19 de janeiro de 2009

autocarros cheios de equívocos

Tem sido muito comentado o facto de na Inglaterra circularem algumas centenas de autocarros exibindo a mensagem “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life.” Em Portugal, o Portal Ateu procede actualmente a uma sondagem sobre a opinião dos portugueses acerca da possibilidade de copiar a ideia em Portugal. Deixo aqui algumas considerações sobre o assunto.

1.Não consigo entender por que razão a improbabilidade da existência de Deus deverá tornar as pessoas mais felizes, do mesmo modo que não entendo por que razão a existência de Deus deverá torná-las infelizes. Alguém me quer explicar isto?

2.Sou cristão, acredito na existência de Deus e isso faz-me feliz. Não tenho mais preocupações que o comum cidadão que procura viver uma vida responsável e sinto que estou a aproveitar a vida ao máximo. Porque deveria tornar-me ateu?

3.Se eu fosse ateu ou simplesmente agnóstico, ficaria preocupado com o slogan. É que não me dá a certeza de que Deus realmente não existe. Por que razão viver nesta incerteza me faria feliz?

4. O slogan pressupõe ainda que o mundo se divide em duas partes: a dos ateus, que são felizes e gozam a vida ao máximo, e a dos crentes que vivem infelizes e incapazes de tirarem o máximo partido da vida. Mas isso não corresponde à realidade. Todos sabemos isso. Porquê fingir que não sabemos?

35 comentários:

antonio ary sj disse...

Mais uma vez, aquilo que parece ser um confronto pode ser vivido como purificação...

Transcrevo aqui um artigo de Graça Franco, no Público da passada sexta feira:

A culpa é nossa, dos crentes

16.01.2009

Como é possível que a ausência de Deus possa ser vista como motivo de despreocupação?


A culpa deve ser nossa. Dos crentes. Só pode! Não fosse o nosso ar acabrunhado e o nosso andar absorto e circunspecto, arrastando-nos, por aí, macambúzios, em passo de subida ao calvário e aquele slogan já não seria possível. Fôssemos todos nós mais Agostinianos e conseguiríamos, como ainda hoje conseguem as geniais confissões do grande Santo, não apenas converter um ou outro intelectual ou político influente, aberto à reflexão e descoberta como Barack Obama, por mais agnóstica que tivesse sido a respectiva educação, mais a conversão de muito mais Baracks e outros tantos Obamas. Fosse maior e mais operacional a nossa fé e ver-se-iam aflitos os que quisessem derrubar a nossa esperança. O "Ama e faz o que quiseres!" de Santo Agostinho continua a ter uma força mobilizadora bem mais forte do que o débil apelo da propaganda ateísta dos autocarros de Londres ou Barcelona quando propõem: "PROVAVELMENTE, DEUS NÃO EXISTE. Deixa de preocupar-te e desfruta a vida!"!

Este apelo, sem horizontes, à mediania, à desresponsabilização, ao individualismo, ao carpe diem mais conjuntural, serve que nem luva à contestação de uma ideia de Deus infantil, ridícula e caricatural. Um Deus que nos pesa e preocupa, e não um Deus que nos liberta exactamente das cargas arrastadas dia-a-dia numa vida sem dimensão nem sentido. Reduzida ao detestável metro-boulot-dodo, contra o qual se rebelavam, nos idos de 68, estudantes e intelectuais sedentos, pelo menos, de um make love, not war mais criativo.
Fôssemos nós capazes de mostrar que o desafio dos crentes é tão total que passa por Amar sem limites o próprio Amor, vendo não apenas em nós, mas em cada um dos outros, a Sua própria imagem e estaríamos conversados. Não há proposta de felicidade mais avassaladora.
Devíamos envergonhar-nos da ideia que damos d'Ele e de nós, em vez de nos queixarmos da ignorância e da má-fé à nossa volta. Do preconceito que deixamos crescer em torno daquilo em que cremos. Como é possível que a ausência de Deus possa ser vista como motivo de despreocupação?
Logo nós, que devíamos ser vistos como os menos preocupados dos viventes por maior que seja a crise. Nós que acreditamos na promessa de Deus (Mt. 6): "Olhai os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem juntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu alimenta-os. Será que não valeis mais do que os pássaros? (...) Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, eu digo-vos: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora se Deus assim veste a erva do campo, (...), muito mais ele fará por vós, gente de pouca fé!"
Pouquíssima. Senão nem precisaríamos de continuar: "Não fiqueis preocupados dizendo: Que vamos comer? Que vamos beber? Que vamos vestir? Os pagãos é que procuram essas coisas (...) não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá as suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade". Ou seja, não se propõem facilidades, apenas se garante a superação das dificuldades, dia-a-dia, sem excessos de preocupação. Querem garantia mais "destressante"?

