22 de junho de 2008

Elogio da humildade - Uma paciente aventura

Texto de Jean-Louis Chrétien, filósofo (Jornal La Croix 26/04/2002)

À partida, a humildade parece parente daquelas virtudes de apagamento e de medida que nos poupam de impor aos outros, quer queiram quer não, a nossa presença, o nosso olhar, convicção e juízo e de invadir o seu espaço como que por direito de conquista: a modéstia, a contenção, a reserva, o pudor, a decência, a discrição. No entanto, por mais preciosas que sejam, estas virtudes colocam em jogo limites a não transpor, distâncias a não abolir para que o outro seja e respire, permaneça livre e móvel. São virtudes de civilidade, e o seu objectivo, antes de mais negativo, é de impedir todo o transbordar onde a nossa imposição fizesse do outro, mesmo que pretensamente para seu bem, coisa ou brinquedo nosso. Quanto à humildade, ela começa no interior, no segredo da noite, onde não cessa de amadurecer como o cacho de uma aurora que será. Ela não nos pede, diz Santo Agostinho, senão que nos conheçamos em verdade: nem mais, nem menos. Conhecer-se não é comparar-se: o que aprendo ao achar-me pior ou melhor que outro que conheço menos ainda que mim mesmo? E em que é que depreciar-se seria mais puro que vangloriar-se? Não são mais do que as marés, altas e baixas, do narcisismo, e há também fanfarrões da indignidade. Esta descida ao abismo que somos pede uma luz, a de Deus, mais forte que a nossa consciência, e um propósito, o de trabalhar por fim sobre nós mesmos, libertos dos nossos bons ou maus juízos.

Este corajoso mergulho no nosso íntimo labirinto não tem por fim aí nos perdermos e trancarmos, mas de nos desiludir e desenganar de nós mesmos, para que desse abismo sufocante possamos sair livres e nus. Nus, porque sabemos doravante que nada de miserável nos é totalmente estranho. Livres, porque sabemos doravante que não há força, nem talento, nem virtude de que sejamos proprietários e que possamos por nós próprios fazer nossa força, nunca mais, mas que tudo nos virá daquilo a que nos dedicarmos, e apenas enquanto a isso nos dedicarmos. Começam então o andar ao ar livre e as coisas verdadeiramente sérias. Apenas um viajante sem bagagem as pode empreender, porque só aquele que se sabe pobre pode ousar chamar e ousar receber, e só aquele que se sabe fraco, não possuindo força, a inventa e encontra, mais não seja para dar. Não tenho então mais de questionar se sou corajoso, paciente ou inteligente o suficiente para esta ou aquela tarefa ou acção, mas apenas se essa tarefa é necessária e essa acção solicitada.

O humilde é aquele que confia que encontrará o alimento pelo caminho, se esse for verdadeiramente o seu caminho, em vez de preparar provisões para uma viagem que nunca fará. Não fez um mapa do seu abismo, bastou-lhe saber que não era nele mas no barulhento rumor do mundo que encontraria resposta às suas perguntas. E a sua bússola (porque tem uma) é que a força do seu amor lhe vem, não de si, mas daquilo que ama. E por isso não lhe poderá faltar.

Sempre itinerante, esta amorosa humildade remete para todas as grandezas do humano. Ela é o sal que não consumimos sozinho mas sem o qual nada tem gosto. Uma coragem sem humildade não passa de louca temeridade, uma inteligência sem humildade não passa de presunção tola, uma autoridade sem humildade não passa de caprichosa tirania… E como o sal, é ela que conserva tudo o resto. Mas como o sal ainda, que aflora nas salinas, necessita da longa paciência da sedimentação, evaporação e recolha.

15 de junho de 2008

Igreja e Actualidade - Em resposta a estatísticas...

Duas notícias recentes, ambas com base estatística, sobre Igreja ou ligadas de alguma forma à questão religiosa, fizeram-me pensar. Uma foi publicada no "Expresso" de 7 de Junho, outra no "Público" de 10 de Junho. A do "Expresso" referia-se a uma estatística feita pelo Patriarcado de Lisboa, onde como conclusão se afirmava o decréscimo acentuado de fiéis na Igreja. A do "Público" referia-se a um inquérito feito a portugueses, em que, numa das questões, aproximadamente 70% dos inquiridos afirma que ser português é ser católico.

