29 de maio de 2008

Quero sonhar



Esta noite, este negrume, o escuro que me envolve perturba-me a visão…

Muita gente… Oiço muita gente, vinda de longe, a caminhar para algum lugar…

Eu já não caminho. Não venho, nem vou. Estou parado, amedrontado, sem forças para onde ir.

Quem sou eu? Quem sou eu? Talvez já não saiba responder. Tantas fantasias, tantos apelos, tantos desejos que me envolviam, abafavam, aniquilavam… Quis eu um dia livrar-me deles. Dei-lhes um grito. Gritei tanto, tanto! Eles foram voltando aos seus esconderijos. O mundo estava tão bem assim, simples, tão igual, tão fortemente igual. Para quê mudar? Para quê perturbar o que está quieto?

Não quero sonhar, não quero. Quero que me deixem em paz, no meu recanto, na minha solidão.

Quem sou eu? Quem sou eu? Talvez o homem que não sabe sonhar.

Romper a realidade, derrubar barreiras, elevar a minha vida ao sublime de mim mesmo… Não sei, não sei. Tenho medo. Não posso arriscar. Não sei confiar.

Agora choro, grito, desespero. Não soube sonhar, não soube romper as cordas que me envolviam. Não soube mudar o mundo. Acomodei-me. Tive medo do que fossem pensar. Quis seguir o redil. Mas…quero acreditar outra vez! Se este mundo é assim parado, eu não quero ser dele.

Onde estás? Onde estás que não Te vejo? Tu, que rompes o impossível, que moves todos os montes, por onde andas? Porque Te voltei as costas? Porque pensei que o mundo estava bem assim, que não valia a pena fazer mais?

Faz-me sonhar! Faz-me extrapolar! Faz-me sair deste jugo que me faz ser pó e nada mais! Quero ser mais! Quero ser mais!

Se não sonho, para onde vou? Se não consigo acreditar, diz-me onde estou?

Vem, vem para perto… Dá luz a esta noite, abriga-me do escuro que me faz tremer, da incerteza de mim que me faz parar.

Estou à espera. Estou à espera.

Quero sonhar! Quero sonhar!

28 de maio de 2008

Bahok







A dança fala-me muito. Por um lado, por vivê-la na carne como experiência – até mesmo divina –, por outro, por ver a força da entrega, com sentido, dos bailarinos em palco e sentir o quanto posso entrar também na transcendência.

Ontem fui ver o Bahok, de Akram Khan e ainda estou a digerir – quem está em Lisboa ou arredores pode ver o espectáculo no CCB nos próximos dias 30 e 31… É forte, bastante forte, no que fala de tanto sobre nós, humanos. Depois de chegar a casa, já deitado, levei muito tempo até adormecer, a pensar em tudo o que vi, ouvi e sobretudo senti…

2008.Mai.28

Bahok Portadores

Encontro de vida. Sentir como a unidade do sagrado é tocada, vivida numa espera, que atrasa e muda pelos elementos que compõem o ser… Dois monólogos que tentam o diálogo, numa ajuda, diante do desconhecimento de quem se é, onde se está, de onde se vem, tentando saber para onde ir. O futuro impedido de não ficar sem rumo pelo círculo rodopiante da Vida.

Ainda assim a presença do medo, do corpo que desfalece nos braços (des)conhecidos que fundem a linguagem sem voz, gritada pelos gestos que (e)invocam o passado sagrado. A tradição que se traz unicamente fechada no saco. Quem sou?

O mesmo passado calçado, mas liberto para o futuro de encontro, aqui e agora. Neste local de passagem que obriga a parar e a recordar…

… o corpo que se move desde tempos idos, que fala de rituais de cultura…

…reveladora do respeito e dignidade mesmo quando se está perdido em busca da mesma terra que todos tem. No silêncio contrabalançado pelo ritmo forte do pulsar do que é impedido de ser morto…

…memória de Alguém…

Não há diluição, há relação, há Encontro de Vida, com a lágrima de quem escuta a mãe e se descobre Viva…

[É forte muito forte. Senti-me a tocar no sagrado. Como se pode falar de algo que grita pelo encontro sério e profundo do ser humano? Rasgos de tempo e espaço conjugados num só momento unificados por todos.

