31 de outubro de 2008

Dois padres jesuítas assassinados em Moscovo

O Gabinete de Imprensa da Cúria Geral da Companhia de Jesus, em Roma, divulgou no passado dia 29 o seguinte comunicado:

“O P. Victor Betancourt, jesuíta do Equador, que trabalhava no Instituto de Filosofia, Teologia e História S. Tomás, em Moscovo, foi assassinado no edifício da sua comunidade no passado sábado, 25 de Outubro. Ao entrar na comunidade, na segunda-feira seguinte, regressando de uma viagem, o P. Otto Messmer, Superior da Região Russa, foi assassinado no mesmo lugar. Um outro jesuíta, preocupado com o silêncio dos companheiros, entrou na comunidade na terça-feira 28, encontrando os corpos dos dois sacerdotes sem vida e com sinais de violência. Avisou imediatamente a polícia que está neste momento a investigar em todas as direcções, sem excluir qualquer hipótese.”

28 de outubro de 2008

Votos na Companhia de Jesus


Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração (Lc 12, 34)

Ser pobre | Ser grato no que recebo e gratuito no que dou; como Cristo, não ter o coração nas coisas, mas em Deus e nos outros

Tende em vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus (Fl 2, 5)

Ser casto | Ter o mesmo desejo criador de Deus, querer gerar uma humanidade segundo a felicidade e a liberdade de Cristo

A verdade vos libertará. (Jo 8, 32)
Ser obediente | Encontrar em Cristo, o Homem plenamente livre, Aquele que atentamente escuta a vontade do Pai como força de verdade


No passado Sábado, dia 25, fizeram os primeiros votos na Companhia de Jesus o António, o Duarte, o João, o Manuel, o Miguel Pedro e o Ricardo. A celebração decorreu na Sé Nova de Coimbra na companhia de muitos familiares e amigos, tendo-se seguindo uma festa na casa do Noviciado, em Cernache.


23 de outubro de 2008

A oração e a fotografia
fotos de: Luís Violante
Fernando Ribeiro



No fim-de-semana passado estive envolvido numa experiência “pioneira” - rezar com a fotografia.


Antes da máquina, o olhar, a abertura interior ao mundo que nos rodeia. De seguida, o registo fotográfico e a partilha. Era esta a proposta.


Entre o olhar e o fotografar há muitas similitudes. Quem não experimentou, já, olhar como quem fotografa? Mas agora, nesta proposta, tratava-se de fotografar, não só a partir do olhar mas também a partir de uma atenta escuta interior.


A proposta teve por inspiração os exercícios espirituais de Inácio de Loiola. Ao longo do dia fomos alternando tempos de meditação sem máquina fotográfica com outros momentos onde era usada a máquina fotográfica, de forma a registar imagens que pudessem exprimir o que tinha sido vivenciado. No final do dia, na tranquilidade da capela, as fotografias foram mostradas e comentadas.


21 de outubro de 2008

Jornada Fé e Ciência

A Jornada Fé e Ciência que se realizou no passado sábado na Faculdade de Filosofia deixou em todos o sentimento de que valeu a pena. Não trato aqui de contabilizar resultados, nem vitórias nem derrotas. O espírito da Jornada foi o de permitir que pessoas de diferentes perspectivas se encontrassem para se ouvirem reciprocamente.

Na parte da manhã, a leitura de um texto de Desidério Murcho, impedido de participar presencialmente, introduziu-nos no conceito de ‘racionalidade distribuída’, uma concepção de racionalidade que coloca as crenças ‘na praça pública para discussão aberta’, oposta a um tipo de racionalidade que se fecha à crítica e ao confronto com outras crenças. “A racionalidade está claramente relacionada com a justificação”, mas também, afirma Desidério, “é importante não pensar que a racionalidade é algo como a infalibilidade ou a garantia de verdade.”
Ainda de manhã, a conferência de António Rañada centrou-se em alguns aspectos da mecânica quântica, e a discussão sobre eles acabou por polarizar o debate.

Da parte da tarde houve sessões paralelas em que diversos participantes nas Jornadas tiveram a possibilidade de expor as suas teses.
Em seguida, Agustín Udias falou sobre a relação fé-ciência, e Ludwig Krippahl procurou mostrar que a metodologia científica prova que a crença em Deus é uma hipótese que não tem justificação racional.

