31 de janeiro de 2009

Oxalá ouvíssemos hoje a sua voz!

Depois das leituras deste Domingo pus-me a pensar que Jesus, de facto, nos aparece quando menos esperamos por Ele, nos lugares mais inesperados, nos momentos mais inconvenientes, geralmente quando não estamos nada interessados naquilo que nos pretende dizer. Confesso que cheguei a ter compaixão daquele homem que estava na sinagoga. Para quê alterar o ritmo do seu quotidiano? O que pretende Jesus? Chega, diz umas coisas, destrói os nossos esquemas e altera tudo. Não me parece nada legítimo, não acham?
A verdade é que aquele homem nunca mais foi o mesmo. Diz S. Marcos que estava possuído por um espírito impuro. Que exagerados estes evangelistas! Já não podem ver um homem decidido nas suas convicções e dizem logo que está possuído. Porque é que não podemos legitimamente, e porque achamos mais certo, negar a presença de Jesus na nossa vida? Por acaso alguma norma nos não obriga a isso?
O facto é que Jesus estava lá, por mais que aquele homem o quisesse negar. Aliás, se o fizesse considerá-lo-ia apoucado de juízo. Geralmente só negamos algo que efectivamente está presente. Quem é que perde o seu tempo a negar aquilo que não acredita existir? E, este homem, não consegue negar a presença de Jesus. Fica surpreendentemente aflito. Aquela segurança, que apresentava quando dizia entre os seus conterrâneos que não acreditava nas maravilhas que diziam desse tal Jesus, apareceu agora esvaziada. A verdade é que a presença de Jesus não o deixou indiferente e ele até hoje não consegue explicar porquê. Jesus é daquelas pessoas que desconcerta qualquer um! Até hoje ninguém me conseguiu explicar porquê, mas há qualquer coisa em Jesus que não deixa as pessoas em paz. A sua vida, a proposta que faz, o horizonte para onde aponta é extremamente desconcertante e, talvez por isso, tantos se preocupem em combatê-lo.
Aquele homem foi sacudido, "com força" diz o Evangelho. Que imagem forte! Quanta resistência deve ter oferecido! Quantas lutas, dúvidas e confusões deve ter atravessado! Quanta intranquilidade! Mas por fim chegou aonde queria infinitamente chegar. A serenidade que buscava, as respostas que queria encontrar estavam ali, inesperadamente à frente dele. Diz o evangelista que o espírito impuro imediatamente o abandonou, após as palavras autoritárias de Jesus. Podemos nós dizer que abandonou o seu egoísmo e a sua teimosia, podemos dizer que deixou de estar fechado em si e na sua razão imperativa e abriu-se aos outros, podemos afirmar que colocou de lado o pessimismo que tinha sobre a sua existência e passou a olhar a vida com esperança e um sorriso no rosto. Oxalá todos nós fossemos capazes de escutar esta voz, de sentir esta presença. Oxalá soubéssemos escutar as pessoas certas na nossa vida. Oxalá encontrássemos as respostas certas às nossas inquietações. "Oxalá ouvíssemos hoje a sua voz"!
Porque somos tão renitentes a escutar? Nascemos completamente ignorantes sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeava; aprendemos uma língua inseridos em determinada cultura; tudo o que sabemos nos foi ensinado por outros e agora já dizemos saber tudo. Já não precisamos de escutar ninguém, além da nossa consciência. De onde nos vem esta presunção? No entanto continuamos cheios de medo. De que é que temos medo? Que vida estamos nós a construir? Que caminhos queremos percorrer?
O Senhor continua à nossa espera, com a sua proposta arriscada, sem provas empíricas ou manifestações gloriosas. Está ali mesmo, à minha frente, à minha espera. Quer abanar com todos os meus alicerces, quer-me sacudir com força. Mostra-me a solução para todas as minhas dores. Abre-me o caminho da alegria. E eu, que faço?
A escolha está nas nossas mãos.
"Oxalá ouvíssemos hoje a sua voz"!


1 de Fevereiro de 2009 – Domingo IV do Tempo Comum

LEITURA I: Deut 18, 15-20
SALMO RESPONSORIAL:
95 (94)
LEITURA II:
1 Cor 7, 32-35
EVANGELHO: Mc 1, 21-28


Foto: Rui Miranda