Pior ainda é o passarmos a ideia de que tudo o que fazemos é fruto de uma preocupação constante em torno da conquista do prémio ou do temor do castigo. Que ideia caricatural da fé têm esses activistas ateus ao considerarem que à certeza de uma felicidade eterna se pode contrapor, com vantagem, um banquete permanente em torno de um magnifico prato de lentilhas?
Se "PROVAVELMENTE DEUS NÃO EXISTE" (em maiúsculas para evitar a referência ao Deus das religiões monoteístas), importam-se de nos dizer qual a margem de certeza que sustenta a conclusão? Concluíram que há 50% de hipóteses da sua não existência? Ligeiramente mais...? Um pouco menos...? A base de certeza é a mesma que levou uma série de génios, a anunciar, com pompa e circunstância, a morte de Deus? Os tais que se foram finando antes mesmo de chegarem a tempo ao enterro divino.
Sobre as cheias de Santa Catarina teria dito o presidente Lula que, antes de tudo, era preciso "rezar" para que parasse de chover. Comentava sobranceiro o diário onde li a notícia (cito de memória): em frases como esta Lula revela, uma vez mais, a sua origem humilde. Haverá coisa mais lúcida do que um governante reconhecer a impotência face à avassaladora fúria da natureza impossível de controlar? Mas essa lucidez parece ao comentarista simples reflexo da "ignorância" bebida da cultura popular das favelas pobres.
Como se culto e desenvolvido desembocasse fatalmente em céptico e descrente. O mesmo estereotipo a que não fogem aqueles que não conseguem ver na fé na Eucaristia outra coisa que não seja um resquício de uma repugnante cultura canibal. Um Deus que se faz homem já escandaliza. Um que se faz coisa inerte para ficar à nossa mercê torna-se intolerável. Assim reagiam às propostas do próprio Cristo os muito religiosos do seu tempo que até aí fielmente o seguiam. Foi essa, já então, a pedra de escândalo. Estamos habituados.
Pior do que existirmos seria ver-nos felizes. Porque esse espectáculo de felicidade tornaria a própria crença uma ameaça. Porque a felicidade arrasta, converte, cria no descrente uma espécie de inveja que leva à reflexão, à interrogação criativa sobre o destino do Homem e do Universo. Trazemos impresso no nosso ADN a busca incessante da felicidade. Até no Mal mais absoluto é o Bem que buscamos. Percebe-se, assim, que combater a ideia de Deus passe por aí. Por conotá-la com o peso de uma preocupação que nos impede de desfrutar a Vida que lhe devemos. Senão, corre-se o risco de levar a pensar: "Provavelmente Deus existe e vale a pena agradecer-lhe estar vivo e desfrutar desta Vida, não apenas aqui (que é coisa breve) mas eternamente." Jornalista

Helder Sanches disse...

Caro Alfredo,

Respondendo ponto por ponto:

1 - Inverta ambas as questões e ficamos na mesma: por que razão a probabilidade da existência de Deus deverá tornar as pessoas mais felizes, do mesmo modo que não entendo por que razão a inexistência de Deus deverá torná-las infelizes

2 - Ainda bem que é feliz. Fico feliz, também, por saber que assim é. Não deve nada tornar-se ateu, homem, onde é encontra essa insinuação?

3 - Ah, aqui já pia mais fino. Será que o Alfredo tem mesmo a certeza de que Deus existe? Inquestionavelmente? Lá iriamos nós discutir sobre a nossa posição académica e o nosso modo de vida. Então, os ateus são os próprios a admitir (neste caso) que Deus não é falseável e ainda por cima são criticados por isso? Essa é uma critica académica ou mais mundana?

4 - O que o slogan pressupõe - apenas - é que existem muitos crentes cuja crença em Deus lhes impede de atingirem realmente um estado de felicidade, quer seja pelo medo do castigo divino, quer seja, simplesmente, pelo peso da consciência do pecado prórpio. Concordará que essas não são preocupações de ateu.

Um abraço.

alfredo dinis disse...

Caro Helder,
Obrigado pelos seus comentários.

1.A razão pela qual a probabilidade da existência de Deus pode tornar as pessoas mais felizes tem a ver com o facto de esse Deus constituir um horizonte de sentido e de afecto que não existe na hipótese da inexistência, ainda que apenas provável, de Deus. Mas a felicidade não é algo de automático. Um ateu pode ser mais feliz que um crente, e vive-versa. Tudo depende da forma como cada um vive a sua vida.

2.Não te parece que do slogan do autocarro se deduz que é impossível que alguém seja crente e não viva roído de preocupações e tristezas. Eu continuo a crer que é isso que se deduz.

3.Não creio que o Helder tenha respondido à minha questão, que é muito simples: viver na incerteza faz uma pessoa feliz? Os não crentes são convidados a viver na ‘probabilidade’ da não existência de Deus. Eu não tenho nenhuma prova da existência de Deus, mas a sua não existência tem consequências que me parecem difíceis de acreditar. Por exemplo: Se o universo tem a sua explicação radical em si mesmo, então criou-se a si mesmo, ou é eterno sem princípio. Porque não poderia Deus ser igualmente eterno sem princípio? Afinal, as nossas crenças têm a mesma estrutura.

4.Claro, os cristãos que vivem sob o peso da preocupação obsessiva sobre o seu destino poderão viver muito infelizes. Não têm porém que viver assim necessariamente. Isso não faz parte do cristianismo. Mas não crê que haja ateus infelizes? Porque o serão?

Um abraço,
Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro António,

Obrigado pelo texto. Vou lê-lo com atenção.

Um abraço,

Alfredo Dinis,sj

Anónimo disse...

Arrisco uma sugestão: colocar esta mensagem/ poema nos autocarros portugueses...

"Um brinde
à santa paciência dos homens de boa vontade, à inclusão do amor, ao coração breve, à equanimidade, à noite escura que aguarda a madrugada, ao Espírito que nos aquece, à boa palavra, ao alívio da dor, aos amigos, aos que nos cercam – e um perdão aos que nos ferem , aos que nos esquecem...

Bebamos à saúde
de Bagdá, Telavive, Palestina e Nova Iorque, das Áfricas de sul a norte, da Europa, Ásia e Islândia, dos Lamas, do cordeiro de Deus, do papa, das madrassas, dos avatares, dos babalorixás, da boa política de todos os credos, das Américas de toda sorte, do continente australiano, das ilhas, dos oceanos, dos pingüins da Antártida, dos ursos do Pólo Norte...

Uma saudação
aos judeus, cristãos e mulçumanos, aos mouros, hindus e budistas, e aos ecologistas militantes, aos celtas, índios , beduínos, esquimós, pigmeus, ( aos eventuais alieníginas), aos peregrinos, aos românticos, aos ateus, aos poetas errantes, aos bem resolvidos e aos que sofrem – os do mundo excluídos, os encarcerados, os terminais e delirantes - ao velho e à criança, aos grandes e pequeninos...

