outros. A diferença está em que o cristão não age só por si, não decide sozinho, não “cura” as necessidades profundas dos outros apenas pelas suas forças. O cristão sabe que, no fundo, não pode salvar ninguém sozinho, não consegue preencher o vazio que há nos corações, nem saciar a sede interior de tanta gente. A “eficácia” do cristão não é a dos números e estatísticas, mas sim a de uma acção que se sabe dependente de Deus. Só Deus salva, só Ele cura, só Ele dá sentido profundo à vida. Por isso o cristão faz tudo o que o não cristão faria, mas fá-lo na humildade de quem confia que é Deus que age. Só Ele é verdadeiramente eficaz.

Julgo que isto permite perceber a importância de todas as dimensões que colocámos no esquema. O fundamental é o amor, mas para que o amor seja cristão ele deve ter por trás a oração e a missa, o conhecimento da Palavra de Deus e dos seus sacramentos, a busca da sua vontade no discernimento e um enraizamento forte com a vida da Igreja. Só assim podemos ter a certeza de não estar a amar apenas com o nosso amor, de não estar a agir apenas com a nossa inteligência. Só assim seremos testemunhas d’Aquele que é o Amor e só deste modo podemos ter a certeza de que o bem que fizermos durará para sempre.



8 de abril de 2008

Semana das Vocações

Olá, eu sou o Rui Ferreira e nasci em Braga há quase 24 anos. Entrei na Companhia de Jesus em Setembro de 2004, ou seja, há cerca de quatro anos.

De que forma sentiste o apelo de Deus?
Falar do apelo de Deus é necessariamente falar da nossa fé. Todos os cristãos sentem o apelo de Deus, e este é um ponto de partida importante. Quando fui baptizado com dois meses, não saberia muito bem responder a este apelo. A família, o mundo à minha volta e até a vivência particular da fé na minha cidade foram construindo o cristão que sou hoje. Só lentamente me fui sentindo mais autónomo na minha relação com Deus.
A fase dos questionamentos que chega na adolescência foi um momento de confronto com a verdade. Nessas alturas todos questionamos o sentido da nossa existência, o ‘porquê’ das coisas à nossa volta. Eu não fugi à regra. O apelo de Deus ia surgindo nas pequenas opções do meu quotidiano, na forma de me relacionar com os outros.
Não considero que agora, por ser Jesuíta, tenha respondido mais claramente ao apelo de Deus. Deus chama todos os cristãos a arregaçarem as mangas e a trabalharem por um mundo melhor.

Quais os maiores desafios na resposta ao chamamento de Deus?
Se fosse há uns tempos atrás, eu responderia que o maior desafio tinha sido deixar de lado os sonhos que tinha, a minha cidade, a minha família ou os meus amigos. Porém sinto que o chamamento de Deus está constantemente a acontecer na minha vida. Portanto ele não foi apenas realidade quando me tornei Jesuíta.
Falando concretamente do desafio quotidiano do chamamento, aquilo que mais me desafia é a alegria. Mesmo quando enfrentamos a dureza, o sofrimento ou a limitação, saber ser um optimista faz-nos mais próximos do que Deus quer (porque o mundo não vai acabar e ainda que acabasse... Ele está).

Por que razão entraste para a Companhia de Jesus?
Pegando na questão, não sei se a minha entrada na Companhia se deve a uma razão... diria mais coração. Conhecer os Jesuítas, numa fase em que me preparava para o Crisma no CAB, moveu-me por dentro muito mais que qualquer motivo lógico. Quando nos propomos ‘levar’ Deus a sério na nossa vida, é impossível fugir ao compromisso – seja como religioso, casado, catequista ou animador do grupo de jovens. E os Jesuítas distinguiram-se pela sua alegria e uma certa ‘normalidade’ na maneira de estar e relacionar-se com os outros, que até aí não tinha encontrado.

Que significa, hoje, um jovem entregar-se a Cristo e à sua Igreja?
Significa sentir que ser cristão faz sentido como opção de fundo na sua vida, que é o melhor caminho para o objectivo máximo da humanidade – ser feliz – e depois decidir dedicar-se à Igreja como padre, marido e pai, catequista, escuteiro, membro de um grupo de acção social, etc.

Qual é a especificidade de um “Companheiro de Jesus” na vida missionária da Igreja?
Há algumas missões directamente confiadas pelo Santo Padre aos Jesuítas (o Apostolado da Oração ou o diálogo com o ateísmo, p. e.), porém se tivesse que definir a especificidade falaria de Jesus Cristo. Há uma espiritualidade centrada n’Ele, como o nome indica, numa relação com os outros e com o mundo que se quer muito próxima, muito ao jeito de Jesus.


Entrevista publicada no jornal 'Diário do Minho' de 7 de Abril de 2008.

6 de abril de 2008

Crianças Invisíveis





Dois filmes: "Crianças Invisíveis" e "O menino de Cabul - The kite runner"

“Há uma beleza esculpida no tempo que corresponde à vitória dos feridos. Estes, apesar do sofrimento, procuraram a maravilha. Por outro lado, o nosso olhar de fora quer entrar e procurar com eles a mesma maravilha. Mesmo se não temos obrigação física de nos implicar, há como que uma exigência moral, de tal grandeza, que lhe é impossível resistir.”

1 de abril de 2008

IMAGEM TEMPO I

"Para dar sentido à imagem (cinematográfica) é necessário o movimento do pensamento." (Gilles Deleuze)

video

Caminhada ao gerês realizada no dia 30 de Março

Deus não precisa de defesa...

...mas de ser vivido.

Sou um homem de fé. Sim, acredito em Deus! Sou parte d’Ele. Faz parte de mim… Não sei medir a minha fé. Se pouca, se muita, não importa, não interessa nem me debruço sobre isso, apenas sei que sou um homem de fé… A minha história, as minhas relações, as minhas vivências levam-me a fazer esta afirmação sem pensar duas vezes. Percebo que não posso usar esta minha fé como forma de defesa daqu’Ele em quem acredito. Talvez nem precise da minha defesa… Creio que ao longo dos tempos foi-se perdendo muita energia vital na defesa e não na vivência de quem acreditamos…

Se hoje nós, Igreja (não me restrinjo ao catolicismo), somos atacados, também é devido à defesa impositiva da crença de que todos teriam de ter. Vou-me apercebendo de que muitas vezes, nas lutas contra o ateísmo, tal como Pedro no Horto das Oliveiras, há uma vontade de à espada eliminar os infiéis. É preciso um certo cuidado. De facto, a defesa, mesmo em nome de Deus, pode levar ao ferimento de quem também é amado por Ele. Mesmo que o outro não acredite…

É certo que o mandamento de ir por todo o mundo anunciar a Boa-Nova está inerente a quem tem fé em Cristo. Mas como encaramos o mandamento? Como uma atitude de imposição ou através da vivência coerente com o que se é, com capacidades e limites, da Vida que nos é revelada por Cristo?

Creio que o desafio está precisamente em viver a Vida que, desde a Encarnação até à Ressurreição – não esquecendo a Paixão e Morte – foi revelada por Jesus. O respeito pela pessoa, independentemente da sua crença, com o desejo de unidade alicerçada no Amor que dá (a) Vida na totalidade por todos…