À partida, nada de novo, quer numa notícia, quer noutra. No entanto, estas notícias levantam-me algumas questões. Antes de mais, qual foi o objectivo do "Expresso" ao apresentar um artigo com destaque de primeira página, através de uma fotografia – um padre a celebrar missa diante de três senhoras –, quando depois é apresentado na segunda metade da página outra grande fotografia de alguém de joelhos em Fátima? O meu primeiro pensamento: será que esta é a realidade concreta da Igreja? Nalguns caso, atrevo-me a dizer que sim… Mas, a Igreja é mais do que isto… E o objectivo do "Expresso" foi dar uma imagem negativa da Igreja? Porquê? Além do mais, uma ou duas semanas antes, na "Única", a propósito da pobreza em Setúbal, entrevistaram D. Manuel Martins – bispo emérito de Setúbal – em que percebi um agradecimento ao que este, em nome da Igreja, fez por aquela região.

Em relação à notícia do "Público": mas o que significa isto, 90% dos inquiridos afirmarem que ser português é ser católico? Para onde é que estes dados nos apontam? O que é pertencer à Igreja Católica? Será simplesmente uma forma de seguimento de uma tradição, ou uma convicção consciente de compromisso diante da Igreja? De facto, conforme o questionamento que se coloca perante este dado, podemos ver nele vários sentidos. Se pensar de forma mais pessimista, tendo a notícia do "Expresso" como pano de fundo, vejo aqui mais uma questão de tradição, do que propriamente um sentido de pertença ou compromisso. Se pensar de forma mais optimista, afinal há mais crentes, pelo menos em Portugal – e no resto do mundo também – do que se pensa…

Expostos os factos, ainda assim, creio que a questão não fica rapidamente arrumada. Quer de um lado quer de outro, encontro alguma razão de ser. Ou seja, não é novidade que a Igreja, sobretudo a Igreja portuguesa, tem de (re)pensar o seu modo de estar no mundo. Basta recordar a mensagem que Bento XVI leu, há pouco mais de 6 meses, aos bispos portugueses, levantava este tipo de questionamentos dentro da própria Igreja. Na altura escrevi um texto – Pensamentos Soltos, no qual aponto o que senti sobre a minha leitura da mensagem de Bento XVI. De facto, nós, Igreja, precisamos escutar os sinais dos tempos, e, como é sabido, são tempos que passam a uma velocidade cada vez mais rápida, com transformações a vários níveis. Como é que se escuta os sinais dos tempos? Escutando as pessoas, o que de fundo são os seus anseios, dúvidas e inquietações. Talvez nos dias de hoje as inquietações das pessoas já não sejam se vão parar ao inferno ou não, mas, do que me apercebo, se, já nesta vida, são acolhidas enquanto pessoas que são e não diluídas numa sociedade como objectos de comércio e de consumo. Onde a rotina, a diluição na sociedade, ganha espaço a uma vida com sentido.

Como exemplo, dou por mim a pensar sobre "O Código Da Vinci" e livros semelhantes – Mais do que ser(em) bom(ns) ou mau(s) romance(s), até mesmo nas questões teológicas, o que poderá significar a quantidade de livros vendidos? Será que as pessoas não estão à procura de um Jesus mais humano? Bem, não é que o que eu conheço e com o qual me identifico não o seja, mas na verdade não se pode esquecer que durante muitos séculos as imagens de Deus e de Jesus pregadas não foram propriamente das mais famosas. E, sem dúvida, hoje estamos a sofrer as consequências desse tremor incutido, de uma má catequese, de uma má formação, até mesmo de um clericalismo que elevou os padres, colocando-os num tipo de pedestal de que Jesus sempre se afastou. Recentemente, o Cardeal Martini, apontou alguns pecados da Igreja, nomeadamente a inveja, o carreirismo e, nalgumas situações, a vontade de poder.

Tenho a noção de que estou a ser um pouco forte ao apontar estas críticas, mas está na altura de perdermos o medo de reconhecer as nossas fraquezas. Enquanto humanos somos frágeis. Em cada Domingo no Credo, afirmamos crer na Igreja Santa e Pecadora. Como é sabido, o pedido de perdão, por parte dos Papas, às falhas da Igreja foi bastante valorizado.

Onde é que, nós Igreja, marcamos a diferença? No acolhimento, na escuta, no respeito, no diálogo, mas também pela denúncia da injustiça, seja ela qual for. Mais uma vez, olhando para Jesus, ele agarrou a Sua tradição, não teve medo, denunciou a injustiça – fosse ela qual fosse – acabando por revolucionar a condição humana, sobretudo dos mais fracos, marginalizados e oprimidos, dando-lhe um outro sentido, o da divindade. Como afirma, González Faus, "Jesus não veio pregar uma doutrina, mas veio Viver". Ou seja, Jesus, enquanto verdadeiro Homem escutou atentamente a humanidade, aprendendo a vivê-la, como qualquer um de nós e, como verdadeiro Deus, na sua profunda relação com o Pai, Ele nunca se deixou levar pela mentira, pela corrupção, pela falsidade – fossem elas políticas ou religiosas – denunciando sempre o que impedia que qualquer ser humano pudesse ser "um com Ele, como Ele o é com o Pai", formando assim o Seu Corpo, a Igreja.