A argumentação de Krippahl partiu de diversos pressupostos insustentáveis:
1- a crença em Deus e a própria existência de Deus é uma hipótese empiricamente testável;
2- as narrações mitológicas presentes em todas as religiões, devem ser submetidas a uma crítica científica;
3- uma vez provada a não sustentabilidade das narrações mitológicas de uma religião, pode-se negar a sustentabilidade de todas as demais narrações dessa religião, incluindo as de carácter factual;
4- termos como ‘ciência’, ‘Deus’, ‘realidade’, etc, não necessitam ser definidos;
5- o termo racionalidade aplica-se apenas à metodologia científica;
6- qualquer pessoa que assuma uma crença religiosa deve necessariamente rejeitar como falsas todas as demais crenças religiosas.

Krippahl argumentou tranquilamente utilizando expressões como ‘correspondência com a realidade’ considerando que nem o termo ‘correspondência’ nem o termo ‘realidade’ necessitam ser definidos. Creio no entanto que Krippahl utilizou necessariamente todos os conceitos presentes na sua argumentação com um sentido preciso, e nos convidou, consciente ou inconscientemente, a aceitar esse sentido e não outros, sobretudo outros que estivessem em contradição com a sua cadeia argumentativa.

Ao ouvir a exposição entusiástica de Krippahl, veio-me à mente a enigmática proposição de Wittgenstein: “Sentimos que, ainda que a todas as possíveis questões científicas fosse dada resposta, os nossos problemas vitais não teriam sido tocados. Sem dúvida, não cabe mais pergunta alguma, e esta é precisamente a resposta.” (Tractatus 6.52)

O que mais me impressiona em Krippahl é a sua atitude de quem tem tudo claro na sua mente, de quem não tem qualquer dúvida seja sobre o que for, e que em matéria de religião já provou tudo o que havia a provar. Não tenho essa pretensão.
Como crente, não tenho a pretensão de ter provado seja o que for, tenho a sensação da grande limitação do meu conhecimento, e que a minha argumentação nunca será nem filosofica nem cientificamente conclusiva, por muito que isso me fosse agradável.

Alfredo Dinis

19 de outubro de 2008

Revistas Científicas : Publique e esteja errado.


Publish and be Wrong

Oct 9th 2008
From The Economist print edition

One group of researchers thinks headline-grabbing scientific reports are the most likely to turn out to be wrong


IN ECONOMIC theory the winner’s curse refers to the idea that someone who places the winning bid in an auction may have paid too much. Consider, for example, bids to develop an oil field. Most of the offers are likely to cluster around the true value of the resource, so the highest bidder probably paid too much.

The same thing may be happening in scientific publishing, according to a new analysis. With so many scientific papers chasing so few pages in the most prestigious journals, the winners could be the ones most likely to oversell themselves—to trumpet dramatic or important results that later turn out to be false. This would produce a distorted picture of scientific knowledge, with less dramatic (but more accurate) results either relegated to obscure journals or left unpublished.

In Public Library of Science (PloS) Medicine, an online journal, John Ioannidis, an epidemiologist at Ioannina School of Medicine, Greece, and his colleagues, suggest that a variety of economic conditions, such as oligopolies, artificial scarcities and the winner’s curse, may have analogies in scientific publishing.

Dr Ioannidis made a splash three years ago by arguing, quite convincingly, that most published scientific research is wrong. Now, along with Neal Young of the National Institutes of Health in Maryland and Omar Al-Ubaydli, an economist at George Mason University in Fairfax, Virginia, he suggests why.

It starts with the nuts and bolts of scientific publishing. Hundreds of thousands of scientific researchers are hired, promoted and funded according not only to how much work they produce, but also to where it gets published. For many, the ultimate accolade is to appear in a journal like Nature or Science. Such publications boast that they are very selective, turning down the vast majority of papers that are submitted to them.

Picking winners

The assumption is that, as a result, such journals publish only the best scientific work. But Dr Ioannidis and his colleagues argue that the reputations of the journals are pumped up by an artificial scarcity of the kind that keeps diamonds expensive. And such a scarcity, they suggest, can make it more likely that the leading journals will publish dramatic, but what may ultimately turn out to be incorrect, research.

Dr Ioannidis based his earlier argument about incorrect research partly on a study of 49 papers in leading journals that had been cited by more than 1,000 other scientists. They were, in other words, well-regarded research. But he found that, within only a few years, almost a third of the papers had been refuted by other studies. For the idea of the winner’s curse to hold, papers published in less-well-known journals should be more reliable; but that has not yet been established.

The group’s more general argument is that scientific research is so difficult—the sample sizes must be big and the analysis rigorous—that most research may end up being wrong. And the “hotter” the field, the greater the competition is and the more likely it is that published research in top journals could be wrong.

There also seems to be a bias towards publishing positive results. For instance, a study earlier this year found that among the studies submitted to America’s Food and Drug Administration about the effectiveness of antidepressants, almost all of those with positive results were published, whereas very few of those with negative results were. But negative results are potentially just as informative as positive results, if not as exciting.