Loas
aos pássaros de toda plumagem e canto, aos insetos, répteis e sapos, à dança da chuva, à alquimia do sol, às folhagens, ao pólen, aos cristais de quartzo, aos riachos, à lua, aos céus, ao solo, aos planetas, aos meteoritos e pirilampos, aos buracos negros e às intransponíveis galáxias – e à arte maior que a tudo abraça e que de tudo se encanta...

Uma libação
aos vivos e aos mortos, ao ano que principia e ao que se desmancha, ao dia-após-dia, à Terra, à nossa espoliada casa , à nossa jornada, ao protocolo de Kioto, à física quântica, a Você, a Mim, à nossa imensa família, aos vários sexos e raças, às nossas diferenças e igualdade, à utopia, a um novo milênio , à esperança de um novo mundo com mais LUZ e TOLERÂNCIA, a um DEUS, enfim, maior à nossa própria imagem, às cores, ao arco da nova aliança."

Campanella F. in "Ao que finda e ao que inicia"

joao disse...

Caro alfredo,
algumas perguntas/comentarios:

Dizia que: "Um ateu pode ser mais feliz que um crente, e vive-versa. Tudo depende da forma como cada um vive a sua vida." Então é indiferente acreditar em Deus, a felicidade não dependerá da existencia de Deus, mas da minha atitude.
Percebi bem?

Quanto ao ponto 3, perguntava se viver na incerteza faria uma pessoa feliz. Dito desta maneira respondo que não. Mas há coisas das quais não temos certeza, o misterio da morte, certezas para justificar o sofrimento inocente, por ex.
Haverá certezas da existencia de Deus, ou tb não teriamos de falar de uma provavel existencia de Deus?
obrigado pela atenção
João Oliveira

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,
Obrigado pelo belo texto. Receio apenas que seja demasiado extenso para o autocarro e para a vontade das pessoas em o ler, nesta época em que a vida acelera a cada dia.
Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro João,
Deus torna possível que os seres humanos sejam tão felizes quanto é possível neste mundo, mas não nos basta acreditar na sua existência e dizer simplesmente 'Senhor, Senhor...'. São palavras de Cristo, não minhas!

Acreditar na existência de Deus pode não ter grandes consequências na forma como um crente vive. Para algumas pessoas a fé parece ser uma forma de assegurar a protecção e os favores de Deus na saúde, vida profissional, etc. Quando tudo corre bem, dão graças a Deus e parece que têm muita fé. Quando as coisas começam a correr mal, podem até perder a fé. Não é por aqui o caminho da felicidade dos crentes.

Por outro lado, um não crente pode afirmar que não acredita em Deus mas, na prática, ter uma vida de mais humanidade e coerência que alguns que se dizem crentes. Considero que estes não crentes têm uma relação inconsciente com Deus quando procuram a verdade, a justiça e o amor.

Erich From escreveu na obra Psicologia e Religião que o problema do ateísmo tem mais a ver com o ser humano do que com Deus. Interpreto esta afirmação no sentido de que a afirmação ou a negação da existência de Deus pode ser muito irrelevante, se a discussão se centra apenas aí e não nas consequências que tal existência deverá ter para a vida humana.

Não encontrei até agora qualquer prova convincente da existência de Deus. Acredito na sua existência porque a minha experiência de profunda relação com ele, que dá todo o sentido à minha vida, me dá razões suficientes para acreditar.

A crença na não existência de Deus, a de que eetamos aqui por acaso, a de que o universo existe por acaso, a de que a forma como vivemos não tem, em última análise, qualquer importância, obrigar-me-ia a um sacrifício da inteligência maior do que a crença em Deus.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Pedro Morgado disse...

Da discussão penso que importa reter alguns pontos:

1. «Um ateu pode ser mais feliz que um crente, e vive-versa. Tudo depende da forma como cada um vive a sua vida.» De acordo.

2. «Porque deveria tornar-me ateu?» A pergunta pode e deve ser invertida. Que eu saiba quem tem tradição na evangelização são os crentes e não os ateus.

3. «Se eu fosse ateu ou simplesmente agnóstico, ficaria preocupado com o slogan.» Porquê? Os ateus não se organizam em religiões ou seitas. Cada um pensa por si e o que aqueles ateus pensam não condiciona os outros.

4. «O que o slogan pressupõe - apenas - é que existem muitos crentes cuja crença em Deus lhes impede de atingirem realmente um estado de felicidade, quer seja pelo medo do castigo divino, quer seja, simplesmente, pelo peso da consciência do pecado prórpio. Concordará que essas não são preocupações de ateu.» Concordo.

Em síntese, há espaço para todos na sociedade. O que não é sociedade para uns ditarem o que todos devem fazer. E esta tem sido a maior fonte de conflitos.

Abraço,
PM

alfredo dinis disse...

Caro Pedro,

Obrigado pelas suas considerações. Acrescento mais algumas:

2. Concordo que a tradição de evangelização proselitista é efectivamente dos crentes, aliás, uma tradição de que os não crentes não gostam nada. Por que razão vão agora imitar os crentes com uma anti-evangelização igualmente proselitista?

3. Continuo a pensar que o slogan tem uma falha grave ao deixar o não crente e o agnóstico numa situação de incerteza. É o mesmo que dizer: "provavelmente ninguém o vai assaltar hoje. Viva feliz." Devo dizer que um slogan como este criaria em mim alguma ansiedade.