Senhor, vejo-Te ali a gritar a cada um para que se sinta e Te sinta, para que se encontre e Te encontre, para que se viva e Te Viva…

Cultura, diferença, unidade, respeito, confusão, grito, riso, gargalhada, lágrima… Oração… Vida em Ti…

Sim, somos portadores de tesouro… Não podemos fechá-lo… Não! Temos de, sem medo, abrir e dar… A História, a Tradição, a Vida que não prende, que não fecha, mas que aponta para infinito…]

Para os nómadas, a casa não é uma morada, a casa é aquilo que transportam consigo.


John Berger, Hold everything dear

(pensamento escolhido por Akram Khan, como síntese do Bahok)

24 de maio de 2008

ups, encontrei-me...




A proposta:

"uma directa com Deus", de Tibães ao Sameiro: uma noite sem sono para sonhar acordado, sonhar com a vida, sonhar os sonhos de Deus... Entre fantasia, tentações, desafios... sob o olhar atento de Maria, uma jovem que se deixou tocar por Deus.

Respostas:
600 jovens, de Braga, Guimarães, Famalicão, Porto... Todo o tipo de experiências, de vida e de Igreja, motivações variadas... Mas todos com uma vontade enorme de experimentar, de viver uma noite diferente, e porque não, dispostos a deixar-se surpreender.

Resultado:
Sono perdido, roupas molhadas, muitas histórias por contar, e lá no fundo uma luzinha que aponta para um caminho novo: afinal Ele caminha comigo, posso encontrá-Lo nos rostos à minha volta e no desejo de uma vida vivida e sonhada!

22 de maio de 2008

Em dia de Corpo de Deus...



“O Verbo fez-se Carne e habitou entre nós”

(Jo 1, 14)

Corpo

Sentido, vivido, comungado…

Sangue

Essencial, vivencial, dado…

Poderá haver corpo sem Corpo? Sentir a humanidade que transparece a divindade dá a reposta imediata: não, não pode haver. O corpo isolado da Comunidade que sente, vive e comunga da realidade em cada pessoa é um corpo sozinho. A solidão, o afastamento, o desligar do outro, a superficialidade da vivência quer do próprio, quer do outro, está a tornar-se o marco do ocidente. Conseguirá o humano viver na plena solidão?

No entanto, mesmo que se esteja a tornar um marco, não é, a meu ver, um marco invencível. O Corpo vivido é, por mais que não se sinta, uma verdade no quotidiano. A partilha, a cumplicidade da amizade, a troca de experiências como o caminhar para a profundidade do outro permite que o Corpo se torne real. Pelo fazer e desfazer de laços que ajudam a ir mais além, o integrar da história vivida, o perdoar-se a si próprio…

Educados num racionalismo quase extremo, em que os afectos – a vivência da corporeidade, para ser mais específico – foram postos de lado, onde o sentir ou é para meninas, ou para os que não têm mais que fazer, nós humanos – de modo particular, os ocidentais – corremos o risco de ser objectos produtivos e não sujeitos de corpo e sangue vivificados. Em que cada qual comunga do Outro, dando o que é… Mesmo que seja o olhar, o toque, o grito, o limite, a doença, a vitória, o desejo, o sonho, a amizade, o amor, no fundo, a profundidade da humanidade, que revelam a subtileza da divindade quando dá… Do Seu Corpo e do Seu Sangue a que cada mulher e cada homem é convidado a participar…

21 de maio de 2008

Uma directa com Deus


Uma ‘directa com Deus’ é a proposta que o Grupo GPS Peregrinos propõe aos jovens da arquidiocese de Braga. A iniciativa tem como alvo privilegiado os universitários, pois é nesse meio que se constata a exis-tência de muita “fé envergonhada”.
Encarada como uma oportunidade para que cada jo-vem restaure e reanime a sua fé, a iniciativa envolverá jovens e grupos de toda a arquidiocese. “Queremos quebrar o gelo dos jovens que se afastaram da igreja clássica”, afirma Bernardino Silva, um dos organizadores desta peregrinação.