The researchers are not suggesting fraud, just that the way scientific publishing works makes it more likely that incorrect findings end up in print. They suggest that, as the marginal cost of publishing a lot more material is minimal on the internet, all research that meets a certain quality threshold should be published online. Preference might even be given to studies that show negative results or those with the highest quality of study methods and interpretation, regardless of the results.

It seems likely that the danger of a winner’s curse does exist in scientific publishing. Yet it may also be that editors and referees are aware of this risk, and succeed in counteracting it. Even if they do not, with a world awash in new science the prestigious journals provide an informed filter. The question for Dr Ioannidis is that now his latest work has been accepted by a journal, is that reason to doubt it?


Autor : Adrian Johnson

Fonte : The Economist.com

O titulo foi traduzido do Inglês : "Scientific Journals
Publish and be wrong"

18 de outubro de 2008

Internet Media and the Changing Face of Campaigning








Controversy versus Clarity: Causes for Concern


The Internet’s impact on electoral politics has not been unambiguously positive, however. Within the blogosphere, information spreads so fast as to leave no time for reflection—even fact checking is often thrown out the window. This has been especially evident in this year’s Democratic presidential campaign, as observers encounter new stories every day on various blogging sites, some more questionable than others. Guilt by association seems to be the most popular tagline. “It’s not the thoughtful speech that the candidate gave; but rather their mistakes,” said James Kotecki, host of Politico.com’s Playbook TV, a popular video blog site. Video clips have begun to serve as judge, jury, and executioner for candidates. YouTube plays the leading role in this arena given that most political “controversies” have been broken via video upload.
Furthermore, since controversy generates attention and revenue, seemingly controversial issues have received disproportionate attention online while crowding out more substantive discussion. Both old and new media outlets beat to death issues surrounding remarks by Obama’s pastor and misstatements by Clinton about Bosnia while allowing policy discussions to fall by the wayside. Many believe that elections have all too often been won based on perceptions rather than on the merits of policy proposals, and the actions of the new media have done little to put this image to rest.

Meet the New Boss?

Until the media grew into a role as guarantor of accountability, party bosses controlled the process of vetting candidates for public office. In yet another evolution of the media, it seems that anyone can now vet a candidate, and that may very well be the scary lesson politicians must learn in order to compete in today’s political game. They must extensively scrutinize their campaigns, making sure every word is kept in context and every action remains appropriate for its inevitable destination, the 30-second YouTube clip. While traditional methods of campaigning may remain as important in the future as they are now, time will show that political success comes to those who effectively complement tradition with a strong understanding of how to succeed in the world of new media.


Escrito por :

Brad Paraszczak, em 1 de Agosto de 2008.
The Harvard Political Review

17 de outubro de 2008

Internet Media and the Changing Face of Campaigning


Politics 2.0 - Parte 1

Electronic media in the 21st century is a political double-edged sword: it has enabled politicians to reach out to constituents like never before while also subjecting candidates to unprecedented levels of scrutiny. Websites such as Facebook and Myspace now allow anyone to organize grassroots support and augment traditional modes of campaigning and fundraising, while blogs and Youtube have expanded the power of media with their ability to showcase breaking stories and videos almost instantaneously. While the prevalence of user-generated journalism may reveal disconcerting truths about the relationship between media and politics, it certainly affords an array of opportunities for candidates to connect with voters and foster dialogue with supporters, and it will reward candidates who are able to effectively harness the Internet’s resources while avoiding its numerous pitfalls.

Connecting Candidates With Voters

Political blogs, fundraising websites, YouTube, and social networking portals have undoubtedly altered the structure and style of campaigns. No politician exhibits successful usage of this new media better than Sen. Barack Obama (D-Ill.). His website, BarackObama.com, has recorded nearly 1.5 million individual donors since the start of his campaign, translating into massive grassroots support and fundraising. Morley Winograd and Michael Hais, authors of Millennial Makeover: MySpace, YouTube, and the Future of American Politics, told the HPR that “Sen. Obama’s use of Internet-based media that allow his supporters to self-organize reinforces his message of empowerment and change in a more powerful way” than Sen. Clinton’s (D-NY) traditional broadcast media approach. Before this era of e-communication, it was nearly impossible to reach the millions of Americans who did not read newspapers, watch TV news, or listen to the radio. The Internet has become a new lifeline for political communication, and it has surprisingly been utilized most by individuals who are less inclined to vote, namely the Millennial Generation.
In an interview with the HPR, Jeffrey Fontas, a 21-year-old New Hampshire State Representative, related his experiences with this new style of campaign. “Building an organization of peers on Facebook allowed me to combine traditional campaign methods with new media and succeed in unifying my constituents,” he remarked. Social networking sites have allowed politicians to establish contact networks both within their districts and across the country; thousands of political groups on Facebook render the site’s 69 million members only a click away from activism.