4. Se há crentes que se sentem felizes e a aproveitar a vida ao máximo, os crentes que se sentem infelizes poderão interrogar-se sobre as razões dessa infelicidade as quais, do ponto de vista dos crentes felizes, se deverá a ideias erradas sobre Deus e a religião. Há pois duas vias possíveis para os crentes infelizes: redescobrir a felicidade de crente ou abraçar a descrença. O mesmo vale para os não crentes infelizes. Para estes,, porém, será necessário inventar um novo slogan. Não lhe parece?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Cláudio Tereso disse...

Caro alfredo,

Paece-me que te contradizes no teu último comentário. Em 2 acusa-nos de sermos proselitistas e em 3 de incerteza.

Não percebo o teu problema em relação à incerteza. A incerteza faz parte da vida e é algo com o qual TEMOS de viver toda a vida. A incerteza é boa, faz avançar o mundo e procurar respostas para factos que achamos mal explicados. Sem incerteza a humanidade não evoluía.

Para ti, Deus funciona como uma muleta, é algo que está lá sempre pronto para te ajudar. Nada tenho contra isso.

O problema começa a ficar bicudo quando os crentes individuais (como eu te estou a ver) se juntam e inventam regras e formam religiões.

É algo que não percebo: Como é possível que alguém acredite que as regras/festas/imposições/hierarquias inventadas pelo homem reflectem de alguma maneira o desejo/opinião de um possível (na minha opinião, impossivel) Deus.

E o que não aceito é que esses mesmos homens, representantes de religiões que causaram males inumeráveis na história humana venham dizer que o pior que existe no mundo é o ateísmo.

E foi a partir deste ponto, que o ateísmo se tornou militante. Sabendo como são tratados os ateus em vários países, incluindo os EUA, começar a ouvir este tipo de discurso cá na Europa indica a altura de levantar a voz.

mmaria disse...

"Bento não enfrentou zangado o fim do império, não protestou porque o mundo não era cristão, nem se lamentou porque tudo ruía, acusando a imoralidade dos seus contemporâneos. Em vez disso testemunhou à gente do seu tempo uma realização na vida, uma satisfação e uma plenitude que se tornou atraente para muita gente. E foi a aurora de um mundo novo, por mais pequeno que seja – quase nada comparando com o todo, um todo que no entanto desabava por todos os lados –, mas real. Aquele novo início foi de tal modo concreto que a obra de Bento e de Francisco durou nos séculos e transformou a Europa, humanizando-a."(Carron)

Estas discussões normalmente não levam a lado nenhum. Porque ninguém chega a conclusão nenhuma sobre Deus sem a Fé. E a Fé não se constrói numa lógica ou demonstração infalível. A Fé em Jesus Cristo entra no âmbito da relação e não da demonstração matemática. Também não posso provar matematicamente que a minha Mãe me quer bem, não sei se o pão que compro na padaria não terá veneno...a minha vida banal está repleta e assenta numa enormidade de actos de confiança. E eu seria louca se vivesse a duvidar de tudo o que nao posso provar. Acredito porque confio.Tenho razões para confiar. A Fé é confiança. Tenho razões para ter Fé.

alfredo dinis disse...

Caro Cláudio,
Obrigado pelas tuas reflexões.
Quanto à minha possível contradição, vejo as coisas nos seguintes termos. Os cristãos estão certos de que Deus existe e de que isso lhes traz felicidade. Por conseguinte, pensam que vale a pena falar disso aos não crentes. Parece-me haver aqui coerência. Os não crentes não afirmam a não existência de Deus, mas apenas a probabilidade dessa não existência. E acham que vale a pena falar disso aos crentes. Parece-me que há aqui uma menor coerência, uma vez que vão anunciar algo de que não estão certos.
A incerteza é certamente uma constante na vida humana. Nisto estou de acordo contigo. Mas tal incerteza aconselha-nos a sermos mais humildes quando ao nosso conhecimento e ao dos outros. Eu não pretendo saber muito sobre Deus, o céu, a vida depois da morte, etc. Sei muito pouco sobre tudo isto. O pouco que penso saber baseia-se mais na minha experiência pessoal do que nos livros de estudo. Mas Deus não é propriamente uma muleta, não está sempre pronto para me livrar de problemas. A aridez e a escuridão fazem parte da minha experiência religiosa. E ainda bem. Um Deus-companhia-de-seguros seria muito menos convincente.
O carácter comunitário do cristianismo tem a ver com uma concepção do ser humano enquanto estruturalmente aberto à relação com os outros. O ‘ser-em-si-mesmo’ é uma abstracção. O ser humano emsimesmado é um ser triste, isolado, deprimido e deprimente. Se somos assim, abertos à relação, não me parece estranho que Deus prefira ver-nos em comunidade e não cada um para seu lado. As comunidades têm normas de vida que são estabelecidas pelos seus membros. Algumas delas poderão estar erradas, desactualizadas, etc., sendo, por isso passíveis de crítica. Outras não. Não encontro nada de estranho nisto.
Não afirmo que o pior do mundo é o ateísmo. Pela tua reacção quando ouves isso, poderás imaginar o que sentem os crentes quando ouvem dizer que o pior do mundo é a religião (Dawkins, Harris, Hitchens…). Não creio que se vá longe por este caminho. Crentes e não-crentes terão que viver lado a lado, terão que se conhecer reciprocamente cada vez melhor e terão também que aprender a respeitar-se e a valorizar aquilo que em cada lado há de positivo, em ver de proceder por afirmações radicais que são sempre perigosamente simplistas e geradoras de conflitos.
Um abraço,
Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

mmaria,

O que dizes faz todo o sentido. Mas a fé não tem apenas um carácter subjectivo e não justificável, embora a justificação que muitos não crentes nos pedem seja impossível porque inadequada. Mas a não-crença também tem os seus problemas de justificação.

A humildade faz-nos bem a todos, não te parece?

Saudações,

Alfredo Dinis

mmaria disse...