8 de junho de 2008

Razão versus Sentimento



Os sentimentos expressam estados interiores que podem desencadear determinadas acções e interferir com outras. O homem é um ser de sentimentos pois não é indiferente ao mundo que o rodeia. Experimenta no seu mundo interior, que poderíamos denominar de invisível, uma vez que está vedado aos olhos dos outros seres, um sem número de estados que muitas vezes nem o próprio consegue controlar. Na sua especificidade o ser humano torna-se como que uma presa vulnerável perante o contexto em que se insere. Por mais que se esforce o homem nunca conseguirá libertar-se da influência que estes estados interiores lhe provocam. É algo inerente à própria condição humana. Será isto uma limitação quando se parte para o conhecimento?

Segundo muitos pensadores os sentimentos são um alvo a eliminar pois podem deturpar seriamente uma análise. Bastaria aqui recordar Martin Heidegger que na sua busca filosófica afirma que “mesmo os mais belos sentimentos não pertencem à filosofia.” Para se atingir um conhecimento verdadeiro teríamos então que pôr de lado todo e qualquer estado emocional que pudesse afectar a nossa perspectiva. No entanto, este filósofo, diz-nos que é necessário que nos deixemos tocar pelo objecto que queremos conhecer. Para chegar ao real precisamos de ter relação com ele. Ao defender esta tese, Heidegger, parece entrar em contradição. Mas não será todo o conhecimento objectivo fruto de uma análise que parte da nossa subjectividade? Não será esta proposta demasiado exigente para o ser humano?

Geralmente os filósofos da corrente racionalista afirmando o primado da razão entendem que os sentimentos pertencem ao campo do irracional e, como diria Voltaire, “A razão consiste em ver sempre as coisas como elas são.” Ou seja, aqueles que fazem a sua análise do mundo carregados com toda a sua carga afectiva e emocional não estarão a ver as coisas como elas são.

Acredito que alguns estados emocionais podem, efectivamente, deturpar a percepção de uma realidade. Percebo alguns dos fundamentos presentes nos pensadores racionalistas. Todavia acredito que só em estados de extrema dominação dos sentimentos sobre o indivíduo podem conduzir a uma efectiva alteração do real. O homem em si não pode libertar-se de todo e qualquer estado emocional. A razão, definida como uma estância superior aos sentimentos, deixa de ser componente ou exercício humano. O caminho aqui é aceitar e integrar os sentimentos dentro da própria razão, pois também ela, parece-me, vive de estados emocionais. O desejo de conhecimento, que é causa precedente da razão, pode ser definido como um sentimento. Um homem liberto de sentimentos nem sequer poderia exercer a razão, muito menos chegar ao conhecimento da realidade. No seu estado de indiferença a razão acaba por estar a usar de um sentimento de apatia em relação ao objecto do seu conhecimento.

Em Hegel vemos uma tentativa de integrar os sentimentos e os estados afectivos na construção racional. Segundo este autor o homem, deixando-se conduzir pelas suas paixões e apetites, acaba por cumprir, sem o saber, os desígnios da razão. Toda a história humana é conduzida por paixões, necessidades, desejos, estados afectivos vários que se transformam no autêntico motor de toda a acção do homem. Um indivíduo concebido sem sentimentos não teria qualquer motivação para pensar sequer em filosofar.

A razão, acredito eu, não é incompatível com os sentimentos. O conhecimento da realidade transcendente só pode vir da nossa visão transcendental. Talvez esta minha perspectiva possa ser demasiadamente husserliana, todavia não encontro outra justificação para o conhecimento. Faz-me lembrar o exemplo do quadro no qual eu sou um pequeno ponto. Estando inserido em determinado contexto e influenciado por múltiplas situações limito-me à visão que posso ter. Nunca poderei sair do quadro para ter a visão da totalidade e poder explicá-la. Tenho que limitar-me ao que posso alcançar. É natural que uma pessoa que vê um pinheiro pela primeira vez conseguirá reparar num sem número de pormenores que, à partida, um indivíduo que nasceu e viveu toda a sua vida junto a um pinhal não conseguirá captar. Contudo, esta diferença de visões poderá implicar que um atinja mais a realidade que outro? Não captarão ambos a realidade apesar de terem perspectivas diferentes? Portanto o estado racional proposto pelos filósofos racionalistas parece-me uma utopia. É tudo uma questão de conceitos e da sua definição. Cada filósofo define “sentimento” segundo o seu ponto de vista, cada um tem a sua definição de “real”. Isto complica qualquer análise crítica.