Escrito por :
Brad Paraszczak, em 1 de Agosto de 2008.
The Harvard Political Review

14 de outubro de 2008

O Google sabe quem nós somos ?


O Google sabe quem nós somos ?

A 1 de Abril de 2004, o Google deu um passo importante para deixar de ser visto apenas
como um motor de busca. Lançou o revolucionário Gmail, então com uma capacidade de 1Gb, ou seja, várias centenas de vezes o oferecido pela concorrência. Hoje o Google oferece cerca de 7Gb de espaço. O facto de o Google se estar a transformar no fiel depositário de muitos documentos pessoais é uma tendência que me tem causado alguns calafrios. Para além do e-mail, a empresa oferece ainda um serviço que permite criar e armazenar nos computadores da empresa documentos de texto, ou folhas de cálculo. Podem ser documentos de trabalho ou particulares, só depende do que o utilizador ali quiser colocar. O conceito é oposto ao actual paradigma de uso dos computadores pessoais, em que os programas e os ficheiros ficam guardados na própria máquina que está a ser utilizada, e não a milhares de quilómetros de distância. O fenómeno ganhou nome: Google Cloud (Nuvem Google) , termo que designa os muitos computadores que, como partículas, constituem a enorme infra-estrutura de armazenamento. Alguns analistas acreditam ser possível que esta nuvem substitua o tradicional esquema de utilização dos computadores, mas eu creio que irá complementá-los apenas. As garantias de privacidade dadas pela empresa aos utilizadores que optam por guardar ficheiros não me deixam muito descansado. Pois fico sempre na dúvida o que será que o Google sabe acerca de mim, também ela anexará os meus ficheiros pessoais na grande teia de informação que possui? Catalogar-me à como individuo e classificar-me à pelos meus gostos? Poderá ler os conteúdos dos meus ficheiros pessoais? Quem não se recorda dos protestos que surgiram pela apresentação de publicidade relacionada com o conteúdo de cada e-mail enviado ou recebido. Os computadores liam as mensagens e esforçavam-se por apresentar o anúncio com mais probabilidade de merecer um clique do utilizador. Os responsáveis desdobraram-se em esforços para tranquilizar os mais inquietos e assegurar que a escolha da publicidade é um processo completamente automatizado e não muito diferente do que é usado para determinar se um e-mail é spam. Tudo o que fazemos online deixa rastos e isso ninguém duvida, é um dos preços que temos que pagar por vivermos numa sociedade de informação e por utilizarmos estes serviços que nos são úteis. Mas realmente o que me incomoda é o grau de concentração de informação pessoal que o Google e outras empresas estão a alcançar é preocupante e é preciso salvaguardarmos os nossos interesses como utilizadores.

9 de outubro de 2008

Carta a Sto Inácio de Loyola (III/III)

...

Vejo três jesuítas sentados num sofá. Os três estão empenhados na luta contra a SIDA (quando não estão sentados no sofá). Um deles, com um aspecto mais duro, está com uma sóbria camisa africana. O seu olhar demonstra sabedoria e cautela. Ao seu lado, num tom inteiramente ocidental, um outro jesuíta ao qual prende o olhar simples e desinteressado. De aspecto calmo e atencioso. O terceiro usa uma africana camisa verde florescente com um elefante ao centro. Aspecto de homem com garra e desejoso de levar coisas para a frente por causa do que já viu… por causa do Reino. Sinto que estes homens não têm nada a ver uns com os outros. De facto, a nossa unidade forja-se na diversidade e é através dela que o Senhor nos suscita a busca do ‘magis’[1]. Penso no grupo dos teus primeiros companheiros. Só com Deus e por Deus é que gente tão diferente podia ter sido tão bem encaminhada.

Vejo um índio? Um índio que segue as nossas constituições e a Fórmula do Instituto… será possível? Um índio mergulhado no serviço aos mais pobres, proposto na Congregação Geral XXXII, aliás, pelo Evangelho? Sim, é o irmão Vicente Cañas Kiwxi que, vivendo como índio no meio dos índios, deu a vida por Jesus ao mostrar a justiça que nasce da fé verdadeira. Uma entrega da vida que havia de culminar numa última: o seu assassinato na Amazónia. Sinto uma presença de um Deus que necessita de, a partir de nós, usar as nossas maneiras para nos falar da Sua. Penso na quantidade enorme de companheiros nossos, que já gozam contigo das alegrias da PRESENÇA, por se terem entregue completamente ao serviço destes mais pobres e injustiçados.