A ‘Noite UP’S — Upa para o Sameiro’ acontece já na noite de sexta-feira e tem como ponto de partida o Mosteiro de S. Martinho de Tibães. Aqui, o arcebispo primaz preside à celebração de uma eucaristia, pelas 22 horas.
Ainda em Tibães, os jovens peregrinos serão confrontados “com uma Maria dos nossos dias”, explicou Rui Ferreira, um dos membros da organização que ontem apresentou a iniciativa à comunicação social.
É daqui que parte a peregrinação que tem a pri-meira paragem no Arco da Porta Nova. A passagem por este local significará uma viragem para o interior de cada um.
Já no centro da cidade, os peregrinos irão depara-se com outras personagens que encarnam os seus medos.
Chegados à Rodovia, o desafio colocado aos peregrinos é ‘Vai uma charla?’. O mesmo é dizer uma conversa com Deus.

A partir deste ponto, os jovens cami-nham em silêncio, com uma vela na mão, até ao Bom Jesus.
No silêncio, cada jovem conversará com Deus.
A partir do Bom Jesus, os peregrinos dividem-se em grupos e rezam o terço, enquanto caminham até ao Sameiro.
A chegada está prevista para as 8 horas da manhã. Depois de um encontro com Nossa Senhora e um momento final de oração, os peregrinos confraternizam num almoço partilhado.
No ano passado, a iniciativa contou com 300 jovens peregrinos, sendo que esse número vai ser ultrapassado. No entanto, Rui Ferreira sustenta que “mais importante que o número de pessoas é a importância que a iniciativa terá na vida de cada um”.


In Correio do MInho

17 de maio de 2008

Estórias...



[Uma amiga especial enviou-me este texto de José Luís Peixoto...

...respondi-lhe com o que está abaixo...]


"Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de Julho. As grandes manhãs de Julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?; aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, acreditas?

E nessa noite choveu.

No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo de cartão estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei. Foi o meu pai que me tirou de lá.

Para ti, para o nosso filho, para mim, quis um cavalo de cartão, sem a chuva. Um idílio impossível, sem a culpa que não se pode evitar. A culpa que tu e eu não tivemos. A condenação certa por existirmos. Conforme um precipício no fim de uma corrida: os corredores a terem de vencer e a meta a ser a linha de um precipício. Ou uma faca suspensa sobre nós, uma faca que se nos enterra nas costas a qualquer instante, sem motivo, uma faca que às vezes olhamos e sabemos que está lá pronta a cair e que vai cair, a qualquer instante, sem motivo. Uma faca enterrada nas costas, para sofrermos ou nos levar sofrendo. Não escolhi este destino. Escolhi estradas desconfiando que todas eram a mesma. E todas eram a mesma."


José Luís Peixoto, Nenhum Olhar

M...