Nunca falei em subjectividade. Se confiar é subjectivo, temos toda a nossa vida baseada na subjectividade. Não há nada de mais concreto e objectivo do que a Fé. Aliás foi o que gostei na parte de texto que vos mandei.

Concordo que a humildade nos faz bem a todos :)
Só não percebo o que tem a ver com o que disse! Se passei um tom pouco humilde, peço desculpa, estou a caminho.
bjs

Mats disse...

Impressionante ateus preocuparem-se na "felicidade humana" quando foi a dôr, a guerra, a violência, e o derramamento de sangue que criaram o ser humano (evolução, sobrevivência do mais forte, etc, etc).

Mais um exemplo de pessoas que não querem viver de acordo com as suas crenças naturalistas.

Anónimo disse...

Vamos analisar a estrutura da mensagem e deixar o rendilhado do discurso teológico de lado. - Sim, porque teologias não passam de discurso rendilhado, a propósito do ignoto, que foi utilizado para justificar a morte de milhões e que continua a incentivar a morte violenta de centenas.

"Provavelmente deus não existe. Agora deixe de se preocupar e aprecie com alegria a sua vida."

Eu cortava o "Provavelmente..." ... Parece que está tudo com medo do exame final e a dar graxa ao professor...

A estrutura da frase é tão linearmente clara...

Acontece que a entidade, criada por uns tantos, a que outros tantos chamam deus, sempre foi utilizada para, em seu nome, os outros tantos se meterem na vida de todos, e se sentirem legitimados moralmente a fazê-lo.
Actualmente, aceitando-se que o tal não existe (o deus), os tipos que sempre se meteram na vida de todos, deixam de ter legitimidade para se meterem na vida de quem quer que seja (pelo menos com esse pretexto tão claramente exposto).
Mas acontece que pode ser que sejam gente metidiça e que gosta do poder ou da forma encapotada que é o 'serviço', e então continuam a meter-se na vida de toda a gente, mas agora com outros pretextos.

Quanto à questão da felicidade/infelicidade... quantos pecados já cometeste hoje Alfredo Dinis?
Como vais procurar saldar a conta antes que chegues ao juízo final?
Não me parece que sejas do género de mandar rezar missas,... mas talvez umas esmolas,... umas odes em louvor à virgem,... e muitas orações,... e muita vida responsável como cidadão!

Eu só subscrevo a última, mas não como preparação para o exame final; e não como cidadão, mas como criatura viva da sub-espécie Sapiens Sapiens.

Sabes, um cidadão é o tipo que se alheia do resto do mundo... do mundo que não seja a cidade... e aí já está a pecar! A pecar contra o ambiente natural que lhe sustenta a cidade de que é cidadão.

A religião a que aderes é uma das grandes responsáveis históricas pela formação deste quadro de valores que moldou o Ocidente.

A religião é como a publicidade: criam-te uma necessidade (pecaste... pecaste...) e depois apresentam-te um produto (cristo salva-te do teu pecado... e do dos outros... cristo salva de todos os pecados...)!

Há quanto tempo caíste nesse esquema?

Os meus pais fizeram-me cair quando era pequenino. Mas, como diz 'a palavra' (a bíblia), quando se é adulto há que abandonar as coisas de pequenino!!!

Daniel Oliveira

PS- Já sei. Vais dizer que se nota um recalcamento negativo não superado conta a educação familiar...

Deus nos livre o mais depressa possível do parasitismo religioso...!!!

...e vais começar com o discurso rendilhado....

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

Obrigado pelas tuas reflexões.

Não entendo bem a que 'discurso teológico rendilhado' te referes. Aliás, o meu discurso teológico é muito simples. Começo por dizer que sei muito pouco acerca de Deus, e que qualquer crença em qualquer Deus tem os seus momentos de 'verdade' neste mundo espácio-temporal em que vivemos. Não me refiro em primeiro lugar a milagres, aparições, etc., mas ao empenho pela justiça nas suas várias dimensões. Se consideras que isto é rendilhado, continuo sem entender.

As pessoas que matam em nome do seu deus não podem estar correctas. Qualquer deus, ou é um deus de vida, ou não merece qualquer atenção da humanidade. Se o meu Deus me mandasse matar em seu nome, eu voltar-lhe-ia as costas imediatamente.

Quanto à preocupação com os pecados, não creio que me preocupe mais que qualquer outro ser humano que procurar viver responsavelmente. O pecado não é outra coisa senão o mal feito conscientemente: as injustiças de todo o género, as humilhações inflingidas aos mais débeis, os roubos, os enganos de toda a ordem, etc. Todos nós, crentes ou não crentes passamos por aqui. Mas nada disto me tira a paz, não me tira o sono, uma vez que Deus não é para mim um juíz à espera de me apanhar em flagrante delito para me condenar. Esta imagem, muito comum entre crentes e não crentes, não corresponde a nenhum deus em quem valha a pena acreditar.

Não pretendo meter-me na tua vida. Respeito as tuas opções, e acredito que o Deus em quem acredito faz o mesmo. És responsável pela tua vida, e desejo que te sintas feliz e realizado.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Helvécio Dias da Rocha (Sete Lagoas, MG - Brasil) disse...

Olá Alfredo. Sou brasileiro, tenho 23 anos e atualmente moro em Sete Lagoas, no estado de Minas Gerais. A pouco tempo me converti ao ateísmo, após refletir bastante e buscar conhecimento acerca da existência de um ser superior a todos nós. Hoje tenho plena certeza que acreditar sem qualquer questionamento que Deus existe é um comportamento absurdo e até perigoso.

Com relação às suas quatro perguntas, eu me coloco em seu lugar e as respondo:


1 - Por que eu seria mais feliz sem Deus?