Vejo de olhos cerradíssimos, de mãos expressivas e insaciadas com o que diz a um microfone frente a milhares de pessoas, o P Alberto Hurtado. Sinto cravado nas suas expressões o desejo enorme de instaurar uma “ordem social cristã”, no fundo construir o Reino não como um conjunto de perspectivas interiores, mas como uma realidade interna que não consegue nada mais senão extravasar-se. Penso nas palavras do próprio P. Hurtado: “Que faria Cristo no meu lugar?” Penso neste Cristo… o libertador das estruturas injustas.

SONHO… sonhar a Companhia é difícil, aliás, julgo mesmo impossível! Isto é, não somos mesmo nós que devemos sonhar a Companhia, mas sim sonhar as formas de pôr em prática os sonhos d’Aquele que aqui nos congrega: O Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, pobre e humilde, Rei e Senhor nosso! E isto é muito concreto, é a responsabilidade do apóstolo diante do mundo! De nós muito depende porque d’Ele tudo depende!

Somos um corpo de pecadores, o que me faz não me sentir estranho aqui, mas também me faz ver que o pecado não é de Deus e destrói o mundo, como Reino em fermentação. E sempre que a Companhia pecou foi precisamente por se adiantar aos sonhos de Deus para ela própria e para o mundo.

Contudo parece-me para a Companhia, como alguém que faz parte dela, Deus sonha com contemplativos na acção. Sonha com uma acção que provenha cada vez mais dos Seus sonhos, os que contemplamos na intimidade. Acção que transmita esse Deus contemplado! Uma Companhia que, com a agilidade do apóstolo, aceite e dê o peso devido às humilhações e aos elogios, por amor do Nosso Senhor. Sem medo de falar, com coragem de esperar, com a humildade para calar. Mais uma entre muitos que procuram trazer o Reino sem se achar descobridora da pólvora!

Mas sou um miúdo filósofo e o que espero agora é imprimir duas vezes esta carta que te escrevo para que uma seja para tu leres e outra para eu ler daqui a uns anos afim de me rir de algumas coisas que dizia e de me interrogar se vivo aquilo que sonho. O futuro… o futuro da Companhia não depende dela própria, está no seio do próprio silêncio comunicador da liberdade profunda de Deus. N’Ele tudo! Afinal ‘assim como O Eterno Senhor de todas as coisas nos deu a graça para desejarmos viver como Ele e assim nos oferecermos, dar-no-la-á também abundantemente para até ao fim o cumprirmos.”[2] E que assim seja para nós enquanto Deus e o universo de nós precisarem.


Abraço em Cristo Jesus, Nosso Senhor


Missé sj




[1] Magis é um termo latino que significa Mais. É um termo usado por Santo Inácio e muito querido na espiritualidade inaciana como aprofundamento constante e interno da identificação com Jesus.

[2] Inspirado na fórmula dos votos feitos na Companhia de Jesus

Carta a Sto Inácio de Loyola (II/III)

...