Com o que me envias pergunto? Que estradas surgem então para caminharmos? Facilmente me surge no pensamento a estrada da própria vida, remetida para a certeza de que somos em caminho. Não será, esta, uma resposta demasiado fácil? Talvez, dependendo de como encaro(amos) a vida. A vida se for banal a resposta é tornada ela mesmo fácil, até mesmo um facilitismo de uma rapidez de quem não quer ir mais além que a própria banalidade do respirar, simplesmente... No entanto, na profundidade exigida pelo sim diário que acontece no nosso coração, deixamos que o cavalo de cartão não adormeça aqui ou ali, mas esteja situado, mais, incorporado nas entranhas mais fundas do ser. Assim, a estrada ganha um outro contorno e todas as estradas passam a ser uma com as implicações que tenho contigo, com aquele que está ali a passar na sua estrada, no fundo o outro que me interpela a comunicar. Comungando da Vida, não na simples respiração, mas no acto de assimilar(-te) o ar que já não é de ninguém em particular, mas nosso, sim, nosso... Respiramos o mesmo, o infinito que acontece porque não conseguimos ser medíocres... Simplórios até... Não, vamos ao ínfimo do que podemos... Afinal, a verdade desenha-se com os passos dados. O que é o passado sem o olhar para o futuro? E o que sou eu, perdido na culpa que não é minha? Sim, se sou porque sou, trago a vida já não no baloiçar do cavalo de madeira, nem na fragilidade do de cartão, mas na segurança do Amor que não é matéria, mas de uma transcendência apenas permitida à carne que se deixa viver, dando-se...

Sim, choro diante do esquecimento de algo - ou alguém - especial. Como não o poderia fazer? Como se quem faz parte se apartasse. O meu olhar fica tremido diante do desbotar que nunca desejei, mas que acontece sem dar conta e sem que possa impedir... Mas a cor deixada na terra pode vivificar se alimentar o sonho mais profundo com toda a intensidade que me pode caracterizar... E as tais gotas, que (me) amachucaram, dão vigorosidade e com as lágrimas confundidas, tornam-se elas mesmas fonte de alimento para a transfiguração da Vida que partiu, mas que nunca deixará de ser... Porque o Amor não permite a morte, apenas que o rosto deixe de ser limitado, para ser pleno... E mesmo na dor, no rasgar do desespero como ponta do finito que ainda resta, a semente germina e dá fruto, porque Ele a quer mais perto de si...

Com o meu beijinho voador... De quem te/vos pensa e reza...



14 de maio de 2008

Na minha breve intervenção no debate sobre Fátima, ontem, 13 de Maio, na RTPN, foi-me atribuída pelos produtores do programa uma afirmação que apareceu em rodapé, mas que eu não proferi. Segundo esta nota eu teria citado o actual Papa como tendo afirmado que as aparições de Fátima foram uma criação infantil das crianças. Para que se possa compreender melhor o que está dito pelo Papa, transcrevo a seguir algumas passagens do seu comentário teológico à terceira parte do segredo de Fátima:

A estrutura antropológica das revelações privadas

A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de percepção ou " visão ": a visão pelos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual (visio sensibilis, imaginativa, intellectualis). É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc, não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa. Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do " segredo " de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do " segredo ", mas pode-se facilmente comprovar também noutras visões, sobretudo porque não eram captadas por todos os presentes, mas apenas pelos " videntes ".
(…)
Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos " sentidos internos ". Trata-se de verdadeiros " objectos " que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual. Por isso, exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma. A pessoa é levada para além da pura exterioridade, onde é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis.

Como dissemos, a " visão interior " não é fantasia, mas uma verdadeira e própria maneira de verificação. Fá-lo, porém, com as limitações que lhe são próprias. Se, na visão exterior, já interfere o elemento subjectivo, isto é, não vemos o objecto puro mas este chega-nos através do filtro dos nossos sentidos que têm de operar um processo de tradução; na visão interior, isso é ainda mais claro, sobretudo quando se trata de realidades que por si mesmas ultrapassam o nosso horizonte. O sujeito, o vidente, tem uma influência ainda mais forte; vê segundo as próprias capacidades concretas, com as modalidades de representação e conhecimento que lhe são acessíveis. Na visão interior, há, de maneira ainda mais acentuada que na exterior, um processo de tradução, desempenhando o sujeito uma parte essencial na formação da imagem daquilo que aparece. A imagem pode ser captada apenas segundo as suas medidas e possibilidades. Assim, tais visões não são em caso algum a " fotografia " pura e simples do Além, mas trazem consigo também as possibilidades e limitações do sujeito que as apreende.