Vale a pena questionar este preconceito da razão para com os sentimentos, ou então, delimitá-lo a certos estados afectivos que, de facto, se não bem avaliados podem perturbar a visão da realidade. Que seria o homem se usasse apenas esta “razão”? Que vida seria a nossa? Poderia o ser humano suportar a dureza desta “razão” esvaziada de sentimentos? Para ter uma visão segura da realidade vale a pena integrar estes dois pólos, que não são opostos, mas que se complementam. Não me parece, assim, haver um primado da razão sobre os sentimentos. Vale a pena pensar nisto.


1 de junho de 2008

Associação Ateísta Portuguesa

Foi ontem, 30 de Maio, constituída a Associação Ateísta Portuguesa. Deixo aqui algumas considerações sobre o significado deste acontecimento, baseando-me na declaração de princípios da .associação.

Pergunto-me se não seria construtivo que os objectivos da nova associação se centrassem antes de mais na urgência de resolver os actuais problemas que a humanidade enfrenta, e para cuja solução não contribuirão apenas os ateus, cépticos e agnósticos, mas também homens e mulheres de variadas crenças religiosas que têm muito em comum no que se refere à filosofia de vida e, sobretudo, no que diz respeito à comum responsabilidade pela humanidade e pelo planeta.

É esta a posição de Edward Wilson, um conhecido e respeitado cientista, ateu convicto e confesso. Na sua obra “A Criação. Um apelo para salvar a vida na Terra”, redigida na forma de uma “Carta a um pastor baptista sulista”, o autor afirma no subtítulo da Parte III da obra: “Os argumentos para salvar o resto da vida são retirados tanto da religião como da ciência.”. E termina a ‘carta’ com as seguintes sensatas palavras:

“Independentemente daquilo que venha a acontecer às tensões entre as nossas mundividências opostas, sejam quais forem os altos e baixos pelos quais a ciência e a religião passem nas mentes dos seres humanos, perdura ainda a obrigação terreal e, porém, transcendente, que estamos ambos moralmente obrigados a partilhar.”

Parece-me, porém, que a nova associação não tem esta perspectiva. Aliás, apesar de afirmar no seu manifesto que o ateísmo não se define “pela mera oposição à religião e ao dogmatismo”, a verdade é que o ‘Portal Ateu’ não faz outra coisa senão opor-se à religião de uma forma completamente indiscriminada e inadequada.

Por um lado, muito do que no portal se critica são as caricaturas das religiões que abundam por esse mundo fora. Neste aspecto, os ateus estão, sem o saberem nem o desejarem, a fazer um favor às religiões, contribuído para que essas caricaturas sejam eliminadas.

Por outro lado, porém, os ateus generalizam as suas críticas a todas as religiões e a todas as pessoas que têm alguma crença religiosa. Tudo se passa como se eu criticasse a caricatura da ciência que é a astrologia, para só dar um exemplo das muitas caricaturas que por aí abundam, e depois generalizasse as minhas críticas a todos os cientistas que se ocupam seriamente da ciência. Não pareceria aos cientistas um procedimento adequado. E com toda a razão. O mesmo se passa com a apreciação que faço do procedimento dos ateus para com as crenças religiosas que não se identificam com as caricaturas que fazem o favor de criticar e demolir: trata-se de um procedimento inadequado.

Acresce ainda que os autores que intervêm no Portal Ateu, parte dos quais criaram agora a nova associação, decidiram ignorar sistematicamente o incontável número de homens e mulheres que um pouco por todo o mundo, em nome das próprias crenças religiosas, se empenham na promoção da paz e da justiça, na reconciliação entre os povos, arriscando voluntariamente a vida em territórios de guerra, ditaduras políticas, fome e miséria, partilhando o sofrimento de tantas pessoas apinhadas em campos de refugiados, seres humanos a quem foi retirado não apenas o património material mas, muito pior que isso, a identidade cultural e a própria dignidade.

Dir-me-ão que não é necessário ter uma crença religiosa para se fazer tudo isto. De acordo. Muitos ateus o fazem também. Não é isso que está aqui em causa. O que está em causa é que as crenças religiosas não se exprimem apenas em forma de caricaturas, mas também no empenho consciente, responsável e deliberado de muitos crentes nas mesmas batalhas de todos os homens e mulheres que não esperam que sejam os deuses a resolver os problemas que lhes competem a eles resolver.

Acredito no realismo e no bom senso das pessoas que criaram a nova associação e espero, por isso mesmo, que predomine na intervenção prática da mesma associação não o interesse em aumentar a crispação existente na sociedade portuguesa, mas sim em promover a paz, a tolerância e a justiça juntamente com todos os homens e mulheres que têm essa filosofia de vida, independentemente das suas crenças, religiosas ou outras.