Vejo despida, no meio de terra batida, uma lápide erguida ao jesuíta P. Hoffmann. Na lápide da tumba do europeu só há gravadas letras da Índia onde ele viveu e se ofereceu para trabalhar pelo Reino. No cimo da lápide há uma cruz… parece a única coisa ocidental, mas nem isso é! Sinto a Companhia como um corpo expropriado de si próprio, que não vai para a Missão em seu nome, mas em nome de Jesus por aqueles a quem há de servir, ao ponto de serem estes a falar dele na sua própria língua. Penso que era isto que querias quando nos propunhas que, à maneira de Jesus, fôssemos pobres e humildes ao ponto de, livres de tudo tal como o próprio Cristo humanado, incarnássemos o Evangelho nas culturas e as culturas no Evangelho.
Vejo na Coreia, vastos campos injustamente expropriados a muitas pessoas para construir um aeroporto militar. Três jesuítas, num altar improvisado sobre a terra, oferecem uma missa pelos desalojados. Sinto o desejo de sofrer com aqueles que sofrem na pele a injustiça por causa da (in)justiça de outros. Penso que quando sugeres nos Exercícios Espirituais que nos associemos aos sofrimentos de Cristo sofredor também nos convidas a que nos associemos ao sofrimento de cada pobre onde Cristo, o crucificado, sofre.
Vejo no México, uma criança numa Via-Sacra a fazer o papel de Jesus com uma cruz às costas. Sinto que ao acolher esta criança a Companhia está no fundo a tirar-lhe a grande “cruz” que é não ter consigo o pai que, ilegalmente emigrado, foi à busca de emprego. Penso na gratuidade de darmos o que de graça recebemos. Dar o nosso tempo gratuitamente a cada pessoa pode ‘mover mais montanhas’ que todas as corridas do mundo. Era nisto que pensavas quando, alojado, servias nos hospitais por onde passavas?
Vejo Aldo Giachi. Jesuíta italiano. A cadeira de rodas sobre a qual se movia não foi impedimento para querer e ir como missionário para o Chile. Sinto pequenez e admiração diante de este calibre de homens que nesta mínima Companhia não buscaram em nada ‘felicidades privadas’, mas jogaram-se completamente na glorificação do Pai. Penso no desejo teu de que nos libertássemos do nosso querer e interesse e que nos abandonássemos ao querer e interesse de Nosso Senhor.
Vejo dois homens a portar traves de madeira aos ombros. Um deles é jesuíta! Está a trabalhar na Indonésia em Papua com alguns trabalhadores explorados pelas injustiças humanas. Sinto que ser Cristo para os outros é uma atitude interior que se ultrapassa completamente a si própria. “O Cristo vivente faz-se apostólico!”[1] O jesuíta que aparece na foto não está a fazer nenhuma prova… está a ser Cristo, ao lado dos que sofrem! Penso que servir os homens e quebrar as cadeias de injustiça também era o que o Pai te pedia em La Storta quando queria que O servisses.
Vejo um velho de barbas. Cruz castanha ao peito salientada pela camisa branca que a ampara. Por de trás dos óculos lança os olhos atentos para os dois túneis de um microscópio. É o P. Adolfo Fontes. Na estação biológica da Nicarágua observa exemplares de novas espécies de minúsculos moluscos. Sinto vontade de também olhar e contemplar esse Deus cósmico plenamente presente em cada coisa! Penso que a experiência de Deus de um ‘contemplativo na acção’ não se pode fechar nas naves das catedrais. Também devemos fazer a experiência de Deus em qualquer trabalho que seja, para assim podermos achar em tudo um anúncio da Sua fantástica vinda, que é já!, que é constante em todas as coisas, pois em tudo Ele opera e Se digna oferecer-se-nos.

(a continuar...)



[1] Arrupe, Pedro – alocução ao noviciado português da companhia de Jesus


Carta a Sto Inácio de Loyola (I/III)

Braga, 10 de Outubro de 2008


Querido Santo Inácio,


é com imensa alegria que te escrevo. Como vai essa vida (eterna)? Suponho que estando no céu, a perna e o estômago já não sejam um problema para ti. Aqui na terra caminhamos cheios de ritmos diferentes, como no teu tempo, todos à procura ou desiludidos por não encontrarmos o sentido alegre que precisamos… Crises económicas para muitos, poderio económico de alguns; enquanto alguns andam tristes e com roupas de marca, outros andam esfarrapados e felizes; uns pobres morrem por falta de pão, outros, pobres de sentido, não conseguem viver… Mas há muito bem silencioso que se vê por aí, à margem das objectivas que ‘sabem tudo’. Tal como Jesus, é aqui que a Sua Companhia deve encarnar, como nos propões nos Exercícios Espirituais. Mas como estão os Jesuítas para entrar com profundidade em todos estes campos?

Num mundo em que parece que está tudo descoberto, encontrado, delimitado e entendido, em que parece que não há mais nenhuma fronteira a penetrar, mas no qual há tanta injustiça e falta de sentido para todas as muitas corridas é porque ainda falta qualquer coisa de fundo. Que deveremos nós fazer para colaborarmos de melhor forma com a missão de Cristo? Talvez a nossa missão agora deva ser a de desinstalar o mundo do seu auto-convencimento de tudo saber. Como? Creio que se antigamente o profeta era aquele que descobria uma superfície nova que ainda não tinha chegado, uma fronteira nova que o tempo no-la faria enfrentar, hoje deveremos ser na missão profetas não de fronteiras horizontais (novas superfícies) mas profetas de fronteiras verticais. Isto é, dar a conhecer ao mundo a profundidade que cada momento e decisão da vida podem ter se descobrirmos nesses mesmos momentos e decisões o seu DNA de eternidade. A presença de Deus em todas as coisas.

Tal como me pediste na carta a que te respondo, vou falar-te da Companhia actual, embora a minha visão vá ser mais limitada do que as que aí ouves, mas vou tentar falar-te de todo o corpo apostólico que formamos ‘por amor de Deus’. Vou descrever-te algumas imagens e fotografias (imagino que já saibas o que isso é) que me falam da Companhia de Jesus e do seu discernido desejo de, intimamente ligada à igreja toda, buscar em tudo a maior glória de Deus para assim, embora muito pecadora, nela se jogar inteiramente. Sobre este desejo de falar-te da Companhia, faço minhas as tuas palavras, da carta que nos dirigiste há cerca de 30 anos[1], é uma “empresa quase impossível”! Mas mesmo assim vou tentar falar-te desta ‘Companhia de amor’[2], como eu a vejo, sinto, penso e sonho.