Hoje eu não sou mais nem menos feliz por não acreditar mais em Deus. Na verdade, me sinto livre e ao mesmo tempo preocupado. Livre porque tenho consciência de que meus valores morais são algo de minha própria natureza e não dependo de organizações religiosas para ter noção de como fazer o bem - naturalmente sabemos fazer o bem e não preciso de acreditar num ser "mágico" para fazer isso.


2 - Por que eu deveria me tornar um ateu?

Até aonde eu tenho conhecimento, a idéia da campanha é de apresentar o contraste as campanhas por todo mundo que são feitas em prol daqueles que acreditam em Deus. Ou seja: para que seja democrático, se os crentes divulgam suas crenças, por que nós ateus não podemos divulgar o nosso ceticismo?


3 - Por que razão viver nesta incerteza me faria feliz?

Essa pergunta merece uns bons "hahahaha"s... O principal perigo que nós ateus vemos nas religiões é a fé sem questionamentos ser uma virtude. O ser humano que acredita em Deus não pode sequer cogitar a possibilidade de seu Deus não existe. Como eu disse, é uma virtude acreditar sem duvidar. Nós ateus (pelo menos eu falo por mim) temos opiniões baseadas no comportamento científico - de acordo com as evidências, não faz sentido Deus existir - e por isso não saimos dizendo com certeza absoluta que Deus não existe, assim como os crentes dizem com certeza absoluta que Deus existe, se baseando apenas nas palavras de mero conjunto de livros.


4 - "O slogan pressupõe ainda que o mundo se divide em duas partes: a dos ateus, que são felizes e gozam a vida ao máximo, e a dos crentes que vivem infelizes e incapazes de tirarem o máximo partido da vida"

Sinceramente, depois que tornei ateu, apenas mudei opinião e passei a enxergar o mundo com um outro olhar. Depois que me converti ao ateísmo, não passei a aproveitar mais a vida do que antes. Sem falar que conheço muitas pessoas religiosas que aproveitam muito bem as suas vidas. A questão é como enxergarmos diversas situações, acontecimentos e questões sob uma perspectiva religiosa ou não. Na minha opinião o perigo mora aí: o ser humano que prefere confiar mais na palavra da Bíblia do que no seu próprio bom senso acaba por cometer equívocos graves e até colocar a vida de outros em risco.

Resumindo, a intenção da campanha é apenas mostrar uma opinião. Concorda com ela quem quiser.

José Simões disse...

"Não consigo entender por que razão a improbabilidade da existência de Deus deverá tornar as pessoas mais felizes"

Quando tive sexo pela primeira vez, com uma namorada, não estraguei o momento a pensar que era um pecado. Como pude planear utilizamos métodos anticoncepcionais adequados. Foram bons tempos em que ambos podemos continuar os nossos cursos e desfrutar dos nossos corpos sem culpa e sem um compromisso que iria tornar as nossas jovens vidas numa complicação.

"Sou cristão, acredito na existência de Deus e isso faz-me feliz. Não tenho mais preocupações"

Se vivesses no corno de África, na Somália, na antiga Jogoslávia, em Timor, num qualquer país àrabe, no Irão, nas Filipinas, se escrevesse o livro errado ou o cartoon errado, terias preocupações.

"É que não me dá a certeza de que Deus realmente não existe. Por que razão viver nesta incerteza me faria feliz?"

Mas tu vives na incerteza. Será Mahome o único profeta? Poderás ser atingido por Shiva? Não temes ofender Zeus? Não devias ter ido adorar a santa da ladeira? Já sacrificaste uma galinha ao cadomblé?

José Simões

alfredo dinis disse...

Caro Helvécio,

Obrigado pelas tuas reflexões.

Dizes: "de acordo com as evidências, não faz sentido Deus existir". Gostaria

1- que me falasses dessas evidências
2- que me explicasses por que razão há cientistas crentes que não vêem nenhuma contradição entre ser cientista e ser crente.

A ideia de que a fé é incompatível com o pensamento crítico não tem fundamento. Basta ver a história do cristianismo, para ver que os debates são constantes, ainda hoje.

Parece que a Igreja Católica impõe as suas normas aos seus membros, mesmo que tais normas sejam absurdas. Recordo apenas que há muitas pessoas que não são crentes e que têm as mesmas posições que a Igreja Católica. Por exemplo: conheço alguns não crentes que são contra o aborto.

Nenhum crente está dispensado de exercer a sua liberdade e o seu espírito crítico. Isso não está em contradição com o facto de ser crente. Parece-me haver aqui alguma confusão, não te parece?

Um abraço,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro José,

Obrigado pelo teu comentário.
Disse: "Sou cristão, acredito na existência de Deus e isso faz-me feliz. Não tenho mais preocupações" mas acrescentei "que o comum cidadão que procura viver uma vida responsável". Se vivesse na Somália teria as mesmas preocupações que o cidadão comum deste país.

Sobre as incertezas de que falas, nenhuma delas me tira o sono. Não tenho essas incertezas.

Um abraço,

Alfredo

Alexandre Mello disse...

"1.Não consigo entender por que razão a improbabilidade da existência de Deus deverá tornar as pessoas mais felizes, do mesmo modo que não entendo por que razão a existência de Deus deverá torná-las infelizes. Alguém me quer explicar isto?"

Explicação: Esta mensagem é uma resposta a uma campanha de religiosos evangélicos nos ônibus, que dizia que as pessoas que não se juntassem a tal igreja iriam para o inferno.

O "pare de se preocupar" refere-se a se preocupar em ir pro inferno.

alfredo dinis disse...

Caro Alexandre,
Muito obrigado pelo seu esclarecimento. Fico porém na dúvida se valerá mesmo a pena ter investido tanto dinheiro e energia numa campanha como esta. Segundo as sondagens que são periodicamente realizadas, quer na Europa quer no resto do mundo, a crença no inferno tem diminuído velozmente. O número de crentes em Inglaterra, quer Anglicanos quer Católicos, talvez as duas maiores denominações cristãs desse país, também tem diminuído muito. Duvido pois que se justifique a campanha do 'autocarro ateu'.