Isto é patente em todas as grandes visões dos Santos; naturalmente vale também para as visões dos pastorinhos de Fátima. As imagens por eles delineadas não são de modo algum mera expressão da sua fantasia, mas fruto duma percepção real de origem superior e íntima; nem se hão-de imaginar como se por um instante se tivesse erguido a ponta do véu do Além, aparecendo o Céu na sua essencialidade pura, como esperamos vê-lo na união definitiva com Deus. Poder-se-ia dizer que as imagens são uma síntese entre o impulso vindo do Alto e as possibilidades disponíveis para o efeito por parte do sujeito que as recebe, isto é, das crianças. Por tal motivo, a linguagem feita de imagens destas visões é uma linguagem simbólica.
(...)
E não é necessário que cada elemento da visão tenha de possuir uma correspondência histórica concreta. O que conta é a visão como um todo, e a partir do conjunto das imagens é que se devem compreender os detalhes. O que efectivamente constitui o centro duma imagem só pode ser desvendado, em última análise, a partir do que é o centro absoluto da " profecia " cristã: o centro é o ponto onde a visão se torna apelo e indicação da vontade de Deus.

13 de maio de 2008



"The Story of Stuff" (A História das Coisas) é um vídeo bem interessante e que recomendo. Questiona alguns aspectos do estilo de vida da nossa sociedade de hoje, chamando a atenção para as suas consequências e não deixando de fazer propostas alternativas. Meio ambiente, consumismo, justiça social, saúde pública são alguns dos temas focados.

Para além da importância do conteúdo transmitido, de realçar também o modo simples e criativo como a sua mensagem é apresentada.

Apesar de recorrer a um tom informal e acessível, este vídeo é resultado de estudos sérios sobre os temas em causa, fundamentando-se em investigações académicas e em trabalhos de várias ONGs (cfr.www.storyofstuff.com/pdfs/annie_leonard_footnoted_script.pdf ).

O vídeo foi retirado de www.storyofstuff.com e após ter sido traduzido foi apresentado em Abril de 2008 no Centro Académico de Braga, num serão subordinado ao tema "Cristianismo e Ecologia".

11 de maio de 2008

Pentecostes...



Sem o Espírito Santo,

Deus fica longe;

Cristo permanece no passado;

o Evangelho permanece letra morta;

a Igreja é uma simples organização;

a autoridade é um poder;

a missão é propaganda;

o culto, uma velharia;

e o agir moral, um agir de escravos.


Mas, no Espírito,

o cosmos é enobrecido pela geração do Reino;

Cristo ressuscitado torna-se presente;

o Evangelho faz-se poder e vida;

a Igreja realiza a comunhão trinitária;

a autoridade transforma-se em serviço;

a liturgia é memorial e antecipação;

o agir humano é deificado.


Atenágoras

9 de maio de 2008

Vamos sonhar...


Hoje deixo-vos um poema que, mais do que belo, mais do que profundo, revela a Verdade e convida ao sonho. "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce" - mais do que qualquer argumento filosófico, maior do que uma lógica super-estruturada, a nudez crua da verdade.
Bora lá sonhar!

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa

5 de maio de 2008

Pensar na vida...


"Ninguém me tira a vida; sou Eu que a dou por mim mesmo" (Jo 10, 18)

Por muitas e variadas situações tenho pensado no que é isto de dar a vida… Como tenho muitas vezes dito, não sou Cristão, vou sendo, já que não sou Cristo, mas quero identificar-me cada vez mais com Ele.

Acabei de ver o filme “Os Olhos da Ásia” que retrata, entre muitos aspectos, a vida de Julião Nakaura e Cristóvão Ferreira, dois Jesuítas missionários no Japão. Nakaura morreu mártir, Ferreira renegou a sua fé… O meu pensamento voou para um outro filme que vi há pouco mais de um mês: “O Pianista”, com o holocausto como pano de fundo.