(a continuar ...)





[1] Rahner, Karl - Palavras de Inácio de Loyola a um jesuita de hoje

[2] Expressão usada por São Francisco Xavier para se referir à Companhia de Jesus.

6 de outubro de 2008

A Sociedade Ateísta Portuguesa e a laicidade


O Jornal “Diário do Minho”, publicou recentemente a notícia do protesto do Presidente da Associação Ateísta Portuguesa contra o facto de a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão ter subsidiado um passeio de idosos a Fátima. O protesto baseia-se no princípio de a separação entre a Igreja Católica e o Estado Português, isto é, a laicidade do Estado, não permitir tal coisa. Segundo esclarecimento da referida Câmara Municipal, o que se passou foi o seguinte: a Câmara ofereceu aos idosos um passeio. Estes escolheram ir a Fátima. A Câmara não interferiu na livre escolha das pessoas. Se as coisas se passaram assim, louvo a decisão da Câmara de não interferir na livre escolha dos idosos quanto ao destino da sua excursão.

A Câmara Municipal de Braga subsidiou também recentemente um passeio de idosos à Quinta da Malafaia, um local de diversão popular. Louvo também esta iniciativa.

Sabemos que muitos idosos vivem com magros recursos. Muitos deles não têm autonomia para se deslocarem seja onde for, nem têm família que os leve a passear. Deverão ficar condenados a não sair da sua terra? Ou a escolherem apenas destinos da excursão oferecida pela Câmara que não tenham nada a ver com a sua religião? Não me parece. Ao subsidiar passeios de idosos, a Câmara não está a subsidiar nenhuma instituição religiosa, está a subsidiar pessoas e, neste caso, pessoas a quem a sociedade deve uma particular atenção. O princípio da laicidade do Estado não pode nunca ser um princípio contra as pessoas.

Alfredo Dinis,sj

5 de outubro de 2008

Reflexão sobre a Web 2.0 - A Manipulação



PARTE 2: A Manipulação


A Internet é formada por milhões e milhões de pessoas.

Somos todos na grande maioria uma rede infinita de amadores equipados com máquinas de escrever; um espaço anárquico habitado por uma multidão ignorante de elementos narcisistas e exibicionistas que mais não faz, do que perder tempo a publicitar-se, a auto-promover se, e a arranjar novas formas de angariar dinheiro.

A Internet dos Blogues, Wikipedia, YouTube e redes sociais tornou-se no espelho da mediocridade e banalidade humanas, que ameaçam a nossa cultura e valores.

A Web 2.0 converteu-se num viveiro de amadores, no símbolo da hegemonia do amadorismo e na proclamação triunfal do saber banal e infundamentado sobre o conhecimento técnico, treinado, qualificado e especializado dos tradicionais órgãos de comunicação social.

Hoje em dia a cultura de massas da Internet não é uma cultura de saber e inovação, e a aparente sabedoria da multidão é falsa. A Internet revela neste campo alguns perigos importantes e imperfeições alarmantes da Web 2.0 , nomeadamente a questão da desresponsabilização, em regra associada ao anonimato na Internet, e a falta de filtragem e controlo sobre os conteúdos colocados online, em que ninguém contrasta a veracidade da informação publicada nem as credenciais de quem a publica.

Sites como o YouTube são utilizados para a angariação de eleitores em campanhas politicas (mostrando vídeos embaraçosos e comprometedores dos opositores assim como discursos dos próprios políticos); para a edição de artigos na Wikipedia como modo de influenciar a opinião publica em certos temas da actualidade, e como forma de propaganda e prossecução de interesses comerciais por parte de grandes empresas e sociedades.

Ainda relativamente ao papel das grandes empresas na Web 2.0, é de assinalar a progressiva dificuldade em distinguir entre conteúdo e publicidade na Internet nos dias de hoje, podemos ver hoje em dia a actuação encapotada de grandes firmas que, escondidas atrás do véu de um suposto “user-generated content”, publicitam os seus produtos através de vídeos aparentemente amadores no YouTube. Trata-se de uma espécie de táctica invisível de marketing, em que o consumidor deixa de distinguir se está perante um anúncio ou um simples vídeo de entretenimento.