Saudações,

Alfredo Dinis

João Abreu Salgado disse...

Caro Helvécio (e demais cépticos da crença):

Posso deixar duas questões?

1 - A expressão "conversão ao ateísmo" não é apenas o deixar cair uma crença para abraçar outra? Não se terá tornado o Helvécio mais crente do que antes, até sem dar por isso?

2 - Se fosse a andar na floresta (imagine a Amazónia, se quiser)e numa clareira encontrasse no chão um grupo de folhas de árvore que formavam a palavra "acaso", o que é que imediatamente lhe viria à cabeça?

André Avlis disse...

Caro Alfredo,
Saudações!

O Alfredo interroga-se acima «viver na incerteza faz uma pessoa feliz?». Salvo melhor opinião, meu caro, é isso que os homens de ciência têm feito desde que, permita-se-me a expressão, o homem se pôs a pensar. Decerto o Alfredo não pretende dizer que nhnhum homem de ciência é feliz?
Nao me interprete mal, não pretendo brincar com as palavras e o seu sentido, mas o que acontece é que o conhecimento humano se alimenta da incerteza. Eu diria que o móbil de origem psicológica que faz a ciência avançar é esse: o homem está inquieto porque sabe que desconhece, passe o paradoxo, e quer prosseguir para conhecer. É a ignorância que o inquieta e o assusta. E é aí que entra Deus.
E que nós descordamos. :-)
Um abraço e parabéns pelo Blogue.

André Rodrigues
de facto

alfredo dinis disse...

Caro André,

Obrigado pela sua interessante reflexão.

Sou professor universitário na área da filosofia da ciência, e por isso não fico admirado com o que me diz acerca dos cientistas. A incerteza a que me refiro tem a ver apenas com a incerteza acerca da existência de Deus. Dawkins quer sossegar as pessoas libertando-as da crença de que Deus existe e que os poderá condenar eternamente, eassim torná-las felizes. Mas não consegue assegurar-lhes com certeza absoluta que Deus não existe. Ficam na inceteza do 'provavelmente'. Poderão ainda assim ser felizes, como pretende Dawkins?

Quanto aos cientistas, a incerteza acerca das teorias científicas não os faz necessariamente infelizes, mas acorda em alguns o desejo de um horizonte de sentido mais amplo que o da ciência. E é aqui que Deus entra. Não, porém, para substituir a ciência, nem para terminar com toda a incerteza. Não há nenhuma prova, científica ou filosófica, da existência de Deus. Neste sentido, o crente também está sujeito à erosão da incerteza. Mas o crente tem uma experiência existencial de relação com Deus enquanto ser pessoal. Esta experiência, que não pode ter com uma teoria científica, dá-lhe aquele horizonte de sentido que responde ao seu desejo de transpor todos os limites que lhe são impostos pela sua finitude.

Por que razão deveria recusar esta experiência ou duvidar dela, se ela se lhe apresenta como evidente, não porém teórica mas apenas existencialmente?

Dawkins parece pressupor que os cristãos vivem esmagados pela ameaça da condenação eterna. Duvido que isso aconteça com a maioria, e certamente não acontece comigo. Por isso ainda continuo a interrogar-me sobre a justificação do autocarro ateu em Inglaterra, muito menos noutros países.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Helvécio Dias da Rocha disse...

Alfredo (prefiro deixar de o usar “Caro” para não ficar desgastante);

Antes de responder aos seus questionamentos a cerca de meu comentário, gostaria de fazer uma observação a respeito da vossa opinião sobre o tema. Não deixei de perceber que você é um indivíduo que demonstra inteligência, olhar crítico e bom senso. E, ao que tudo indica, não descarta a possibilidade de existir um “Ser Superio” a todos nós, mesmo diante das qualidades e aspectos que você tem e nós ateus também temos. O que mais me chama a atenção é que até bem pouco tempo a minha opinião sobre o assunto em questão era idêntica a sua. Sou crítico, sou perspicaz, sou inteligente e sou crente – era o que eu acreditava sem sombra de dúvida. De uns tempos para cá, descobri que era prepotência demais da minha parte. Acasos e coincidências; situações que não parecem ter solução e de repente eis a solução; experiências sobrenaturais; curas sem explicação; tudo isso é motivo suficiente para acreditar em Deus? Em cada uma das situações que antes eu enxergava a presença divina nelas, atualmente não especulo sobre a sua provavel causa. O que não têm prova, simplesmente AINDA não tem prova. O que não temos explicação, AINDA não temos explicação. Infelizmente, é típico dos mais ignorantes e menos esclarecidos (o que eu tenho certeza que você não é) alegar para Deus a responsabilidade por quaisquer acontecimentos, sem qualquer fundamento. Se acreditar em Deus simplesmente se resumisse a “apenas acreditar nele”, não veria qualquer problema nisso. O problema é quando o “acreditar” deixa de ser apenas uma opinião e passa a ser regra, quase que lei; e os que contrariam isso... coitados, estão condenados ao inferno. Ou seja: se você gosta de Madonna e eu não, para você eu estou condenado ao fogo do inferno por não gostar da Madonna, assim como você gosta. Aí eu lhe pergunto: “nenhum crente está dispensado de exercer a sua liberdade e o seu espírito crítico?” Aonde está a “contradição”? Aonde está a “confusão”?

Com relação aos seus questionamentos, pois bem:

1 – Evidências: sinceramente, espero que você não seja um daqueles que questiona a teoria do Big Bang com argumentos do tipo “ninguém estava lá para ver”. Sabemos muito bem que teorias são passíveis de questionamentos ou que seja descartáveis – isto é: a partir do momento que surge alguma informação que pode muito bem esclarecer melhor que a anterior, por que insistir que a anterior ainda “serve”? A própria Teoria da Evolução tem sido bastante questionada, por surgirem provas e EVIDÊNCIAS que contrariam a sustentação. A ciência é assim. A crença não.