Vou para a capela e pensei, como penso e tenho pensado: O que é isto de dar a vida? Serei capaz? Não o faço já? De que forma? Como? E se agora alguém, aqui na nossa realidade, decidisse mandar matar alguém pela questão da fé, crença, realidade pessoal? E se fosse eu? De facto, entreguei a minha vida para que eu seja instrumento de Deus, ou seja, que seja capaz de acolher as pessoas, perdoar, no fundo amar como Ele amou. E dar a vida na totalidade, serei capaz? Este filme ajudou-me a perceber o quão difícil é rezar o

“Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes; a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, à vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta”.

Neste mundo que se agita diante de tanto, onde milhões de pessoas se contorcem na busca do sentido, gostaria de ser capaz de entregar a minha vida de forma plena. É um sonho… Na penumbra da capela, apenas com a luz do Santíssimo acesa, olhava para a sombra do crucifixo e pensava: Curioso como os vencedores contam a história, mas por mais que a contem sob os olhos do poder, nunca poderão nada diante de quem entrega a Vida por si, na totalidade… Por mais doutrinas que tenha, se não tiver amor de nada me serve… Por mais razões e verdades que detenha, se não tiver o olhar direccionado, por Amor, para o outro, nada me vale…

4 de maio de 2008

A profundidade da história de mim






A presença dos céus não é a Tua,

Embora o vento venha não sei donde.


Os oceanos não dizem que os criaste,

Nem deixas o Teu rasto nos caminhos.


Só o olhar daqueles que escolheste

Nos dá o Teu sinal entre os fantasmas.

Sophia de Mello Breyner


É impressionante como a Vida pode falar e não se dar conta disso. Nestes dias, quer pela peregrinação que fiz(emos), quer pela viagem relâmpago a Portimão, fui revisitando a minha história. Quer pelo pensamento solto que surgiu, quer pela conversa que aconteceu, quer ainda pelo momento de oração que me levou a olhar para trás e agradecer. Tanto se passa em mim, atrevo-me a dizer em nós, seres humanos. E, rodeados por este mundo non-stop, nem sempre é possível parar e absorver o que se vive.

Sim, sou um felizardo porque, graças à minha decisão, acabo por ter tempo para isso. Se assim não fosse, não conseguiria dar o melhor de mim como o tenho feito. Nem mais, nem menos, simplesmente o que posso. É estranho diante do mundo que vive de intrigas, lobbies, interesses, em que, em nome da liberdade, se vive uma escravidão cada vez maior… E curiosamente, uma escravidão do próprio interesse, mesmo com o sentimento – numa libertação da consciência – de que é nome de outro – pessoa, país, pátria, humanidade.

Vale-me a esperança expressa no meu olhar, na minha Vida. Precisamente por ter uma história rica de tanto, do mais ao menos simpático. Mas hoje com a perfeita noção de que foi e é em busca do MAIS que me caracteriza na ida até ao infinito. Fico arrepiado com os acessos de mediocridade dos dias de hoje, mas compreendo-os – já passei por eles.

Este poema de Sophia tem-me acompanhado há uns tempos… Tenho-o diante da secretária enquanto leio os intermináveis textos filosóficos. Senti-o como resumo dos meus últimos Exercícios Espirituais. De facto, só o olhar dos escolhidos dá o sinal entre os fantasmas… Não tenho dúvidas de que os escolhidos são aqueles que se escolhem para amar. Olhar a sua história, libertá-la dos medos, ansiedades, e deixar-se ir à profundidade do que são. Para mim é forte, muito forte o Amor. De facto, só o Amor que sinto e que vai crescendo em mim, me permite olhar para o mundo com Esperança… Mesmo correndo o risco de presunção - que se lixe o que os outros pensam de mim - Amo e sinto-me Amado… E isso basta-me, para avançar em profundidade ao que sou e quero dar e, diante deste mundo, não ser de todo um fantasma, mesmo que tenha tudo...