Uma questão alarmante também é a possibilidade de manipulação de resultados obtidos nas pesquisas feitas pelos motores de busca como o Google (fenómeno denominado “google bombing”). A distorção no modo de funcionamento dos motores de busca poderá obedecer a motivos políticos e ideológicos.

O excesso de filmes, conteúdos e páginas inunda uma rede sobrelotada, tornando-se cada vez mais importante publicitar e chamar a atenção. O conteúdo individual de cada um vai se dissolvendo e dissipando nestas densas redes. Esta densidade facilita a suspeita e permite que uma grande massa de indivíduos em grupos seja exposto a correntes de manipulação.

2 de outubro de 2008

Reflexão sobre a Web 2.0 - O Triunfo dos Amadores


Parte 1 : O Triunfo dos Amadores



Com o crescimento da Internet e com o desenvolvimento das aplicações denominadas Web 2.0, nunca o homem teve tanta capacidade e poder de expressão, comunicação e exteriorização como nos dias de hoje.

Pela primeira vez, a humanidade passou a conversar consigo mesma, dando-se a conhecer a si própria nos mais ínfimos e impensáveis detalhes. É como se a multidão em massa, antes silenciosa, consumidora e passiva, tivesse recebido um microfone para falar, um bloco para escrever, pincéis para pintar, uma máquina para fotografar e uma câmara para filmar, passando a poder difundir a sua voz, publicar os seus escritos, exibir os seus quadros, circular as suas fotos e mostrar os seus filmes ao mundo inteiro, alcançando em segundos uma audiência à escala planetária, de forma nunca antes possível ou sequer imaginável.

Até à era digital, publicar um texto implicava contactos com editoras ou jornais, rodar um filme exigia equipamento dispendioso, gravar uma música obrigava à utilização de um estúdio, exibir uma colecção de fotos necessitava de uma galeria de arte. Nos dias de hoje, a produção e divulgação artística e cultural estão à disposição de qualquer um de nós. Na chamada Web 2.0, através da blogosfera, da Wikipedia, do YouTube, do Flickr, da Machinima.com, Newsgrounds. Redes sociais como o Myspace, Facebook e Hi5, ou de mundos virtuais como o Second Life, podemos ser aquilo que quisermos: escritores, locutores de rádio, jornalistas, designers, cartoonistas, realizadores, fotógrafos, estilistas, etc…

Os estudiosos do assunto usam vários termos para caracterizar o fenómeno, desde as designações técnicas “user-generated content” (conteúdo gerado por utilizadores) e “collective inteligence” (inteligência colectiva) até formulações mais romanceadas como “wisdow of the crowds” (sabedoria da multidão).

Com esta nova Internet, a fronteira entre consumidores e produtores é cada vez mais nebulosa e indefinida.

Deixámos de pagar bilhete para ver o espectáculo para passarmos a ser nós o espectáculo.

É o grande triunfo dos amadores, e dos autodidactas. A nossa capacidade criativa pode assim ser explorada, desenvolvida e mais do que isso publicada, revelada e mostrada. Todos os nossos intelectos reunidos a produzirem, não deixando esse privilégio apenas para uma minoria.

Eis que este espírito de mudança caminha em cada um de nós, caminha para a criatividade individual e grupal. Deus nos deu esta capacidade de originar algo novo através da imaginação, a Internet, é por isso um instrumento de extrema importância. Caiamos nós na conta da enorme responsabilidade que é podermos usar este instrumento sem restrições, ele é o que nós fazemos e publicamos nele.

Um livro é aquilo que o autor projecta e escreve. Tenhamos nós bem a consciência desta enorme responsabilidade. Saibamos nós aproveitar aquilo que Deus nos deu.



1 de outubro de 2008

dias claros...












‘Do nada, abrem-se os olhos,

Vindos de um escuro confundido.

Rompe-se uma luz… simples e directa.

A sua tez é clara, claríssima.

A curiosidade fez-me coar toda a luz pelos olhos.

Custa suportar tanta claridade.

A claridade invade-me…

transgride as antigas fronteiras, ‘instaladamente’ aceites.


Pergunto-me:

“Isto é luz que tenho

ou é a escuridão a mais no que vejo

que me dá a sensação de ver

a partir de toda a luz?”

À medida que a luz, calma, entrava,

Os meus olhos iam-se habituando à sua claridade.

Quanto mais via os seus traços claros,

Mais me deixava envolver por todas as memórias

Que de alguma maneira aquela luz me lembrava.


Batia o coração em “gemidos inefáveis”

De quem busca o que não vem de si

E procura encontrar a ‘forma’ adequada

Para acolher a ‘força’ de tanta luz.


Mas o medo dizia:

“não estarás num sonho?”

E o céptico:

“nunca hás de acordar!”.’