2 – Cientistas crentes: eu acredito ter amadurecido ao deixar de acreditar em Deus. É como deixar de morar com os Pais e enfrentar a realidade: agora eu tenho que me virar sozinho. Com a crença é a mesma coisa: naturalmente, sabemos o que é moralmente correto ou não. Religões não passam de uma maneira desenvolvida pela homem para domar os seres menos instruídos ou com pouco conhecimento. Ao entender que não faz sentido Deus existir, de quebra, compreendi outra coisa: que é possível ser bom e correto com ou sem Deus. Até pouco tempo achava absurdo imaginar um mundo sem a presença do Senhor, que isso seria ruim, triste e depressivo. Hoje vejo perfeitamente que a situação não é bem assim - me sinto livre e ao mesmo tempo penso que por um bom tempo fui enganado. Na minha opinião, recusar a existência de Deus é como se recusar a largar a “barra da saia da mamãe” - chega um momento da vida que o ser humano precisar amadurecer e entender que a vida é responsabilidade dele, e somente dele.

E obrigado pela oportunidade de discutirmos de forma tão saudável esse assunto. É muito bom para ambos revermos os nossos conceitos e opiniões.

Você está de parabéns! Um abraço.

alfredo dinis disse...

Helvécio,

Obrigado pelas tuas interessantes considerações.

Afirmas:

"Acasos e coincidências; situações que não parecem ter solução e de repente eis a solução; experiências sobrenaturais; curas sem explicação; tudo isso é motivo suficiente para acreditar em Deus?"

A minha resposta é um claro NÂO!

Quanto às evidências de que Deus não existe, elas não existem. Também não há nenhuma prova científica ou filosófica de que Deus existe.

Não encontro nenhum conflito entre fé e ciência. Sempre me interessei por várias ciências, sobretudo física, biologia, astronomia e neurociências. Não tenho qualquer dificuldade em aceitar a teoria do big bang, a teoria da evolução, nem sequer a existência de milhões de planetas habitados, ou até de universos paralelos igualmente habitados. A ciência, a meu ver, só pode ser benéfica para a religião porque leva os crentes a interrogarem-se sobre os conteúdos da sua fé. Essa é a minha experiência pessoal.

"É possível ser bom e correcto sem acreditar em Deus", afirmas. Sim, isso parece-me evidente e muito fácil de comprovar. Os crentes não são automaticamente melhores que os não crentes. Mas a fé amplia, a meu ver, as razões e as motivações para ter um procedimento de paciência e de abertura aos outros, mesmo quando, por exemplo, nos insultam. Um não crente também pode ter essa atitude, mas ela deve ser normal num crente. Este é só um exemplo.

Um Deus que não respeitasse a liberdade humana não seria digno do nosso afecto.

Uma pessoa que precisa de Deus apenas para não ter que enfrentar a dureza do caminho que conduz a uma felicidade amadurecida e responsável, ainda não descobriu o verdadeiro rosto de Deus.

Mais uma vez, obrigado pela tua intervenção.

Um abraço,

Alfredo

Helvécio disse...

Alfredo,

Mais uma vez afirmo: quando eu era crente, eu compartilhava da mesma opinião que tu. Fé e ciência pode andar juntas – você diz, porém as mesmas idéias e conceitos que você expõem são bastante céticas para um indivíduo que se diz “crente”.

A partir do momento que compreendemos sob outras perspectivas, que não sejam somente as religiosas, como o universo e a vida podem ter surgido vemos o enorme vão entre o fundamento religioso e científico. Sinceramente, eu nunca confiei em livros sagrados e outros afins, pois tais não tem (pelo menos até hoje) qualquer argumento conciso e coerente. Por outro lado, o comportamento científico, que não se refere somente a ciência, nos mostra o quanto é importante analisarmos e observarmos tudo antes de chegarmos a qualquer conclusão, para que esta não seja precipitada.

Hoje me livrei desse pensamento “infantil” e passei a ver que “uma pessoa não precisa de Deus para não ter que enfrentar a dureza do caminho que conduz a uma felicidade amadurecida e responsável.” É chato quando chega o momento na vida em que temos que amadurecer, mas nem sempre fazemos aquilo que queremos, mas o que precisamos fazer. Para mim, amadurecer é isso: entender de uma vez por todas que a responsabilidade por nossas vidas pertence a nós mesmos.

Aos poucos compreendi que Deus não passa de um platonismo. Com rosto.

Um abraço e felicidades!


Helvécio

alfredo dinis disse...

Helvécio,

Obrigado pelas tuas palavras tão transparentes e honestas.

Durante séculos pensou-se que a Bíblia era um livro científico ou que, pelo menos, estava cheio de informações que poderiam competir com os dados científicos. Hoje, esta perspectiva pertence ao passado. A Bíblia é sobretudo um livro sapiencial, fala de sabedoria e do amor como o que há de mais essencial nos seres humanos. Infelizmente, ainda há muitas pessoas crentes que continuam a procurar na Bíblia o que lá não está nem nuna esteve, e isso dá do cristianismo uma imagem inaceitável, e do próprio Deus uma imagem inacreditável.

Dizes:

"Para mim, amadurecer é isso: entender de uma vez por todas que a responsabilidade por nossas vidas pertence a nós mesmos."

Estou de acordo com o que dizes, mas não creio que que deva amadurecer sozinho. Sou um ser estruturalmente aberto à relação e amadureço na relação com os outros. É aqui que entra um Outro, Deus, que não anula a minha liberdade nem me dispensa da minha responsabilidade.

Um abraço,

Alfredo

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